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quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

John Cheever e Mad About the Boy quente e frio

John Cheever, autor de O Nadador
Agora há pouco tempo, a canadense Alice Munro recebeu o prêmio Nobel de Literatura. Poucos apostavam no seu nome por ser contista, gênero, por muitos, considerado menor. A América do Norte possui um belo plantel de mestres da narrativa curta, como Sherwood Anderson, autor de “Winesburg, Ohio”, e John Cheever, autores que se destacaram retratando a vida americana.

Quando Munro foi agraciada com o Nobel, uma das definições mais comuns a surgir foi a de que era um “Tchekov de saias”. Parece que é uma forma fácil de definir contistas: John Cheever também foi comparado ao russo. Em comum entre a canadense e o americano é o objeto das suas narrativas. O mundo de Munro é o dos habitantes de pequenas cidades e as personagens retratadas são pessoas comuns. O incomum é uma certa pulsão sexual estranha e que chega a ser um tanto bizarra, como a do optometrista encontrado submerso dentro de seu carro em um lago, morto por ter assediado uma paciente.

O universo de Cheever é um tanto diferente do de Munro. O dele é o do morador dos subúrbios e, aparentemente, mais prósperos financeiramente: são em sua maioria, da classe média. Publicando por décadas na The New Yorker, encontrou seu público na revista por identificação socioeconômica. Na previsível e confortável vida desses americanos, em suas narrativas, com frequência, o leitor de depara com algo inusitado. Em “O Enorme Rádio”, o marido presenteia a mulher com um rádio que substitui o antigo que quebrara.

Irene ouvia um quinteto de Mozart. Percebeu um estalido e junto com a música, um som que parecia com o barulho das ondas. Outros ruídos se juntaram e ainda tentou acompanhar a melodia. Imaginou que poderia ser algum problema de estática, muito comuns antigamente. Percebeu um som que pareciam ser dos cabos do elevador, o das portas que se abriam e se fechavam, um barulho de uma aspirador de pó ligado, uma campainha de um telefone.

Um técnico foi verificar se o aparelho tinha algum problema. À noite, Jim Wescott chegou cansado do trabalho. Tomou um banho, trocou de roupa e se juntou a Irene. O rádio tocava um prelúdio de Chopin. Repentinamente é interrompido pela voz de um homem: “Meu Deus, Kathy, você sempre tem de tocar piano quando chego em casa?” A música parou e ouviu-se o bater de uma porta. Ambos ficaram intrigados achando que pudesse ser a transmissão de alguma novela. Girou o botão e ouviram outro diálogo, dessa vez de um casal se aprontando para sair. Irene reconhece uma voz. Era a da babá dos Sweeney, uma vizinha. Ouviu outras vozes e diálogos. O “enorme rádio” transmitia o que acontecia, em tempo real, no prédio. “Irene continuou a girar o botão e invadiu a privacidade de várias mesas durante o café da manhã. Ouviu demonstrações de indigestão, amor carnal, vaidade sem limite, fé e desespero. A vida de Irene era quase tão simples e protegida como parecia ser, e a linguagem direta e às vezes brutal que vinha do alto-falante naquela manhã a surpreendeu e perturbou.” (“28 Contos de John Cheever”. Trad. Jorio Dauster. Companhia das Letras, 2010)

Neddy Merrill é um sujeito, que não sendo tão jovem, mantém um físico esbelto. As pessoas ficam em volta da piscina e passam a tarde ensolarada de um domingo de verão bebendo e conversando. Ocorre-lhe de voltar a sua casa, a treze quilômetros de lá, nadando. Fazendo um percurso em L, pensou, “poderia chegar em casa por uma via aquática”. Passaria pelas residências dos “Graham, os Hammer, os Lear, os Howland e os Crosscup”, em primeiro lugar.

O enredo incomum virou filme. O nadador é Burt Lancaster. Dirigido por Frank Perry, foi lançado em 1968. O conto é de 1964. A história maluca de Neddy resolvendo voltar a nado para casa inspirou um dos melhores filmes de propaganda já feitos da Levis 501. Veja.




O tema musical escolhido foi “Mad About the Boy”, interpretada por Dinah Washington.
Lembraram-se que Dinah era o máximo e que a música composta por Noel Coward na década de 1930, século passado, portanto, também, era o máximo. Existem gravacões com Blossom Dearie, Julie London, Anita O’Day, cantoras nem um pouco obscuras, mas ficou a de Dinah. É a top of mind, o que não é pouco se às três citadas anteriormente, adicionarmos Carmen McRae, Helen Merrill, Jeri Southern e Dinah Shore. “Mad About the Boy”, com Washington é quente, vibrante, como quase tudo dela. Mas, noutro dia, ouvi essa canção na voz de uma inglesa, como Noel, mais “cool”, e achei o máximo. É o que compartilho aqui.

Mad About the Boy “fria”: Liane Carroll




Ouça outras interpretações clássicas.

Com Anita O’Day.




Uma antigona. Helen Forrest..




quarta-feira, 18 de maio de 2011

Mad about the Boy (ou, loucas pela mesma coisa)

Coward, Noel Coward. Sir.

Ao contrário de “The Man I Love”, clássico composto por George Gershwin, com letra do irmão Ira, desconheço se há uma versão para o sexo oposto de “Mad about the Boy”, e menos ainda, interpretada por alguém do sexo masculino. [sobre “The Man I Love” versão para homens, leia: Homens amam “The Man I Love”. E, as mulheres também]

Nöel Coward foi um desses multitalentos a quem a história destinou um lugar especial no show business. Precoce, aos onze anos estreou na peça “The Goldfish”, em 1911. Em suas memórias relata sobre o debut no teatro: um anúncio no jornal Daily Mirror pedia por “um talentoso garoto de boa aparência” para uma peça infantil. Esse garoto por quem procuravam era ele.

A atuação em “The Goldfish” foi apenas o primeiro passo para uma carreira gloriosa no show business. De ator infantil, virou um dos maiores dramaturgos do Reino Unido. Nasceu no meio operário e virou “sir”, como John Lennon. A monarquia britânica sempre foi pródiga em reconhecer os talentos no campo das artes e da ciência.

Uma das composições mais conhecidas de Nöel é “Mad About the Boy”, de 1932. Virou standard e, como “The Man I Love”, interpretada por um time de primeira. A clássica é o registro de 1961 (no Wikipedia dão 1952 como data de gravação, mas devem estar enganados), por Dinah Washington, com belíssimo arranjo de Quincy Jones. Curiosamente, “explodiu” mesmo foi em 1969 por conta de um comercial da Levi’s. O anúncio feito para a televisão é um clássico. Inspirado no filme The Swimmer, estrelado por Burt Lancaster, que, por sua vez, foi baseado em um belo conto do americano John Cheever, tem como fundo musical a composição de Coward, na voz de Washington,. Essa bela peça publicitária alardeia as qualidades da clássica Levi’s 501.

Veja o comercial.




Mas composição tão clássica, evidentemente, não foi registrada apenas por essa cantora que morreu cedo em decorrência do abuso de remédios para emagrecer (os americanos morrem com remédios que parecem inofensivos, como analgésicos, caso de Michael Jackson e Heath Ledger). Ouça a de Helen Forrest (belíssima) e a de AnitaO’Day.

Grande Anita! Nem uma garrafa de vodca por dia acabou com ela.



Helen Forrest em clássica interpretação.