quinta-feira, 10 de março de 2016

Mais King Crimson é jazz

Das várias vidas do King Crimson, gosto bastante da que o cantor é John Wetton, também do baixo, e Bill Bruford é o baterista. Em Lark’s Tongues in Aspic e Starless and Bible Black, os dois outros membros são o violinista David Cross e o percussionista James Muir. No último dessa fase, Red, a banda havia virado um trio. É o mais fraco, mas contém Starless, um dos clássicos do KC.

Até hoje ouço Lark’s Tongues com muito prazer. Starless and Bible Black é também um dos que estão no topo da minha parada particular. Quando os meus pais ou algum amigo mais próximo viajavam para fora do país, o que não era tão frequente, sempre encomendava alguns LPs. Lembro até hoje do impacto que Starless me causou. Os LPs nacionais não seguiam os padrões de qualidade dos importados. As capas eram geralmente mal impressas em cartolinas vagabundas e os discos não possuíam a qualidade de som dos originais. Recordo da textura granulada da capa e do choque ao ouvir The Great Deceiver pela primeira vez. Não sei se é a minha fase preferida, mas gosto tanto que acabei comprando The Great Deceiver, uma caixa com quatro CDs contendo gravações ao vivo de 1973–1974, lançada em 1992

Depois de Red, a banda foi desfeita. Quando o KC voltou, em 1981, o único remanescente, além de Fripp, seu líder, naturalmente, era Bill Bruford. Os novos membros eram o baixista Tony Levin e Adrian Belew nos vocais e na guitarra. Discipline foi o primeiro dessa nova vida.

"A disciplina nunca é um fim em si mesmo, é apenas um meio para um fim", afirma Fripp. “Discipline” é o mote e o novo nome dado ao selo. O guitarrista, mesmo sendo o líder, faz o gênero low-profile. A disciplina está na repetição rítmica infinita, na atitude de discreção, sentado em uma banqueta, atrás dos outros. As luzes vão para Adrian Belew, a guitarra que fica em primeiro plano é de Belew, Foram três álbuns matadores em série: Discipline, Beat e Three of a Perfect Pair. Com referências à literatura da beat generation, como em The Sheltering Skies (Paul Bowles) e Satori in Tangier (ref. Satori in Paris, Jack Kerouac). No cruzamento de referências, Tangier foi a cidade que foi morada de Paul Bowles em sua estadia africana, o título Beat relaciona-se ao movimento e ao livro Heart Beat, escrito por Carolyn Cassidy, que narra as aventuras amorosas triangulares entre Neil, seu marido, e Jack. Os versos iniciais de Neal and Jack and Me são matadores: “I’m wheels, moving wheels/ I am a 1952 Studebaker coupe/ I’m wheels, I am moving wheels, moving wheels.”

Em sua próxima vida, em 1995, o KC retorna com os mesmos Adrian Belew, Tony Levin e Bill Bruford, agora acrescidos de Trey Gunn e Pete Mastelotto. A banda virou uma double band: duas guitarras, dois baixos e duas baterias. Quando se poderia imaginar que Fripp poderia estar seguindo o caminho déjà vu de tantos outros músicos, vemos que viera para apresentar o novo. A banda veio mais forte ainda e Belew parecia mais adrelinado ainda. É uma atrás da outra: "VROOOM", Coda: Marine 475 e Dinosaur. Conseguimos um ar apenas na faixa seguinte: Walking on Air.


O quarteto com o tecladista Gwilym Simcock
Delta Saxophone Quartet + Gwilym Simcock
Um dos melhores quartetos de saxofone é o World Saxophone Quartet. Formado por David Murray, Julius Hemphill, Oliver Lake e Hamiett Bluiett, músicos mais associados ao jazz avant garde, foi criado em 1977. Hemphill saiu da banda em 1989 e desde então passaram vários a tocar em seu lugar. Estão na ativa até hoje.

Até há pouco tempo, nem sabia da existência do Delta Saxophone Quartet. Cheguei neles ao descobrir um álbum chamado Crimson! Na mosca. Era o que imaginei: mais uma banda a tocar o repertório do KC.

Quatro britânicos (três são ingleses e um, australiano) resolveram formar o quarteto em 1984, imagino que, inspirados no WSQ. Oriundos de boas escolas como a Guildhall School of Music, fora do quarteto, tocaram em orquestras sinfônicas, em musicais e em álbuns e shows de Shirley Bassey, Radiohead, Damon Albarn, Kylie Minogue e Phil Collins, dentre outros.

Em Crimson!, além dos quatro, há a participação do tecladista, também britânico, Gwilym Simcock. Este, aqueles que acompanham a carreira do agora Doutor Bill Bruford, devem conhecê-lo. A escolha do repertório recai na fase em que Wetton era o cantor (The Great Deceiver e Night Watch) e as outras, da era Belew (Vrooom / Coda: Marine 475, Two Hands e Dinosaur).

Mesmo pouco conhecidos – eu não conhecia até o mês passado –, Graeme Blevins (sax soprano), Pete Whyman (sax alto), Tim Holmes (sax tenor) e Chris Caldwell (sax baritone), com o acréscimo de Simcock, são ótimos músicos. Fizeram um trabalho que os maníacos pelo KC e por Robert Fripp precisam conhecer.

Ouça The Great Deceiver.




Ouça Crimson! em sua totalidade no Spotify: https://play.spotify.com/album/3DCWa5G3WaN2CFa9ETvwA8


Médéric Collignon
O Alex Antunes sugeriu a audição de um trumpetista chamado Médéric Collignon tocando King Crimson. Não conhecia. É muito bom.

