sábado, 12 de setembro de 2020

Carlos Conde e o 11 de setembro

O Conde, como era conhecido Carlos Conde, pelos amigos, foi um dos maiores colecionadores e expert do jazz, no Brasil. Teve um programa de jazz por muitos anos na rádio Cultura, interrompido pouco antes de sua morte.

Apesar da diferença de idade — cerca de vinte anos —, fiquei amigo do Carlos Conde ao ponto de, frequentemente, ser convidado a ir em apresentações em que ganhava convites, na condição de ter um programa especializado em jazz na rádio Cultura. Nas do Bourbon Street, Edgar, um dos sócios, reservava a mesa mais próxima do palco. Nnena Freelom, Carol Welsman, James Carter, John Pizzarelli tocaram e cantaram a menos de três metros de nós.

Ele tinha por hábito viajar duas vezes por ano aos Estados Unidos. Era um cliente conhecido da loja mais especializada em jazz em Nova York, a Jazz Record Center, localizada em um prédio próximo à Union Square. Trazia mais de cem CDs por vez. Jogava as “jewel box” e trazia apenas os CDs, encarte e capas dentro de um Case Logic, para não dar na vista. Comprava as “jewel box” no Brasil e remontava-os.
 
Houve uma vez em que estivemos no mesmo período em Nova York e nos desencontramos. Não existiam celulares, o que dificultou a nossa comunicação. A gente se encontrou no check in do aeroporto, pois voltávamos na mesma noite. Coincidência.

Em outra ocasião, tinha acabado de voltar e nos dias seguintes quem ia para lá era eu. Nos Estados Unidos, os lançamentos acontecem em datas anunciadas. Por um dia, não conseguiu comprar o CD “The Classic Concert Live” (Concord Jazz 2005), de uma apresentação de seu cantor preferido, Mel Tormé, no Carnegie Hall, com Gerry Mulligan e George Shearing. Ele disse: “Preciso ter esse CD. Eu estava no show. É o primeiro em que tenho certeza de que estava na plateia.” Comprei na J&R, uma de nossas preferidas, localizada perto da prefeitura. Bem downtown, a J&R era um conjunto de lojas, uma do lado da outra, em que se vendia desde utensílios domésticos, equipamentos de som, CDs a computadores. Ele, como eu, íamos uma vez por dia, pelo menos. Fazia parte do meu roteiro, junto com a Tower, localizada no Village. Na volta, ainda passava na HMV da Times Square.

Fui até as Torres Gêmeas apenas na primeira vez em que fui a Nova York. Acho que há pontos turísticos que devem ser visitados uma vez apenas. É o suficiente. Peguei o barco para conhecer a estátua da Liberdade em uma única ocasião. Ao Empire State fui umas três vezes, isso porque em cada uma delas, estava com alguém que não o conhecia. Portanto, o World Trade Center “sumiu” da minha vida. Por essa razão não percebi que ficava a pouco mais de um quarteirão da J&R.

Um dia depois do atentado às Torres Gêmeas, me liga o Conde e diz: “Você sabe qual é o meio mais fácil de ir à J&R?” Depois de uma pausa, completou: “de avião.” Não entendi prontamente. Desculpe. É uma piada de humor negro e hoje soa um pouco incoveniente. Mas foi o que ele disse. O Conde tinha umas tiradas muito espirituosas. Era um lado divertido dele. Não presenciou o ocorrido porque voltou dois dias antes. Sua mulher e a filha ainda estavam em Nova York. Tiveram que adiar a volta.

No ano seguinte, fui a Nova York. Foi aí que percebi como as Torres eram perto da J&R. Fui até lá. Era um imenso buraco cercado por tapumes.

Agora vai um “Body and Soul”, pelo Mel Tormé. Era a canção preferida do Conde. Tinha todas as gravações que conheceu.



sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Sobre elegância e o meu casaco Samira

Dizem que a roupa que você usa representa o que você é. Não tenho alguma opinião formada sobre esse assunto. Com a pandemia, quando, se você tem alguma responsabilidade, não sai de casa, a não ser para comprar itens essenciais ou ir até a farmácia, a opção é o conforto. Óbvio que se você participa de uma “live”, por exemplo, não vai aparecer com uma camiseta velha e puída.

A elegância é um atributo intrínseco. Não adianta sair por aí com uma bolsa Hermès combinando com a sua roupa comprada na loja da Chanel. Quem é realmente elegante é vestindo uma camiseta Hering e um jeans sem marca.

