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quinta-feira, 13 de junho de 2019

Ben Monder, só ou acompanhado


Pense em alguém tocando violão em uma pequena reunião de amigos. Mas não: é Ben Monder tocando guitarra solo em seu álbum mais recente, “Day After Day”. Dividido em duas partes, a primeira, é composta de sete músicas, com alguns standards — “Emily”, “Never Let Me Go” e“Dreamsville”. Na segunda, Monder é acompanhado de Matt Brewer e Ted Poor.

São dois momentos, mais ou menos opostos. Com seu trio, o guitarrista explora alguns temas, que, se não são standards, são hits, como “Only Yesterday”, dos Carpenters, “Goldfinger”, tema de um dos James Bond, consagrada na voz de Shirley Bassey, “Just Like a Woman”, de Bob Dylan, e “Guitar Man”, da banda Bread.

E são momentos bem diferentes dos álbuns mais recentes que gravou pela ECM. , como “Absence” (2018) e “Amorphae” (2016). Nestes, a guitarra de Monder se presta a momentos mais climáticos, bem ao estilo da gravadora de Manfred Eicher. O primeiro é em formato trio, com o pianista estoniano Kristjan Randalu e o baterista Markku Ounaskari. Em “Amorphae”, tocam com ele Pete Raede nos sintetizadores e os bateristas Andrew Cyrille e Paul Motian. Não. Não há nenhuma música em que Cyrille e Motian tocam juntos. Este último e Monder planejavam fazer um álbum em duo. Mas Motian morreu em 2010. Ficaram dois registros, “Oh, What a Beautiful Morning”e “Triffids”, que estão nesse álbum. Ben foi um dos três guitarristas da Paul Motian Band, em “Garden of Eden” (ECM 2006). Os outros: Steve Cardenas e Jakob Bro.

Guitarristas nascidos depois dos anos 1950, naturalmente, sofreram uma influência bem grande do rock. Saem um pouco do modelo de um Jim Hall ou Wes Montgomery. Monder teve um aprendizado formal sólido, estudando em conservatório e universidade de música. O rock é uma linguagem subjacente no seu modo de tocar, como, provavelmente, na grande maioria dos guitarristas com menos de 50 anos. Apesar de não ser o modelo “what can a poor boy do/ Except to sing (play) for a rock’n roll band”. 

Tocou e acompanhou músicos do jazz, como Jack McDuff, Lee Konitz e foi também da orquestra de Maria Schneider. Seu lado, digamos roqueiro, está na participação em “Blackstar”, derradeiro álbum de David Bowie. Melhor seria dizer que Bowie pendeu ao jazz ao optar por tocar com o saxofonista Donny McCaslin, o tecladista Jason Lindner e o baterista Mark Giuliana, e não o contrário.

Além de “Amorphae” e “Absence”, na ECM, o americano está presente em “Elegy”, de Theo Bleckmann, de quem tem sido parceiro frequente desde os anos 1990. T

Volto ao recente “Day After Day”. A parte solo, como disse no parágrafo inicial, tem esse clima de “descompromisso”. É como se Monder tivesse se sentado em seu estúdio e colocado o gravador em funcionamento para registrar o que resolvesse tocar. Ao contrário das guitarras de “Amorphae” e “Absence”, aqui, é uma guitarra sem efeitos.

Na segunda parte, continua “descompromissado”, só que com um baixista e um baterista que, de certo modo, são apenas coadjuvantes, sem executarem solos, como é de costume entre trios de jazz. Os efeitos, em que Monder é um mestre incontestável, apresentam-se em alguns poucos momentos, como em “Goldfinger”, de John Berry, que merece essa “espetacularidade”, e no tema final “Day After Day”. Nesse exemplos, lembra o guitarrista dos mil efeitos, principalmente neste, um solo espacial, com overdubs. Final maravilhoso.

Ouça algumas faixas dos álbuns citados. As três primeiras da playlist são de “Amorphae”, as duas seguintes, de “Absence”, e as restantes, de “Day After Day”.

