Com 75 anos hoje, Gary Burton, tornou-se conhecido entre os da minha geração ao gravar, com Chick Corea, o fabuloso “Crystal Silence” (ECM, 1972).
Com 18 anos completos, em 1961, lançou seu primeiro álbum solo: “New Vibe in Town”, com Gene Cherico e Joe Morello. Em 1962, foi a vez de “Who Is Gary Burton?”. Quem era esse rapaz? Tendo Lionel Hampton e Milt Jackson, como os grandes nomes do vibrafone, Burton era o “new talk of the town”. Revelava-se aquele que é até hoje um dos melhores de todos os tempos nesse instrumento. Neste último, tinha as companhias de Clark Terry, Bob Brookmeyer e Phil Woods, um trio de sopros de respeito, além Tommy Flanagam ao piano.
Os títulos de seus primeiros discos eram um anúncio da grande novidade. O terceiro, o melhor deles, foi “Something’s Coming”. Neste, contou com a brilhante guitarra de Jim Hall, o talento revelado na célebre banda de Jimmy Giuffre.
Ouça “On Green Dolphin Street”, com Jim Hall na guitarra.
Praticamente um auto-didata no vibrafone e na marimba, Burton, resolveu aprender piano aos 16, estudando depois na Berklee School of Music. Excursionou com George Shearing, tocou com Stan Getz, Larry Coryell e Steve Swallow. Em 1968 foi considerado o “Jazzman of the Year”, pela Downbeat, o mais jovem a ser laureado com tal título.
Depois de “Crystal Silence”, além de alguns duos com Corea, gravou belíssimos discos pela ECM. Um deles é “Ring” (1974), com uma superbanda composta por Eberhard Weber e Steve Swallow nos contrabaixos, Pat Metheny e Mick Goodrick nas guitarras, e Bob Moses na bateria. Como Burton, que foi revelado jovem ainda, foi a oportunidade para Metheny ficar conhecido e logo depois estrear com o solar “Bright Size Life” (ECM, 1976). Como é costumeiro na ECM, os músicos participam de vários projetos com outros do cast da gravadora. Além dos álbuns com Chick Corea, com seu quinteto e quarteto, tem outros com Ralph Towner (“Matchbook” e “Slideshow”), Steve Swallow (“Hello Hotel”), e por outras gravadoras, Stéphane Grappelli, Paul Bley e Keith Jarrett.
A partir de 1988 passou a gravar pela GRP, Concord Jazz e Mack Avenue. Os destques dessa fase mais recente são “Ástor Piazzolla Reunion: A Tango Excursion” (1998), “Libertango: The Music of Ástor Piazzolla” (1990) e “For Hamp, Red, Bags, and Cal” (2009) e “Quartet Live” (2009), com Pat Metheny, Steve Swallow e Antonio Sanchez. A parceria Corea-Burton manteve-se ativa, mesmo fora da ECM, com “Native Sense - New Duets” (1997), “The New Crystal Silence” (2008), e “Hot House” (2012).
Ouça algo de Gary Burton a seguir.
Mostrando postagens com marcador Gary Burton. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Gary Burton. Mostrar todas as postagens
quinta-feira, 27 de setembro de 2018
quinta-feira, 1 de outubro de 2015
Chick Corea (re)ouvido
![]() |
| Chick Corea quando jovem |
Logo no início da carreira já foi chamando a atenção de veteranos como Stan Getz e Miles Davis. Aliás, foi com o trompetista, tocando piano elétrico, que acontece a virada na carreira de Corea. Ele e alguns outros músicos que tocaram com Miles montam as principais bandas do que foi rotulado como jazz-rock ou jazz fusion. Corea montou o Return to Forever, Joe Zawinul e Wayne Shorter o Weather Report, e Herbie Hancock lança o revolucionário Head Hunters.
O meu primeiro contato com Chick foi com No Mystery (Polydor, 1975). Lançado no Brasil, não custava tanto quanto os importados. Nessa época, a gravadora Polygram soltava um bom número de títulos de jazz e de música erudita, além de ter sob contrato os maiores nomes da música brasileira.
E não foi o único de Corea a ser lançado aqui. Where Have I Known You Before, anterior ao No Mystery, saiu logo depois – ou foi o contrário? – não me lembro. Na mesma época, sairam alguns títulos da gravadora alemã ECM. Por este selo, outros LPs do americano foram disponibilizados: Piano Improvisations vol.1, Return to Forever (o título é de 1972 e passa ser o nome de sua banda composta por Stanley Clarke, Lenny White e Bill Connors, substituído por Al DiMeola, posteriormente), Circle (com Anthony Braxton, Dave Holland e Barry Altschull), e Crystal Silence, duo com o fabuloso vibrafonista Gary Burton. Os da ECM e os dois de sua banda elétrica eram uma boa amostra da sua versatilidade: free jazz no álbum com Anthony Braxton, virtuoso ao piano solo, lírico, tocando com Burton e “roqueiro” com a banda Return to Forever.
