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| John Cheever, autor de O Nadador |
Quando Munro foi agraciada com o Nobel, uma das definições mais comuns a surgir foi a de que era um “Tchekov de saias”. Parece que é uma forma fácil de definir contistas: John Cheever também foi comparado ao russo. Em comum entre a canadense e o americano é o objeto das suas narrativas. O mundo de Munro é o dos habitantes de pequenas cidades e as personagens retratadas são pessoas comuns. O incomum é uma certa pulsão sexual estranha e que chega a ser um tanto bizarra, como a do optometrista encontrado submerso dentro de seu carro em um lago, morto por ter assediado uma paciente.
O universo de Cheever é um tanto diferente do de Munro. O dele é o do morador dos subúrbios e, aparentemente, mais prósperos financeiramente: são em sua maioria, da classe média. Publicando por décadas na The New Yorker, encontrou seu público na revista por identificação socioeconômica. Na previsível e confortável vida desses americanos, em suas narrativas, com frequência, o leitor de depara com algo inusitado. Em “O Enorme Rádio”, o marido presenteia a mulher com um rádio que substitui o antigo que quebrara.
Irene ouvia um quinteto de Mozart. Percebeu um estalido e junto com a música, um som que parecia com o barulho das ondas. Outros ruídos se juntaram e ainda tentou acompanhar a melodia. Imaginou que poderia ser algum problema de estática, muito comuns antigamente. Percebeu um som que pareciam ser dos cabos do elevador, o das portas que se abriam e se fechavam, um barulho de uma aspirador de pó ligado, uma campainha de um telefone.
Um técnico foi verificar se o aparelho tinha algum problema. À noite, Jim Wescott chegou cansado do trabalho. Tomou um banho, trocou de roupa e se juntou a Irene. O rádio tocava um prelúdio de Chopin. Repentinamente é interrompido pela voz de um homem: “Meu Deus, Kathy, você sempre tem de tocar piano quando chego em casa?” A música parou e ouviu-se o bater de uma porta. Ambos ficaram intrigados achando que pudesse ser a transmissão de alguma novela. Girou o botão e ouviram outro diálogo, dessa vez de um casal se aprontando para sair. Irene reconhece uma voz. Era a da babá dos Sweeney, uma vizinha. Ouviu outras vozes e diálogos. O “enorme rádio” transmitia o que acontecia, em tempo real, no prédio. “Irene continuou a girar o botão e invadiu a privacidade de várias mesas durante o café da manhã. Ouviu demonstrações de indigestão, amor carnal, vaidade sem limite, fé e desespero. A vida de Irene era quase tão simples e protegida como parecia ser, e a linguagem direta e às vezes brutal que vinha do alto-falante naquela manhã a surpreendeu e perturbou.” (“28 Contos de John Cheever”. Trad. Jorio Dauster. Companhia das Letras, 2010)
Neddy Merrill é um sujeito, que não sendo tão jovem, mantém um físico esbelto. As pessoas ficam em volta da piscina e passam a tarde ensolarada de um domingo de verão bebendo e conversando. Ocorre-lhe de voltar a sua casa, a treze quilômetros de lá, nadando. Fazendo um percurso em L, pensou, “poderia chegar em casa por uma via aquática”. Passaria pelas residências dos “Graham, os Hammer, os Lear, os Howland e os Crosscup”, em primeiro lugar.
O enredo incomum virou filme. O nadador é Burt Lancaster. Dirigido por Frank Perry, foi lançado em 1968. O conto é de 1964. A história maluca de Neddy resolvendo voltar a nado para casa inspirou um dos melhores filmes de propaganda já feitos da Levis 501. Veja.
O tema musical escolhido foi “Mad About the Boy”, interpretada por Dinah Washington.
Lembraram-se que Dinah era o máximo e que a música composta por Noel Coward na década de 1930, século passado, portanto, também, era o máximo. Existem gravacões com Blossom Dearie, Julie London, Anita O’Day, cantoras nem um pouco obscuras, mas ficou a de Dinah. É a top of mind, o que não é pouco se às três citadas anteriormente, adicionarmos Carmen McRae, Helen Merrill, Jeri Southern e Dinah Shore. “Mad About the Boy”, com Washington é quente, vibrante, como quase tudo dela. Mas, noutro dia, ouvi essa canção na voz de uma inglesa, como Noel, mais “cool”, e achei o máximo. É o que compartilho aqui.
Mad About the Boy “fria”: Liane Carroll
Ouça outras interpretações clássicas.
Com Anita O’Day.
Uma antigona. Helen Forrest..
Mad About the Boy “fria”: Liane Carroll
Ouça outras interpretações clássicas.
Com Anita O’Day.
Uma antigona. Helen Forrest..

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