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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Mel Tormé, Carlos Conde, Alberico Cilento e Siero

Carlos Conde foi uma referência para muitos de nós quando o assunto é jazz. Por muitos anos, até pouco antes de adoecer, manteve seu programa na Rádio Cultura, sempre trazendo novidades do gênero, adquiridas em suas viagens semestrais a Nova York e a outros lugares. Em cada viagem comprava cerca de 200 CDs. Para que não fossem apreendidos pela alfândega, jogava fora as caixinhas (jewel boxes), trazia os disquinhos em porta CDs da Case Logic, as capas e encartes em um envelope. 

Apesar da diferença de idade, ficamos amigos. Minha timidez impedia de abordá-lo e me apresentar. Outro grande especialista e colecionador era o Alberico Cilento. Via-o sempre na Grammophone, uma loja cuja matriz era no Rio de Janeiro, na avenida Juscelino Kubitshek, em São Paulo, e também na Edgar Discos, na rua Lacerda Franco, Pinheiros, que vendia mais discos usados do que novos. Não lembro direito de como ficamos amigos. Frequentei muito sua casa no Jardim Marajoara. Gostava de mostrar trechos de música com solos que considerava memoráveis. Aprendi muito com ele.

Por várias décadas, Alberico foi um dos bam-bam-bam do atendimento da DPZ. Ganhava muito bem mas nunca trocou seu Fiat 147; seus amigos diziam, “troca por um carro mais decente, mais de acordo com a sua posição”. Preferia ter um Steinway de um quarto da cauda do que se exibir andando em carrões. Na verdade, tinha dois pianos de um quarto de cauda. O Steinway da sala era para seus amigos músicos, como João Donato, tocarem. O Blüthner, que ficava na sua sala de música, onde ficava seu aparelho de som, os milhares de LPs e CDs, era para ele se exercitar como mero amador.

Não lembro também como foi a primeira vez em que conversei com o Carlos Conde. É bem provável que tenha sido na Grammophone. Vários compradores compulsivos de LPs, CDs e fitas de vídeo cassete (depois surgiram os Laser Discs, que eram caríssimos e tiveram vida curta) baixavam aos sábados de manhã na loja. É possível que Alberico tenha me apresentado ao Conde. Um outro colecionador que estava sempre lá era o Sieiro, um espanhol de voz forte, como a do Conde. Era mais eclético; gostava de todos os gêneros musicais, fora o sertanejo, certamente. Para se ter uma ideia, quando resolveu vender seus LPs que se encontravam no sítio em Mairiporã, entrou em contato com o músico e cantor Ed Motta e este arrematou 800 LPs de uma vez.

Apesar da diferença de idade, uns 25 anos, ficamos amigos. Do seu círculo de amizade de apaixonados por jazz eu era o mais novo. O negócio dele era o jazz trio, mais do que qualquer outra formação. Odiava jazz latino, vibrafones e congas. Nem podia ouvir falar de Tito Puente. Sendo um adolescente na década de 1970, fui iniciado no que chamavam de rock progressivo (Yes, King Crimson, Emerson, Lake & Palmer, Van der Graaf Generator). Daí, passar a me interessar pela música estritamente instrumental foi um passo natural. Conheci Weather Report, Soft Machine, Chick Corea e Miles Davis. 

Conde, Russell Malone e eu
Meu gosto se inclinava aos mais modernos também, como John McLaughlin, Miles Davis elétrico, Weather Report e outros, apesar de gostar muito dos mais antigos, como Duke Ellingotn, Coleman Hawkins, Lester Young e tantos outros, muitos deles a partir das dicas dos meus amigos jazzófilos. Como todo bom colecionador, Conde gostava de bisbilhotar o que os outros estavam comprando. Olhava os que tinha separado e dizia: Chick Corea? “Mas você é jovem, então, tudo bem”.

Com o tempo fomos ficando próximos. Como ganhava muitos convites para shows por conta de seu programa, passou a me convidar para vários deles. Os melhores eram os do Bourbon Street. Sentávamos sempre na primeira fileira. Assim, assisti às apresentações de Bucky Pizzarelli (umas três vezes), Carol Welsman, Nnena Freelon, John Carter, Russell Malone, Karyn Allyson e outros mais. Depois dos shows, íamos ao camarim e ele sempre pedia que os artistas autografassem os CDs e LPs que levava. Todos os que tenho autografados, consegui-os porque ia na cola dele.

