quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Norma Bengell e atrizes cantoras

Grande capa de Cesar Vilela para a estreia de Norma
Beleza sempre ajuda. Nem adianta protestar. É uma triste verdade para significativa parte do planeta. Para cada Linda Hunt, Rossy de Palma e Zezé Macedo centenas de Marilyns triunfam sem um mínimo de talento. Bem menos do que se imagina, existem atrizes que são boas, bonitas… e cantam bem.

A atuação dramática está muito ligada à música. São os casos das óperas. Eles cantam e interpretam. Nos musicais da Broadway, mesma coisa. O cinema herdou essa forma. Os maiores dançarinos da história cantavam. Gene Kelly não era lá muito bom, mas Fred Astaire, de voz pequena, era um grande intérprete. Parece que Cole Porter disse uma vez que compunha pensando na em Fred. O contrário também existe: antes cantores, foram trabalhar no cinema. Melhor exemplo: Frank Sinatra.

Várias beldades de Hollywood aparecem cantando em filmes. Mas várias eram dubladas. A atriz Doris Day era uma tremenda cantora, Marilyn Monroe, menos, bem menos. Mas quem resistiria ao charme dela cantando Diamonds Are a Girl’s Best Friend? Seu parceiro em Adorável Pecadora, e seu amante Yves Montand, entretanto, além de grande ator, cantava muito bem.

Marilyn gravou standards como I’m Thru with Love, Do It Again e When I Fall in Love, mas era bem fraquinha. A grande estrela, que fazia o gênero sexy também, mas em outro continente, atacou de cantora e era bem melhor que a americana. Brigitte Bardot levava jeito.

BB canta Invitango.




Atrizes cantoras brasileiras

Sim, mas no Brasil tivemos atrizes que cantavam, e bem. Norma Bengell começou como vedete de teatro de revista e, em 1959, mesmo ano em que estreou como atriz de cinema em O Homem de Sputinik, lançou OOOOOH! Norma. Era a nossa versão Brigitte Bardot: linda e gostosa… ooh! e cantava, e bem. Falou mais alto o talento dramático. Assim mesmo, voltou a gravar. A voz ficara um pouco mais pesada, mas ficou interessante.

No disco lançado pela Odeon, Norma canta músicas como Eu Sei Que Vou Te Amar, da emergente bossa nova e alguns clássicos americanos como Fever, This Can’t Be Love, That Old Black Magic e On the Sunny Side of the Street, além da cubana Drume Negrita, e para lembrar Bardot, C’est si bon.





A deusa Odette Lara
Outra brasileira, de beleza deslumbrante, se não tivesse abraçado a profissão de atriz, não faria feio como cantora. Odette Lara gravou dois bons discos: Contrastes (Elenco, 1966) e Vinícius e Odette ((Elenco, 1963). A maior qualidade destes era o repertório. A “culpa” deve ter sido de Aloysio de Oliveira. Dono da gravadora, era um grande produtor. Em Contrastes, em algumas faixas, Odette Lara não encontra bom equilíbrio vocal, mas as canções escolhidas são de autores como Chico Buarque (Tem Mais Samba, Meu Refrão e Funeral do Lavrador, de Vida e Morte Severina), Baden Powell e Vinicius de Moraes (Apelo e Canção do Amor Ausente), Francis Hime e Vinicius (Sem Mais Adeus), Carlos Lyra e Vinicius (Minha Desventura), Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri (Pra Você Que Chora), Oscar Castro-Neves e Luvercy Fiorini (Morrer de Amor), e Antonio Carlos Jobim e Vinicius (Canção em Modo Menor)

Ouça Canção em Modo Menor.

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Vinicius e Odette Lara, anterior a Contrastes. É composto apenas de composições de Vinicius e Baden Powell e os arranjos são de Moacir Santos. Com um time desses, impossível seria que o disco fosse ruim, não?