 



quinta-feira, 9 de maio de 2019

Opções geniais para se ouvir Nature Boy

ahbez é o barbudo
Três registros novos que relaciono são interessantes de serem vistos/ouvidos. Uma delas abre o filme Moulin Rouge, de Baz Luhrman, que junto com Chicago, de Rob Marshall são os dois melhores musicais da década passada. Esta versão de David Bowie é muito boa, como a maioria das coisas que faz, imprimindo sempre a sua marca. A outra, bem diferente – não vou dizer por quê –, que não existe em CD, é a de Jamie Cullum. Imperdível. A terceira é de uma cantora muito boa, que merece ser “buscada” na Internet para quem não a conhece: Lizz Wright. Existe uma versão no YouTube que deve ser vista.

Além das versões cantadas, existem alguns registros apenas instrumentais. Para os que desejam as mais tranquilas, recomendo a de Art Pepper, grande alto-sax, que teve uma carreira um tanto atribulada devido ao seu problema com drogas. Ela está no álbum Straight Life e tem como sidemen o pianista maior Tommy Flanagan, Red Mitchell no baixo e Billy Higgins na bateria. Outra muito boa, que está em Blue Moods, é a de Miles Davis. O trumpete em surdina tem aquele tom melancólico é apenas dele. Acompanhado por Charles Mingus no baixo, o destaque é o vibrafone de Teddy Charles. A do guitarrista Joe Pass – esse é outro que andou um bom tempo preso por conta de consumo de drogas pesadas – e do trombonista “mais rápido do oeste” J.J. Johnson é excepcional. J.J. inicia com o tema em “surdina” e Joe a finaliza com um rápido solo de sua guitarra semi acústica fenomenal. A música é curta e faz com que fiquemos com aquela sensação de que “tiraram o doce da boca da gente”.

Ouça a de Miles.




A de John Coltrane – a que designaria como a versão “amalucada” – é uma longa faixa de oito minutos. Ele apresenta o tema no sax tenor sobre uma colchão bem caracteristicamente coltraneano com o piano “cheio de notas” e arpegiado de McCoy Tyner, notas de baixo no arco e a bateria brilhante e enérgica de Elvin Jones. Após um começo dramático e lento, Coltrane se lança naqueles solos contínuos, ricos e intensos. No fim da faixa, Art Davis faz um breve solo meio atonal no arco. Tudo que é dele é imperdível.




Temos uma versão bossa nova, de outro sax tenor do primeiro time, mas menos conhecido. Falo de Zoot Sims. Esta faixa está no álbum The Bossa Nova Sessions. Muita gente, na década de 1960 sucumbiu ao gênero mais exportado do Brasil. Não foram apenas Charles Byrd e Stan Getz.

Ouça.




A versão que designaria de “desconstruída” é a do pianista Jacky Terrasson. Sua maior característica é a de nunca começar pelo tema: lá no meio da música você fica sabendo o que ele está tocando. Muito bom.




Todos os CDs citados não foram prensados no Brasil. Para aquele que deseja tê-los a opção é importá-los. A outra é a de procurar pela Internet, fazer um download “piratão” ou comprá-las pelos sites de venda de música.


Bela versão de Bowie:



A de Lizz Wright, citada logo no início. É uma ao vivo.




Finalmente, Jamie Cullum.


quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

As versões amalucadas de Seu Jorge para David Bowie.

Seu Jorge, em A Vida Aquática de Steve Zissou
Um diretor do time “ame-o ou deixe-o” é Wes Anderson. Conheço alguns que o odeiam. Sou do time oposto e tendo à parcialidade. Suas esquisitices são julgadas como babacas por uns, e genial por outros. O Grande Hotel Budapeste, Viagem a Darjeeling e A Vida Aquática de Steve Zissou estão entre os meus preferidos. Esse “fanatismo” faz coisas tão imbecis como querer ter um tênis Adidas com faixas em dois tons de azul igual à da tripulação do barco do oceanógrafo vivido por Bill Murray. Procurei até em sites de fora e não o encontrei.

Dentre as coisas inusitadas que Anderson nos proporciona, como é que Seu Jorge foi parar em um filme seu? Se o compositor e cantor não era ainda nem tão conhecido como é agora, que até mora em Los Angeles… boa pergunta.

