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terça-feira, 21 de julho de 2026

O amor brasileiro de Sarah Mckenzie

 

Quando Sarah McKenzie lançou seu primeiro álbum, We Could Be Lovers, em 2015, é bem possível que tenha passado pela cabeça dos diretores da gravadora Impulse de que ela poderia ser uma nova Diana Krall.

A canadense “descoberta” por Ray Brown estreou com Steppin’ Out pelo selo canadense Justin Time, em 1983, e o sucesso foi tão grande que a americana GRP Records lançou no mercado americano. Diana Krall era um daqueles talentos que surgem de tempos em tempos. Apesar da diferença de formatos – Nat “King” Cole foi introdutor do formato trio com a guitarra no lugar do contrabaixo – a banda, formada por Diana Krall, John Clayton e Jeff Hamilton lembrava as primeiras gravações em que Cole, pelo estilo da combinação piano/voz.

Em 2015, a canadense já era famosíssima, com fãs fanáticos mundo afora. Devido ao sucesso, depois de ter passado pela Impulse, nesse tempo era do cast do selo Verve Records. Para a Impulse, quem sabe, ao lançar Sarah McKenzie, como disse no primeiro parágrafo, podem ter pensado que tinham uma nova Diana Krall na mão. 

Sarah, depois da formação inicial na Australian Academy of Performing Arts mudou-se para os Estados Unidos e foi estudar na Berklee School of Music. Tal como Diana, era loura, bonita, compunha, tocava piano e cantava.

Sarah não estourou como Diana. De 2015, quando lançou seu primeiro álbum, Without You é o sexto lançamento na carreira. Desde 2017, quando foi convidada para se apresentar na inauguração do clube Blue Note, no Rio de Janeiro, fazia parte de seus planos um dia fazer um álbum “brasileiro”. Curiosidade: fez uma aparição no programa “Encontro com Fátima Bernardes”, da TV Globo.

No início da pandemia da Covid entrou em contato com o violonista brasileiro radicado nos Estados Unidos Romero Lubambo, que já havia participado de Paris in the Rain (Impulse, 2017). Falou também com Jacques Morelenbaum, que tinha conhecido quando veio ao Brasil. Com os dois, em 2020, de forma remota, fizeram uma gravação de Corcovado e disponibilizaram no Facebook. Tiveram 1,7 milhão de acessos. Estava dado o primeiro passo para o álbum que se chamaria Without You, que é a oitava faixa, composição dela com letras de Lubambo. Nela temos uma das participações de Andy Sheppard, aqui fazendo um solo na flauta.

Com a adição do baixista Geoff Gascoine, o baterista Peter Erskine (ex-Weather Report), o percussionista brasileiro Rogerio Boccato e a participação do saxofonista e flautista Bob Sheppard, o álbum tem um total de quatro composições de Sarah, com destaque para o suingado Quoi, Quoi, Quoi, Quoi e o resto com standards brasileiros, como Gentle Rain, faixa inicial, Corcovado, Fotografia, Once I Loved, Dindi, Garota de Ipanema, Chega de Saudade, Bonita e Modinha, ou seja, Antônio Carlos Jobim, com uma pitada de Luiz Bonfá.

Além de Quoi, Quoi, Quoi, Quoi, as composições de McKenzie são “brasileiras”. The Voice of Rio é uma canção sessentista com o piano bem ao estilo da época e o violão de Lubambo. Mean What You Say vai na mesma toada. É meio uma samba bossa nova com um solo do violonista na medida exata. 

Ao som do violoncelo de Morelenbaum e o violão de Lubambo, Gentle Rain abre com majestade o disco. McKenzie, como Diana Krall, sabem combinar muito bem a voz, se acompanhando ao piano e fazendo solos de muito bom gosto. Corcovado, a seguir, começa com o solo de Morelenbaum. É impressionante como ele soube imprimir uma marca. É muito fácil reconhecer o seu violoncelo em suas participações, seja com Caetano Veloso ou Ryuichi Sakamoto. Fotografia e Once I Loved You seguem na mesma toada. Nesta última destaca-se o sensível acompanhamento de Lubambo, com um solo muito bonito. É voz e violão, que realçam a melancolia da música. Esses clássicos da bossa nova são atemporais mesmo. Podem ser interpretados pela milésima vez por cantores e músicos diferentes e sempre lembraremos de seu compositor. É o caso de Wave e Dindi. Nesta última, Sarah canta esplendidamente, acompanhada por seu piano de poucas notas. A entrada do violão e o som personalíssimo de Morelenbaum são o destaque, com o belíssimo solo de Sheppard. Há um certo frescor que são intrínsecos às criações dessas composições.

É difícil ser original com uma canção tão tocada. A Garota de Ipanema é uma das cinco mais executadas de todos os tempos. Bem que tentam. Na metade dela, é apenas o violão, a percussão de Rogerio Boccato, com acordes ao piano privilegiando as notas médias. Após um átimo de silêncio, entra o cello e Sarah repete algumas vezes “she doesn’t see”. A seguinte é aquele outro clássico que até os russos devem saber de cor: Chega de Saudade. Sarah canta a parte inicial em português, canta parte em inglês e volta para o português.

Não consigo ouvir Dindi e Bonita sem lembrar de Sarah Vaughan. As interpretações de Dindi que vou lembrar sempre são a da americana, um pouco pelo jeito que entoa o nome Dindi e a de Sylvia Telles, que acho primorosa. A de Sarah é esquecível. A faixa final, Modinha é uma daquelas “torch songs” clássicas. É preciso uma certa dramaticidade, como a de Elis Regina em Elis & Tom, e a campeã de todos os tempos, a de Nana Caymmi. A de McKenzie é cantada em português sem sotaque, apenas ela e o piano. Vamos dar um desconto: é um bom fecho para a sua aventura brasileira.