Em uma das primeiras edições do São Paulo-Montreux Jazz Festival – ou na primeira mesmo – Corea era uma das atrações. A sua apresentação foi calcada no repertório do disco The Leprechaum, o mais recente. O título era uma pista do que era o disco. Na sua nova fase, entrava no mundo das fadas, duendes e assemelhados. E, pelo jeito, a “fada” era Gayle Moran, a cantora de voz doce e etérea. Não por acaso, tornou-se sua mulher. Apesar de Gayle, não poderia perder a chance de ver o ídolo. Por sorte, um dos membros da banda era o flautista e saxofonista Joe Farrell. O momento maravilha do show foi justamente a dele no saxofone soprano e Corea no piano elétrico tocando Crystal Silence. Valeu por tudo.
Depois de The Leprechaum, lançou My Spanish Heart, um álbum duplo. Estava com um pé atrás. Comprei assim mesmo. Passei muito tempo sem saber se tinha gostado ou não. Mas essa história fica para a próxima.
Uma seleção pessoal dos discos de Chick Corea dessa época
• Todos os álbuns do Return to Forever são bons, ou quase. O primeiro, ainda com o nome de Chick, é Return to Forever (ECM 1972), excepcional, com uma de suas melhores composições: Crystal Silence. Conta com Airto Moreira, Flora Purim, Stanley Clarke e Joe Farrell. A curiosidade é que o primeiro álbum oficial do Return to Forever, nos EUA é Light as a Feather. O primeiro, lançado em 1972 na Europa, só saiu em 1975 no mercado americano.
Ouça o LP na íntegra. Crystal Silence é a segunda faixa (12:00)
• Light as a Feather. Segundo do RTF. Tem muito a ver com o anterior. Conta ainda com a mesma formação do anterior. É deste álbum uma das grandes composições de Corea: Spain.
Ouça. Os vocais são de Flora Purim.
• Hymn of the Seventh Galaxy (1973) é o primeiro com a pegada mais RTF. A banda é formada por Corea, Stanley Clarke, Lenny White e Bill Connors na guitarra.
Ouça na íntegra.
• Where Have I Known You Before (1974). Com a saída de Connors, que desejava seguir carreira solo, entra Al DiMeola. É uma mudança importante no RTF. Este é o melhor disco da banda, junto com o seguinte No Mystery. Excepcional.
Ouça Vulcan Words, a primeira faixa.
Ouça Song to the Pharoah Kings.
• No Mystery (1975). Obra prima do jazz fusion.
Dayride, faixa de abertura, composição de Stanley Clarke.
Jungle Waterfall tem uma batida irresistível.
Harmonia total entre Corea e Clarke em Interplay.
Puro balanço em Flight of the Newborn.
• Romantic Warrior (1976). É o primeiro na nova gravadora, Columbia. A guitarra de Al DiMeola é dominante. Apesar dele, é bom, menos que os anteriores, mas com grandes momentos. Algo em Romantic Warrior me fez ignorar Musicmagic, o posterior.
Medieval Overture é a faixa de abertura. É música para ouvir bem alta. Ouça.
A guitarra de DiMeola predomina em Majestic Dance.
O grande Corea acústico está presente em Now He Sings, Now He Sobs, como disse no começo. Steps-What Was abre o disco.
Matrix é a segunda faixa.
Ouça Windows.
Os títulos da ECM
Em sua maioria, são muito bons.
• Os solos ao piano. Todos ótimos: Piano Improvisations vol. I (1971), Piano Improvisations vol. 2 (1972), Delphi (1975)
• Tem quem não goste dos discos avant garde de Corea com Anthony Braxton, mas o pianista toca com músicos de primeira: A.R.C. (1971), Circle - Paris Concert (1971)
• Crystal Silence (1973), duo com Gary Burton, é extraordinário.
Marcadores:
Chick Corea,
Gary Burton,
Guen Yokoyama,
jazz,
Jazz fusion,
Jazz rock,
Joe Farrell,
música,
Return to Forever
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014
O encontro mágico de Gary Burton e Eberhard Weber
![]() |
| Gary Burton e Eberhard Weber juntos |
O vibrafone, como o piano, é um instrumento percussivo. E são muito diferentes. A invenção do vibrafone é mais recente que a do xilofone e a marimba. A razão de seu som parecer um tanto etéreo (a palavra pode não ser a mais adequada, mas na falta de outra…) se dá pelos trêmolos resultantes do funcionamento do motor elétrico que abre e fecha rapidamente. Tubos verticais de diferentes diâmetros e comprimentos produzem as notas. A marimba era muito comum em bandas latinas que se apresentavam nos clubes norte americanos e isso deve ter contribuído para que o vibrafone, bem menor em tamanho, passasse a ser incluída nas bandas de jazz.