Encontrei o Fernando Meirelles, companheiro da Faculdade de Arquitetura da USP, em um bar por ocasião da despedida de uma amiga em comum que morava na França e vinha uma vez por ano ao Brasil. Já tinha realizado Cidade de Deus, O Jardineiro Fiel e, se não me engano, O Ensaio Sobre a Cegueira. Entre uma coisa e outra, revelou sua admiração por Paul Thomas Anderson e a conversa chegou em outro Anderson. Devo ter perguntado em como Seu Jorge fora parar em A Vida Aquática de Steven Zissou. Respondeu que ele fora o responsável. Um produtor bem conhecido – não lembro de seu nome agora –, tinha entrado em contato à procura de um ator com algumas características para o filme que Wes Anderson estava gestando. Sugeriu o cantor/compositor que participara de Cidade Deus como Mané Galinha. O que conto pode ter algumas imprecisões pois aconteceu há um bom tempo, mas foi mais ou menos assim. Disse que por sua causa Seu Jorge passara seis meses morando na Itália, curtindo e trabalhando no filme.

Seu Jorge e David Bowie
Ficou faltando a pergunta sobre como surgiram aquelas versões malucas em cima das mais conhecidas canções de Bowie que Seu Jorge canta no filme. Possivelmente não saberia responder.

Esquisitice por esquisitice, parece que a ideia partiu do próprio diretor. Seu Jorge cantando versões que, em termos de letra, não soma nada. É, no entanto, mais um toque exótico do diretor. A única que já tinha uma letra em português, de autoria da banda Nenhum de Nós é Starman; o resto é dele.

Seu Jorge ganhou palavras simpáticas de Bowie no encarte: "Se Seu Jorge não tivesse gravado minhas canções acusticamente em português, eu nunca teria ouvido esse novo grau de beleza que ele conseguiu adicionar a elas."

Para quem não as conhece, vamos lá.

Starman. 



Life on Mars.



Ouça o álbum na íntegra.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

David Bowie, jazz e Dylan Howe

Bowie e Catherine Deneuve, em Fome de Viver
Até no último ato, David Bowie foi gênio. Foi uma saída espetacular: anunciou a própria morte no clip Lazarus e sem que ninguém ao menos imaginasse que estivesse perto de morrer. Blackstar (★) estava programado para ser lançado no dia de seu aniversário, mas vazou uns dias antes pela internet. Isso pouco importa. O caso é que Bowie morreu, muito cedo. 69 é pouco. Sinal que, como em The Hunger (Fome de Viver), de Tony Scott, tenha percebido que a vida era finita. Mas, imaginamos que pudesse ser imortal. Pensando bem, talvez, nunca tenha sido desse mundo, na verdade, como a personagem de The Man Who Fell to Earth (O Homem Que Caiu na Terra, de Nicholas Roeg).

Dentre a série de “transformações” do cantor, uma das mais interessantes é a que corresponde ao tempo em que morou em Berlim. Os álbuns Low, Heroes e Lodger compõem o que ficou conhecido como a “Trilogia de Berlim”. Os três contaram com a colaboração de Brian Eno e é a fase mais experimental de Bowie, quando flerta com a música ambiental, o minimalismo e o jazz. Nas várias faixas instrumentais, toca saxofone. São quase sempre climáticas, soturnas, bem ao gosto do produtor Eno. Uma curiosidade: Robert Fripp foi convidado para participar de Heroes (é sua a guitarra na música título); mandaram uma passagem. Foi a sua primeira viagem na primeira classe, disse ele.

★ recebeu vários tipos de críticas, inclusive negativas, logo depois de lançado. Provavelmente, agora que morreu, será elogiado unanimemente. É, a morte faz coisa. Mas não é um álbum para todos os gostos. Alguns críticos, ao ouvirem ★ , lembraram-se da “Trilogia de Berlim”.

Veja o clipe de Lazarus.




Dylan Howe e Bowie jazz

Um dado bastante ressaltado de ★  foi a formação instrumental. Apesar de contar com seu tradicional produtor, Tony Visconti, optou de ser acompanhado pela banda do saxofonista Don McCaslin, composta pelo guitarrista Ben Monder, Tim Lefebvre (baixo), Jason Lindner (teclados) e Mark Guiliana (bateria). É uma formação bem jazzística.

Por coincidência, andava ouvindo Subterraneans - New Designs on Bowie’s Berlin, de Dylan Howe. Este baterista inglês é um rapaz ainda, e sendo filho do guitarrista Steve Howe, que foi do Yes, deve ter crescido ouvindo os sons do pai e de David Bowie, certamente. Nesse álbum, Dylan baseou-se no repertório da trilogia de Berlim. Esse fato despertou a minha curiosidade. 