Ouça o disco:

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Quando a new wave foi a bossa-nova


Ondas. Cada uma é diferente da outra, como o rio que corre. “The river runs through”. A água que corre no rio ou a das ondas, nunca é a mesma. No eterno retorno, tudo é sempre novo, mesmo que, aparentemente, não seja.Por isso, talvez um dia, a Bossa Nova foi “new wave”. É o que penso ao ouvir “New Wave!”, de Dizzy Gillespie, lançado em 1963.

No começo da década de 1960, a Bossa Nova era a grande onda, que invadiu a América, a “onda que se ergueu no mar”, como cantou um dia João Gilberto, “e das estrelas que esquecemos de contar”. Bem, João completa: “fundamental é mesmo amor”. Estava certo o compositor Antônio Carlos Jobim.

O mundo passou a adorar a Bossa Nova. Nessa onda surfaram Stan Getz, Charles Byrd, Lalo Schifrin, inicialmente, e, até hoje, o gênero ainda dá um caldo. “Garota de Ipanema”, de Vinícius e Tom, ainda é uma das mais executadas no mundo. Dizzy Gillespie navegaria nessa onda, naturalmente. Ele, que disseminou os ritmos caribenhos para o dito Primeiro Mundo, não poderia ficar indiferente.

Maldosamente, poderíamos dizer que Gillespie foi esperto, mas insensato seria, para citar a clássica “Insensatez“ (“How Insensitive”, na sua versão em inglês), o brilhante trompetista ignorá-la. Para ele, a “new wave” teria um quê de latino. Pois, latino é a Bossa Nova, já que o Brasil, apesar de sua pujança geográfica, está espremida entre o Oceano Atlântico e os países colonizados pela Espanha.

Não podemos ignorar o que um músico do quilate de Gillespie possa ter feito, influenciado pela “nova bossa”. “Chega de Saudade”, originalmente, de ritmo malemolente, tão brasileira em sua essência, ficaria caliente na versão dele, naturalmente. Dizzy sempre foi exuberante e nunca poderia ser cool, como é e foi a Bossa Nova em sua origem. E é nessa exuberância que devemos ver a música do trompetista. E devemos ver sob essa ótica e aquilatar seu valor por aí.

E, vamos combinar uma coisa: a Bossa Nova tem sua origem no samba-canção. E aí, pois, o ritmo reside no cerne do gênero. E, vamos combinar outra coisa: Dizzy Gillespie foi um gênio, e estamos conversados. E no gênio está a capacidade da transformação, da transliteração dos gêneros. É o que Gillespie demonstra em fazer da Bossa Nova o samba do “crioulo doido”.


Ouça a new wave gillespiana.




Se não conseguir ouvir por aí, vá direto no link do Spotify: https://open.spotify.com/album/4hGmuIZf2US0XzzplPki1I?si=56L7u7bDQDiss1-4L6mX3g

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

A intimidade de Barbara Casini, Phil Woods e Stefano Bollani com a música brasileira

A música brasileira não era estranha a Phil Woods, um dos melhores saxofonistas alto de todos os tempos, depois de Charlie Parker, naturalmente. Cansou de ser considerado o primeiro por revistas especializadas em jazz. É de 1975 “Floresta Canto”, LP em que toca “Canto de Ossanha” e “O Morro”, de Baden Powell e Tom Jobim, respectivamente. Em 1996, resolveu fazer outro álbum parcialmente dedicado à nossa música. Em “Astor e Elis”, algumas canções que se tornaram conhecidas na voz da cantora apelidada de Pimentinha, por Vinícius de Moraes: “Dois pra Lá, Dois pra Cá”, de João Bosco e Aldir Blanc, “Cais” e “Nada Será Como Antes”, de Milton Nascimento, e “Atrás da Porta”, de Francis Hime e Chico Buarque.

Do pianista Stefano Bollani então, nem se fala. Tem vários álbuns com temas brasileiros. Canta, inclusive, com enorme graça “Trem das Onze” e não fica no repertório batido da bossa nova. Canta coisas que só alguém especialista em música brasileira: “A Voz do Morro”, “Ao Romper da Aurora”, “Luz Negra”, “Folhas Secas”, “Apanhei-te Cavaquinho” e “Ao Romper da Aurora”. Lançou pelo selo japonês Venus Records “Falando de Amor” (2003), dedicado mais a temas da bossa nova. Em 2013, pela ECM, gravou “O Que Será”, em duo com Hamilton de Holanda.

Bárbara
Se esses dois são familiarizados com a nossa música, nem se fala então de Barbara Casini. A cantora nasceu em Florença, mas podia muito bem ter nascido no Rio de Janeiro. É expert em Brasil e tem até sotaque de carioca.

Quando tinha quinze anos, viveu o seu primeiro e definitivo amor. Caiu-lhe nas mãos um LP de Bossa Nova. Terminou o curso de psicologia, mas passou a pesquisar tudo sobre a arte que vinha do outro lado do oceano. Não foi apenas pela música, mas pela literatura e o aprendizado da língua.

Conheceu Brasil em 1982, ano da morte de Elis Regina, por quem tinha admiração. Tempos depois lançaria um álbum com o título “Furacão Elis”. Voltou com a mala cheia de discos. Na outra vez que veio, fez uma longa viagem do nordeste ao sudeste e conheceu a música de Luiz Gonzaga, Xangai e Geraldo Azevedo. Quando voltou à Itália, montou a banda Outro Lado.

Casini tem cerca de vinte álbuns, e neles é acompanhada por músicos italianos do primeiro time, como Stefano Bollani, Renato Sellani, Enrico Rava, Fabrizio Bosso, além de Toninho Horta, Guinga, Lee Konitz e Phil Woods. Uma parcela significativa deles está relacionada ao Brasil: “Todo o Amor” (1997), com composições próprias, incluindo uma parceria com Novelli, e um original de Chico Buarque, “Você e Eu” (2001), “Uragano Elis” (2004), “Outra Vez” (2002), com o mestre Lee Konitz, “Anos Dourados – para Tom Jobim” (2003), e “Luiza” (2004), “Uma Mulher” (2015), com composições próprias, Danilo Caymmi, João Nogueira e Ivan Lins, e, o mais recente “Terras” (2016), que aborda temas do repertório da música nordestina, Edu Lobo, Djavan, Roberto Mendes e Dori Caymmi.