O primeiro grande nome a surgir no vibrafone foi Lionel Hampton. É um dos músicos mais importantes da história do jazz, não somente por isso, mas por sua orquestra, que revelou, dentre outros, Dinah Washington, Charles Mingus, Johnny Griffin, Dizzy Gillespie, Wes Montgomery, Jimmy Cleveland e Illinois Jacquet.
Outros bem conhecidos são Milt Jackson, Red Norvo e Cal Tjader. Em gerações posteriores destacam-se Bobby Hutcherson e Gary Burton, e mais agora, Stefon Harris, Steve Nelson e Jason Adasiewicz.
Gary Burton não tinha 20 anos quando lançou New Vibe in Town (1961). E era um “new vibe” mesmo. Desde então, é um dos nomes mais importantes do instrumento, não só pela excelência técnica, mas por sua capacidade de se renovar criativamente.
Dois eventos foram responsáveis de uma geração de jovens que estavam na faixa dos 20 anos se interessar pelo jazz mais contemporâneo. Um foi a criação dos primeiros festivais direcionados (não exclusivamente, por motivos comerciais) ao gênero. Isso propiciou-os a conhecer novas gerações, como Chick Corea e John McLaughlin, assim como as mais velhas, por meio de Dizzy Gillespie, Zoot Sims, Stan Getz e Benny Carter, e também serviram para que tomasse contato maior com a música instrumental de Hermeto Pascoal e Egberto Gismonti. Outro evento foi o lançamento de itens do selo ECM. Keith Jarrett, Chick Corea e Pat Metheny ficaram conhecidos aqui quando eram raros os lançamentos de jazz.
Nessas primeiras levas saíram três álbuns que tinham participação de Gary Burton. Dois deles eram com Chick Corea, e outro, Ring. Era diferente e muito interessante, como vários outros discos da ECM, que nos mostravam um som que não era muito parecido com o jazz americano. Era o “the most beautiful sound next to silence”. O pessoal mais chegado ao mainstream odiava.
Em Ring, Burton montou um quinteto dos sonhos, aliás sexteto, pois contou com a participação especialíssima de Eberhard Weber. Com Burton no vibrafone, dois guitarristas – Pat Metheny e Mick Goodrick –, Bob Moses na bateria, Steve Swallow no baixo elétrico e Weber no contrabaixo elétrico, derivado do acústico, o chamado “upright bass”, pois é tocado na vertical, foi um sexteto dos sonhos.
Ouça Intrude.
Ouça The Colous of Chloe, composição de Weber. Ele abre tocando com o arco e depois sola.
O primeiro grande nome a surgir no vibrafone foi Lionel Hampton. É um dos músicos mais importantes da história do jazz, não somente por isso, mas por sua orquestra, que revelou, dentre outros, Dinah Washington, Charles Mingus, Johnny Griffin, Dizzy Gillespie, Wes Montgomery, Jimmy Cleveland e Illinois Jacquet.
Outros bem conhecidos são Milt Jackson, Red Norvo e Cal Tjader. Em gerações posteriores destacam-se Bobby Hutcherson e Gary Burton, e mais agora, Stefon Harris, Steve Nelson e Jason Adasiewicz.
Gary Burton não tinha 20 anos quando lançou New Vibe in Town (1961). E era um “new vibe” mesmo. Desde então, é um dos nomes mais importantes do instrumento, não só pela excelência técnica, mas por sua capacidade de se renovar criativamente.
Dois eventos foram responsáveis de uma geração de jovens que estavam na faixa dos 20 anos se interessar pelo jazz mais contemporâneo. Um foi a criação dos primeiros festivais direcionados (não exclusivamente, por motivos comerciais) ao gênero. Isso propiciou-os a conhecer novas gerações, como Chick Corea e John McLaughlin, assim como as mais velhas, por meio de Dizzy Gillespie, Zoot Sims, Stan Getz e Benny Carter, e também serviram para que tomasse contato maior com a música instrumental de Hermeto Pascoal e Egberto Gismonti. Outro evento foi o lançamento de itens do selo ECM. Keith Jarrett, Chick Corea e Pat Metheny ficaram conhecidos aqui quando eram raros os lançamentos de jazz.
