sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Sobre elegância e o meu casaco Samira

Dizem que a roupa que você usa representa o que você é. Não tenho alguma opinião formada sobre esse assunto. Com a pandemia, quando, se você tem alguma responsabilidade, não sai de casa, a não ser para comprar itens essenciais ou ir até a farmácia, a opção é o conforto. Óbvio que se você participa de uma “live”, por exemplo, não vai aparecer com uma camiseta velha e puída.

A elegância é um atributo intrínseco. Não adianta sair por aí com uma bolsa Hermès combinando com a sua roupa comprada na loja da Chanel. Quem é realmente elegante é vestindo uma camiseta Hering e um jeans sem marca.

Pois tive fases em que me preocupei mais e menos com os itens da minha indumentária. É um assunto que entra no terreno da frivolidade, vamos dizer. No início da adolescência aconteceram duas coisas: deixei de usar as roupas que minha mãe escolhia e passei a gostar de ler. Nessa rebeldia, em vez de calças Topeka, queria calças de alfaiate, sapatos de uma loja bem conhecida na época, a Spinelli. Meu interesse por literatura foi um batismo de fogo: Flaubert, Dostoiévsky, Hemingway e Vargas Llosa. Meio sem noção de quem eram, encarei-os, em nunca antes ter lido Monteiro Lobato, um completo desconhecido em Passos, MG, onde fiz o 1º grau. Nesse caldeirão, eram óleo e água, futilidade e cultura.

Mas foi passageiro. Enquanto lia avidamente o que aparecia na minha frente, deixei crescer o cabelo — afronta explícita à rigidez da educação paterna — e passei a usar túnicas indianas. Tinha uma calça de sarja cor de laranja, quase cenoura, que minha mãe odiava. Um dia,dei falta dela. Minha mãe tinha jogado no lixo. Na foto da minha matrícula na FAU-USP, meus cabelos eram longos e vestia uma túnica roxa, com fios dourados.

Ao sair da FAU, tive que mudar um pouco, para adequar-me aos lugares em que fui trabalhar. Mas o vestir não fazia parte das minhas principais preocupações.

Trabalhando com design gráfico, meus esforços iam em direção às artes plásticas. Tinha participado de uma coletiva de gravura no MAC-USP e do Salão Paulista de Arte de Santos e de São Paulo. Meu estúdio era em um dos quartos da casa dos meus pais. Lá passava as noites pintando e desenhando até a chegada do sono. 

Um amigo de minha irmã, imagino que, para impressionar a paquera, que cursava artes plásticas na FAAP-SP, resolveu trazê-la para conhecer o meu ateliê. Era uma moça muito chique. Vestia um jeans justíssimo e uma blusa fina de seda. Dentro do meu universo cotidiano, era a primeira mulher que eu conhecia que se maquiava e usava batom. O encontro foi bem formal. Afinal, pelo que imaginei, ela estava saindo com o amigo da minha irmã e devia ter algum interesse dele por ela.

Não lembro mais de como tudo aconteceu, porém, a história é que um mês depois, estávamos namorando. Era fim de inverno. Minha preocupação com o vestir era simplesmente funcional. Nos dias de frio usava um casaco de náilon creme que tinha herdado da minha irmã, da Samira, que não o queria mais e ia jogar fora. Detalhe: ela tinha 1,50 de altura, e eu, 1,70. Ficava um pouco justo, mas cumpria sua tarefa de deixar o meu corpo quente. 

Em uma das primeiras vezes em que saímos, usei o casaco. Imagine o contraste: ela chique, perfumada e super maquiada, e eu de Samira de náilon. O namoro firmava. Adivinhe qual foi a primeira coisa que ganhei de presente? Um casaco. A partir de então, resolvi me preocupar com o que vestir. É desse tempo a primeira camisa da Richards que comprei e também do meu primeiro paletó na Tweed, na época, uma referência na moda masculina.

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