Veja.



terça-feira, 8 de março de 2016

Quando King Crimson é jazz

Cada fã fervoroso do King Crimson tem seu disco e sua época preferida. Tenho amigos que “descobriram” a banda chefiada por Robert Fripp com Islands, lançado em 1971. Sem ser unanimidade pelos crimsonmaníacos da época, era daquele tipo “ame-o ou odeie-o”.

Sons de contrabaixo no arco, o piano etéreo de Keith Tippett e a flauta melíflua de Mel Collins, a entrada da voz de Boz e a batida marcante do baixo, tudo trazia uma expectativa um tanto estranha do que poderia ser o resto do álbum. Sons esparsos do sax, cordas, percussão e vozes fantasmagóricas sob a a marcação do baixo, fazem de Formentera Lady uma canção inacabada que serve de ponte para o início de Sailor’s Tale, agora sob um mood jazzístico com solos do saxofone tenor de Collins, o baixo de Boz e um solo fenomenal de Robert Fripp a partir de uma súbita mudança de clima. Lá pelo quarto minuto sobressai a bateria de Ian Wallace e um colchão climático de mellotron. Tudo estranho, e para ser um tanto mais, a próxima é The Letter, delicadamente lúgubre na voz de Boz, meio barroca com o som que deve der o de uma celesta.

Não tenho o costume de prestar atenção em letras. Só se alguém disser algo como: “você viu que letra bonita!” Aí, sim. Quando comecei a gostar de música, tanto fazia que a letra fosse em inglês ou javanês. Tudo era som, simplesmente. Parece que a letra de Ladies of the Road, de autoria de Pete Sinfield, tem um conteúdo pouco simpático às mulheres. É o que dizem, mas não faz muita diferença. Importa que é boa. É a mais vigorosa do álbum. Para que ninguém fique muito animado, Song of the Seagulls é uma peça que pode ser classificada como sendo erudita. É um prelúdio para abrir uma das mais belas composições do King Crimson: Island. Uma crítica da época descreveu-a como a melhor canção para dormir do ano, acho que, na Rolling Stone. Soporífera? Nem tanto. É uma grande viagem por paisagens misteriosas como num sonho em que não conseguimos perceber se é um sonho mesmo ou um pesadelo . Hoje, ao contrário do que aconteceu ao ser lançado, tenho a certeza de que está reservado um lugar especial na discografia do King Crimson.

Tim Landers à esquerda, e Ian Wallace no centro
Crimson Jazz Trio
Island é o único disco em que Ian Wallace participa no King Crimson. O baterista resolveu formar um trio com o pianista Jody Sardine e o baixista Tim Landers, com o objetivo de realizar releituras de temas de sua ex-banda. Por que não King Crimson em formato mais próximo do jazz? Afinal, muitos dizem que o KC incorpora música erudita e jazz e que rotulá-los como art-rock ou rock progressivo é limitador.

Pouco tempo antes de Ian reunir o trio, alguém já tinha gravado uma composição da banda inglesa. É possível que tenha sido ideia de Tony Levin, ex-King Crimson, Rachel Z tocar One Time, já que era seu baixista em Everlasting, disco lançado em 2004. A pianista, em vez de clássicos antigos, é conhecida por tocar temas do rock e do pop, como Wild Horses, de Mick Jagge e Richards, Kiss from a Rose, de Seal, Red Rain, de Peter Gabriel, e Here Comes the Sun, de George Harrison.

Ian, Jody e Tim gravaram King Crimson Songbook volume One em menos de uma semana durante o mês de maio de 2005. Entraram em estúdio novamente em junho de 2006 para gravarem um segundo volume. Meses depois, em agosto, Ian Wallace teve diagnosticado um câncer no esôfago. Relatou a agonia em um blogue criado especificamente. Morreu em fevereiro do ano seguinte. Foi sua última gravação em estúdio. O KC3, durou dois álbuns.

O volume 1 começa com 21st Century Schizoid Man, talvez a canção mais conhecida do KC. As demais são Three of a Perfect Pair, Catfood, Starless, Ladies of the Road, I Talk to the Wind, Red e Matte Kudasai.

O volume 2 começa com outro clássico, também do primeiro disco do KC: The Court of the Crimson King. Segue com Pictures of a City, One Time, Frame by Frame, Inner Garden, Heartbeat, Island Suite (Press Gang, Zero Dark Thirty, Formentera Lady, Sailor’s Tale, The Plank) e Lament. Press Gang, Zero Dark Thirty e The Plank não são originais do KC. A primeira é de Ian Wallace, a segunda, de Jody Nardone, e a última, de Tim Landers. Curiosamente, na suite estão incluídas Formentera Lady e Sailor’s Tale e a música-título, não. A dominância é de temas dos álbuns Discipline, Beat, Three of a Perfect Pair e de Thrak, fase em que Adrian Belew fez parte da banda.

O primeiro volume é melhor, o primeiro é excepcional, o segundo, muito bom. São itens que todo “crimsonmaníaco” deve conhecer. Com isso, não digo que todos devam gostar. Eu gostei, e muito.

Um destaque é Three of a Perfect Pair.




Ouça Starless.




Ouça o volume I na íntegra.




Ouça o volume II na íntegra.




Veja também apresentação do trio, em 2006.




Um outro grupo toca o repertório do KC. Mas, fica para o próximo post.