‘Luiza”, do álbum do mesmo nome, é uma das grandes interpretações de Casini. Preste atenção no piano de Riccardo Arrighini.





Além da música, dedica-se a traduzir canções e literatura brasileira. Verteu “Vidas Secas” de Graciliano Ramos para o italiano. É também autor de “All Is Music”, livro com suas conversas com Edu Lobo, Gilberto Gil, Chico Buarque e outros.

Trio perfeito
“Você e Eu” é de 2001. Phil Woods era um veterano. Tinha 70 à época. Mesmo com enfisema pulmonar, tocou até pouco antes de morrer, no fim de setembro de 2015. Em escala decrescente, vem Barbara, nascida em 1954, e Stefano Bollani, pianista ótimo e versátil.

Um trio como esse é dos sonhos. Quem não teria gostado de ter Phil Woods na banda. É um dos maiores da história no instrumento identificado indelevelmente ao genial Charlie Parker. Uma curiosidade: Phil casou-se com Chan, viúva de Parker.

As dez canções do disco são todas do cancioneiro brasileiro. São todas da década de 1970 para trás. Acho que a mais nova é “Cai Dentro”, de Baden Powell e Paulo César Pinheiro. É a mais uptempo do disco. Três são de Antônio Carlos Jobim – “Fotografia”, “Por Causa de Você”, parceria de Dolores Duran, e “Estrada Branca”, com Vinícius de Moraes –, duas de Carlos Lyra – “Maria Ninguém” e Você e Eu” –, uma de Haroldo Barbosa e Janet de Almeida – “Pra Que Discutir com Madame”, uma de Caetano Veloso – “Avarandado” –, e duas de Ary Barroso – “Pra Machucar Meu Coração” e “Na Baixa do Sapateiro” –, as minhas preferidas.

Ouça “Pra Machucar Meu Coração”.




Ouça também “Fotografia”, faixa que abre o disco. Se quisermos uma referência, acho que a voz de Barbara Casini tem alguma semelhança com a de Joyce Moreno.




Ouça “Estrada Branca”.




quinta-feira, 7 de julho de 2016

O melhor dos mundos de Stan Getz e João Gilberto

No início dos anos 1960, Stan Getz era um músico com uma boa discografia e prestígio. Em 1943, estava tocando na orquestra de Jack Teagarden, portanto já era um veterano. Passou logo depois pelas bandas de Benny Goodman e Woody Herman. Nesta, ficou conhecido como um dos ‘four brothers”, com Serge Chaloff, Zoot Sims e Herbie Steward.

Como experiência de vida, em 1954, passou pela cadeia ao tentar roubar morfina em uma farmácia. Casamento desfeito, logo estava casado com a sueca Monica Silfverskiöld. Na nova vida, talvez para distanciar-se do ambiente das drogas, mudou-se com a mulher para Copenhagem. Teve dois filhos com ela e outro com a amiga Inga Torgner. Monica era compreensiva. Ela o amava. A Europa era boa com os músicos americanos expatriados. Stan sempre tinha um lugar para tocar.

No meio de tantos negros bons que tocavam em velocidades supersônicas, Getz era um judeu branco, bom também, mas não do bebop. Gostava da suavidade de Lester Young. No início dos anos 1960, não estava nem aí com a emergente bossa nova. O produtor Creed Taylor, sempre do olho nos dólares, pretendia gravar um álbum de bossa nova com o guitarrsta Charlie Byrd e precisava de alguém de renome para maior apelo comercial. Getz aceitou o convite um pouco por favor a Taylor. Jazz Samba ficou em primeiro nas paradas da Billboard e o saxofonista ganhou um Grammy pela melhor interpretação em jazz com Desafinado no ano seguinte. Fez pouco caso: mandou a mulher Monica para receber o prêmio. Uma observação: era um favor a Taylor, mas era uma oportunidade de ganhar alguns dólares. Alguns vícios são dispendiosos e ele devia impostos para o governo da Dinamarca.

Dinheiro não aceita desfeita e Getz como bom judeu, sabia disso. Percebeu que podia ganhar um bom dinheirinho, como diria Tom Jobim, e abraçou a bossa nova. No reboque do sucesso do primeiro, gravou Getz/Gilberto, com participação de Jobim, João Gilberto e Astrud Gilberto, na época mulher do cantor violonista. Disse a Astrud que faria o disco se ela fizesse uma mescla de canções cantadas em português e inglês. O sucesso foi mais estrondoso ainda e ganhou mais um Grammy, e mais dólares. Resultado: quando precisa de algum, lembrava-se logo de João Gilberto e sua turma. No total foram quatro álbuns bossa nova pelo selo Verve.

João
Histórias sobre as esquisitices de João Gilberto são abundantes e até folclóricas. Desde sua mudança para o Rio de Janeiro, nunca pagou aluguel. Baixava na casa de alguém pedindo morada por algumas semanas até arrumar um lugar em definitivo. As semanas viravam meses, até ser expulso. Daí, arrumava outro amigo que pudesse acolhê-lo. Outra conhecida é a de que, em certa ocasião, quando fazia um show, um espectador, no fim da apresentação, disse ter ficado impressionado com a sonoridade do violão. João deu-lhe de presente. Detalhe: não era seu.

Ao passar a morar em Nova York, como lá não tinha amigos, provavelmente, teve que pagar aluguel, pela primeira vez na vida. Também, dinheiro não lhe faltaria daí em diante. A fama de esquisitão e de cantor genial atravessou o oceano. Excursionou pela Europa, morou no México, apresentou-se por duas vezes em O Fino da Bossa, comandado por Elis Regina.

