quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Um pouco mais sobre Jamie Saft

No texto sobre “Solo a Genoa”, inicio tecendo comentários sobre um estudo do Instituto Max Planck, sobre as diferenças da atividade cerebral do pianista que toca música erudita e o jazz. Este último tem a facilidade de improvisar sobre um tema, ao contrário de um virtuose como Nelson Freire ou Maurizio Pollini, muito mais focados na precisão e destreza para executar partituras complexas de um Schumann ou um Beethoven.

Não existem fronteiras, no entanto, quando se trata de música. Assim, autores eruditos como Gustav Mahler e Béla Bartók, inspiraram-se em temas folclóricos para as suas composições, a música popular se alimenta de formas mais e menos sofisticadas.Nos dias hoje, músicos de bandas conhecidas, como o Radiohead, The National e Arcade Fire, Jonny Greenwood, Bryce Dressner, Richard Reed Parry e Sarah Neufeld, têm desenvolvido trabalhos considerados crossover. Antes deles, bem antes, ouvimos várias bandas, classificadas como progressive rock ou art rock, que flertaram com a música erudita.

Na arte sem fronteiras, com o jazz é a mesma coisa. O movimento mais conhecido por incorporar elementos da música clássica chamou-se “Third Stream”, idealizado por Gunter Schuller. John Lewis, líder do Modern Jazz Quartet, fez algo semelhante, em razão, principalmente, por sua devoção ao compositor Johann Sebastian Bach. Em tempos atuais, pode-se citar Cyrus Chestnut, que acaba de lançar “Kaleisdoscope”, dedicado quase que todo ao francês Erik Satie. Aliás, é um dos preferidos dos que incorporam temas dos clássicos, como seus conterrâneos Maurice Ravel e Claude Debussy. Outro pianista que tem um álbum interessante abordando o repertório clássico é Steve Kuhn, em “Pavane for a Dead Princess” (Venus, 2006). Como Chestnut, faz releituras bem livres, tendo os temas como plot, dentro de uma linguagem essencialmente jazzística em formato trio piano/contrabaixo/bateria.

Nem um pouco do universo erudito
Jamie Saft é uma caso à parte.  Como muitos pianistas, passou por um aprendizado formal – estudou na New England Conservatory of Music –, mas sua música passa longe do universo erudito. Se comentei até agora dos cruzamentos do erudito com o jazz, o americano, incluído, por conveniência, neste último, percorre caminhos bem ecléticos que o aproxima mais do rock. Sua figura física, inclusive, não é a de um músico de jazz, se existe um estereótipo. A barba longa, que lembra a dos hassídicos, o faz parecer mais um rabino. É um judeu em um mundo estranho, como Matisyahu, um ortodoxo que preferiu o reggae para transmitir as mensagens de sua religião.

Saft poderia ser confundido com um rockeiro como Dusty Hill, do ZZ Top, por exemplo. Aliás, seu ecletismo musical pode ser associado a John Zorn, outro judeu que transita entre o erudito, o jazz e o rock, que, não por simples coincidência, acolheu-o em várias gravações em seu selo Tzadik.

Uma boa amostra de seu ecletismo está no álbum “Black Shabbis” (Tzadik, 2009): “Army Girl”.  Saft toca baixo elétrico, guitarra e teclados, com Trevor Dunn (baixo), Bobby Previte, Mike Pride e Dmitriy Shnaydman (bateria), e Mr. Dorgon (voz).




O novaiorquino tem os teclados – piano, Fender Rhodes, Hammond, moog e sintetizadores – como instrumento principal, mas toca contrabaixo e guitarra. Em sua discografia há álbuns, como “Serenity Knolls” (2017), com Bill Brovold, com ele tocando exclusivamente dobro e pedal steel guitar, muito interessante, com ambos fazendo algo que pode ser rotulado de “ambient country”.

Saft pode ser hard rock, reggae, country ou qualquer outra coisa, mas seu nome é citado como o de um músico de jazz. E como um pianista de jazz, na gravadora RareNoise, lançou dois álbuns com Steve Swallow e Bobby Previte: “The New Standard” (2014) e “Loneliness Road” (2017), este, com participação de Iggy Pop em algumas faixas. Neste ano, saiu “Blue Dream”, com Bill Henry, Bradley Christopher Jones, Nasheet Waits.

Ouça algumas faixas com Jamie Saft nesse playlist.