terça-feira, 19 de maio de 2015

O samba jazz de Duduka da Fonseca


Um dos nomes mais conhecidos dentre os músicos brasileiros emigrados nos EUA é o de Duduka da Fonseca. Desde 1975 morando lá é um quase americano, mas muito brasileiro. É como aquela frase (preconceituosa?): o nordestino sai do nordeste, mas o nordeste não sai dele. Pois o Brasil não sai de Duduka.

No mais recente, Jive Samba (Zoho Records, 2015), as gravações aconteceram no Rio de Janeiro, com David Feldman (piano) e Guto Wirtti (contrabaixo). O saxofonista Paulo Levi, atualmente, morando também nos EUA, participa da quarta faixa.

A graça desse álbum é a de Duduka tocar apenas composições de americanos apenas com brasileiros atualmente aqui radicados, com exceção de Levi. É para provar que John Scofield, McCoy Tyner, Joe Henderson, Clare Fischer (este, um apaixonado pelo Brasil), Keith Jarrett, Nat Adderley, Kenny Barron (outro apaixonado pelo Brasil), Wayne Shorter e Chick Corea podem ser samba, ou melhor, samba jazz, de que ele é especialista.

Sendo a bateria um instrumento de “cozinha”, sempre me pareceram estranhos discos tendo-os como líder. Acho que muitos acham um porre longos solos desse instrumento. É então irônico que, apesar de terem seus nomes em destaque na capa, quem aparece são os outros. É assim com o melhor baterista do mundo, seja ele Elvin Jones, Art Blakey, Jack DeJohnette, Max Roach, Brian Blade, Tony Williams ou Paul Motian. Pois a sapiência do baterista como líder está em dar a direção, ou o tom. É o que Duduka faz bem em Jive Samba. Sendo uma gravação no formato trio (com exceção da que Paulo Levi participa tocando saxofone), quem brilha é David Feldman. Este é um pianista em quem se deve prestar atenção. Depois de formar-se na New School of Jazz and Contemporary Music, em Nova York, voltou ao Brasil e tem dois bons álbuns gravados: O Som do Beco das Garrafas (Tratore, 2005) e Solo (Tratore, 2014).

Duduka abre com a música que o intitula: Jive Samba, de Nat Adderley. A temperatura sobe com Lucky Southern, de Keith Jarrett. A terceira é um dos destaques: Sco’s Bossa, composição de primeira do irregular e barulhento John Scofield. O baterista deve gostar da música. É a segunda vez que grava. A primeira foi em Samba Jazz Fantasia (2002).

Ouça.




Recordame, de Joe Henderson, é a única que entra um quarto instrumento: o saxofone tenor de Paulo Levi. É a faixa com um longo solo do baterista no minuto e meio inicial. Peresina é outro destaque. Feldman abre com um piano bem à la McCoy Tyner, autor do tema. Clouds, de Kenny Baron, é poética, evocativa. Seguem-na Pensativa, do “brasilianista” Clare Fischer, Speak Like a Child, de Wayne Shorter, em andamento bem bossa, El Gaucho, do mesmo autor, e fecha com chave de ouro com uma das grandes composições do início da carreira de Chick Corea: Samba Yantra.

Ouça

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