Depois dos álbuns iniciais lançados apenas no Brasil e os do mercado americano, não gravou mais nada nos anos 1960. Apenas em 1973, iria lançar o que ficou conhecido como o “album branco de João”, pela Polydor. Getz deve ter pensado: “João significa… dólares”. Em 1976, estavam novamente no estúdio, com uma diferença: Astrud Gilberto tinha virado “persona non grata”. Em seu lugar, entrou Miúcha, a nova mulher de João.

O título do álbum – The Best of Two Worlds – era perfeito para o reencontro. É um dos grandes discos da discografia de Getz, e de João, também. Um dos solos mais belos do saxofonista é o do início de Ligia. Miúcha está perfeita em Just One of Those Things, e João é genial na divertida Izaura, de Herivelto Martins, e em É Preciso Perdoar, de Alcivando Luz e Carlos Coqueijo Costa. Quarenta anos depois, o álbum soa tão bom quanto em sua primeira audição.

Ouça Ligia.




João ’76
Não deve ter sido fácil convencer João a sair do apartamento. Getz queria promover o álbum lançado pela Columbia. Se por necessidade ou prazer, isso pouco importa, mas fizeram algumas apresentações, que aconteceram entre 11 e 16 de maio de 1976 no Keystone Korner, em San Francisco.

George Klabin, fundador da organização sem fins lucrativos Rising Jazz Stars Foundation, resolveu criar uma gravadora com a intenção de lançar registros inéditos de nomes importantes da história do jazz. Já estão disponíveis CDs de Larry Young (In Paris: The ORTF Recordings), Thad Jones and Mel Lewis Orchestra (All My Yesterdays), Bill Evans (The Lost Tapes from the Black Forest), e Stan Getz e João Gilberto (Getz/Gilberto ’76), dentre outros.

Na introdução, Getz diz o quanto aquele encontro é especial pelo fato de João, com sua voz cálida, sem vibratos ser um cara único e também por ele ser resiliente em apresentar-se. Fim de papo. O resto é música. Acompanhados por seu quarteto da época, com Joanne Brackeen ao piano, Clint Houston no contrabaixo, e Billy Hart na bateria, o protagonismo é do brasileiro e do saxofone tenor. Quase não se ouve o piano de Jonne, por exemplo.

Das onze músicas do álbum, descontado o bis, que é repetido, cinco são de The Best of Two Worlds. Extraídas de registros em fitas cassete, até que a qualidade sonora é razoável. Em termos de performance, o álbum em estúdio é superior, mas como Getz frisa no início, uma apresentação ao vivo de João é um acontecimento especial.

Ouça É Preciso Perdoar, de The Best of Two Worlds.




Leia mais sobre João Gilberto:
Estate, João Gilberto, USP 1977
Besame Mucho: o primeiro de um milhão de beijos.

Leia mais Stan Getz:
Nós que não gostávamos tanto de Stan Getz
Dias chuvosos e “Here’s That Rainy Day”

terça-feira, 31 de maio de 2016

Wanda Sá Tipo Exportação

A jovem promessa Wanda de Sah
Uma cantora brasileira que poderia ter feito um tremendo sucesso nos Estados Unidos: Wanda Sá. Dona de uma voz suave e tremendamente agradável, perfeita para o “novo ritmo brasileiro”, a bossa nova, que caiu no gosto do americano, Wanda cantava muito bem em inglês.

No Brasil, seu disco Wanda Vagamente, produzido por Roberto Menescal, de 1964, é hoje considerado um dos grandes clássicos da bossa nova. Sergio Mendes, prestigiado pianista de jazz em terras cariocas, foi um dos brasileiros que resolveu aventurar-se em terras americanas. Seu trio, com Sebastião Neto e Chico Batera, e as participações especiais de Bud Shank no saxofone alto e flauta, e a fluminense Rosinha de Valença no violão, e Wanda nos vocais, lançou Brasil ’66. A chamada na capa era ótima: “The greatest new south american arrival since coffee!” Deve ter funcionado. Mendes consolidou uma carreira respeitável, mesmo que alguns brasileiros possam torcer um pouco os narizes pelo tipo de “som exportação” criado por ele. Para Wanda Sá, com destaque na capa, grafada “Wanda de Sah”, também foi bom: a Capitol Records a convidou para gravar Softly!, álbum com arranjos de Jack Marshall.

Mas como a vida vai por caminhos que nós construimos, Wanda casou com Edu Lobo e resolveu cuidar mais dos filhos e menos da carreira. Findo o casamento, em 1982, resolveu voltar. Prestou vestibular e foi cursar Sociologia na PUC-Rio. Em outra mudança de vida, virou evangélica (gravou até um disco chamado Jesusmania), o que não foi impeditivo de resgatar a antiga carreira de cantora. Desde então, tem gravado regularmente, na maioria das vezes, em companhia de seu antigo mentor Roberto Menescal. A voz continua bonita e delicada. Pode ter perdido um pouco o bonde da história. Tivesse continuado com a carreira nos EUA, quem sabe, teria ficado mais famosa que Astrud Gilberto.

Óbvio que o destaque de Brasil ’66 é Wanda. Seu nome é o que está em corpo maior do que o de Sérgio. Assim mesmo, o álbum é bem distribuído em termos de protagonismo. Dois temas – Muito à Vontade, de João Donato, e Favela, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes – são executados em formato trio, o violão de Rosinha de Valença ganham destaque em Consolação e Tristeza em Mim, enquanto Bud Shank brilha na flauta em Ela é Carioca, com Rosinha junto, e em Aquarius.


Ouça Deixa, de Baden Powell e Vinícius de Moraes.



Belíssima a voz de Wanda em mais uma composição de Baden: Berimbau. O sax é de Bud Shank.