A história do disco com assinatura falsa. Acho que existe ainda a Jazz Record Center, uma loja que fica no oitavo andar de um prédio na West 26th Street. Conheci por causa dele. Além de venderem discos novos, a especialidade são itens de colecionadores e uma vasta memorabilia como pôsteres, livros, camisetas e revistas. Um dos itens são LPs e CDs autografados. Foi aí que descobri que o Conde não pedia autógrafos apenas porque era fã. Ele levava para Nova York e vendia. 

Certa vez, logo depois de voltar de Nova York, Conde disse com a maior alegria de que tinha vendido um LP do Mel Tormé autografado por 120 dólares. Daí Alberico contou que ele e um outro amigo resolveram pregar uma peça nele dando o LP em que eles próprios falsificaram o autógrafo, sabendo da idolatria que elnutria pelo cantor. Nunca imaginariam que ele levasse o disco para vender. Resposta do Conde: “Agora já foi; está vendido”.

Um último parágrafo. Nos Estados Unidos, muitos discos são anunciados nas revistas com datas de lançamento determinadas. Desafortunadamente, o CD “The Classic Concert”, com Mel Tormé, Gerry Mulligan e George Shearing, gravação de um show de 1982 no Carnegie Hall, sairia alguns dias depois que Conde já não estaria em Nova York. Ele ficou louco. Como sabia que eu estava indo para lá pouco depois, ligou para mim pedindo que comprasse o disco. Disse que assistiu ao show e era importante tê-lo. Claro, comprei para ele e para mim na J&R. Ouça o CD.


sábado, 12 de setembro de 2020

Carlos Conde e o 11 de setembro

O Conde, como era conhecido Carlos Conde, pelos amigos, foi um dos maiores colecionadores e expert do jazz, no Brasil. Teve um programa de jazz por muitos anos na rádio Cultura, interrompido pouco antes de sua morte.

Apesar da diferença de idade — cerca de vinte anos —, fiquei amigo do Carlos Conde ao ponto de, frequentemente, ser convidado a ir em apresentações em que ganhava convites, na condição de ter um programa especializado em jazz na rádio Cultura. Nas do Bourbon Street, Edgar, um dos sócios, reservava a mesa mais próxima do palco. Nnena Freelom, Carol Welsman, James Carter, John Pizzarelli tocaram e cantaram a menos de três metros de nós.

Ele tinha por hábito viajar duas vezes por ano aos Estados Unidos. Era um cliente conhecido da loja mais especializada em jazz em Nova York, a Jazz Record Center, localizada em um prédio próximo à Union Square. Trazia mais de cem CDs por vez. Jogava as “jewel box” e trazia apenas os CDs, encarte e capas dentro de um Case Logic, para não dar na vista. Comprava as “jewel box” no Brasil e remontava-os.
 
Houve uma vez em que estivemos no mesmo período em Nova York e nos desencontramos. Não existiam celulares, o que dificultou a nossa comunicação. A gente se encontrou no check in do aeroporto, pois voltávamos na mesma noite. Coincidência.

Em outra ocasião, tinha acabado de voltar e nos dias seguintes quem ia para lá era eu. Nos Estados Unidos, os lançamentos acontecem em datas anunciadas. Por um dia, não conseguiu comprar o CD “The Classic Concert Live” (Concord Jazz 2005), de uma apresentação de seu cantor preferido, Mel Tormé, no Carnegie Hall, com Gerry Mulligan e George Shearing. Ele disse: “Preciso ter esse CD. Eu estava no show. É o primeiro em que tenho certeza de que estava na plateia.” Comprei na J&R, uma de nossas preferidas, localizada perto da prefeitura. Bem downtown, a J&R era um conjunto de lojas, uma do lado da outra, em que se vendia desde utensílios domésticos, equipamentos de som, CDs a computadores. Ele, como eu, íamos uma vez por dia, pelo menos. Fazia parte do meu roteiro, junto com a Tower, localizada no Village. Na volta, ainda passava na HMV da Times Square.

Fui até as Torres Gêmeas apenas na primeira vez em que fui a Nova York. Acho que há pontos turísticos que devem ser visitados uma vez apenas. É o suficiente. Peguei o barco para conhecer a estátua da Liberdade em uma única ocasião. Ao Empire State fui umas três vezes, isso porque em cada uma delas, estava com alguém que não o conhecia. Portanto, o World Trade Center “sumiu” da minha vida. Por essa razão não percebi que ficava a pouco mais de um quarteirão da J&R.