Nessas primeiras levas saíram três álbuns que tinham participação de Gary Burton. Dois deles eram com Chick Corea, e outro, Ring. Era diferente e muito interessante, como vários outros discos da ECM, que nos mostravam um som que não era muito parecido com o jazz americano. Era o “the most beautiful sound next to silence”. O pessoal mais chegado ao mainstream odiava.
Em Ring, Burton montou um quinteto dos sonhos, aliás sexteto, pois contou com a participação especialíssima de Eberhard Weber. Com Burton no vibrafone, dois guitarristas – Pat Metheny e Mick Goodrick –, Bob Moses na bateria, Steve Swallow no baixo elétrico e Weber no contrabaixo elétrico, derivado do acústico, o chamado “upright bass”, pois é tocado na vertical, foi um sexteto dos sonhos.
Ouça Intrude.
Ouça The Colous of Chloe, composição de Weber. Ele abre tocando com o arco e depois sola.
Em 2007, Eberhard Weber gravaria um outro álbum com Burton: Passengers, não tão bom quanto o anterior.
Ouça Sea Journey.
Ouça Nacada.
quinta-feira, 20 de dezembro de 2012
Maneiras de tocar Piazzolla
Astor Piazzolla ter nasceu em Mar del Plata, Argentina, mas passou a infância em Nova York, na região conhecida como Little Italy. Poderia ter virado um mafioso, mas tornou-se músico e compositor dos mais importantes.
Piazzolla não parecia ser o cara mais simpático desse mundo. Em imagens disponíveis na internet, no máximo, um meio sorriso. Sofreu as agruras de ter “mexido” em uma tradição inquebrantável como o tango. Respeitadíssimo, não se pode dizer que os amantes desse gênero o levassem em alta consideração.
Em certa ocasião, se não me engano, no primeiro Montreux Jazz Festival brasileiro, em meados dos anos 1970, foi programada uma apresentação inicial com todos a maioria dos músicos escalados para convidados e para ser exibido ao vivo pela TV. Uma das atrações, o trumpetista e saxofonista alto Benny Carter, ao terminar o seu número, apresentou-o dizendo algo como: Agora vocês vão ouvir Astor “Pizzaiolo”. O argentino, nem abriu um sorriso. Entrou mudo, saiu calado.
Um dos primeiros discos que ajudou-o a tornar conhecido internacionalmente foi Summitt (Reunion Cumbre), lançado em 1974. É bom, interessante, mas não representa bem o seu repertório. É uma parceria com o sax barítono Gerry Mulligan. Se você é um curioso e não conhece essa gravação, é fácil descarregar pela internet, e foi reeditado dezenas de vezes, cad vez, com uma capa diferente.
Hoje, no Brasil inclusive, há uma oferta enorme de Piazzollas, a maioria na forma de coletâneas.
Piazzolla. Está muito bem representado, no entanto, como compositor em dezenas (centenas, talvez) de discos. Na sua maioria – nisso teve sorte – os discos tributos ou aqueles que contêm suas composições estão entre o bom e o ótimo: coisas de primeira, com ótimos intérpretes. Bom gosto puxa bom gosto.
Dentre eles, podem ser citados o vibrafonista americano Gary Burton e vários de músicos eruditos como Daniel Barenboim, Yo-Yo Ma, Gidon Kremer, Patrick Gallois e Göran Söllscher, Sérgio e Odair Assad, e o pianista Emanuel Ax.
Um dos melhores registros da música de Piazzolla não está em um disco dedicado exclusivamente a ele. Mi Buenos Aires Querido (Teldec, 1996) é o álbum no qual o pianista e regente Daniel Barenboim presta um tributo ao país em que nasceu. Das 14 músicas que compõem o CD, metade é de Piazzolla. São especiais as “estações” portenhas – Verano Porteño, Inverno Porteño, Primavera Porteña e Outono Porteño –, e Adiós Nonino. Barenboim imprime um tom mais intimista, menos dramático, acompanhado apenas do bandaneón de Rodolfo Mederos e do baixo de Héctor Console. É tango minimalista, com a classe de um dos grandes virtuoses do piano, politicamente engajado na questão palestina-israelense e maestro de obras de grande fôlego, como as óperas de Richard Wagner. Aliás, aqui está outro diferencial: ele é um judeu que quebrou com o tabu de não tocarem o autor de Tristão e Isolda e o ciclo do Anel dos Nibelungos.
Ouça Otoño Porteño, com Barenboim.
