quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Love Me Tender, com Norah Jones

George Lucas inventou um sistema de som revolucionário para as salas de cinema, chamado THX. Nunca chegou ao Brasil em razão do custo elevado de instalação. E acabou não dando certo internacionalmente também, por uma dessas razões que a própria razão desconhece. Mas quem assistiu a algum filme em THX não esquece.

Laura Dern e Nicolas Cage em Coração Selvagem
O único que vi foi Coração Selvagem (Wild at Heart), de David Lynch. Lembro até hoje da “explosão” sonora da cabeça do fósforo na hora em que se acende. Quando surge a chama, ouvimos aquele som característico da pólvora na hora em que vira chama, superamplificado. No momento seguinte, salvo engano, entra uma das mais belas canções (lieder) de todos os tempos: Im abendrot, uma das quatro de Vier Letzte Lieder, de Richard Strauss.

Vi o filme numa sala de Paris com a Vania e o Marcio, que depois de mais de quinze anos morando lá, hoje, podem ser considerados franceses. Após terminada a sessão, tentamos pegar um táxi. Como estávamos em quatro, por uma dessas razões razoáveis apenas entre os taxistas franceses – recusam-se a levar mais que três passageiros (e não adianta argumentar) – e, no adiantado da hora, eram poucos nas ruas e os metrôs não circulavam mais, não nos restou outra opção senão voltarmos à pé. Paris é uma cidade bem menor que São Paulo. Mesmo assim, das proximidades da Galeria Lafayette até a Bastilha, não era um percurso deveras curto. A noite de setembro estava agradável e fomos nós, conversando e rindo. Paramos em um estabelecimento que encontramos aberto para comer e beber alguma coisa nas proximidades do Beaubourg. Seguimos pela Rue de Rivoli e por sua continuação, Rue Saint Antoine, até a Rue de Charenton. Já em casa, Marcio estava animado, cantando Love Me Tender. A Vania disse que ele tinha verdadeira paixão por essa música. Por coincidência, uma das cenas mais marcantes de Wild at Heart era justamente a de Sailor Ripley (Nicolas Cage) declarando seu amor por Lula (Laura Dern), quando sai da cadeia, cantando esse clássico de Elvis Presley. Para quem não viu o filme, Sailor era fanático pelo cantor, como o amigo Marcio.

Em todos os fins de ano passam, parte de dezembro e janeiro no Brasil. A Vania sempre lembra de me presentear com alguma coisa. Dessa vez, perguntou se queria o CD novo de Norah Jones. Nunca perguntou, sempre faz alguma surpresa, e dessa vez vem com a Norah? Tergiversei. Não sou o maior fã da filha de Ravi Shankar. Insistiu, dias depois, com um e-mail em que o título era “treat me like a fool....but love meeeeeeeeee”. Escreveu: Pena que tu não quer a Norah........ A bichinha canta o maix sexy LOVE ME que eu ja ouvi......... Velho Elvis tá se virando na tombe...............hê, hê....... E junto, enviou um link para eu ver o vídeo de Norah cantando Love Me Tender. E não é que eu gostei?

Veja a cena de Coração Selvagem em que Nicolas Cage canta Love Me Tender para Lula (Laura Dern)




Norah canata Love Me Tender:



Im abendrot, uma das Quatro Últimas Canções (Vier letzte lieder), de Richard Strauss, cantada pela americana Renee Fleming:

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

O mundo de dentro de Dori Caymmi

Dá o que pensar sobre o que Dori Caymmi disse, meio assim sem mais nem menos, no show de Sérgio Santos. Foi alguma coisa como dizer que o Sesc é o “ministério da cultura”. Não dá para entender por que o Ministério da Cultura e a Petrobras, em vez de patrocinar a disseminação da cultura no Brasil, como os Sesc’s fazem, promovendo shows ótimos com preços baixos, oficinas culturais voltadas à população menos favorecida, abrigando há décadas o grupo do teatrólogo Antunes Filho, em vez disso, dão dinheiro para nomes estelares como Maria Bethânia e Gilberto Gil (nada contra; sou fã dos dois), ou ao rico Cirque de Soleil, que não precisa de ajuda de ninguém, em que os ingressos são vendidos por mais de 100 reais (os do Cirque custaram bem mais que isso). Agora, em novembro, o estado gastou a bagatela de 1,5 milhão para a cerimônia de entrega da Ordem do Mérito Cultural, sendo 489 mil reais destinados pelo MinC a Bia Lessa, responsável pela produção e direção do evento.

