quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Belo duo de piano com Bill Carrothers e Marc Copland

Carrothers (esq.) e Marc Copland. Foto: Cecile Mathieu
Se um piano é chato, imagine dois ao mesmo tempo. Essa teria sido a frase de Carlos Conde, um dos meus professores e grande aconselhador quando o assunto era jazz. Ele detestava discos e shows de piano solo. Duas histórias são exemplares. Uma aconteceu comigo.

Tínhamos ido a um dos festivais de jazz que aconteciam no Auditório Ibirapuera no mês de outubro. Em cada noite, eram três ou quatro atrações. Nesta, em que estava com o Conde e o Alberico Cilento, a grande atração era Brad Mehldau… em apresentação solo. A certa altura, ele disse: “Coitado desse rapaz. Ele é muito triste.” Os solos densos, algo cerebrais, influenciados pelo romantismo de Franz Schubert e Robert Schumann, decididamente não faziam a sua cabeça. Sem bateria não existia bom jazz, na sua opinião.

Em outra feita, contou-me o Alberico, seu companheiro em várias viagens para os EUA, quase que exclusivamente para verem apresentações em clubes de jazz e comprarem discos, estavam em Washington e viram que Keith Jarrett estaria se apresentando lá. Muito em cima da hora, os ingressos estavam esgotados. Fizeram uma venda extra permitindo que alguns ficassem sentados no chão nos cantos do palco. Acomodaram-se bem perto do piano. Em uma hora, o Alberico percebeu que alguém próximo ressonava. Era o Conde dormindo no show de Jarrett. Dá para imaginar?

Comigo, ao contrário, uma das coisas que mais gosto é de um piano solo. Não apenas no terreno do jazz, em que despontam Mehldau e Jarrett, mas, principalmente na música erudita, em que há uma infinidade de virtuoses geniais como Nelson Freire, Helène Grimaud, Paul Lewis, Angela Hewitt, András Schiff, Martha Argerich, Maria João Pires, bom, paro por aqui, tocando as minhas peças favoritas de Chopin, Schubert, Schumann, Bach e Beethoven.

Se um piano é bom, imagine dois ao mesmo tempo, repetindo a primeira frase com uma pequena diferença. Pensando bem, nem sempre dá certo. Alguns podem discordar, mas o de Herbie Hancock e Chich Corea, dois dos maiorais do jazz, estou dizendo de An Evening with Herbie Hancock & Chick Corea (CBS, 1978), é chato.

Ouvi há poucos dias um em que a fórmula funciona, e bem: No Choice (2006), de Bill Carrothers e Marc Copland. O problema mais comum desse tipo de disco é de não conseguirmos definir quem é quem. As melhores soluções são sempre as mais simples: você ouve Carrothers no canal esquerdo e Copland no direito.

O início do CD é primoroso. A escolha também é feliz. Lonely Woman, de Ornette Coleman, é um daqueles standards modernos que vieram para ficar. Ouça.




No repertório escolhido por ambos incluem-se standards tradicionais como You and the Night and the Music, Take the “A Train”, Blue in Green e Bemsha Swing, de Thelonious Monk. Mais dois temas completam No Choice: Masqualero, de Wayne Shorter, e uma surpresa. Os fãs do canadense Neil Young reconhecerão rapidamente The Needle and the Damage Done, canção incluída em Harvest (Reprise 1972). Este álbum foi o álbum mais vendido em 1972, nos EUA.

Ouça The Needle and the Damage Done.



Se você quiser conhecer outro bom álbum de duos jazzísticos de piano, acesse http://bit.ly/1qXeJa6. Brad Mehldau e Kevin Hayes, em Modern Times, são perfeitos. Por coincidência, tocam Lonely Woman, também. Ouça.




terça-feira, 25 de novembro de 2014

O disco tributo francês a Nina Simone

Imagem da capa de Autour de Nina
Uma das fórmulas mais usadas pela indústria musical é homenagear algum medalhão aproveitando alguma efeméride. Se antigamente apenas cinquentenários ou centenários eram comemorados, hoje, qualquer ocasião serve.

Se Nina Simone nasceu nasceu em fevereiro de 1933 e morreu em abril de 2003, com 70 anos, teria sido razoável um festival de homenagens no ano passado, pois, viva, completaria 80. Não lembro de algum. Mas, agora no fim de 2014, foi lançado Autour de Nina, pela Verve francesa.

A França fez parte da vida de Nina. Foi sua última morada nos últimos dez anos. Devido a relação bipolar de amor e ódio ao país que nasceu, saiu dos EUA no início de 1970 e foi mudou-se para Barbados. Passou pela Libéria e Suiça, antes de estabelecer-se na região de Aix-en-Provence. Essa pode ser uma boa razão para a produção de Autour de Nina. Agorinha, em 16 de novembro aconteceu o concerto de lançamento no Studio 104, da Maison de la Radio, em Paris.

O álbum é uma seleção com títulos menos e mais conhecidos associados à Nina. Ao contrário da maioria dos tributos, habitualmente, saco de gatos, este Autour de Nina é uma produção bem cuidada, com intérpretes de primeira linha, apesar de não serem tão conhecidos. É uma turma em que um deles, pelo menos, já é estrela. Gregory Porter foi considerado o cantor do ano pela revista Downbeat, além de ter seu Liquid Spirit como quarto melhor do ano (http://bit.ly/15aNe8O). Ele é um dos escolhidos e é o grande destaque, cantando Black Is the Color (of My True Love’s Hair).

Ouça.




Se o resto não é melhor do que esta, há vários pontos altos. Para se ter uma ideia, quem abre o álbum é a estrela em ascensão Lianne La Havas, cantando Baltimore.

Veja o promocional com La Havas.


Outra bem conhecida é Melody Gardot (mais sobre Melody em http://bit.ly/11MtN3Y, http://bit.ly/1xS1dwe e http://bit.ly/11pCbGB), em outro clássico de Simone: Four Women.

A seleção é bem cosmopolita. Tem, desde a sul coreana, razoavelmente conhecida por quem conhece o catálogo da alemã ACT, Youn Sun Nah, os franceses Ben l’Oncle Soul, Olivia Ruiz e Camille, Hindi Zahra, franco-marroquina, Keziah Jones, nigeriano, Sophie Hunger e La Havas, ingleses, e Porter e Gardot, americanos.

Por último, ouça Feeling Good, com Ben l’Oncle Soul. O rapaz tem uma voz parecidíssima com a de Nina. 

Veja o teaser.