No universo do jazz, as gravações de Gary Burton estão em um patamar superior. O vibrafone é um instrumento que combina muito bem com o tango. O CD se chama Reunion (Concord Jazz, 1998) e conta com o pianista Pablo Ziegler, um dos maiores especialistas do gênero junto com o bandaneonista Rodolfo Mederos. Foi registrado em DVD uma apresentação de 2009, em Buenos Aires, sob o mesmo título – Reunion –, lançado pela Music Brokers em edição argentina. Um parêntesis: outro que se aventura por esse repertório com competência é o francês Richard Galliano. Há um registro ao vivo dele no acordeão e Michel Portal no bandaneón no CD Blow Up (Dreyfus Jazz, 1997) tocando Libertango, simplesmente excepcional. Executam também Oblivion, com Galliano no acordeão e Portal, aqui, na clarineta.
Veja Gary Burton tocando Libertango, do DVD da apresentação de Buenos Aires, em 2009. A banda: Pablo Ziegler (piano), Héctor Console (contrabaixo), Fernando Suárez Paz (violino), Ricardo Lew (violão), e Marcelo Nisinman (bandaneón).
Dentre os eruditos que se aventuraram pelo universo de Piazzolla, dois álbuns do violonista Gidon Kremer são muito interessantes, pois não se prendem somente às composições, sendo várias, releituras que transcendem ao tema original. Um se chama Hommage à Piazzolla (Nonesuch, 1996), e o outro, Astor Piazzolla, El Tango (Nonesuch, 1997). No segundo, Kremer conta com convidados especias muito especiais: Milva, em Rinasceró (Preludio para el año 3001), e Caetano Veloso, em El Tango, em que recita um poema de Jorge Luís Borges.
Ouça Oblivion, com Gidon Kremer (violino), Per Arne Glorvigen (bandaneón), Vadim Sakharov (piano) e Alois Posch (contrabaixo).
Assista à apresentação de Milva, com Astor Piazzolla em programa da RAI, interpretando Rinasceró (Preludio para el año 3001). Não é a do CD de Gidon Kremer.
Mais recentemente, foi lançado Piazzolla!, com a Orchestre National de Jazz. Os temas são arranjados pelo americano Gil Goldstein. É música executada por uma pequena orquestra composta por sopros, guitarra, teclados acústicos e elétricos, baixo e bateria. Não tem bandaneón, o que faz boa diferença em relação ao que estamos acostumados a ouvir e associamos ao tango e à Piazzolla. São arranjos sofisticados e muito interessantes.
Ouça Libertango, com solos de Vincent Lafont no Fender Rhodes e no Wurlitzer – algo bem incomum nesse tipo de repertório –, uma guitarra bela e delicada de Pierre Perchaud, e um naipe de sopros com flautas e saxofones em intervenções pontuais.
Piazzolla não parecia ser o cara mais simpático desse mundo. Em imagens disponíveis na internet, no máximo, um meio sorriso. Sofreu as agruras de ter “mexido” em uma tradição inquebrantável como o tango. Respeitadíssimo, não se pode dizer que os amantes desse gênero o levassem em alta consideração.
Em certa ocasião, se não me engano, no primeiro Montreux Jazz Festival brasileiro, em meados dos anos 1970, foi programada uma apresentação inicial com todos a maioria dos músicos escalados para convidados e para ser exibido ao vivo pela TV. Uma das atrações, o trumpetista e saxofonista alto Benny Carter, ao terminar o seu número, apresentou-o dizendo algo como: Agora vocês vão ouvir Astor “Pizzaiolo”. O argentino, nem abriu um sorriso. Entrou mudo, saiu calado.
Um dos primeiros discos que ajudou-o a tornar conhecido internacionalmente foi Summitt (Reunion Cumbre), lançado em 1974. É bom, interessante, mas não representa bem o seu repertório. É uma parceria com o sax barítono Gerry Mulligan. Se você é um curioso e não conhece essa gravação, é fácil descarregar pela internet, e foi reeditado dezenas de vezes, cad vez, com uma capa diferente.
Hoje, no Brasil inclusive, há uma oferta enorme de Piazzollas, a maioria na forma de coletâneas.
Piazzolla. Está muito bem representado, no entanto, como compositor em dezenas (centenas, talvez) de discos. Na sua maioria – nisso teve sorte – os discos tributos ou aqueles que contêm suas composições estão entre o bom e o ótimo: coisas de primeira, com ótimos intérpretes. Bom gosto puxa bom gosto.
Dentre eles, podem ser citados o vibrafonista americano Gary Burton e vários de músicos eruditos como Daniel Barenboim, Yo-Yo Ma, Gidon Kremer, Patrick Gallois e Göran Söllscher, Sérgio e Odair Assad, e o pianista Emanuel Ax.