Ouça uma das belas composições de Baden e Vinicius: Samba em Prelúdio.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Betty Blake e outros desaparecimentos

A “francesa” Jacqueline Myrna
Em um programa da década de 1970 chamado Praça da Alegria, uma francesinha – na verdade, romena de nascimento –, loura belíssima, carinha de santa, que despertava os instintos masculinos mais recônditos, protagonizava uma frequentadora da praça que sempre encontrava homens muito solícitos e educados sempre a dar-lhe atenção, até demais. Seu bordão – era um programa humorístico: “Brasileiro é tão bonzinho!”, com os erres puxados. Ficou famoso também como proferia o nome de uma cidade do interior do estado de São Paulo: “Arraquarra”.

Jacqueline Myrna – seria um nome apenas artístico ou verdadeiro? – ficou famosa pelos cinco minutos semanais do programa comandado por Manoel de Nóbrega. Como se vivia em um tempo de pin-ups e sob a égide da explosiva sexualidade da francesa Brigitte Bardot a alimentar fantasias sexuais, Jacqueline não deixaria de despertar o interesse (artístico?) de Walter Hugo Khouri, que a convidou para participar de um filme por ele dirigido. Provavelmente, enquanto viveu, nenhuma atriz de boa fachada escapou das atenções do diretor.

Se as sendas para o estrelato estavam abertas para Myrna, inexplicavelmente, desapareceu. Andaram dizendo que casara com um rico fazendeiro de “Arraquarra”. Algumas fontes dão que casou e voltou para a Europa, certamente, não para a Romênia do stalinista Ceausescu. É provável que tenha se cansado das falações e fofocas maldosas que tipos como ela eram obrigadas a ouvir. Antes dos tempos das periguetes e das pegadoras, bastava ser bonita e conhecida, que as chamavam de prostituta para baixo. Um caso mais recente de “desparecimento” é o da atriz Ana Paula Arósio, que resolveu largar tudo, sem explicações. Mudou para a região rural de Santa Rita do Passa Quatro (SP). Cada um tem o direito de decidir sobre sua vida.

O “desaparecimento” de Jacqueline Myrna teve repercussão limitada, bem menos do que de J.D. Salinger (sobre ele, leia um pouco mais em http://bit.ly/1c1dIul).

Capa do álbum de Betty Blake
Acaba de ser lançado mais uma biografia sobre o escritor, de David Shields e Shane Salerno (Salinger, Simon & Schuster, 2013; 720 págs.). Num tempo em que era preciso mais do que aparecer em revistas e tabloides para tornar-se celebridade, Salinger ficou famoso por O Apanhador no Campo de Centeio. Num belo dia, resolveu dar uma de Greta Garbo. “Sumiu”. Não foi parar em Irajá. Foi para um lugar chamado Cornish, New Hampshire. O peculiar em seu “desaparecimento” foi o de que se “escondeu” no meio de pessoas. Não deixou-se mais ser fotografado e não publicou mais nada. Sua carreira literária ficou resumida em O Apanhador, Nove Histórias, Franny e Zooey e Carpinteiros, e Levantem Bem Alto a Cumeeira / Seymour – Uma Introdução. Andava sem ser molestado em Cornish. Gostava de ir à igreja e lá almoçar por 12 dólares.

Betty Blake possuía dotes suficientes para ficar famosa como cantora. Começou a carreira cantando em big bands, como a maioria, na época. Em 1961, gravou Betty Blake Sings in a Tender Mood pelo pequeno, mas prestigiado selo Bethlehem. O disco recebeu boas críticas e tinha a participação de grandes músicos como Zoot Sims, Teddy Charles, Kenny Burrell e Mal Waldron. Depois disso, sumiu. Dando-se uma busca pelo nome, surgem dezenas de homônimos e poucos tópicos se referem à cantora. Nas parcas referências encontradas, sabe-se que morreu de câncer em 2001, com 63 anos. Inexplicável.

Ouça Lilac Wine.


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E, também, Trouble Is a Man. A mulher era boa!

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