De Low, Dylan e sua banda tocam Subterranean, Weeping Wall, All Saints, Some Are. Art Decade e Warzawa, de Heroes, Moss Garden e Neuköln. Como não poderia deixar de ser, o clima é igualmente soturno.

A banda de Dylan é formada por Brandon Allen (sax tenor), Ross Stanley (piano e sintetizadores), Mark Hodgson (baixo acústico), Adrian Utley (guitarra), e conta com a participação do pai Steve Howe tocando koto em Moss Garden.

A faixa que era a última da edição oficial de Low é a que abre o álbum Subterraneans. O mesmo clima fantasmagórico e claustrofóbico está presente na concepção de Howe. Quem conhece Subterraneans deve lembrar-se dos teclados de Eno, do saxofone alto e os vocais de Bowie. São sete minutos e poucos de magia que servem de apresentação para o disco.

Ouça Subterraneans.



All Saints, a segunda, já tem o tom bem mais jazz, com marcações de contrabaixo bem definidas, que mudam de andamento repentinamente acompanhando o belo solo de Ross Stanley ao piano. As breves notas ao sintetizador que se alternam funcionam muito bem como contraponto do elétrico com o acústico.

O disco é excepcional. Dylan une a atmosfera dos originais com a linguagem improvisativa do jazz. Em vários momentos, lembra as jornadas musicais do guitarrista Terje Rydal, construindo um som original unindo o acústico e o eletrônico. Essencial, esse álbum merece as cinco estrelas que recebeu pela revista Downbeat.

Ouça o álbum em sua íntegra.


segunda-feira, 4 de março de 2013

O dia seguinte de David Bowie e primeiras impressões

Bowie. Na foto do fundo, com William Burroughs
Primeiro, que capa mais anti-capa: sobre a reprodução de Heroes, com o nome riscado com uma caneta, um quadrado branco com os dizeres “The Next Day”. É David Bowie surpreendendo mais uma vez?

Agora em 23 de março será inaugurada a exposição Bowie Is, no Victoria & Albert Museum, Londres. Seus organizadores nem imaginavam que o cantor e compositor fosse lançar um novo álbum. É uma boa coincidência, e Bowie é um sujeito imprevisível. Quando todos imaginavam que tivesse assinado a sua aposentadoria, reaparece. Foi convidado a se apresentar nas últimas Olimpíadas e recusou. Estava nos estúdio há tempos gravando e ninguém, fora os envolvidos, sabia de nada. Nenhuma faixa vazou pela internet, senão por suas mãos.

A primeira surpresa foi a divulgação de um clipe com Where Are We Now? (veja em http://www.youtube.com/watch?v=QWtsV50_-p4), a 6 de janeiro, dia de seu aniversário. Não achei nada de excepcional. É uma música evocativa, meio saudosa. Não entrei no clima.

Mas, agora, na semana passada, disponibilizaram o clipe de The Stars (Are out Tonight), dirigido por Floria Sigismondi, com Tilda Swinton. Uma observação: impressionante a capacidade da inglesa de se “transformar”. No clipe, em algumas cenas, ficamos confusos, sem saber se é ela ou Bowie. Pessoalmente, acho-a parecida com Thom Yorke, do Radiohead.

Faixa por faixa

1. The Next Day. Bom começo. Baixo e bateria pesados, riffs básicos de guitarra de ótimo gosto.


2. Dirty Boys. Mais lenta, notas breves de saxofone abrem a canção. Guitarras muito boas e leve efeito nas vozes.
3. The Stars (Are out Tonight). A canção que serviu de divulgação com um belo clipe com Tilda Swinton é a melhor do disco.
4. Love Is Lost. Não é tão boa quanto a anterior, mas a combinação dos contínuos dos teclados com as batidas marcadas em alternâncias com os vocais funciona.
5. Where Are We Now? é uma das baladas de The Next Day. Como disse, não gostei muito. É meio melosa e os teclados me desagradam.
6. Valentine’s Day. Bom, o nome diz alguma coisa. Mais uma balada. Não me pegou. Tem aquele backing vocal “sha-la-la”.
7. You Can See Me Now. É a segunda melhor, na minha opinião. Meio quebrada, o baixo marcado de Gail Ann Dorsey (quem a viu em ação em apresentações sabe da presença dessa instrumentista) e sua participação nos vocais fazem a diferença.


