É inusitado Earl Coleman ser tão pouco conhecido. É um mistério, pois gravou com Charlie Parker, Fats Navarro, Howard McGhee, Earl Hines, Don Byas, Billy Taylor, Frank Foster, Gigy Gryce, Art Farmer, Shirley Scott, e participou das bandas de Jay McShann, Gene Ammons e de Gerald Wilson.
Earl nasceu em 1925. Começou a carreira em meados dos 1940. São dessa época seus primeiros registros com Parker, Ammons e McGhee. Com parceiros desse quilate, o futuro parecia róseo para ele.
Tremendo cantor de baladas, voz de barítono, um pouco parecida com a de Billy Eckstine, grave e cálida, apesar do início promissor, não vingou e nunca chegou a ser um sucesso. Mesmo assim, eventualmente, quando lançou algum disco, sempre foi por boas gravadoras como a Prestige, Xanadu e Atlantic. São delas os álbuns que se encontram disponíveis na Amazon e no iTunes. E, para se aquilatar a qualidade de Coleman, basta verificar o plantel que o acompanha em Love Songs (Atlantic, 1969) e A Song for You (Xanadu, (1977). Participam do primeiro o saxofonista Frank Foster, Jerome Richardson na flauta, e o pianista Billy Taylor; no segundo, o tenorista Al Cohn e Hank Jones, o mestre do acompanhamento de cantores e cantoras.
De Love Songs, vamos ouvir People, faixa de abertura do álbum.
Um belo número é o seu Charade, que possui também uma versão excepcional com outro cantor de voz de barítono: Johnny Hartman. A guitarra é de Gene Bertoncini.
De A Song for You, vale destacar a música título, um clássico moderno composto por Leon Russell.
Um outro clássico moderno é a ultra romântica All in Love Is Fair, de Stevie Wonder. Ouça.
Finalmente, ouça This Is Always, com Charlie Parker, em gravação de 1947 pela Savoy.
Laura Theodore é um dessas pessoas que o saudoso Cláudio Coutinho, capitão do Exército brasileiro, técnico da seleção brasileira, classificaria como polivalente. Laura tem um programa de TV na PBS americana chamado Jazzy Vegetarian. Ela é chef vegan, a vertente mais radical. Tem um programa de rádio chamado Jazzy Vegetarian Radio e é autora de livros relacionados à culinária vegan. Foi atriz de musicais e num deles, em que ganhou até prêmio, fazia o papel de Janis Joplin. E mais: canta. Só não planta bananeira.
Costuma-se dizer que quem faz muitas coisas diferentes não faz nada direito. Não parece o caso dessa loira que antes de optar pelo jazz foi até cantora de uma banda de rock. Com tantas atividades, seu lado cantora é bem menos popular do que sua faceta chef vegan. É só pesquisar no mr. Google. Assim mesmo, tem cinco ou seis álbuns gravados, um deles com o (muito bom) guitarrista Joe Beck. É o álbum Golden Earrings, lançado em 2009. Sem conhecer direito Laura, meu impulso de ouvir partiu da curiosidade de ouvir Joe Beck em duo com uma cantora.
Para início de conversa, Joe estava afiado. Sempre foi um grande guitarrista, sem ter ficado conhecido como Pat Metheny ou Pat Martino. Golden Earrings é especial por uma razão triste: foi o último álbum que conta com sua participação; pouco tempo depois, morreu em conseqüência de um câncer na garganta, dias antes da data em que faria 63 anos. É menos especial por Laura, o que não quer dizer que seja má cantora. Pelo contrário: canta muito bem, mas não é nenhuma Sarah Vaughan.
A voz de Laura lembra vagamente a de Marianne Faithfull com menos drogas e cigarros, produtos que devem ser evitados pelos adeptos da alimentação vegana. O que, já na primeira audição, fica evidente que se sente muito à vontade em soltar a voz. Possui uma certa dramaticidade, como na faixa Johnny Guitar, de colorações expressionistas. Não faz feio também em Why Don’t You Do Right, a faixa seguinte, acompanhada por um belo violão de Beck.
Ouça Johnny Guitar.
Não acerta tanto a mão em Take a Little to Smile. Já em Fever, manda bem. Aliás, esta é uma música importante, pois o álbum fora concebido pensando-se nos duos da grande Peggy Lee com o marido guitarrista Dave Barbour. As próximas são My Small Señor, I Get Along Without You Very Well e a linda Don’t Smoke in Bed, eternizada por Nina Simone e que possui um interpretação especial de kd lang. A de Theodore não é melhor do que as duas, mas merece ser conhecida.
As canções que completam o álbum são I Can’t Believe That You’re in Love with Me, Solitude, Everything Is Moving Too Fast, When You Speak with Your Eyes, Golden Earrings, I Don’t Know Enough About You, What More Can a Woman Do? e Mañana. Dessas, o destaque é a música título.
Por esse álbum, Laura Theodore recebeu boas críticas da JazzTimes, Jazz Review e Los Angeles JazzScene. Resumo da história: Joe Beck era bem melhor que Dave Barbour e Laura Theodore, pior que Peggy Lee.