Uma das melhores: Reza, de Edu Lobo. O violão é de Rosinha de Valença.




Mais Wanda Sá em: Wanda Sá com seus amigos. 

terça-feira, 21 de abril de 2015

Wanda Sá com seus amigos

Wanda Sá e o velho amigo Menescal
Se algumas viraram musas e inspiradoras da bossa nova, como a que gerou Garota de Ipanema, poucas foram protagonistas do movimento. Uma delas é Wanda Sá. As mais conhecidas foram Astrud Gilberto, Sylvia Telles e Nara Leão, mas Wanda não fica atrás de nenhuma delas quanto à qualidade como intérprete. Astrud é quase um acidente: estava no lugar certo na época certa. Casou com João Gilberto em 1959 e descobriu-se cantora devido ao empurrão do marido. Mudaram-se para os EUA e gravaram com o saxofonista Stan Getz o álbum Getz/Gilberto. Por um lado foi bom e por outro, não, para João: as portas estavam abertas para o baiano, mas Astrud gostou de Getz.

Como as ondas das praias cariocas, Sylvinha Telles, considerada uma das grandes intérpretes da bossa nova, hoje, encontra-se um tanto esquecida. Como as ondas, daqui a pouco vão se lembrar dela. Tinha voz pequena, delicada, e combinava bem com o gênero. Meu amigo Zeca Leal era amigo de Sylvia e Candinho, seu primeiro marido. Emprestou vários discos de playback com orquestrações de Nelson Riddle de canções de Frank Sinatra para ela treinar o seu canto. Disse-me que ela dava umas belas atravessadas. Tinha bom ouvido. Deve-se, em parte, o esquecimento de Sylvinha, à morte precoce em um acidente automobilístico em 1966. Era garota ainda. Mal tinha passado dos trinta.

Parte da turma da bossa nova reunia-se no apartamento de Jairo Leão. Roberto Menescal, Carlos Lyra, Sérgio Mendes e Ronaldo Bôscoli eram os frequentadores mais assíduos. Para Nara Leão, filha de Jairo, tornar-se cantora foi um passo natural. Apesar de associada à bossa nova, no início da carreira, na menina de classe média alta, um dia, a voz do morro soou mais forte, assim como para Carlinhos Lyra. Nara participou do Teatro Opinião. Cantava Carcará com João do Valle e Zé Keti. Ela foi maior que os gêneros. Fez até um songbook de Roberto Carlos, quando isso nem moda era.

Wanda Sá é da segunda dentição da bossa nova, assim como a turma que se reunia na casa de Nara. Em 1964, lança o belíssimo Wanda Vagamente. Participa também do Brasil 65, de Mendes, nos EUA. “Desaparece” da cena musical depois de casar-se com Edu Lobo. Opta por criar os três filhos. Separa-se de Edu em 1982 e, paulatinamente, retoma a carreira interrompida. Volta a se apresentar e a gravar, quase sempre com seu antigo professor de violão Roberto Menscal.

Ouça Vagamente na íntegra.




O tempo longe dos palcos não a fez perder o bonde. A voz, inclusive, mais grave, ganhou maior expressividade. Não é mais a voz da garota de Vagamente. Em comemoração aos seus 70 anos, completados em 11 de julho de 2014, a gravadora Biscoito Fino lançou Wanda Sá ao Vivo em DVD. Os registros foram feitos no Espaço Tom Jobim, Rio de Janeiro e conta com vários e velhos amigos como Marcos Valle, João Donato, Carlos Lyra, Dori Caymmi e a americana Jane Monheit. [sobre Jane, leia http://bit.ly/1CBbj7U].

Nada melhor que comemorar datas como essas com os amigos.

Ouça Inútil Paisagem, com participação de Jane Monheit.




Ouça também faixa que abre o disco: Só Me Fez Bem. Era uma das músicas de Vagamente. É uma bela composição do ex-marido Edu Lobo, em parceira com Vinícius de Moraes.




Veja Wanda e Menescal em O Barquinho.




Os dois cantam Rio no programa Ensaio.


terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Minhas manhãs de carnaval

Luiz Bonfá e seu violão
Para se ter uma ideia do quanto 1959 foi bom, listo algumas músicas compostas neste ano: Chiclete com Banana (Gordurinha, Almira Castilho), Desafinado (A.C. Jobim, Newton Mendonça), Dindi (A.C. Jobim, Aloísio de Oliveira), Eu Sei Que Vou Te Amar (A.C. Jobim, Vinícius de Moraes), A Felicidade (A.C. Jobim, Vinícius de Moraes), Brigas Nunca Mais (A.C. Jobim, Vinícius de Moraes), Este Seu Olhar (A.C. Jobim), Ho-Ba-La-Lá (João Gilberto), Minha Saudade (João Donato, João Gilberto), Ela Disse-Me Assim (Lupicínio Rodrigues), Maria Ninguém (Carlos Lyra), Lobo Bobo (Carlos Lyra, Ronaldo Bôscoli), A Noite do Meu Bem (Dolores Duran), Recado (Luis Antônio, Djalma Ferreira), O Samba é Bom Assim (Norival Reis, Hélio Nascimento), Baiano Burro Nasce Morto (Gordurinha), Samba de Orfeu (Luiz Bonfá, Antônio Maria), e Manhã de Carnaval (Luiz Bonfá, Antônio Maria). Para quem tem a memória lesada a ponto de mal conseguir guardar o próprio número do telefone, seria impossível ter uma lista dessas. Recorro ao mestre Jairo Severiano, autor, com Zuza Homem de Melo do livro A Canção no Tempo – 85 anos de músicas brasileiras (Editora 34).