8. I’d Rather Be High. Outra boa faixa. Os vocais de Bowie estão sempre próximos de um certo dramatismo teatral. Funciona.
9. Boss of Me. Dispensável
10. Dancing in the Space. Boa. Lembra outras de Bowie. Teclados produzem sons estranhos fazendo fundo para a bateria e o baixo. As guitarras nunca estão em primeiro plano, mas são a alma da música.
11. How Does the Grass Grow? Começa com uma guitarra bem distorcida, à la Robert Fripp, entra a voz de Bowie. É jovial, com direito a “na-na-nas”. É música de alta voltagem. Não parece música composta por um respeitável senhor de 66 anos, com um enfarte nas costas.
12. (You Will) Set the World on Fire. Está no nível de Boss of Me: esquecível.
13. You Feel So Lonely You Could Die. Baladona. Vai no modelo de outras baladas de Bowie, com direito a cordas e aqueles acordes de piano próximas ao mau gosto. Assim mesmo, não é mal.
14. Heat. É a mais estranha do álbum. Belo fecho. É uma daquelas inclassificáveis. Lá está o Bowie dramático, meio “lost in space”. Lembra vagamente, mas de um outro jeito, o estranhamento que causaram Low, Lodge e Heroes, trilogia berlinense de Bowie. É bem provável que o contexto da capa de Heroes com o quadrado branco se explique aqui, em Heat.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Mais uma de Bowie do novo disco: “The Stars (Are out Tonight)”

O disco novo de Bowie está anunciado para ser lançado em 11 de março. Chama-se The Next Day. Está disponibilizado um vídeo de The Stars (Are Out Tonight), que é a segunda do álbum. Duas publicações inglesas tiveram o privilégio de ouvi-lo em primeira mão. Leia a crítica que saiu em The Guardian: http://bit.ly/V1wlGn.

Se o restante das músicas estiver no nível de The Stars, vem coisa boa.

Veja o clipe.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

David Bowie reaparece


Você já ouviu o novo David Bowie? Se não, você não é um dos 132 mil – até ontem, 19 horas – que acessou o link do clip de Where Are We Now? É o que está escrito no site da Folha      (http://bit.ly/U1iBbN). No primeiro dia, na loja do iTunes, vendeu mais que Rihanna, Taylor Swift e Britney Spears com Will.i.am.

Nas últimas Olimpíadas, Bowie foi convidado a se apresentar, mas recusou. Depois do infarto que sofreu, em 2006, “desapareceu”. De vez em quando era visto levando o filho à escola. Ficou aquele mistério e a central de fofocas espalhou que estava com sérios problemas de saúde.

Bowie, desde quando surgiu, é um sujeito polêmico. Praticamente introduziu a androginia no rock como atitude (se não considerarmos o pioneirismo de Little Richard ou figuras folclóricas como Liberace). Como, ao longo do tempo, foi se transformando – e por isso o apelido de o “camaleão do rock” – o sumiço me fez lembrar das personagens que viveu em O Homem Que Caiu na Terra, de Nicolas Roeg, e em Fome de Viver (The Hunger), de Tony Scott. Leia sobre esse belíssimo filme em http://bit.ly/Vbaw6j.

O novo disco está previsto para ser lançado em março. O último foi Reality, em 2003. Bom, são quase dez anos.

Assista ao clipe.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Fome de viver de Tony Scott

Scott e Denzel Washington, em Déjà vu
Cinematográfica a morte de Tony Scott, não? Escalar uma grade de três metros de altura e pular da ponte Vincent Thomas, na Califórnia, foi um ato corajoso. Foi seu salto solitário e espetacular, que poderia ter sido uma cena de algum filme seu que ele não quis mostrar a ninguém.

Com um nome tão comum, um quase “João da Silva”, irmão menos famoso (Ridley, o outro, virou culto depois de Os Duelistas e Blade Runner). Mas é impossível alguém que dirigiu Top Gun (1986), Jogo de Espiões (Spy Game, 2001), Déjà vu (2006), Maré Vermelha (Crimson Tide, 1985) e Chamas da Vingança (Man on Fire, 2004) ser considerado de segunda, como alguns o taxam. E tem mais: Scott é diretor de Fome de Viver (The Hunger, 1983), um filme espetacular.

