quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Elisa Rodrigues, a portuguesa que não canta fado

Pense em uma cantora portuguesa. Qual é o primeiro nome a lhe ocorrer? Amália Rodrigues? Natural. Era o máximo. E por ter levado o fado ao mundo, a impressão é a de que Portugal é isso e nada mais. A tradição é tão forte que perdura até entre os mais jovens. Carminho e Ana Moura, dois nomes bem conhecidos no Brasil, têm pouco mais de 30, a primeira, 31, e a segunda, 36. Nem tão jovens quanto elas, destacam-se António Zambujo (39), outro bem conhecido por nossas bandas, Marisa, Carmané, Pedro Moutinho e Carlos do Carmo são outros destaques. Temos também, nem tão fadistas, Teresa Salgado, ex-Madredeus, Cristina Branco e a veterana Maria João.

Fora desse universo, dois nomes despontam no cenário português: Luisa Sobral e Elisa Rodrigues. Relaciono até aqui, apenas vocalistas. A primeira inclina-se ao pop; canta em português e em inglês e deve almejar um público maior que o da península. Já apresentou-se no programa de Jools Holland, na BBC, e em There’s a Flower in My Bedroom, seu mais recente CD, conta com a participação de Jamie Cullum em uma das faixas. Já o negócio de Elisa é o jazz.

Atrás de Elisa existe uma tradição com nomes respeitáveis. Quem já foi a Portugal sabe disso; e aqueles que gostam de jazz, também. Além de bons clubes em que ouve-se boa música instrumental, um dos selos de jazz contemporâneo de maior prestígio é de lá. O Clean Feed não grava apenas músicos portugueses como a fenomenal trompetista Susana Santos. Em seu catálogo encontram-se gravações da nata dos músicos de vanguarda.

Portugal é generoso em nos proporcionar a beleza do som de ótimos pianistas. Temos Mário Laginha, Bernardo Sassetti (mais sobre ele em “A morte trágica de Bernardo Sassetti”)), e mais recentemente, Júlio Resende. Aliás, é ele quem toca em Heart Mouth Dialogues, álbum recém lançado de Elisa Rodrigues.

Pouco se tem dela na internet, a não ser que, no ano passado, foi convidada a participar das gravações da banda inglesa These New Puritans. Mas pelo disponível, sabe-se que é formada em estilismo e era o que pretendia fazer. Circunstâncias, no entanto, levaram-na a cantar. E é uma surpresa. Seu destino é tornar-se conhecida além dos limites de Portugal.

Um destaque é a escolha das músicas de Heart Mouth Dialogues. Canta desde standards como You Don’t Know What Love Is, Blame It on My Youth, Cry Me a River em leituras contemporâneas, assim como temas do pop como Ain’t No Sunshine, de Bill Withers, God Only Knows, de Brian Wilson (Beach Boys), Roxane, de Sting (The Police), By Your Side, de Cocorosie, e Dumb, do Nirvana, e até um tema do pop (quase brega) como Sonhos, de Peninha, canta a capella.

Veja Elisa em duo com Júlio Resende em Ain’t No Sunshine. Esta versão é um pouco diferente da que abre o disco.





Bonito, não? Agora, ataca de Nirvana.





Elisa canta um standard: You Don’t Know What Love Is.




Elisa canta Peninha.




O ponto alto é God Only Knows. Veja e ouça a moça.




Ouça a do disco, com Júlio Resende, Cícero Lee e Joel Silva. Maravilhoso.




Veja Elisa e Júlio em O Sapo. Apresentam vários números que estão no álbum em formato duo. Ela canta God Only Knows, Ain’t no Sunshine, e Sonhos, de Peninha, a capella, dentre outros. Acesse http://videos.sapo.pt/rJaqDjwPRhYfHsZ427zO

terça-feira, 25 de agosto de 2015

A loura Greetje Kauffeld

Ser movido pela curiosidade pode nos fazer quebrar a cara. Faz parte, como costumava dizer o grande filósofo, do belo programa BigBrother Brasil, Bambam: “Faz parte.” Movido por ela, conheci uma cantora chamada Greetje Kauffeld; e, por um motivo fútil: a imagem estampada na capa do álbum Heaven’s Open. A loura concentrada em ler alguma coisa que me faz achar que seja uma partitura fez-me lembrar de outra loura: Doris Mary Ann von Kappelhoff, ou melhor, Doris Day. Seria tão boa cantora quanto Doris? Impossível. Doris é (está vivíssima, com 91 anos) genial.

É frivolidade demais ter a curiosidade despertada pela aparência física, mas é fato. Greetje não canta tanto quanto Doris, nem é tão bela. Ouço o único disco que conheço dela. Pesquiso e descubro que apresentou-se pela primeira vez em um programa de rádio aos 13 anos e cantou com vários músicos de seu país natal antes de aventurar-se em terras americanas. Voltou para a Holanda e nunca deixou de cantar. Em 2000, foi homenageada no North Sea Jazz Festival pelos 40 anos de carreira (ela nasceu em 1939).

Em Heaven’s Open, Greetje canta com uma orquestra de cordas. Não sei se é a Metropole Orkest, uma das mais conhecidas e prestigiadas da Holanda. Em alguns números soa um tanto kitsch, como em The Way We Were, a primeira faixa. Mas, antes de tudo, vê-se que ela tem uma bela voz, o que me faz continuar a ouvir o disco. Greetje canta alguns standards bem conhecidos pelo público do jazz: Miss Otis Regrets, Spring Is Here, You Must Believe in Spring, Polka Dots and Moonbeams, I Can't Give You Anything But Love e The Way You Look Tonight. Tudo é cantado com incrível bom gosto. É prazeroso.

Quer um exemplo? Veja Kauffeld com a Metropole Orkest em You Must Believe in Spring.




Mas o que faz escrever sobre essa cantora é uma interpretação bem interessante de uma canção que não é bem um standard: Vincent. Ouça. É uma justa homenagem de Don McLean ao conterrâneo de Greetje, Van Gogh.