Pois tive fases em que me preocupei mais e menos com os itens da minha indumentária. É um assunto que entra no terreno da frivolidade, vamos dizer. No início da adolescência aconteceram duas coisas: deixei de usar as roupas que minha mãe escolhia e passei a gostar de ler. Nessa rebeldia, em vez de calças Topeka, queria calças de alfaiate, sapatos de uma loja bem conhecida na época, a Spinelli. Meu interesse por literatura foi um batismo de fogo: Flaubert, Dostoiévsky, Hemingway e Vargas Llosa. Meio sem noção de quem eram, encarei-os, em nunca antes ter lido Monteiro Lobato, um completo desconhecido em Passos, MG, onde fiz o 1º grau. Nesse caldeirão, eram óleo e água, futilidade e cultura.

Mas foi passageiro. Enquanto lia avidamente o que aparecia na minha frente, deixei crescer o cabelo — afronta explícita à rigidez da educação paterna — e passei a usar túnicas indianas. Tinha uma calça de sarja cor de laranja, quase cenoura, que minha mãe odiava. Um dia,dei falta dela. Minha mãe tinha jogado no lixo. Na foto da minha matrícula na FAU-USP, meus cabelos eram longos e vestia uma túnica roxa, com fios dourados.

Ao sair da FAU, tive que mudar um pouco, para adequar-me aos lugares em que fui trabalhar. Mas o vestir não fazia parte das minhas principais preocupações.

Trabalhando com design gráfico, meus esforços iam em direção às artes plásticas. Tinha participado de uma coletiva de gravura no MAC-USP e do Salão Paulista de Arte de Santos e de São Paulo. Meu estúdio era em um dos quartos da casa dos meus pais. Lá passava as noites pintando e desenhando até a chegada do sono. 

Um amigo de minha irmã, imagino que, para impressionar a paquera, que cursava artes plásticas na FAAP-SP, resolveu trazê-la para conhecer o meu ateliê. Era uma moça muito chique. Vestia um jeans justíssimo e uma blusa fina de seda. Dentro do meu universo cotidiano, era a primeira mulher que eu conhecia que se maquiava e usava batom. O encontro foi bem formal. Afinal, pelo que imaginei, ela estava saindo com o amigo da minha irmã e devia ter algum interesse dele por ela.

Não lembro mais de como tudo aconteceu, porém, a história é que um mês depois, estávamos namorando. Era fim de inverno. Minha preocupação com o vestir era simplesmente funcional. Nos dias de frio usava um casaco de náilon creme que tinha herdado da minha irmã, da Samira, que não o queria mais e ia jogar fora. Detalhe: ela tinha 1,50 de altura, e eu, 1,70. Ficava um pouco justo, mas cumpria sua tarefa de deixar o meu corpo quente. 

Em uma das primeiras vezes em que saímos, usei o casaco. Imagine o contraste: ela chique, perfumada e super maquiada, e eu de Samira de náilon. O namoro firmava. Adivinhe qual foi a primeira coisa que ganhei de presente? Um casaco. A partir de então, resolvi me preocupar com o que vestir. É desse tempo a primeira camisa da Richards que comprei e também do meu primeiro paletó na Tweed, na época, uma referência na moda masculina.

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Nijinsky. Ou ter uma certa capacidade de abstração

 


 “Nijinsky” foi um espetáculo montado por Naum Alves de Souza. Foca na breve carreira do russo de origem polonesa que logo foi chamado de “o deus da dança”, após suas primeiras apresentações em Paris, na companhia de Sergei Diaghilev.

O início do século 20 foi o das vanguardas, termo que caiu no lugar comum depois, mas tiveram razão de serem assim chamadas por serem verdadeiramente revolucionárias e até consideradas iconoclastas. O balés serviram como um caldeirão em que se juntavam a expressão teatral, por meio da dança, a visual, com os cenários e figurinos, e a música. Nesse contexto, Paris conheceu o Ballets Russes, de Sergei Diaghilev. Obtiveram enorme impacto “Petrouchka” e “Sagração da Primavera”, criadas a partir de composições de Igor Stravinsky. Não apenas bailarino, Nijinsky chocou a cena parisiense com sua coreografia para “A l’après-midi dun faune”, de Claude Debussy.

A peça
Alguns nomes eram destaques na dança, em São Paulo, na década de 1980: Ivaldo Bertazzo, Ruth Rachou e J.C. Violla. Este último tinha um curso de dança de salão, muito frequentado pelos descolados daquela época.

Evidentemente, “Nijinsky” teria que ser representado por um bailarino. O escolhido foi J.C. Violla.

“Nijinsky” foi encenado no Teatro da Cultura Artística, muito tempo antes do incêndio. Lembro que era um sábado. Tinha uma sessão às 18h e outra às 20h.Fomos em um grupo de umas seis pessoas na última sessão. No caminho do teatro, encontrei com o jornalista e crítico do “Jornal da Tarde” Edmar Pereira, que acabado de ver a peça. Edmar era um sujeito com tiradas peculiares. Sem o objetivo de serem uma crítica, eram por outras vias. Convocado para cobrir um dos dias do “Hollywood Rock”, no estádio do Morumbi, encontro com ele na apresentação de Bob Dylan. Pergunto para ele se está gostando. Responde: “A gente só consegue descobrir qual é a música que ele está cantando na hora do refrão. Ainda bem que o jornal me passou o setlist.”