Ridley e Tony vieram do cinema publicitário. Essa origem é determinante na parte visual de seus filmes. Apesar de Tony ser considerado mais “hollywoodiano” que o irmão, ambos se assemelham em muita coisa. Lidam – lidava, no caso de Tony – muito bem com a imagem, sabem tirar o máximo proveito das possibilidades da linguagem cinematográfica. O início de Top Gun – Ases Indomáveis, seu maior sucesso, é deslumbrante, com imagens de aviões de caça taxeando em um porta-aviões. Era um mestre em filmes de ação. Isso não é defeito. É qualidade.

O grande filme de Tony foi um fracasso de bilheteria. Fome de Viver era, em inúmeros sentidos, um filme destinado a tornar-se cult. Bom, esse termo, de hoje em dia, é um pouco bobo e perdeu parte do que significava; é como o termo kitsch, que quase não se usa mais. Um primeiro motivo é a participação do cantor e compositor David Bowie. Fez poucos e marcantes filmes: além deste, cabe citar Labirinto (Labyrinth, 1986), Furyo, Em Nome da Honra (Merry Christmas, Mr. Lawrence, 1983) e O Homem Que Caiu na Terra (The Man Who Fell to Earth, 1976). Até sua aposentadoria (depois de um ataque de coração, retirou-se e, convidado, recusou-se a participar do show de abertura das Olimpíadas de Londres) nunca deixou de ser um astro de primeira grandeza.

Lançou o primeiro disco em 1967 e tornou-se conhecido com Space Oddity, que saiu dois anos depois. Estourou com The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars, em 1972. Bowie revolucionou o show business da música, não apenas pelo talento, mas por vestir a persona criada por ele. Inventou um ser andrógino, fora desse mundo, meio alienígena (Neil Armstrong tinha pisado no solo da Lua em 1969 e a exploração espacial era tema quente). Até Elton John compôs uma música “espacial”: Rocket Man.

Bowie era a representação em si, vestindo a personagem de Ziggy Stardust. Faltava apenas que fosse a representação da representação. Essa oportunidade surgiu com o convite de Nicholas Roeg, diretor de Performance (teve participações de Mick Jagger e Anita Pallenberg) e do maravilhoso Walkabout (1971), para ser o ator principal de O Homem Que Caiu na Terra. Na juventude, em uma briga levou um murro no olho. A consequência foi a de que a pupila de um dos olhos ficou sem a capacidade de dilatar e contrair conforme a intensidade da luz. Roeg explorou esse problema da pupila, em que uma ficava contraída e outra não para caracterizar o “extraterrestre” Bowie.

Fome de Viver é estrelado por David Bowie, Catherine Deneuve e Susan Sarandon. Bowie e Deneuve formam um casal que, para não envelhecer, precisa se alimentar de sangue humano. Preocupada com sinais de envelhecimento dele, procura por uma médica especialista, que é Susan Sarandon. Não vou contar a história. Todo mundo tem a obrigação de ver esta filme. É maravilhoso em todos os sentidos; pelo enredo, pelos atores, pelas cenas e a música. Se Scott tivesse feito apenas Fome de Viver, já teria sido um grande legado.

Em vários sentidos, como disse, é excepcional. A abertura, com a banda gótica Bauhaus tocando Bela Lugosi Is Dead é um deslumbre. Veja. Combina perfeitamente com o clima noir do filme.




John, a personagem vivida por David Bowie é um violoncelista. Além do Bauhaus, tem Schubert na trilha sonora. O alemão compôs duas peças para piano, violino e violoncelo, o Trio nº 1 em si bemol maior, opus 99, e o Trio nº 2 em mi bemol maior, opus 100. São duas obras primas. A gravação clássica é a de Eugene Istomin (piano), Isaac Stern (violino) e Leonard Rose (violoncelo)

Ouça o segundo movimento do Trio opus 100 com eles. Sorte existir esse áudio no YouTube.



Outra bom registro, esse mais recente é com Vladimir Ashkenazy (piano), Pinchas Zukerman (violino) e Lynn Harrell (cello), gravação pela London Records (1997).

Veja também trechos de Fome de Viver tendo Andante con moto do Trio opus 100 de fundo.


A propósito de Schubert, leia sobre Stanley Kubrick, que usou o mesmo tema antes de Scott em Barry Lyndon: http://guenyokoyama.blogspot.com.br/2010/12/stanley-kubrick-o-mestre-da-musica.html.