sexta-feira, 22 de julho de 2011

Madeleine Peyroux anda pra frente com novo disco

Em vez de, simplesmente, refestelar-se noss louros da consagração ou no “não se mexe em time que está ganhando”, Madeleine Peyroux acaba de lançar um disco que é bem diferente do que gravou até agora. Diferente, seria exagero; sua melhor qualidade é certa despretensão. É um disco “relaxado”: parece que foi feito com alegria e descontração.

Quando lançou o primeiro disco Dreamland, em 1996, foi classificada como uma nova Billie Holiday em razão da semelhança de registro de voz. É possível que essa “herança” possa ter pesado. Apenas em 2004 lançaria seu segundo disco, Careless Love. Desde então, tem gravado com apurada constância e amplia o espectro do público: se era inclinado ao jazz, inicialmente, hoje, faz música que trespassa rótulos.

Madeleine Peyroux descontraída
Em Dreamland, apesar do repertório eclético, seu produtor e descobridor, o A&R Yves Beauvais, por conta dessa semelhança com a voz de Lady Day, escolheu acompanhantes jazzistas por excelência, como James Carter, Regina Carter, Marcus Printup e Cyrus Chesnut. É nesse disco que Peyroux interpreta La vie en rose.

A volta de Peyroux em Careless Love representou um avanço considerável em termos de repertório. Responsável, em parte, foi a intervenção do produtor Larry Klein, craque em revelar ou desvelar potencialidades. Exemplos são Joni Mitchell, Melody Gardot e Luciana Souza, que tiveram discos produzidos por ele. Boa parte da população de bom gosto do planeta conhece seu Dance Me to the End of Love, composição de Leonard Cohen, e seu brilhante J’ai deux amours, que já tinha sido gravado em um disco menos conhecido, do qual me refiro no próximo parágrafo.

Nesse hiato de 1996 a 2006 gravou Got You in My Mind, em 2004. Curiosamente, esse disco gravado com William Galison, portanto não considerado um solo de Peyroux, pode ser visto como uma ponte e um “elo perdido” que se reata em seu mais recente CD.

Madeleine Peyroux, como Norah Jones e Lizz Wright fazem parte de um time que foge aos rótulos mais ortodoxos, sem que isso signifique que sejam melhores ou piores do que os que escolheram uma linguagem mais específica. Diana Krall é do jazz, por excelência, assim como Cassandra Wilson ou Stacey Kent, mesmo que estas fujam do repertório mais tradicional. Esse “fugir”, de certo modo, quer dizer que “quem fica parado é poste”: desde que o jazz é jazz, seus intérpretes vão expandindo seus universos sonoros. Basta lembrar de Charlie Parker tocando Tico-Tico no Fubá (na mesma velocidade do fraseado de Ademilde Fonseca) ou de rememorar que um dos standards mais executados – Someday My Prince Wll Come – é o tema de Branca de Neve, de Walt Disney.

Em Got You in My Mind, em razão de não ser um disco apenas dela, mas em parceria com o gaitista e violonista William Galison – se considerarmos a ordem dos nomes, é mais dele do que dela – há a predominância de um tom folk e até country, por conta da instrumentação – incluindo acordeão e Dobro (que é um violão cujo som metálico lembra o do banjo). Aliás, é com uma instrumentação em que se ouvem notas parcimoniosas de banjo e de um teclado que deve ser o de um órgão Hammond, que se inicia o mais recente disco de Peyroux, com um belo Martha My Dear, de Lennon e McCartney. A seguinte, The Kind You Can’t Afford tem uma marcação de baixo e a guitarra “seca” de Marc Ribot que faz lembrar a batida do início de Take Me to the River, de Al Green.

Marc Ribot, conhecido pelas participações em discos de Tom Waits, do americano-pernambucano Arto Lindsay e do avant-garde John Zorn, é um instrumentista limitado. É algo que ele próprio reconhece. Tomou partido, no entanto, dessas limitações e conseguiu desenvolver um estilo tão específico que é inconfundível. Apesar de lembrar as distorções da guitarra de Ry Cooder ou do estilo “meio-lamuriento”, “meio havaiano” de Bill Frisell, nas primeiras intervenções, sabemos que é Ribot quem está tocando.

É esse americano, criador da banda Los Cubanos Postizos, que transita pelo free jazz, pela música latina, músico que tocou nos discos de gente tão diferente entre si como Marianne Faithfull, McCoy Tyner, Alison Krauss, John Lurie nos Lounge Lizards, David Silvyan e Wilson Pickett, quem imprime sua marca, e é o diferencial nesse último CD de Peyroux.