Pelo que se percebe, o “campeão” do ano foi Tom Jobim. Antes, já havia composto Teresa da Praia, em 1954, com Billy Blanco, famosa nas vozes de Lúcio Alves e Dick Farney, Foi a Noite, com Newton Mendonça, lançada por Sílvia Telles, Se Todos Fossem Iguais a Você, primeira parceria com Vinícius, para a peça Orfeu da Conceição, em 1957, e Chega de Saudade (1958), de novo com o poetinha. Entre uma músiquinha e outra , como diria o poeta embaixador, em 1959, Jobim era autor de seis temas que tornaram-se clássicos.

Jobim compõe e arranja, Bonfá toca
A peça Orfeu da Conceição, escrita por Vinícius, foi musicada pelo então novato Jobim, estreou em 1956, e gerou um disco de 10 polegadas lançado pela Odeon. O francês Marcel Camus, em 1959, resolveu adaptá-la para o cinema. Fez tremendo sucesso, com o título modificado para Orfeu Negro, de maior apelo internacional. Ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e foi premiado com a Palma de Ouro, em Cannes. O produtor Sacha Gordine, querendo ganhar alguns trocados a mais, resolveu fazer uma nova trilha sonora. Fazem parte dela A Felicidade, Samba de Orfeu e Manhã de Carnaval. Luiz Bonfá, autor dos dois últimos temas, com letras de Antônio Maria, tinha participado do disco da peça como violonista. Manhã de Carnaval abriu as portas internacionais para ele.

Ao contrário do que alguns imaginam, Bonfá foi para os EUA antes de Jobim. Viajou para Nova York como acompanhante da cantora Mary Martin, em 1957. Esse movimento se inicia com Carmen Miranda e o Bando da Lua e teve continuidade com a ida de Laurindo de Almeida, que se fixou em Los Angeles no início da década de 1950 e também dos menos conhecidos Los Índios Tabajaras, que conseguiram sucesso relativo na América do Norte. Eram dois exímios violonistas que construíram uma carreira internacional, mas não se vinculam à onda da bossa nova. (sobre eles, leia http://bit.ly/1Fj1iwl)

O sucesso de Manhã de Carnaval levou Bonfá a resolver tentar a sorte nos EUA. Grande violonista e compositor, gravou álbuns pelo selo Verve, um dos principais do jazz, Capitol, Atlantic e Epic. Um dado interessante é de que teve uma de suas composições – Almost in Love – gravada por Elvis Presley. A outra curiosidade é a de que Manhã de Carnaval foi “traduzida” para o inglês com o ridículo título de A Day in the Life of a Fool. Ainda bem que o título original foi preservado posteriormente. A única excentricidade, mas aí devemos responsabilizar as características da língua inglesa, é a de que normalmente “manhã” é grafada como “manha”, o que em português significa outra coisa. Outra aberração nesses casos de equívocos de grafia é Você Abusou, escrita “Voceabuso” e, em vez de ter sido creditada a Antonio Carlos e Jocafi, ter ficado como uma composição de Tom Jobim, em um disco do pianista Tommy Flanagan. É uma coisa que nem a dupla deve ter tomado conhecimento.


Algumas Manhãs de Carnaval
Sem dúvida, a mais bela interpretação desta canção é a de Agostinho dos Santos. Ouça.




Uma curiosidade: Agostinho canta com Johnny Mathis, em programa da antiga TV Excelsior (1964).




Bela é também na voz de João Gilberto.




Ouça com Nara Leão.




Ouça a curiosa versão do grupo cubano Los Zafiros. Essa banda é muito interessante. Segue a onda dos conjuntos vocais que, aqui no Brasil teve como um dos principais o Golden Boys. Leia mais sobre eles em http://bit.ly/1DgSHcH)




O depoimento de Luiz Bonfá contando de como nasceu Manhã de Carnaval (está cortado, mas vale como documento). De quebra, Elizete Cardoso canta a música com acompanhamento de Bonfá.




Até Frank Sinatra cantou Manhã de Carnaval, aliás, com aquele título imbecil: A Day in the Life of a Fool.






Ouça Mañana de … em espanhol, com Natalie Cole.




Susannah McCorkle canta em português.




Manhãs instrumentais
Bela interpretação do brasileiro Antonio Carlos Barbosa Lima, um de nossos maiores violonistas, que há muito mora fora. Sobre ele, leia http://bit.ly/1EENs3q




Veja Baden Powell interpretando Manhã de Carnaval.





Composta por um violonista, Manhã de Carnaval é perfeita na guitarra. Uma boa interpretação é a de John McLaughlin, com Al DiMeola. Ele começa com um trecho de Insensatez antes de entrar no tema.




Outra muito boa é a do guitarrista Jack Wilkins. É uma das minhas preferidas.




Ouça ao saxofone tenor, com Jim Tomlinson, marido de Stacey Kent.




Leia também um texto sobre a minha quarta-feira de cinzas em Nova York e em Passos, MG: http://guenyokoyama.blogspot.com.br/2011/04/manha-de-carnaval-em-plena-quaresma.html



quinta-feira, 19 de junho de 2014

Harpa no samba com Cristina Braga

Cristina Braga e sua harpa
Harpas e liras são instrumentos tão antigos que aparecem em desenhos, pinturas e baixos relevos desde a era pré-cristã. Variando de formato e tamanho, estão presentes em todos os continentes. Os primeiros registros da existência da harpa encontrados datam de aproximadamente 3.000 anos antes de Cristo.

Presença constante em orquestras sinfônicas, não existem muitos concertos para a harpa. Assim, de memória, lembro apenas de um de Mozart para harpa e flauta. Por conta dessa escassez, são raros os nomes que ficaram conhecidos por tocá-los. Um dos poucos nomes a se destacar é Nicanor Zabaleta. Gravou dezenas de discos para a Deutsche Grammophon. Por seu talento, vários compositores no século passado criaram peças especialmente para ele. Joaquín Rodrigo transcreveu seu Concerto de Aranjuez para Zabaleta, Villa-Lobos e Alberto Ginastera compuseram também.

