sábado, 12 de setembro de 2020
Carlos Conde e o 11 de setembro
sexta-feira, 11 de setembro de 2020
Sobre elegância e o meu casaco Samira
Dizem que a roupa que você usa representa o que você é. Não tenho alguma opinião formada sobre esse assunto. Com a pandemia, quando, se você tem alguma responsabilidade, não sai de casa, a não ser para comprar itens essenciais ou ir até a farmácia, a opção é o conforto. Óbvio que se você participa de uma “live”, por exemplo, não vai aparecer com uma camiseta velha e puída.
A elegância é um atributo intrínseco. Não adianta sair por aí com uma bolsa Hermès combinando com a sua roupa comprada na loja da Chanel. Quem é realmente elegante é vestindo uma camiseta Hering e um jeans sem marca.
Pois tive fases em que me preocupei mais e menos com os itens da minha indumentária. É um assunto que entra no terreno da frivolidade, vamos dizer. No início da adolescência aconteceram duas coisas: deixei de usar as roupas que minha mãe escolhia e passei a gostar de ler. Nessa rebeldia, em vez de calças Topeka, queria calças de alfaiate, sapatos de uma loja bem conhecida na época, a Spinelli. Meu interesse por literatura foi um batismo de fogo: Flaubert, Dostoiévsky, Hemingway e Vargas Llosa. Meio sem noção de quem eram, encarei-os, em nunca antes ter lido Monteiro Lobato, um completo desconhecido em Passos, MG, onde fiz o 1º grau. Nesse caldeirão, eram óleo e água, futilidade e cultura.
Mas foi passageiro. Enquanto lia avidamente o que aparecia na minha frente, deixei crescer o cabelo — afronta explícita à rigidez da educação paterna — e passei a usar túnicas indianas. Tinha uma calça de sarja cor de laranja, quase cenoura, que minha mãe odiava. Um dia,dei falta dela. Minha mãe tinha jogado no lixo. Na foto da minha matrícula na FAU-USP, meus cabelos eram longos e vestia uma túnica roxa, com fios dourados.
Ao sair da FAU, tive que mudar um pouco, para adequar-me aos lugares em que fui trabalhar. Mas o vestir não fazia parte das minhas principais preocupações.
Trabalhando com design gráfico, meus esforços iam em direção às artes plásticas. Tinha participado de uma coletiva de gravura no MAC-USP e do Salão Paulista de Arte de Santos e de São Paulo. Meu estúdio era em um dos quartos da casa dos meus pais. Lá passava as noites pintando e desenhando até a chegada do sono.
Um amigo de minha irmã, imagino que, para impressionar a paquera, que cursava artes plásticas na FAAP-SP, resolveu trazê-la para conhecer o meu ateliê. Era uma moça muito chique. Vestia um jeans justíssimo e uma blusa fina de seda. Dentro do meu universo cotidiano, era a primeira mulher que eu conhecia que se maquiava e usava batom. O encontro foi bem formal. Afinal, pelo que imaginei, ela estava saindo com o amigo da minha irmã e devia ter algum interesse dele por ela.
Não lembro mais de como tudo aconteceu, porém, a história é que um mês depois, estávamos namorando. Era fim de inverno. Minha preocupação com o vestir era simplesmente funcional. Nos dias de frio usava um casaco de náilon creme que tinha herdado da minha irmã, da Samira, que não o queria mais e ia jogar fora. Detalhe: ela tinha 1,50 de altura, e eu, 1,70. Ficava um pouco justo, mas cumpria sua tarefa de deixar o meu corpo quente.
Em uma das primeiras vezes em que saímos, usei o casaco. Imagine o contraste: ela chique, perfumada e super maquiada, e eu de Samira de náilon. O namoro firmava. Adivinhe qual foi a primeira coisa que ganhei de presente? Um casaco. A partir de então, resolvi me preocupar com o que vestir. É desse tempo a primeira camisa da Richards que comprei e também do meu primeiro paletó na Tweed, na época, uma referência na moda masculina.
quinta-feira, 10 de setembro de 2020
Nijinsky. Ou ter uma certa capacidade de abstração
“Nijinsky” foi um espetáculo montado por Naum Alves de Souza. Foca na breve carreira do russo de origem polonesa que logo foi chamado de “o deus da dança”, após suas primeiras apresentações em Paris, na companhia de Sergei Diaghilev.