Um dos melhores registros da música de Piazzolla não está em um disco dedicado exclusivamente a ele. Mi Buenos Aires Querido (Teldec, 1996) é o álbum no qual o pianista e regente Daniel Barenboim presta um tributo ao país em que nasceu. Das 14 músicas que compõem o CD, metade é de Piazzolla. São especiais as “estações” portenhas – Verano Porteño, Inverno Porteño, Primavera Porteña e Outono Porteño –, e Adiós Nonino. Barenboim imprime um tom mais intimista, menos dramático, acompanhado apenas do bandaneón de Rodolfo Mederos e do baixo de Héctor Console. É tango minimalista, com a classe de um dos grandes virtuoses do piano, politicamente engajado na questão palestina-israelense e maestro de obras de grande fôlego, como as óperas de Richard Wagner. Aliás, aqui está outro diferencial: ele é um judeu que quebrou com o tabu de não tocarem o autor de Tristão e Isolda e o ciclo do Anel dos Nibelungos.
Ouça Otoño Porteño, com Barenboim.
No universo do jazz, as gravações de Gary Burton estão em um patamar superior. O vibrafone é um instrumento que combina muito bem com o tango. O CD se chama Reunion (Concord Jazz, 1998) e conta com o pianista Pablo Ziegler, um dos maiores especialistas do gênero junto com o bandaneonista Rodolfo Mederos. Foi registrado em DVD uma apresentação de 2009, em Buenos Aires, sob o mesmo título – Reunion –, lançado pela Music Brokers em edição argentina. Um parêntesis: outro que se aventura por esse repertório com competência é o francês Richard Galliano. Há um registro ao vivo dele no acordeão e Michel Portal no bandaneón no CD Blow Up (Dreyfus Jazz, 1997) tocando Libertango, simplesmente excepcional. Executam também Oblivion, com Galliano no acordeão e Portal, aqui, na clarineta.
Veja Gary Burton tocando Libertango, do DVD da apresentação de Buenos Aires, em 2009. A banda: Pablo Ziegler (piano), Héctor Console (contrabaixo), Fernando Suárez Paz (violino), Ricardo Lew (violão), e Marcelo Nisinman (bandaneón).
Dentre os eruditos que se aventuraram pelo universo de Piazzolla, dois álbuns do violonista Gidon Kremer são muito interessantes, pois não se prendem somente às composições, sendo várias, releituras que transcendem ao tema original. Um se chama Hommage à Piazzolla (Nonesuch, 1996), e o outro, Astor Piazzolla, El Tango (Nonesuch, 1997). No segundo, Kremer conta com convidados especias muito especiais: Milva, em Rinasceró (Preludio para el año 3001), e Caetano Veloso, em El Tango, em que recita um poema de Jorge Luís Borges.
Ouça Oblivion, com Gidon Kremer (violino), Per Arne Glorvigen (bandaneón), Vadim Sakharov (piano) e Alois Posch (contrabaixo).
Assista à apresentação de Milva, com Astor Piazzolla em programa da RAI, interpretando Rinasceró (Preludio para el año 3001). Não é a do CD de Gidon Kremer.
Mais recentemente, foi lançado Piazzolla!, com a Orchestre National de Jazz. Os temas são arranjados pelo americano Gil Goldstein. É música executada por uma pequena orquestra composta por sopros, guitarra, teclados acústicos e elétricos, baixo e bateria. Não tem bandaneón, o que faz boa diferença em relação ao que estamos acostumados a ouvir e associamos ao tango e à Piazzolla. São arranjos sofisticados e muito interessantes.
Ouça Libertango, com solos de Vincent Lafont no Fender Rhodes e no Wurlitzer – algo bem incomum nesse tipo de repertório –, uma guitarra bela e delicada de Pierre Perchaud, e um naipe de sopros com flautas e saxofones em intervenções pontuais.
Nota: Todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.
Assista ao vídeo da Orchestre National de Jazz sobre o projeto Piazzolla!, com exclamação, como frisa Daniel Yvinec, diretor musical.
Assista ao vídeo da Orchestre National de Jazz sobre o projeto Piazzolla!, com exclamação, como frisa Daniel Yvinec, diretor musical.
Marcadores:
Astor Piazzolla,
Caetano Veloso,
Daniel Barenboim,
Gary Burton,
Gidon Kremer,
Guen Yokoyama,
jazz,
música,
Orchestre National de Jazz,
Tango
terça-feira, 24 de abril de 2012
O vibrafone de Gary Burton e Hot House, com ele e Chick Corea
![]() |
| Burton e Corea, em 1972: início do “casamento” |
O diferencial era o cuidado técnico, o esmero gráfico, meio minimalista, e, principalmente, as combinações dos universos de músicos de origens diversas. Formou um elenco estelar e multifacetado: Art Ensemble of Chicago, Jack DeJohnette, Gary Burton, Julian Priester, John Abercrombie, Kenny Wheeler, John Surman, Jan Garbarek e Terje Rypdal. Muitos deles continuam a gravar pela ECM.