Se é assim na música erudita, imagine-se em outros gêneros. É como alguém a tocar blues com uma gaita de fole. O incomum, no entanto, acontece. Dorothy Ashby é o melhor exemplo. Destacou-se no jazz tocando harpa. Mais inusitado ainda porque era negra. Exceção total. E não foi mera figurante. Lançou vários discos como líder, foi considerada a melhor performer em 1962 pela revista Downbeat. Outro nome é Alice Coltrane. Menos jazz, seu som é meio etéreo, música para místicos e viajandões.

Mas quem imaginaria uma harpista brasileira lançando um disco pelo prestigiado selo alemão Enja? É o que aconteceu em 2013. E nem é o seu primeiro por essa gravadora. Cristina Braga toca na Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Qualquer som de harpa que você deve ter ouvido em alguma música dos Titãs, Zeca Baleiro ou Marisa Monte, pode apostar, a possibilidade de ser de Cristina é de 99%. Isso é para dizer que ela está totalmente enfronhada na música dita popular.

Em seu Samba, Jazz and Love, Cristina está rodeado de músicos de peso como Jessé Sadoc no flugel e no trompete, Artur Dutra no vibrafone, o marido Ricardo Medeiros no baixo e Joca Moraes na bateria e percussão. Além da harpa, canta em todas as faixas, com propriedade. Lembra um pouco a de Eliane Elias, mas é melhor que ela (ôps, espero que não venham críticas, pois sempre levo paulada quando falo alguma coisa da sexy-loura-lânguida).

Tudo bem. O título é meio marqueteiro para gringo se interessar, mas o álbum recém lançado tem samba, jazz, amor e qualidade, o que é mais importante. Não é bom apenas pelo ineditismo. É bom porque o conjunto funciona. A harpa combina lindamente com o vibrafone, o flugel e o trompete se Jessé é cool, econômico e preciso, assim como a seção rítmica de Medeiros e Moraes. E é um disco muito brasileiro; não é jazz samba como em Stan Getz, atenção, é samba jazz feito com muito amor, amor hipnótico devido ao som etéreo da harpa e do vibrafone e da voz calma.

Love Parfait, numero que abre, é intimista, cantada em francês e em inglês, pura bossa, ou melhor, pós-bossa nova. A composição é brasileiríssima: são de Ricardo Medeiros, baixista e marido, com versos de Bernardo Vilhena. O Barquinho, de Roberto Menescal, é a perfeita continuação para a construção do clima. A instrumentação é econômica. Ouvimos delicadas intervenções do vibrafone de Artur Dutra e, como na primeira, o belo trumpete de Jessé Sadoc. O clima não se interrompe com Samba e Amor. Basicamente bossa nova, não poderiam faltar Desafinado e Chovendo na Roseira.

Veja Cristina o clipe de Love Parfait.




Assista ao vídeo oficial de O Barquinho.




Um dos destaques é Preciso Me Encontrar. Seria mais se Marisa Monte não tivesse gravado antes esse belo tema de Candeia.

Veja Cristina Braga e Ricardo Medeiros em Preciso Me Encontrar, de Candeia, em versão instrumental.




Mas, bom mesmo é Triste de Quem, composição do grande Moacir Santos. Ouça.

terça-feira, 29 de abril de 2014

Nós que não gostávamos tanto de Stan Getz

Stan Getz e o pianista Kenny Barron
Jovens são cheios de opiniões. Outra característica deles é o sectarismo. Não aceitar opiniões alheias ou diferentes das suas representa uma tremenda insegurança, vamos combinar. Politicamente, na minha época, quem se achava trotskista ralhava dos stalinistas e dos tachados como reformistas. Quem gostava de rock detestava as festas universitárias da USP movidas a samba, MPB e cerveja. O que não se fala e é verdade, entretanto, sectarismo é um dos elementos do preconceito, não o preconceito mais raso de se falar mal de homossexuais, de orientais ou de negros.

Quando Stan Getz apresentou-se em um festival de jazz, em meados dos anos 1970, era um entre atrações como John McLaughlin na fase pós-Mahavishnu, Chick Corea e Hermeto Pascoal. Eu e alguns amigos juntamos um dinheirinho e optamos por comprar ingressos para todos os dias, uma vez que, se comprássemos separadamente, poderíamos perder os mais importantes, que são sempre os que têm seus ingressos esgotados. Tinha uma programação à tarde e outra à noite. A da tarde, bem mais barata, foi nossa opção natural.

Naquela empolgação típica de adolescentes, assistíamos a do dia e ficávamos a driblar a fiscalização para podermos ver as sessões da noite também. Nessa brincadeira, teve dias em que ficamos doze horas dentro do teatro do Palácio do Anhembi, aquele que tem formato de pudim, na zona norte de São Paulo.

Stan Getz era o cocô do cavalo do bandido, era aquele que estaríamos vendo porque estava no pacote. E, realmente, sua apresentação foi um tanto fria. Entrou mudo e saiu calado. Não deu um sorriso, não disse nenhuma palavra em português, enfim, só tocou. E, sabe como é: brasileiro se derrete quando algum gringo se esforça em falar algumas palavras na nossa língua, até um simples “obrigado”.

Estávamos empolgados, muito felizes de ter uma possibilidade única de ver McLaughlin e Corea no auge de suas carreiras. Propagandearam que poderiam acontecer jam-sessions no fim das programações. E, de fato, ocorreu. A antológica, aquela que ficou gravada foi a de quando Hermeto era o último da noite. Enquanto o mago de Arapiraca fazia das suas, percebemos a entrada de John McLaughlin. Ficou lá parado, fazendo uns riffs, para entrar no clima. Em poucos momentos, já dentro do clima, fez um solo de frevo, ritmo que nem devia saber que existia. Músico bom é músico bom. Mais um pouco, Lá estava Chick Corea fazendo percussão. Timidamente, entra Stan Getz. Fora do clima, tocava algumas notas de saxofone, inaudíveis no meio da zona musical instaurada.