O início do século 20 foi o das vanguardas, termo que caiu no lugar comum depois, mas tiveram razão de serem assim chamadas por serem verdadeiramente revolucionárias e até consideradas iconoclastas. O balés serviram como um caldeirão em que se juntavam a expressão teatral, por meio da dança, a visual, com os cenários e figurinos, e a música. Nesse contexto, Paris conheceu o Ballets Russes, de Sergei Diaghilev. Obtiveram enorme impacto “Petrouchka” e “Sagração da Primavera”, criadas a partir de composições de Igor Stravinsky. Não apenas bailarino, Nijinsky chocou a cena parisiense com sua coreografia para “A l’après-midi dun faune”, de Claude Debussy.
A peça
Alguns nomes eram destaques na dança, em São Paulo, na década de 1980: Ivaldo Bertazzo, Ruth Rachou e J.C. Violla. Este último tinha um curso de dança de salão, muito frequentado pelos descolados daquela época.
Evidentemente, “Nijinsky” teria que ser representado por um bailarino. O escolhido foi J.C. Violla.
“Nijinsky” foi encenado no Teatro da Cultura Artística, muito tempo antes do incêndio. Lembro que era um sábado. Tinha uma sessão às 18h e outra às 20h.Fomos em um grupo de umas seis pessoas na última sessão. No caminho do teatro, encontrei com o jornalista e crítico do “Jornal da Tarde” Edmar Pereira, que acabado de ver a peça. Edmar era um sujeito com tiradas peculiares. Sem o objetivo de serem uma crítica, eram por outras vias. Convocado para cobrir um dos dias do “Hollywood Rock”, no estádio do Morumbi, encontro com ele na apresentação de Bob Dylan. Pergunto para ele se está gostando. Responde: “A gente só consegue descobrir qual é a música que ele está cantando na hora do refrão. Ainda bem que o jornal me passou o setlist.”
No caso de “Nijinsky”, perguntei se ele tinha gostado. “Imagine uma mulher de poucos atributos físicos, enorme, representando Carmen, da ópera do Bizet. A gente tem que imaginá-la como a mulher irresistível que leva Don José ao desespero. A gente tem que achar que é o Nijinsky que está dançando.”
Observação: em 1986, quando estreou “Nijinsky”, não existia o que ficou conhecido como “politicamente correto”; portanto, o termo “gordo” não era ofensivo.
segunda-feira, 7 de setembro de 2020
Chifrada
Olho de vidro
Nem lembro do nome dela e nem por quanto tempo trabalhou na casa de meus pais. Devia ter uns 16 anos ou um pouco mais. Depois de um tempinho, percebi algo de estranho em seu olhar. Inicialmente achei que era estrábica. Conversando com ela um dia, por curiosidade, devo ter perguntado se tinha algum problema na vista. Disse que sim. Teve que colocar um olho de vidro.
Diziam que David Bowie tinha um olho de vidro, porque uma de suas pupilas não dilatava e os olhos ficavam de cores diferentes. Mas parece que tinha um problema por ter levado um soco em uma briga com um amigo por causa de uma amiga. Quem viu “O Homem Que Caiu na Terra” (1976), filme de Nicolas Roeg, protagonizado pelo inglês, deve ter percebido a diferença do tamanho das pupilas nos closes.
Estávamos na cozinha quando me contou do olho. Devo ter feito mais alguma pergunta. Prontamente, ela disse: “Quer ver como é o olho de vidro? Eu posso tirar para você ver.” E nisso, levou a faca que estava usando para cozinhar em direção a ele. Devo ter gritado ou apenas me assustado. Só me lembro que disse: “Não, não precisa!”