Apesar das reservas e sabendo que era cuidadoso, Robert sempre emprestava os LPs para que eu os gravasse em fitas cassete. Foi assim meu primeiro contato com esse selo. Alguns anos depois, a WEA (ou foi a PolyGram?) lançou alguns títulos no Brasil. Foi a festa. Foi assim que tomei o primeiro contato com Gary Burton. O primeiro lançado chamava-se Ring. Na formação da banda incluiam-se dois guitarristas (Mick Goodrick e Pat Metheny), dois baixistas (Steve Swallow e Eberhard Weber), Burton no vibrafone (vibraharp) e Bob Moses na bateria.
O vibrafone tem uma história peculiar. É um instrumento percussivo, e o som das teclas “ressoa” em tubos metálicos posicionados verticalmente. Não há um repertório específico na música clássica. No jazz floresceu, não só com Red Norvo (leia no blogue Jazz + Bossa + Baratos Outros: http://bit.ly/J9OUAK), mas com um músico genial chamado Lionel Hampton. Ambos, mais Milt Jackson, do Modern Jazz Quartet, reinaram absolutos no vibrafone. Há um quarto: Cal Tjader. Esse americano de origem sueca “latinizou” o instrumento. Não fazia o gosto de todos os jazzmaníacos.
Gary Burton é de outra geração. Lançou em 1961 o primeiro solo – New Vibe in Town (RCA 1961) –, quando tinha apenas 18 anos. Realmente, esse americano com cara de certinho era o “new vibe in town”. Ao contrário de Hampton, Milt Jackson e Red Norvo, Burton usava quatro mallets em vez de dois. Desde então, gravou muito, principalmente como solista.
É de 1972 seu primeiro disco com o pianista Chick Corea: Crystal Silence. Hot House (Decca, 2012) é o mais recente dos dois. É o coroamento de 40 anos de parceria: dura mais que muitos casamentos. Combinam muito bem e, aparentemente, não pretendem se divorciar. Entre esses dois álbuns, gravaram Duet (ECM, 1979), In Concert, Zurich, October 28, 1979, Lyric Suite for Sextet (ECM, 1982), Native Sense (Concord, 1997), Like Minds (Concord Jazz, 1998, com Pat Metheny, Dave Holland e Roy Haynes) e The New Crystal Silence (Concord Jazz, 2008).
The New Crystal Silence é impecável: além de clássicos de Corea, como La Fiesta, Duende, Crystal Silence e Señor Mouse, interpretam Bill Evans (Waltz for Debby), Gus Arnheim (Sweet and Lovely) e Gershwin (I Loves You Porgy). Sente-se, porém, um gosto de certo déjà vu. A gravação é com orquestra. Acho, para falar a verdade, que ainda não ouvi direito esse disco.
Hot House parece mais interessante. Não faltam clássicos como Can’t We Be Friends e a música título, de Tadd Dameron. Há a interpretação de Eleanor Rigby, de Lennon & McCartney, muito boa, com solos brilhantes de ambos. É um dos pontos altos, sem dúvida. Light Blue é um tema de Thelonious Monk, sempre um espaço para boas construções musicais. A próxima canção é um clássico de outro monstro do piano – Dave Brubeck. O vibrafone e o piano se entendem, como disse, é um casamento perfeito, quando são esses dois.
Há dois temas de Tom Jobim: Once I Loved e Chega de Saudade. Esta última, acostumados que estamos a cantarolar o tema, Burton e Corea fazem leitura que foge um pouco das minhas expectativas, mas nem por isso, deixa de ser bela. O início de O Amor em Paz é um tanto etéreo com linhas “caminhantes” do piano e um vibrafone meio etéreo que logo nos introduz o tema de “eu amei/ E amei, ai de mim muito mais do que devia amar/ E chorei…”.
O CD fecha com duas belas faixas: My Ship, de Kurt Weill e Ira Gershwin, e Mozart Goes Dancing, a única com cordas a acompanhá-los (Harlem String Quartet), bem no estilo composicional de Corea.
Felicidade. Temos algumas coisas de Chick e Gary tocando juntos. Veja Eleanor Rigby.