Como o pai e o irmão Danilo , 
Dori usa bigodes desde que pode tê-los
Pois um compositor do valor de Dori Caymmi tem dificuldades em distribuir seus discos no Brasil. Com aquele humor, notificou ao público que o disco estava à venda na saída, junto do último de Sérgio Santos e o de André Mehmari e o bandolinista Hamilton de Holanda. Fez alguma referência de que precisava desse dinheiro. Tão pouco divulgado, em 2009, Dori lançou Mundo de Dentro, apenas com composições de sua lavra, com o “parceiro da humanidade” (das 13, 12 são dele). É assim que, brincando, chama Paulo César Pinheiro.

Salvo engano, Dori não grava um disco autoral há mais de dez anos. Contemporâneos, Influências e Cinema – A Romantic Vision são mais discos de intérprete. Por isso, o lançamento de Mar de Dentro deve ser considerado um acontecimento.

Sua música nunca foi exatamente esfuziante. Dori é um dramático. Como sua irmã, tem um pé na densidade. Suas vozes também são graves e funcionam muito bem em despertar emoções fortes. A voz de Dori vem de “dentro”, é coisa de alma. Deve ser fruto de herança genética. Mesmo quem ouviu à exaustão o velho Caymmi, nunca deixará de se emocionar em cada audição de O Bem do Mar, apenas com o violão, ou de A Jangada Voltou Só. Tem Dois de Fevereiro e O Que É Que a Baiana Tem, mas aí é outra história. O “dengo” de Dorival é baiano. Dori nasceu no Rio. Isso não significa que não consiga fazer uma marchinha “pra frente”. É que no tom menor ele é maior.

Quebra-Mar, que abre o disco, é uma composição em que não há outro qualificativo se não o de maravilhoso para defini-la. Com Renato Braz dividindo os vocais, é uma peça emocionante. O grave da voz de Dori e o agudo de Braz se complementam. A próxima, Rio Amazonas, foi gravada antes por Wanda Sá. Não são inéditas também as belas É o Amor Outra Vez, gravado por Maria Bethânia, e Sem Poupar Coração e Saudade de Amar, pela irmã Nana (parecem ter sido feitas na medida para ela). Canções como Delicadeza, Fora de Hora e Armadilhas de Um Romance, são baladas, em tom menor. Tem canções nem tão esfuziantes como Dança do Tucano, Flauta, Sanfona e Viola. Mesmo o frevo – Chutando Lata –, em que divide os vocais com Edu Lobo, não é daquelas de fazer alguém sair por aí dançando ou chutando lata.

As letras de Paulo César Pinheiro são o perfeito complemento para o tom dado pelo músico. Exemplos: Sem Poupar Coração (Não quero mais/ Ouvir quem diz/ Que o amor é só/ Pra ser feliz/ Angústia ou paz/ Prazer ou dor/ Eu quero é mais/ Morrer de amor// Eu quero amar demais/ Sem poupar coração/ Que pra mim o amor que apraz/ É uma louca paixão/ Um amor só satisfaz/Além da razão.), ou Mundo de Dentro (…/ Cego é quem olha pro mundo e o mundo se põe como centro sem enxergar um segundo o mundo do mundo de dentro/ Cego só vê a medida do que alcança a visão, não olha nunca pra vida com olho do coração).

Veja Quebra-Mar com Dori e Renato Braz, em show no Teatro Espaço Tom Jobim, RJ, 2010, postado por Liza Hilel no YouTube.