Um dia depois do atentado às Torres Gêmeas, me liga o Conde e diz: “Você sabe qual é o meio mais fácil de ir à J&R?” Depois de uma pausa, completou: “de avião.” Não entendi prontamente. Desculpe. É uma piada de humor negro e hoje soa um pouco incoveniente. Mas foi o que ele disse. O Conde tinha umas tiradas muito espirituosas. Era um lado divertido dele. Não presenciou o ocorrido porque voltou dois dias antes. Sua mulher e a filha ainda estavam em Nova York. Tiveram que adiar a volta.

No ano seguinte, fui a Nova York. Foi aí que percebi como as Torres eram perto da J&R. Fui até lá. Era um imenso buraco cercado por tapumes.

Agora vai um “Body and Soul”, pelo Mel Tormé. Era a canção preferida do Conde. Tinha todas as gravações que conheceu.



terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

O melhor disco da última fase de Johnny Hartman não saiu em CD

Johnny Hartman, Elvin Jones e Coltrane no fundo
Um jornalista, que chegou a ocupar os cargos mais altos, “chique no último”, como se dizia, no alto de sua autoridade, escreveu uma vez que John Coltrane & Johnny Hartman era o “disco do momento” em Nova York. Isso foi no fim do século 20. Não faz tanto tempo. Se ele e essas pessoas estavam “descobrindo” Hartman, estavam um pouco atrasados. Pode ter pesado que o álbum originalmente lançado em 1963, saiu pela primeira vez em formato CD em 1995. Esses moderninhos estavam, provavelmente, ouvindo esse clássico pela primeira vez.

O cantor, que um dia foi chamado de “Bronze Sinatra” nunca ficou efetivamente conhecido. Mas foi cultuado por muitos. Não era um cara bonitão como Billy Eckstine, que chegou a ser considerado um Sinatra negro. Este foi um verdadeiro ídolo em seu tempo e um talento para arregimentar grandes músicos para a sua orquestra.

Hartman, pelo contrário, nem unanimidade foi entre os apreciadores do jazz. Seus crítico diziam que não tinha suingue. É uma verdade, parcialmente. Cantores com registro de barítono têm esse problema. Mas cantando baladas, foi inigualável.

É possível que não tenha feito tanto sucesso como Billy Eckstine ou Arthur Prysock, este nitidamente inferior a Hartman, ficando entre os de voz de barítono, em razão de ter sido uma pessoa de natureza mais retraída e alguém que nunca frequentou páginas de jornais e revistas fazendo o modelo do músico doidão, drogado ou alcoólatra, ou notado por sair com estrelas de Hollywood. Outra coisa que pesou, foi a falta de sorte com produtores e gravadoras.

Johnny e John
Bob Thiele, diretor da Impulse Records, tencionava gravar um álbum de John Coltrane com algum cantor. Sugeriu Sarah Vaughan. Este se mostrou reticente e falou de Hartman. Marcou, pois foi a única vez que Coltrane gravou com cantores e foi o disco de Hartman que mais vendeu. O crítico Will Friedwald classificou-o como o “Kind of Blue dos álbuns com vocalistas”.


Ouça Lush Life, de Billy Strayhorn.



Ouça My One and Only Love, com a linda abertura com o tenor de Coltrane.



Aproveitando a onda do sucesso, gravou mais alguns álbuns para o mesmo selo. I Just Dropped By to Say Hello, lançado no mesmo ano, apresenta a mesma qualidade do que gravou com Coltrane. Charade, de Henri Mancini, é a primeira faixa. É, simplesmente, a melhor interpretação de todos os tempos da música tema do filme do mesmo nome, de Richard Donen.

Ouça Charade.



Depois de The Voice That Is, saiu da Impulse e foi para a ABC-Paramount. Seus produtores acharam que gravando um repertório mais acessível, teriam vendas melhores. Não deu certo. Não agradou nem esse público que almejaram e muito menos os seus fãs. Com 60 anos, faleceu em decorrência de um câncer no pulmão.

O único álbum bom que lançou depois da Impulse foi Once in Every Life, pelo selo Bee Hive, em 1980. É excepcional e recebeu a cotação máxima pela Downbeat na época. Conta com músicos como Frank Wess na flauta e saxofone, Billy Taylor ao piano, Joe Wilder no trompete e flugel, e Al Gafa na guitarra. Creio que foi último em vida, pois morreu em 1983. Todos os demais lançados depois são de gravações anteriores.

Pegadinha
Once in Every Life saiu apenas em LP e, infelizmente, nunca no formato CD e, provavelmente, nunca sairá. Os direitos pertencem a Clint Eastwood. Muitos devem saber do apreço que o ator e diretor tem pelo jazz. Ele é autor da cinebiografia Bird, sobre Charlie Parker, já foi o homenageado no show After Hours, no Carnegie Hall, Nova York, com participações de Slide Hampton, Hank Jones, Joshua Redman, Christian McBride, dentre outros, e costuma inserir bons números em seus filmes. Tem um filho, Kyle Eastwood, que tomou gosto pelo gênero e é um contrabaixista de talento.

