quinta-feira, 21 de maio de 2015

O pianista prodígio Joey Alexander

Herbie Hancock e Joey Alexander
Um garoto de calça jeans, vestindo uma camiseta com uma imagem do Joy Division desliza sobre patins no Central Park em uma tarde ensolarada. Perguntam-lhe se gosta da banda de Ian Curtis. “Sei pouco dela – admite –, mas gosto da camiseta.” Os óculos um pouco grandes para o rosto de menino impúbere, de aros grossos, lhe dão um ar levemente nerd.

Com seis anos começou a dedilhar no piano da família. Uma das primeiras coisas que conseguiu tocar foi Well You Needn’t, de Thelonious Monk. Era uma das canções de que tinha gostado da coleção de CDs de jazz do pai, que tinha adquirido gosto pelo gênero quando estudou finanças na Pace University, em Nova York. Logo o colocaram em uma escola de música.

Percebendo o talento do menino, saíram de Bali, e mudaram-se para Jacarta. Em pouquíssimo tempo, participava de jam sessions com outros músicos, que o convidavam. Josiah Alexander Sila era um fenômeno. Com poucas aulas, sua evolução era surpreendente e revelava uma intuição musical que extrapolava o simples aprendizado. A reviravolta na vida de Josiah, agora chamado Joey, aconteceria quando foi convidado para tocar com Herbie Hancock em um evento patrocinado pela Unesco.

A vida da família Sila passou a girar em torno do pequeno Joey. Depois de ter se apresentado em festivais de jazz em Jacarta e Copenhagen e ter recebido calorosa acolhida, mudaram-se para Nova York. No pouco tempo em que está na cidade, tocou no Lincoln Center, ganhou elogios de Wynton Marsalis, foi convidado a apresentar-se em agosto no Festival de Jazz de Newport, e assinou contrato com a gravadora Mótema Music, pela qual acaba de lançar o álbum My Favorite Things.


Meninos prodígios
Na música erudita, são conhecidos muitos casos de garotos (ou garotas) prodígios, como os de Mozart e dos pianistas Nelson Freire, Claudio Arrau e Martha Argerich – para ficarmos apenas nos exemplos de latino americanos. Mas no jazz isso também não é tão incomum. Conhecidos, temos o guitarrista Biréli Lagrène, o menino cigano que foi revelado com sete anos, e o saxofonista alto Francesco Cafiso, que gravou seu primeiro álbum com 15 anos. Mas Joey Alexander é um caso especial, não apenas pela facilidade em tocar o piano, tornando-se desnecessário até aulas no conservatório, mas pela facilidade de improvisar sobre os temas, coisa que quase nenhum prodígio da música erudita consegue. Uma boa mostra dessa limitação é a admiração que Nelson Freire tem por Erroll Garner, revelada no documentário dirigido por João Moreira Salles. É a admiração pelo dom que Nelson não tem: a capacidade de improvisar.

Quem ouve o piano de Joey sem vê-lo, nunca imaginará que tem apenas 13 anos. Isso não acontece apenas pela técnica, apesar dos poucos anos de aprendizado, mas pela sua capacidade de improviso. São poucos os que têm o dom de criar dinâmicas sonoras a partir de um tema. Pelo que demonstrou, é um gênio. Talvez seja precoce dizer que é. Se não evoluir e tornar-se um fracasso, não será o primeiro. No jazz, um bom exemplo é Elgar Djangarov. Descoberto no Quirquistão, participou do programa de Marian McPartland quando tinha 12 anos, e revelou uma técnica fenomenal. Mas técnica não é o suficiente. Aparentemente, não está vingando. É a minha opinião, esclareço. Quando o vi, em um festival em São Paulo, achei muito chato. De instrumentistas habilidosos estamos cheios.

A prova de que Joey Alexander possui essa inteligência musical que extrapola a técnica, basta ouví-lo executando Giant Steps, de John Coltrane, faixa de abertura de My Favorite Things.