Nana canta Sem Poupar Coração, de Dori e Paulo Cesar Pinheiro:




Maria Bethânia canta É o Amor Outra Vez:

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

The Boy in the Bubble por Peter Gabriel

David Vetter, o menino que viveu dentro da bolha
David Vetter nasceu com um problema no sistema imunológico impedindo-o de ter algum contato com o mundo externo. A Nasa construiu uma modalidade de bolha em que o ar era triplamente filtrado para impedir que entrasse algum tipo de germe nela. Foi o que o destino reservou ao pequeno David: viver dentro de uma bolha. Para que pudesse “dar uma voltinha” de vez em quando, como qualquer criança normal, criaram uma roupa especial para que pudesse sair da bolha, mesmo que, por alguns momentos. Tentaram um transplante de medula, sem sucesso. David viveu doze anos.

Produziu-se um filme inspirado nesse episódio, com John Travolta, em 1976. Nesse ano, David ainda estava vivo. A imagem da bolha é sugestiva: é bolha porque, numa hora, estoura. Em 1986, Paul Simon lançou Graceland. Não é o pioneiro em mesclar sons africanos com os ocidentais. Conseguiu, no entanto, um equilíbrio raro, bem diferente da música tipo “pacote turístico”. A quantidade de músicos, partícipes do projeto, é algo surpreendente. É uma verdadeira “legião estrangeira” e são de vários gêneros musicais, aparentemente, irreconciliáveis. Fizeram parte dele desde músicos associados ao country-folk, como Linda Ronstadt, Everly Brothers, “roqueiros” como Adrian Belew, jazzistas como John Faddis, Lew Soloff, Ronnie Cuber e Randy Brecker, e, principalmente, africanos das mais diferentes etnias. Graceland não atingiu o primeiro lugar nos EUA, mas na Inglaterra, no Canadá e na França, sim. Mesmo, depois de tanto tempo, resiste bem. Pois, quem abre o disco é uma música chamada The Boy in the Bubble, composição de Paul com o africano Forere Motloheloa. É excepcional. Tem uma levada que combina o som do acordeão de Motloheloa com um baixo, contagiante. Os dois opostos combinam-se: a natural melancolia da voz de Simon e a “expansividade” dos sons africanos.

Paul Simon: a calvície não é 
exclusividade de Peter Gabriel
Não há na música alguma alusão clara ao drama do garoto da bolha. Só se “The way we look to a distant constellation/ That's dying in a corner of the sky,/ These are the days of miracle and wonder/ And don't cry baby don't cry/ Don't cry”, ou “Medicine is magical and magical is art think of/ The Boy in the Bubble/ And the baby with the baboon heart” têm algo a ver com o caso de David ou de outro que teve problemas semelhantes.

Depois de um tempo sem gravar, sem muito estardalhaço, Peter Gabriel lançou Scaratch My Back. O tempo “fez coisa”. Assumiu a calvície, os cabelos embranqueceram e, hoje cultiva um charmoso cavanhaque. Passa a impressão que está em paz consigo. O plot de Scratch My Back (já falei sobre isso em outro post: http://bit.ly/g0Jzhd) foi o de gravar covers. Uma das escolhidas foi The Boy in the Bubble. Sua interpretação segue a tônica do resto do CD. É um disco melancólico, no geral; em algumas horas, dramático. Os arranjos orquestrais são de John Metcalfe, músico que participou do Durutti Column, de Vini Reilly. Está explicada a razão de tanta melancolia.

Em certas coisas, as pessoas não mudam demais. Se se pensar na carreira de Gabriel desde a banda Genesis, mesmo em músicas que são “para cima”, como Sledgehammer ou Shock the Monkey, há um componente dramático (principalmente) e melancólico.

Não existe um registro de boa qualidade em vídeo de The Boy in the Bubble (esse, de Verona, deve ter sido captada pela câmera de um telefone celular, mas se alguém tiver curiosidade, acesse http://bit.ly/hjsLZE).  Outra opção é ouvi-la no YouTube, apenas com a imagem da capa.