A cantora tem, cada vez mais, apresentado composições próprias. Das quinze que compõem o disco, apenas quatro não são de sua lavra. Dessas, pode se destacar uma incomum parceria de Peyroux com o ex-Stones Bill Wyman em Leaving Home Again, The Things I’ve Seen Today, um hipnótico Standing on the Rooftop, Lay Your Sleeping Head, My Love, e a melancólica Superhero. Madeleine, no entanto, se supera em uma sublime interpretação de Love in Vain, de Robert Johnson. É essa a que você vai ouvir.



Ouça também Standing on the Rooftop.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Jack Teagarden canta Don’t Smoke in Bed

Jack Teagarden, trombonista e grande cantor
Willard Robison não foi uma máquina de compor standards como Cole Porter ou Irving Berlin. Deixou-nos, no entanto, canções como Old Folks, A Cottage for Sale e Don’t Smoke in Bed. Por razões bem pessoais, esta última é uma das minhas 10 Mais. Existem interpretações belíssimas dela. Minha preferida não é a de Nina Simone; é a de uma cantora que está mais para o country-folk do que pro jazz: kd lang (leia sobre ela em http://bit.ly/ngjwm0).

Nos anos 1920, Willard conheceu o trombonista Jack Teagarden e desde então se tornaram amigos. Não poderia ter sido melhor homenagem a de Jack ter feito um disco com canções de Robison (são onze de sua autoria e apenas uma que não – Where Are You?, de Harold Adamson e Jimmy McHugh). Foi o último álbum de Jack, gravado em 1962. Dois anos depois, morreu de um ataque de coração, agravado por uma broncopneumonia, sozinho, no Prince Conti Hotel, em New Orleans.

Ficara impressionado quando tinha menos de 20 anos com uma gravação de Rockin’ Chair, de Louis Armstrong. Como a Humanidade, já conhecia Louis; mas de quem era aquela voz que fazia o duo? Tinha gostado tanto daquela voz de jeito preguiçoso, parecida com a de alguém que tinha fumado e bebido muito na vida. Anos depois, descobri que era de Jack Teagarden (sobre Louis e Jack, leia em http://bit.ly/niJ2WG).

Não conhecia Think Well of Me, seu último disco, em que é acompanhado por orquestra de cordas, lançado pela Verve. E, é claro, lá está aquela, que é uma das minhas preferidas.

Ouça Don’t Smoke in Bed na interpretação de Jack Teagarden.



A emocionante interpretação de kd lang de Don’t Smoke in Bed.



Ouça o dueto de Teagarden e Louis Armstrong em Rockin’ Chair.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

A lista dos melhores da Downbeat, segundo a crítica, e considerações mais que pessoais sobre ela

A mania de listas dos melhores ou dos preferidos há muito existe – desde que a Humanidade é Humanidade, talvez; quando Nick Hornby lançou Alta Fidelidade, muito se falou – isso dentre os que leram, decerto – da personagem que fazia lista de tudo: músicas preferidas, poll de ex-namoradas, por exemplo. Listas de melhores do ano são a coisa mais comum, e vende. Quem não gosta?

A conhecida revista Downbeat faz duas por ano: a dos leitores é divulgada na revista de dezembro, e a dos críticos, em agosto. Pois, é dela que comento a seguir.

O tricoroado Jason Moran
O “campeão” do ano é o pianista Jason Moran. É a “bola da vez”. Além de ter o álbum Ten (Blue Note, 2010) como melhor do ano, foi considerado o “artista do ano” e o “melhor pianista”, à frente de Keith Jarrett, Brad Mehldau, Fred Hersch, Hank Jones e Kenny Barron, respectivamente. Dos cinco, quatro dos meus preferidos, estão citados. Como diz o ditado popular – “gosto não se discute, apenas se lamenta” – prefiro-os a Moran. Isso não significa absolutamente nada, se considerarmos que os críticos devem conhecer mais música do que eu, pois esta é a profissão deles.

Mesmo assim, entre os discos que conheço de Moran, acho Ten o melhor. Imagino que deve ter pesado, pelo menos diante da crítica, o ecletismo desse pianista de apenas 36 anos: seus interesses não se restringem apenas ao jazz; não faz o gênero “jazz bom é jazz acústico”; toca instrumentos elétricos – às vezes inserindo sons bem estranhos e que não combinam, na minha opinião –, grava compositores relacionados à música erudita, como Conlon Nancarrow (Study nº 6, em Ten), absorve influências do hiphop, compõe para espetáculos de dança e, recentemente, desenvolveu com a cantora-compositora Ndegcocello (nascido Michelle Lynn Johnson) uma performance musical baseada em temas de Fats Waller (Moran toca piano e Fender Rhodes usando uma máscara feita em papier mâché). 