Veja Alexander executando Lush Life, de Billy Strayhorn, em um programa de televisão, na Indonésia. Essa canção é a segunda faixa do álbum, nesta apresentação, com outros músicos.





Outra composição incluída no CD é ’Round Midnight. Veja-o tocando a mesma música no Lincoln Center, quando tinha 10 anos.





Ma Blues é uma das melhores faixas do álbum. Ouça.Veja-o tocando Ma Blues com seu trio indonesiano.






Ninguém imaginaria que um tema da Disney se tornasse um standard do jazz. Ouça Joey em My Favorite Things, clássico consagrado por uma versão matadora de John Coltrane no saxofone soprano.





Over the Rainbow é o tema que fecha o álbum.

terça-feira, 19 de maio de 2015

O samba jazz de Duduka da Fonseca


Um dos nomes mais conhecidos dentre os músicos brasileiros emigrados nos EUA é o de Duduka da Fonseca. Desde 1975 morando lá é um quase americano, mas muito brasileiro. É como aquela frase (preconceituosa?): o nordestino sai do nordeste, mas o nordeste não sai dele. Pois o Brasil não sai de Duduka.

No mais recente, Jive Samba (Zoho Records, 2015), as gravações aconteceram no Rio de Janeiro, com David Feldman (piano) e Guto Wirtti (contrabaixo). O saxofonista Paulo Levi, atualmente, morando também nos EUA, participa da quarta faixa.

A graça desse álbum é a de Duduka tocar apenas composições de americanos apenas com brasileiros atualmente aqui radicados, com exceção de Levi. É para provar que John Scofield, McCoy Tyner, Joe Henderson, Clare Fischer (este, um apaixonado pelo Brasil), Keith Jarrett, Nat Adderley, Kenny Barron (outro apaixonado pelo Brasil), Wayne Shorter e Chick Corea podem ser samba, ou melhor, samba jazz, de que ele é especialista.

Sendo a bateria um instrumento de “cozinha”, sempre me pareceram estranhos discos tendo-os como líder. Acho que muitos acham um porre longos solos desse instrumento. É então irônico que, apesar de terem seus nomes em destaque na capa, quem aparece são os outros. É assim com o melhor baterista do mundo, seja ele Elvin Jones, Art Blakey, Jack DeJohnette, Max Roach, Brian Blade, Tony Williams ou Paul Motian. Pois a sapiência do baterista como líder está em dar a direção, ou o tom. É o que Duduka faz bem em Jive Samba. Sendo uma gravação no formato trio (com exceção da que Paulo Levi participa tocando saxofone), quem brilha é David Feldman. Este é um pianista em quem se deve prestar atenção. Depois de formar-se na New School of Jazz and Contemporary Music, em Nova York, voltou ao Brasil e tem dois bons álbuns gravados: O Som do Beco das Garrafas (Tratore, 2005) e Solo (Tratore, 2014).

Duduka abre com a música que o intitula: Jive Samba, de Nat Adderley. A temperatura sobe com Lucky Southern, de Keith Jarrett. A terceira é um dos destaques: Sco’s Bossa, composição de primeira do irregular e barulhento John Scofield. O baterista deve gostar da música. É a segunda vez que grava. A primeira foi em Samba Jazz Fantasia (2002).

Ouça.




Recordame, de Joe Henderson, é a única que entra um quarto instrumento: o saxofone tenor de Paulo Levi. É a faixa com um longo solo do baterista no minuto e meio inicial. Peresina é outro destaque. Feldman abre com um piano bem à la McCoy Tyner, autor do tema. Clouds, de Kenny Baron, é poética, evocativa. Seguem-na Pensativa, do “brasilianista” Clare Fischer, Speak Like a Child, de Wayne Shorter, em andamento bem bossa, El Gaucho, do mesmo autor, e fecha com chave de ouro com uma das grandes composições do início da carreira de Chick Corea: Samba Yantra.

Ouça