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| Burton e Corea, em 1972: início do “casamento” |
O diferencial era o cuidado técnico, o esmero gráfico, meio minimalista, e, principalmente, as combinações dos universos de músicos de origens diversas. Formou um elenco estelar e multifacetado: Art Ensemble of Chicago, Jack DeJohnette, Gary Burton, Julian Priester, John Abercrombie, Kenny Wheeler, John Surman, Jan Garbarek e Terje Rypdal. Muitos deles continuam a gravar pela ECM.
Apesar das reservas e sabendo que era cuidadoso, Robert sempre emprestava os LPs para que eu os gravasse em fitas cassete. Foi assim meu primeiro contato com esse selo. Alguns anos depois, a WEA (ou foi a PolyGram?) lançou alguns títulos no Brasil. Foi a festa. Foi assim que tomei o primeiro contato com Gary Burton. O primeiro lançado chamava-se Ring. Na formação da banda incluiam-se dois guitarristas (Mick Goodrick e Pat Metheny), dois baixistas (Steve Swallow e Eberhard Weber), Burton no vibrafone (vibraharp) e Bob Moses na bateria.
O vibrafone tem uma história peculiar. É um instrumento percussivo, e o som das teclas “ressoa” em tubos metálicos posicionados verticalmente. Não há um repertório específico na música clássica. No jazz floresceu, não só com Red Norvo (leia no blogue Jazz + Bossa + Baratos Outros: http://bit.ly/J9OUAK), mas com um músico genial chamado Lionel Hampton. Ambos, mais Milt Jackson, do Modern Jazz Quartet, reinaram absolutos no vibrafone. Há um quarto: Cal Tjader. Esse americano de origem sueca “latinizou” o instrumento. Não fazia o gosto de todos os jazzmaníacos.
Gary Burton é de outra geração. Lançou em 1961 o primeiro solo – New Vibe in Town (RCA 1961) –, quando tinha apenas 18 anos. Realmente, esse americano com cara de certinho era o “new vibe in town”. Ao contrário de Hampton, Milt Jackson e Red Norvo, Burton usava quatro mallets em vez de dois. Desde então, gravou muito, principalmente como solista.
É de 1972 seu primeiro disco com o pianista Chick Corea: Crystal Silence. Hot House (Decca, 2012) é o mais recente dos dois. É o coroamento de 40 anos de parceria: dura mais que muitos casamentos. Combinam muito bem e, aparentemente, não pretendem se divorciar. Entre esses dois álbuns, gravaram Duet (ECM, 1979), In Concert, Zurich, October 28, 1979, Lyric Suite for Sextet (ECM, 1982), Native Sense (Concord, 1997), Like Minds (Concord Jazz, 1998, com Pat Metheny, Dave Holland e Roy Haynes) e The New Crystal Silence (Concord Jazz, 2008).
The New Crystal Silence é impecável: além de clássicos de Corea, como La Fiesta, Duende, Crystal Silence e Señor Mouse, interpretam Bill Evans (Waltz for Debby), Gus Arnheim (Sweet and Lovely) e Gershwin (I Loves You Porgy). Sente-se, porém, um gosto de certo déjà vu. A gravação é com orquestra. Acho, para falar a verdade, que ainda não ouvi direito esse disco.
Hot House parece mais interessante. Não faltam clássicos como Can’t We Be Friends e a música título, de Tadd Dameron. Há a interpretação de Eleanor Rigby, de Lennon & McCartney, muito boa, com solos brilhantes de ambos. É um dos pontos altos, sem dúvida. Light Blue é um tema de Thelonious Monk, sempre um espaço para boas construções musicais. A próxima canção é um clássico de outro monstro do piano – Dave Brubeck. O vibrafone e o piano se entendem, como disse, é um casamento perfeito, quando são esses dois.
Há dois temas de Tom Jobim: Once I Loved e Chega de Saudade. Esta última, acostumados que estamos a cantarolar o tema, Burton e Corea fazem leitura que foge um pouco das minhas expectativas, mas nem por isso, deixa de ser bela. O início de O Amor em Paz é um tanto etéreo com linhas “caminhantes” do piano e um vibrafone meio etéreo que logo nos introduz o tema de “eu amei/ E amei, ai de mim muito mais do que devia amar/ E chorei…”.
O CD fecha com duas belas faixas: My Ship, de Kurt Weill e Ira Gershwin, e Mozart Goes Dancing, a única com cordas a acompanhá-los (Harlem String Quartet), bem no estilo composicional de Corea.
Felicidade. Temos algumas coisas de Chick e Gary tocando juntos. Veja Eleanor Rigby.
E Chega de Saudade.

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