Quem assistiu ao filme As Pontes de Madison (Bridges of Madison County) deve lembrar-se das belas músicas que acompanham a história de Francesca e Robert Kincaid. Na trilha, Eastwood, foge do óbvio. Fora Dinah Washington, a mais conhecida, os outros intérpretes são Irene Kral, grande cantora, falecida precocemente de câncer, Barbara Lewis e Johnny Hartman. São escolhas de alguém que tem um conhecimento além da superfície do jazz. De Johnny são quatro as que constam no CD lançado.

Quando percebi que eram de Once in Every Life, fiquei endoidecido. Era um daqueles álbuns que sonhava em repor no formato CD.

Não sei quanto tempo depois, um segundo CD referente ao filme de Clint, foi lançado. Em Remembering Madison County tinha mais sete números de Hartman, que eram exatamente as que faltavam para completar Once in Every Life. Quando comentei com o Carlos Conde, expert do jazz, cque tinha um programa exclusivamente sobre o gênero na Rádio Cultura, contou-me que “montou” o CD conforme o original. Não tinha pensado nisso. Fiz o mesmo.

Anos depois, acho que nem o Conde deve ter percebido, senão teria falado. Clint Eastwood tinha nos pregado uma peça. No primeiro CD, Easy Living é a terceira, I See Your Face Before Me é a de número 5, It Was Almost Like a Song a nona, e For All We Know, a décima primeira.

Faltaram a primeira (I Could Write a Book), a segunda (Nobody Home), a quarta (Will You Still Be Mine), a sexta (Wave), a sétima (By Myself), e a oitava (I See Your Face Before Me). Juntando os dois “Madison County”, na ordem, dava Once in Every Life completo.

Na plataforma que uso para streaming, o Tidal, não tem o LP disponível. Por sorte o Spotify tem. Ouça na íntegra e perceberão como Hartman era genial.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

O sax selvagem de George Adams

O sanpaku George Adams
O que não falta no jazz, além de muita música e drogas, é valentão. Um deles foi Ben Webster. Um doce de pessoa, bastava beber alguns goles de cerveja, que fazia de vítima quem estivesse mais perto. O saxofonista Jimmy Heat, na autobiografia I Walked with Giants, conta que em um festival em que se apresentava com seus irmãos Percy e Tootie, na Itália, presenciou uma discussão de Elvin Jones com seu saxofonista Steve Grossman. Elvin, simplesmente, deu um murro na boca de Steve.

Mas valentão mesmo foi Charles Mingus. Gostava de alimentar sua fama de mau, e, realmente, metia medo em muita gente. Um dos que não o temia foi George Adams, saxofonista das últimas formações da banda do baixista. Adams chegou ao ponto de mostrar uma faca a Mingus e dizer que não vacilaria em usá-la. George sabia com quem tratava. Mingus tinha um comportamento errático, dado a momentos de fúria. Em uma delas, destruiu seu contrabaixo. Jimmy Heath afirma em I Walked with Giants que nunca teria tocado com Mingus: “Amava sua música, mas eu nunca quis tocar com ele porque me sentia intimidado.”

George não tinha do que temer. Se o “patrão” tinha cara e fama de mau, ele, um negro alto e forte, olhos sanpaku, também tinha. Sua figura combinava com seu estilo ao saxofone tenor. Tinha algo de selvagem no ritmo que empregava tocando cascatas de notas, saindo do tom médio, descendo uma oitava e saltando para a terceira em grunhidos que, por sinal, o Conde, um dos meus mestres, que por muito tempo manteve um programa de jazz na rádio Cultura, odiava. Com suas opiniões, muitas vezes, idiossincráticas, e com a autoridade que bem combinava com seu vozeirão, um leve sotaque carioca que nunca perdeu, apesar de nascido em Cruzeiro, no interior paulista, quase fronteira com o estado do Rio de Janeiro e morador da capital paulista por quase cinco décadas, dizia que George Adams não tocava; relinchava. Outro juízo que fazia, bem discutível, na minha opinião, era a de que Ben Webster não tocava; assoprava. Detestava aquele som cheio de Ben, volumoso, sim, com muito ar. Eu não concordava. Webster, com Coleman Hawkins, Lester Young e Dexter Gordon estavam no topo do panteão do meu instrumento preferido no jazz. E George era outra das minhas paixões. Não cansava de ouvir Mingus Moves, Changes One e Changes Two, álbuns de Charles Mingus em que participava, muito em razão pelo encanto de ouvir o saxofone de George, cheio contrastes cromáticos, passando do som mais doce  e terno ao mais frenético, de uma selvageria primitiva, em lamentos primais.