Ten foi considerado o melhor do ano
Com seus parceiros Bandwagon (Tarus Mateen no baixo e Nasheet Waits na bateria), o som produzido é vigoroso. Apesar de, naturalmente, o piano se destacar, o baixo e a bateria não são meros coadjuvantes. É um som coeso de uma formação que tem alguns anos e diferencia-se por fugir dos moldes mais tradicionais de “cada um tem seu momento solo”. As interpretações de Moran são angulosas, com o piano caminhando por linhas sinuosas e acordes poderosos. Uma característica que sobressai, principalmente como membro da banda do saxofonista e flautista Charles Lloyd, é seu lado lírico. Em Ten, essa faceta é evidenciada na composição Pas de deux - Line Ballet, lindíssima, e uma demonstração de seu talento. É natural que nos discos em que é o líder procure imprimir uma marca. É onde “meu gosto” não bate bem com o tipo de som que produz, mesmo considerando-o grande pianista. O que me incomoda é um certo “excesso de piano”; acho um tanto sufocante. Silêncios e pausas dão contraste e respiro, e é isso que sinto falta quando ele toca como líder.

Ouça Jason Moran interpretando Thelonious Monk (Crepuscule with Nellie). O estilo sincopado de Monk é replicado em mudanças de andamento abruptas e poucos silêncios.


Não quero, de modo nenhum, fazer uma crítica em relação aos álbuns escolhidos, mas somente fazer algumas observações. Boa parte dos discos nomeados, não os conheço. Procuro ouvir o que me atrai e posso apenas dizer alguma coisa sobre estes. Consequentemente, é um juízo bem pessoal. 
O que ficou em segundo é Bird Songs, de Joe Lovano e sua banda Us Five. Conheço o primeiro CD gravado com essa formação e posso dizer que, como de costume, esse prolífico saxofonista mantém um alto nível. 

O terceiro é Chamber Music Society, por coincidência, da baixista do Us Five, Esperanza Spalding. Na minha opinião – mais uma vez, aquela questão do “gosto” –, não consigo entender a supervalorização da crítica em relação a essa excelente baixista e cantora “mais ou menos” – opinião pessoal, ressalto. Nunca colocaria esse álbum e muito menos o anterior – Esperanza (2008) – entre os “dez mais”. Como disse, é uma bela baixista, e nem porque grava nosso glorioso Milton Nascimento (os brasileiros têm motivos de sobra para achá-la genial: além de Milton, canta Samba em Prelúdio, imortalizada pela atriz-cantora Odette Lara e composta por Vinícius de Moraes e Baden Powell, num português perfeito), considero-a uma boa cantora mas, boa baixista, é. Sua figura, com aquele cabelão “à la Angela Davis”, a faz uma figura carismática, sem dúvida. Apesar desses poréns, acho que Esperanza está fadada a ter um futuro brilhante.

Ouça Esperanza Spalding cantando Samba em Prelúdio.


Outros entre os “dez mais” da revista Downbeat que conheço são Jasmine, belo duo de Keith Jarrett e Charlie Haden (sobre esse CD, leia em http://bit.ly/nuooCB), e Highway Rider (Nonesuch, 2010), de Brad Mehldau. Sou fã desse pianista desde o primeiro CD que ouvi (Introducing Brad Mehldau, WB 1995), mas não acho que o classificado como sétimo melhor do ano esteja entre seus melhores.

Além dos dez melhores, estão listados em tipos menores e sem descrição, mais onze CDs. Para constar, Solo, de Vijay Iyer (Act 2010), ficou em 18º. Falei dele em http://bit.ly/qTI1Ia. Na minha opinião, esse CD é tão bom quanto Ten, de Jason Moran; merecia estar entre os dez.

A lista
1. Jason Moran, Ten
2. Joe Lovano Us Five, Bird Songs
3. Esperanza Saplding, Chamber Music Society
4. Rudresh Mahanthappa & Bunky Green, Apex
5. Keith Jarrett, Charlie Haden, Jasmine
6. James Moody, Moody 4B
7. Brad Mehldau, Highway Rider
8. Mary Halvorson Quintet, Saturn Sings
9. William Parker, I Plan to Stay a Believer: The Inside Songs of Curtis Mayfield
10. Danilo Perez, Providence