Quando lançou o primeiro disco Dreamland, em 1996, foi classificada como uma nova Billie Holiday em razão da semelhança de registro de voz. É possível que essa “herança” possa ter pesado. Apenas em 2004 lançaria seu segundo disco, Careless Love. Desde então, tem gravado com apurada constância e amplia o espectro do público: se era inclinado ao jazz, inicialmente, hoje, faz música que trespassa rótulos.
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| Madeleine Peyroux descontraída |
Em Dreamland, apesar do repertório eclético, seu produtor e descobridor, o A&R Yves Beauvais, por conta dessa semelhança com a voz de Lady Day, escolheu acompanhantes jazzistas por excelência, como James Carter, Regina Carter, Marcus Printup e Cyrus Chesnut. É nesse disco que Peyroux interpreta La vie en rose.
A volta de Peyroux em Careless Love representou um avanço considerável em termos de repertório. Responsável, em parte, foi a intervenção do produtor Larry Klein, craque em revelar ou desvelar potencialidades. Exemplos são Joni Mitchell, Melody Gardot e Luciana Souza, que tiveram discos produzidos por ele. Boa parte da população de bom gosto do planeta conhece seu Dance Me to the End of Love, composição de Leonard Cohen, e seu brilhante J’ai deux amours, que já tinha sido gravado em um disco menos conhecido, do qual me refiro no próximo parágrafo.
Madeleine Peyroux, como Norah Jones e Lizz Wright fazem parte de um time que foge aos rótulos mais ortodoxos, sem que isso signifique que sejam melhores ou piores do que os que escolheram uma linguagem mais específica. Diana Krall é do jazz, por excelência, assim como Cassandra Wilson ou Stacey Kent, mesmo que estas fujam do repertório mais tradicional. Esse “fugir”, de certo modo, quer dizer que “quem fica parado é poste”: desde que o jazz é jazz, seus intérpretes vão expandindo seus universos sonoros. Basta lembrar de Charlie Parker tocando Tico-Tico no Fubá (na mesma velocidade do fraseado de Ademilde Fonseca) ou de rememorar que um dos standards mais executados – Someday My Prince Wll Come – é o tema de Branca de Neve, de Walt Disney.
Em Got You in My Mind, em razão de não ser um disco apenas dela, mas em parceria com o gaitista e violonista William Galison – se considerarmos a ordem dos nomes, é mais dele do que dela – há a predominância de um tom folk e até country, por conta da instrumentação – incluindo acordeão e Dobro (que é um violão cujo som metálico lembra o do banjo). Aliás, é com uma instrumentação em que se ouvem notas parcimoniosas de banjo e de um teclado que deve ser o de um órgão Hammond, que se inicia o mais recente disco de Peyroux, com um belo Martha My Dear, de Lennon e McCartney. A seguinte, The Kind You Can’t Afford tem uma marcação de baixo e a guitarra “seca” de Marc Ribot que faz lembrar a batida do início de Take Me to the River, de Al Green.
Marc Ribot, conhecido pelas participações em discos de Tom Waits, do americano-pernambucano Arto Lindsay e do avant-garde John Zorn, é um instrumentista limitado. É algo que ele próprio reconhece. Tomou partido, no entanto, dessas limitações e conseguiu desenvolver um estilo tão específico que é inconfundível. Apesar de lembrar as distorções da guitarra de Ry Cooder ou do estilo “meio-lamuriento”, “meio havaiano” de Bill Frisell, nas primeiras intervenções, sabemos que é Ribot quem está tocando.
É esse americano, criador da banda Los Cubanos Postizos, que transita pelo free jazz, pela música latina, músico que tocou nos discos de gente tão diferente entre si como Marianne Faithfull, McCoy Tyner, Alison Krauss, John Lurie nos Lounge Lizards, David Silvyan e Wilson Pickett, quem imprime sua marca, e é o diferencial nesse último CD de Peyroux.
A cantora tem, cada vez mais, apresentado composições próprias. Das quinze que compõem o disco, apenas quatro não são de sua lavra. Dessas, pode se destacar uma incomum parceria de Peyroux com o ex-Stones Bill Wyman em Leaving Home Again, The Things I’ve Seen Today, um hipnótico Standing on the Rooftop, Lay Your Sleeping Head, My Love, e a melancólica Superhero. Madeleine, no entanto, se supera em uma sublime interpretação de Love in Vain, de Robert Johnson. É essa a que você vai ouvir.