Jovens são cheios de opiniões, como disse. Na minha roda dos fãs do jazz, tínhamos nossos ídolos. No saxofone tenor eram Ben Webster, Coleman Hawkins e Lester Young. Éramos um pouco puristas também e quando o assunto era ídolos, os nossos eram os da antiga. Dexter Gordon não entra na lista porque o conheceríamos com o lançamento de Sophisticated Giant, em 1977. Nós que éramos jovens, repito, éramos sectários e preconceituosos ao inverso: para ser bom tinha de ser negro. Stan Getz era um forasteiro, um judeu branco americano que se aproveitou da onda da bossa nova para ficar famoso. E sua apresentação não tinha-me feito mudar de opinião.

À época do “desprezo por Getz”, 1976, foi lançado The Best of Two Worlds, álbum com ele, João Gilberto e Miúcha. Um ano antes tinham lançado The Peacocks. Em relação a este, ao gostar dele, tinha Jimmy Rowles como “argumento”. Como é que eu não conhecia? O jeito de Jimmy tocar e cantar era uma coisa! As primeiras notas de Rowles ao piano na música título – The Peacocks, de Bill Evans – deixaram uma marca em meu cérebro, como uma cicatriz. E, afinal, a parte de Getz era uma maravilha. Tinha de rever os meus conceitos sobre o saxofonista.

Perdi a conta de quantas vezes ouvi a Lígia de The Best of Two Worlds. A voz de João Gilberto era de uma melancolia maior do que a de seus autores Chico Buarque e Antônio Carlos Jobim e o longo solo de Getz, com o violão de Gilberto era pura poesia.

Ouça Lígia.




A rendição final ao saxofone de Stan Getz aconteceu depois de ter comprado People Time, um CD duplo com apresentações ao vivo dele com Kenny Barron, no Café Montmartre, em Copenhagen, em 1991. A Dinamarca não era um lugar estranho para ele.

O saxofonista começou cedo. Com 16 anos, passou a tocar na banda de Jack Teagarden. Getz foi precoce na iniciação com as drogas em razão do meio em que convivia. Em 1954 foi preso por tentar roubar uma farmácia. Para se livrar das drogas e da cadeia, mudou-se para Copenhagen, cidade que acolheu muitos bons nomes do jazz da década de 1950, que emigraram para a Europa por causa de problemas com drogas, como também por terem melhor acolhida, o que não acontecia com a maioria dos músicos negros nos EUA. E já que estava por lá, casou novamente; dessa vez, com uma ricaça dinamarquesa.

Em 1991, Getz estava com câncer no fígado em estado avançado. As apresentações em duo com Barron servem como testamento pois foram gravadas nos dias 3, 4, 5 e 6 de março, pouco antes de sua morte, em 6 de junho. Tocando em um dos clubes de jazz mais famosos do mundo, estava em seu segundo lar.

Uma das melhores faixas é a de First Song (for Ruth), composição de Charlie Haden.




Ouça East of the Sun (and West of the Moon).




Softly, As in a Morning Sunrise.




Quando morreu, Getz tinha 64 anos. Pelas estatísticas modernas, foi cedo. Mas continuou a fazer shows pelo mundo afora, em clubes e em festivais. Em 2003 foi lançado um CD chamado Bossa and Ballads: The Lost Sessions. O “lost sessions” é bem explicitativo. Mas não eram tão “lost”. Ficaram apenas à espera de uma oportunidade de serem lançadas. Foram feitas em 1989 com o mesmo Kenny Barron, George Mraz e Victor Lewis. Evidente que a expressão “bossa” nos remete aos grandes discos da fase em que conheceu a música brasileira através de Charlie Byrd. O momento mais bossa nova é a faixa Joanne Julia, e a mais brasileira mesmo seria uma canção cujo título é Feijoada, com direito a bumbo, algo incomum na música americana. E isso não é “culpa” de Getz. Barron, os que o conhecem, sabem bem: é um apaixonado pela música brasileira e, ao contrário da maioria dos pianistas, é compositor também. As duas são de sua lavra, assim como a maior parte do CD. As exceções são Yours and Mine (Mel Lewis), Soul Eyes (Mal Waldron), Beatrice (Sam Rivers) e The Wind (Russ Freeman, Jerry Gladstone).

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Coldplay à cubana

Roberto Menescal é um dos nomes mais importantes da bossa nova. Virou executivo da Philips e distanciou-se do violão. Em 1985, por insistência de Nara Leão, acompanhou-a em uma excursão ao Japão. Interrompeu-se a carreira de executivo e retomou-se a de músico. Montou, um tempo depois, com o filho, a Albatroz. Produziu discos próprios e dos outros.

A capa do CD “punky-bossa” de Menescal
No esteio da popularidade imensa da bossa nova no Japão, Menescal deve ter ido pelo menos umas trinta vezes à terra do sol nascente. Além de apresentar-se com frequência, várias criações de sua produtora têm sido lançadas por lá. Um projeto interessante é o de adaptar gêneros musicais diversos transformando-os em “bossa nova”. Lançou Beatles ’n’ Bossa, Bossa Elvis, Sinatra in Bossa Nova – um lembrete: ouça Sinatra cantando Change Partners ou Baubles, Bangles and Beads; pura bossa nova –, Bossa Bolero… conseguiu fazer “bossa” até com o Sex Pistols, em Never Mind The Bossa – Punky Bossa. Depois dessa, só falta fazer “bossa” com música javanesa.

E, como nada é impossível, alguém imaginou o Coldplay no ritmo da terra outrora comandada pelo barbudo Fidel? Então, ouça Clocks.

Obs: até hoje não consegui descobrir a razão de ser “à cubana” um filé acompanhado de farofa, abacaxi e banana à milanesa.