quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Um prodígio chamado Emily Bear

Dessas frases mal humoradas, uma mais ou menos conhecida é uma de Katherine Hepburn: “Qualquer idiota consegue ganhar a vida representando. Ora, Shirley Temple já fazia isso aos 4 anos!” Hepburn fez muitos papeis de boazinha, mas tinha seus ataques de estrela. Parece que em uma peça em que era protagonista, jovem ainda, exigiu que fosse construído um túnel exclusivo para a sua entrada no palco.

Menos ou mais talentosos, alguns atores mirins conseguiram se firmar adultos como bons intérpretes, mas não é a regra. Na música erudita são muito comuns os prodígios que se firmam mais tarde. São os casos de Nelson Freire, Martha Argerich e Claudio Arrau, se fico circunscrito à América Latina. Nenhum deles teve uma infância normal. O chileno, órfão da parte do pai com um ano, aos oito foi enviado para a Alemanha sob os auspícios do governo para estudar com Martin Krause. A argentina saiu do país natal para estudar com Friderich Gulda quando tinha 14 anos. Sua ida para a Áustria, assim como a de Arrau, aconteceu graças à ajuda do Estado: o então presidente Juan Perón ajudou para a mudança da família à Europa.

Nelson Freire, depois de ter participado de um concurso internacional de piano em que os jurados eram Marguerite Long, Guiomar Novaes e Lili Kraus, aos 12 anos, ganhou uma bolsa de estudos financiada pelo governo de Juscelino Kubitshek, para estudar na Áustria com Bruno Seidhofer, que havia sido professor de Friedrich Gulda.

Quando fez 15 anos, foi até uma confeitaria e comprou um bolo para comemorar seu aniversário. Chorou. Estava sozinho. O destino uniu Freire a outra solitária: Martha Argerich, sua amiga até hoje. Argerich, muito menina, já enfrentava uma maratona terrível de apresentações na Europa. Um dia, inventou alguma doença e não se apresentou. Foi uma atitude de revolta. Freire, no documentário sobre ele, dirigido por João Moreira Salles, conta da sua paixão por Fred Astaire e Ginger Rogers. Conta que em turnês, bem jovem ainda, hospedado em hoteis, sem ninguém, ficava com a TV ligada. Descobriu assim os musicais americanos.

Capa do CD de Emily Bear, pela Concord
Emily Bear

Ao perceberem as habilidade de Emily, os pais a colocaram em uma escola de música. Tinha quatro anos. Se for verdade tudo o que está registrado na Wikipedia, ela é um dos grandes fenômenos musicais desse início de século (nasceu em 2001). Sua primeira composição é de quando tinha quatro anos. Com oito, eram mais de 350. Apresentou-se na Casa Branca para o presidente George W. Bush, com seis anos e, com oito, tocou o Concerto para Piano e Orquestra nº 23, de Mozart, com Champaigne-Urbana Symphony Orchestra. Com nove, apresentou-se no Carnegie Hall, Nova York.

O caminho natural de Emily, como nos casos de crianças que demonstram especial habilidade com o piano, seria o da música erudita. Mas a precocidade não se resumia a isso. Criava seus próprios temas, não se prendendo às partituras de Schubert e Chopin.

Agora, no meio do ano passado, sob as bençãos de Quincy Jones, lançou Diversity. A capa diz tudo: Emily está sentada sobre o piano, com as mãos apoiadas no tampo e as pontas dos pés encostando no teclado. Neste que é seu primeiro disco pela Concord, gravadora voltada ao jazz, Emily nem tinha completado 12 anos. E é surpreendente a consistência de suas composições, considerando a idade.

Agora, é só esperar o que vem de agora em diante.


Veja Emily Bear, no Festival de Montreux, apresentada por Quincy Jones.




Emily Bear toca Garota de Ipanema.




Emily, com sete anos, toca Take the “A” Train e Don’t Get Around Anymore.



Veja-a em uma das melhores faixas de Diversity, Peralada, composição dela, acompanhada por Peter Slavov (baixo) e Kevin Kenner (bateria).



Ouça Tutti Cuore.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

O violão flamenco de Al DiMeola e os Beatles

Uma foto clássica de Al DiMeola
Fala sério! Um cara que faz um disco cujo título é Kiss My Axe merece algum crédito? E ainda mais aparece na capa segurando o violão e uma “maja desnuda” em segundo plano com as duas mãos apoiadas em seu ombro?

Alguma razão obscura me fez sempre ter algumas reservas quanto a Al DiMeola. Vem desde os tempos em que se revelou tocando com Chick Corea no Return to Forever. Acho que era aquela barba aparadinha, aquele jeito mauricinho – atualmente, seria rotulado de “coxinha” –, sempre sério, com aquele olhar – sempre o mesmo, preste atenção – de plástico, por trás dos óculos. Essa é a parte visual. Fiquei impressionado com a “velocidade” da guitarra de Al. Em Romantic Warriors, do Return to Forever, algumas passagens de guitarra são estupendas, deve-se reconhecer. Mas como nem tudo é rapidez – vide roqueiros como Steve Morse e alguns outros de bandas como o ACDC ou Van Halen –, nunca caí de amores por ele. Concordava com o amigo Hilton Raw que dizia ser guitarra estilo Berklee, querendo dizer que todos tocam parecidos: são ágeis e sem alma. O Hilton tinha certa bronca da Berklee School of Music, que chegou a cursar, No meu caso, talvez fosse por gostar mais do estilo de Bill Connors, seu antecessor na banda de Chick Corea.

Certos juízos mudam com o passar do tempo. Dispus-me a “rever meus conceitos” sobre o guitarrista quando ouvi Mediterranean Sundance, com Al, Paco De Lucia e John McLaughlin. O tema é muito bom, e há de se concordar que seus parceiros são excepcionais instrumentistas. Permitiu-me descobrir qual era a de Di Meola. A praia dele era a música cigana e flamenca. Qualquer tema, seja tango, bolero ou uma canção da dupla Lennon/McCartney, tudo vira flamenco. Pelo menos, alguns discos como Diabolic Inventions and Seduction (2007) e All Your Life (2013) me levam a essa conclusão.

Capa de All Your Life (2013)
Onde cabe uma nota, Al toca cinco. É uma overdose. Dedilha com extrema agilidade nas notas médias e agudas e faz a linha do baixo nas cordas graves. O fato de executar os solos de forma sempre parecida, deve deixar seus fãs extasiados. Quem não é vai achar “over”.

Nos últimos tempos tem preferido o violão, em razão, decerto, pela aproximação com o flamenco. Além do excesso de notas dedilhadas, Al faz overdubs nas gravações em estúdio. Como isso é impossível, a não ser recorrendo-se a bases pré-gravadas, ao vivo, muitas vezes apresenta-se com outros violonistas.

No CD dedicado à música dos Beatles – All Your Life (2013) –, algumas interpretações são muito boas, mas ouví-lo inteiro é um tanto cansativo, ou enjoativo, dependendo do ponto de vista, que nesse caso, é meu. Sob o de Jeff Tamarkin, da prestigiada JazzTimes, o álbum é ótimo.

Ouça Because, com belo trabalho de violões e cajón, o instrumento de percussão mais comum no flamenco.



Ouça Eleanor Rigby, a única com orquestra, que, na verdade, é a mesma base da original lançada pelos Beatles.




Sem dúvida, Mediterranean Sundance é uma das grandes composições de Al Di Meola. Confira.