Ouça também Standing on the Rooftop.
A volta de Peyroux em Careless Love representou um avanço considerável em termos de repertório. Responsável, em parte, foi a intervenção do produtor Larry Klein, craque em revelar ou desvelar potencialidades. Exemplos são Joni Mitchell, Melody Gardot e Luciana Souza, que tiveram discos produzidos por ele. Boa parte da população de bom gosto do planeta conhece seu Dance Me to the End of Love, composição de Leonard Cohen, e seu brilhante J’ai deux amours, que já tinha sido gravado em um disco menos conhecido, do qual me refiro no próximo parágrafo.
Nesse hiato de 1996 a 2006 gravou Got You in My Mind, em 2004. Curiosamente, esse disco gravado com William Galison, portanto não considerado um solo de Peyroux, pode ser visto como uma ponte e um “elo perdido” que se reata em seu mais recente CD.
Madeleine Peyroux, como Norah Jones e Lizz Wright fazem parte de um time que foge aos rótulos mais ortodoxos, sem que isso signifique que sejam melhores ou piores do que os que escolheram uma linguagem mais específica. Diana Krall é do jazz, por excelência, assim como Cassandra Wilson ou Stacey Kent, mesmo que estas fujam do repertório mais tradicional. Esse “fugir”, de certo modo, quer dizer que “quem fica parado é poste”: desde que o jazz é jazz, seus intérpretes vão expandindo seus universos sonoros. Basta lembrar de Charlie Parker tocando Tico-Tico no Fubá (na mesma velocidade do fraseado de Ademilde Fonseca) ou de rememorar que um dos standards mais executados – Someday My Prince Wll Come – é o tema de Branca de Neve, de Walt Disney.
Em Got You in My Mind, em razão de não ser um disco apenas dela, mas em parceria com o gaitista e violonista William Galison – se considerarmos a ordem dos nomes, é mais dele do que dela – há a predominância de um tom folk e até country, por conta da instrumentação – incluindo acordeão e Dobro (que é um violão cujo som metálico lembra o do banjo). Aliás, é com uma instrumentação em que se ouvem notas parcimoniosas de banjo e de um teclado que deve ser o de um órgão Hammond, que se inicia o mais recente disco de Peyroux, com um belo Martha My Dear, de Lennon e McCartney. A seguinte, The Kind You Can’t Afford tem uma marcação de baixo e a guitarra “seca” de Marc Ribot que faz lembrar a batida do início de Take Me to the River, de Al Green.
Marc Ribot, conhecido pelas participações em discos de Tom Waits, do americano-pernambucano Arto Lindsay e do avant-garde John Zorn, é um instrumentista limitado. É algo que ele próprio reconhece. Tomou partido, no entanto, dessas limitações e conseguiu desenvolver um estilo tão específico que é inconfundível. Apesar de lembrar as distorções da guitarra de Ry Cooder ou do estilo “meio-lamuriento”, “meio havaiano” de Bill Frisell, nas primeiras intervenções, sabemos que é Ribot quem está tocando.
É esse americano, criador da banda Los Cubanos Postizos, que transita pelo free jazz, pela música latina, músico que tocou nos discos de gente tão diferente entre si como Marianne Faithfull, McCoy Tyner, Alison Krauss, John Lurie nos Lounge Lizards, David Silvyan e Wilson Pickett, quem imprime sua marca, e é o diferencial nesse último CD de Peyroux.
A cantora tem, cada vez mais, apresentado composições próprias. Das quinze que compõem o disco, apenas quatro não são de sua lavra. Dessas, pode se destacar uma incomum parceria de Peyroux com o ex-Stones Bill Wyman em Leaving Home Again, The Things I’ve Seen Today, um hipnótico Standing on the Rooftop, Lay Your Sleeping Head, My Love, e a melancólica Superhero. Madeleine, no entanto, se supera em uma sublime interpretação de Love in Vain, de Robert Johnson. É essa a que você vai ouvir.
Ouça também Standing on the Rooftop.