E Chega de Saudade.
terça-feira, 27 de março de 2012
Handbags and Gladrags com Rod Stewart e Gary Burton
![]() |
| Rod Stewart um “poco loco” (reprod.) |
No tempo em que Rod não era o que é hoje, gravou bons discos. Nos anos 1970 e 80, tinha muito “roqueiro” célebre, mas não nesse sentido atual em que, para ser “celebridade” basta aparecer num Big Brother da vida, ou ser apenas um ricaço “aparecido”, ou uma prostituta de alto coturno tentando passar a imagem de milionária. Na era das discotecas como a do Studio 54, de Nova York, a nicaraguense Bianca Jagger era célebre por ser a mulher de Mick apenas. Pela língua viperina de Truman Capote, esse que deixou de ser escritor para virar “carne de vaca” nas colunas sociais, soube-se que Bianca tinha um cecê (é assim na nova ortografia?) bravo, ou como se dizia também, “budum”.
David Bowie, Mick Jagger, Iggy Pop, Lou Reed e Rod Stewart eram protagonistas desse grande mundo de futilidades que Andy Warhol tinha antecipado. Mas eles não estavam preocupados em passar uma imagem de bom mocismo; muito pelo contrário: Lou Reed namorou por um tempo um travesti, Elton John não tinha saído do armário, mas o armário já tinha fugido dele; foram publicadas fotos de Mick Jagger, Lou Reed e David Bowie se beijando (parece que Jagger transou com Angela – “deu” até na música Angie – e com Bowie também. A droga da moda não era mais a maconha nem o ácido lisérgico, e sim, a cocaína. O pó e o álcool dava em poderosa combinação. A festa para os paparazzi eram esses astros e estrelas em seus momentos mais vexatórios. Quanto pior melhor. Mais que a celulite de Juliana Paes e de Caroline Dieckman, interessantes eram as imagens chocantes de Jagger travado, Elton John barbarizando. Rod Stewart não escapou. Há uma foto célebre dele pra lá de bêbado.
![]() |
| Abraços e beijinhos sem ter fim (reprod.) |
O problema de Rod começou quando resolveu vestir terninhos brancos, jogar luzers nos cabelhos de vassoura de palha e colocar boné de marinheiro para cantar Sailing ou rodear-se de belas mulheres para sair bem na foto.
Depois de ter participado da banda de Jeff Beck (leia sobre ele cantando Ol’ Man River em http://bit.ly/HcRAMh), montou, com Ronnie Wood, o The Faces. Assinou contrato solo pela
Mercury. Seu primeiro álbum foi An Old Raincoat Won’t Ever Let You Down, em 1969. Grande disco! Depois, foi a vez de Gasoline Alley. Mas estourou mesmo com o seguinte: Every Picture Tells a Story. Maggie May vendeu muito. Lançou depois Never a Dull Moment. Paralelamente, seguiu com o The Faces.
An Old Raincoat Won’t Ever Let You Down (nos EUA chamou-se The Rod Stewart Album) é um disco de grandes interpretações. A primeira é Street Fighting Man, de Jagger & Richards. Muito boa; na guitarra e no baixo, lá está Ronald – mais tarde Ronnie – Wood, o futuro segunda guitarra dos Rolling Stones, companheiro no The Faces. Não é pesada como a original, mas é perfeita na voz “muito especial” de Rod. A seguinte é um belíssimo lamento: Man of Constant Sorrow. Em Blind Prayer é a vez do tecladista Ian Maclagan – outro companheiro do Faces – de abrir a música para as guitarras de Martin Pugh e Wood, e o violão acústico de Martin Quittenton. A música título é de autoria do cantor, assim como as duas seguintes (I Wouldn’t Ever Change a Thing e Cindy’s Lament). O disco é concluído com Dirty Old Town.
Pulei deliberadamente a quarta faixa. Handbags and Gladrags. É um original de Mike D’Abo, ex-Manfred Mann. É a melhor, na minha opinião do disco.
Se você não a conhece, dê uma ouvida aqui.
Há muito tempo não ouvia Handbags and Gladrags. Para minha surpresa, existe uma interpretação solo do vibrafonista Gary Burton em Alone at Last (Atlantic, 1972). Ele é uma dos que fizeram parte da minha“infância” musical. Conheci-o pelos discos lançados pela gravadora ECM. Quando passou a gravar na ECM já tinha dez anos de estrada; lançou o primeiro solo em 1961. Os duos que fez com o tecladista Chick Corea são excepcionais. Tive a chance de vê-lo em uma apresentação no auditório do Anhembi, em São Paulo.
Pode ser que alguns não sabem quem são as figuras na foto: Lou Reed, Mick Jagger e David Bowie (esquerda para a direita)
Assinar:
Postagens (Atom)