No caso de “Nijinsky”, perguntei se ele tinha gostado. “Imagine uma mulher de poucos atributos físicos, enorme, representando Carmen, da ópera do Bizet. A gente tem que imaginá-la como a mulher irresistível que leva Don José ao desespero. A gente tem que achar que é o Nijinsky que está dançando.”

Observação: em 1986, quando estreou “Nijinsky”, não existia o que ficou conhecido como “politicamente correto”; portanto, o termo “gordo” não era ofensivo.

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Chifrada


Dona Luzia, isso mesmo, dona – era como a tratávamos – foi empregada da minha família por um bom tempo, por cinco anos talvez. Era alcoólatra, fumante inveterada, negra, de tez bem escura, cerca de 1,80 de altura, muito magra, sem nenhum atributo de beleza, digamos que era feia, bem feia. Mesmo assim, não lhe faltavam homens. Tinha borogodó. Com cerca de 40 anos, aparentava 60.
Na minha casa ninguém bebia. Meu pai tinha uma ou outra garrafa de whisky para os amigos, devidamente escondidos, porque dona Luzia era daquelas que bebia até perfume e loção de pós-barba. Meu pai a aturava, quase não a via. Minha mãe sempre foi compreensiva e bondosa. Inclusive, exigia que tratássemos qualquer um de nossos semelhantes com respeito, pobres ou ricos. Acho que, por isso, o ‘dona’
Luzia”.
Sendo alcoólatra, de vez em quando, nem conseguia levantar e dar conta das tarefas domésticas. Minha mãe nasceu pobre e nunca foi de fugir do batente. Cozinhava e até auxiliava dona Luzia, quando ela não se encontrava em suas melhores condições de trabalho.
Anualmente, dona Luzia viajava para a Bahia no período de suas férias. Em uma delas, passado um mês, não voltou. Desapareceu. Não tivemos mais notícia. Cerca de cinco meses depois, ressurgiu do nada. Minha mãe nunca deixaria alguém desamparado. Dona Luzia voltou a trabalhar conosco, sem que a outra fosse despedida.
Contou-nos que ficara hospitalizada. Tinha uma cicatriz bem visível na testa. Disse que estava em um descampado e nisso, perseguida por um touro, bateu de cara em uma cerca de arame farpado.
A única parente que dona Luzia tinha em São Paulo era uma sobrinha, que, de vez em quando, aparecia e a levava para passear em fins de semana. Enquanto se arrumava para sair, a sobrinha acabou contando o que realmente acontecera. Estava em um bar, bebendo, é claro, e engraçou-se com um rapaz. Só não contava que a sua mulher estava junto. As duas brigaram e dona Luzia acabou levando uma facada na testa. Aquela marca não foi em decorrência de ter tentado se livrar de uma chifrada.
 
(publicada em 3 de maio de 2020 no Facebook)

Olho de vidro

Dentre as empregadas domésticas que passaram pela casa da minha família, algumas se destacam por suas peculiaridades: dona Neusa, alcoólatra, que não voltou das férias por ter levado uma facada na testa, uma outra de peitos enormes que andava com um radinho de pilha encaixado no sutiã, uma pernambucana que dizia que era fácil de arrumar um matador por 200 reais, mas a de quem escrevo nesse momento, é por uma lembrança bem mais banal, mais ou menos banal.

Nem lembro do nome dela e nem por quanto tempo trabalhou na casa de meus pais. Devia ter uns 16 anos ou um pouco mais. Depois de um tempinho, percebi algo de estranho em seu olhar. Inicialmente achei que era estrábica. Conversando com ela um dia, por curiosidade, devo ter perguntado se tinha algum problema na vista. Disse que sim. Teve que colocar um olho de vidro.

Diziam que David Bowie tinha um olho de vidro, porque uma de suas pupilas não dilatava e os olhos ficavam de cores diferentes. Mas parece que tinha um problema por ter levado um soco em uma briga com um amigo por causa de uma amiga. Quem viu “O Homem Que Caiu na Terra” (1976), filme de Nicolas Roeg, protagonizado pelo inglês, deve ter percebido a diferença do tamanho das pupilas nos closes.

Estávamos na cozinha quando me contou do olho. Devo ter feito mais alguma pergunta. Prontamente, ela disse: “Quer ver como é o olho de vidro? Eu posso tirar para você ver.” E nisso, levou a faca que estava usando para cozinhar em direção a ele. Devo ter gritado ou apenas me assustado. Só me lembro que disse: “Não, não precisa!”