quinta-feira, 22 de agosto de 2019
Quando a new wave foi a bossa-nova
Ondas. Cada uma é diferente da outra, como o rio que corre. “The river runs through”. A água que corre no rio ou a das ondas, nunca é a mesma. No eterno retorno, tudo é sempre novo, mesmo que, aparentemente, não seja.Por isso, talvez um dia, a Bossa Nova foi “new wave”. É o que penso ao ouvir “New Wave!”, de Dizzy Gillespie, lançado em 1963.
No começo da década de 1960, a Bossa Nova era a grande onda, que invadiu a América, a “onda que se ergueu no mar”, como cantou um dia João Gilberto, “e das estrelas que esquecemos de contar”. Bem, João completa: “fundamental é mesmo amor”. Estava certo o compositor Antônio Carlos Jobim.
O mundo passou a adorar a Bossa Nova. Nessa onda surfaram Stan Getz, Charles Byrd, Lalo Schifrin, inicialmente, e, até hoje, o gênero ainda dá um caldo. “Garota de Ipanema”, de Vinícius e Tom, ainda é uma das mais executadas no mundo. Dizzy Gillespie navegaria nessa onda, naturalmente. Ele, que disseminou os ritmos caribenhos para o dito Primeiro Mundo, não poderia ficar indiferente.
Maldosamente, poderíamos dizer que Gillespie foi esperto, mas insensato seria, para citar a clássica “Insensatez“ (“How Insensitive”, na sua versão em inglês), o brilhante trompetista ignorá-la. Para ele, a “new wave” teria um quê de latino. Pois, latino é a Bossa Nova, já que o Brasil, apesar de sua pujança geográfica, está espremida entre o Oceano Atlântico e os países colonizados pela Espanha.
Não podemos ignorar o que um músico do quilate de Gillespie possa ter feito, influenciado pela “nova bossa”. “Chega de Saudade”, originalmente, de ritmo malemolente, tão brasileira em sua essência, ficaria caliente na versão dele, naturalmente. Dizzy sempre foi exuberante e nunca poderia ser cool, como é e foi a Bossa Nova em sua origem. E é nessa exuberância que devemos ver a música do trompetista. E devemos ver sob essa ótica e aquilatar seu valor por aí.
E, vamos combinar uma coisa: a Bossa Nova tem sua origem no samba-canção. E aí, pois, o ritmo reside no cerne do gênero. E, vamos combinar outra coisa: Dizzy Gillespie foi um gênio, e estamos conversados. E no gênio está a capacidade da transformação, da transliteração dos gêneros. É o que Gillespie demonstra em fazer da Bossa Nova o samba do “crioulo doido”.
Ouça a new wave gillespiana.
Se não conseguir ouvir por aí, vá direto no link do Spotify: https://open.spotify.com/album/4hGmuIZf2US0XzzplPki1I?si=56L7u7bDQDiss1-4L6mX3g
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