Ouça Canon, de Mingus Moves. Atenção às passagens do sax de Adams.






Uma das grandes baladas de Mingus é Duke Ellington’s Sounds of Love. Grande solo do tenor de Adams a partir dos de 4:37 min.






Adams atacava de cantor também. Seu estilo e sua voz áspera combinavam bem com o seu saxofone, bem blues shouter. Confira em Devil’s Blues de apresentação no Festival de Montreux, em 1975.





Com esse talento explosivo, George teria de gravar como líder. Em 1979, lançou dois álbuns excepcionais: Paradise Space Shuttle (Timeless Muse) e Sound Suggestions (ECM). No último, toca com o também tenor Heinz Sauer (sobre ele leia: http://bit.ly/1ONPbem), Kenny Wheeler, Richard Beirach, Dave Holland e Jack DeJohnette. Em Paradise Space Shuttle, o quinteto é composto por Ron Burton, Don Pate, Al Foster e o percussionista Azzedin Weston. Neste LP, executa um excepcional Send in the Clowns, do mestre Stephen Sondheim.

Ouça.





Em Sound Suggestions, Adams se sujeita à placidez do estilo ECM. Mesmo assim, tem seus momentos de “selvagem”, cantando e tocando. Ouça Got Something Good for You.





Lançou outros álbuns como líder, não tão bons quanto Paradise Space Shuttle, e vários com seus ex-companheiros Don Pullen e Dannie Richmond, da banda de Charles Mingus. Estes são melhores. Veja Adams com Pullen, Cameron Brown e Richmond em Song from the Old Country.





George morreu aos 52 anos, em 1992. Muito cedo. É uma pena.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Belo duo de piano com Bill Carrothers e Marc Copland

Carrothers (esq.) e Marc Copland. Foto: Cecile Mathieu
Se um piano é chato, imagine dois ao mesmo tempo. Essa teria sido a frase de Carlos Conde, um dos meus professores e grande aconselhador quando o assunto era jazz. Ele detestava discos e shows de piano solo. Duas histórias são exemplares. Uma aconteceu comigo.

Tínhamos ido a um dos festivais de jazz que aconteciam no Auditório Ibirapuera no mês de outubro. Em cada noite, eram três ou quatro atrações. Nesta, em que estava com o Conde e o Alberico Cilento, a grande atração era Brad Mehldau… em apresentação solo. A certa altura, ele disse: “Coitado desse rapaz. Ele é muito triste.” Os solos densos, algo cerebrais, influenciados pelo romantismo de Franz Schubert e Robert Schumann, decididamente não faziam a sua cabeça. Sem bateria não existia bom jazz, na sua opinião.

Em outra feita, contou-me o Alberico, seu companheiro em várias viagens para os EUA, quase que exclusivamente para verem apresentações em clubes de jazz e comprarem discos, estavam em Washington e viram que Keith Jarrett estaria se apresentando lá. Muito em cima da hora, os ingressos estavam esgotados. Fizeram uma venda extra permitindo que alguns ficassem sentados no chão nos cantos do palco. Acomodaram-se bem perto do piano. Em uma hora, o Alberico percebeu que alguém próximo ressonava. Era o Conde dormindo no show de Jarrett. Dá para imaginar?

Comigo, ao contrário, uma das coisas que mais gosto é de um piano solo. Não apenas no terreno do jazz, em que despontam Mehldau e Jarrett, mas, principalmente na música erudita, em que há uma infinidade de virtuoses geniais como Nelson Freire, Helène Grimaud, Paul Lewis, Angela Hewitt, András Schiff, Martha Argerich, Maria João Pires, bom, paro por aqui, tocando as minhas peças favoritas de Chopin, Schubert, Schumann, Bach e Beethoven.

Se um piano é bom, imagine dois ao mesmo tempo, repetindo a primeira frase com uma pequena diferença. Pensando bem, nem sempre dá certo. Alguns podem discordar, mas o de Herbie Hancock e Chich Corea, dois dos maiorais do jazz, estou dizendo de An Evening with Herbie Hancock & Chick Corea (CBS, 1978), é chato.

Ouvi há poucos dias um em que a fórmula funciona, e bem: No Choice (2006), de Bill Carrothers e Marc Copland. O problema mais comum desse tipo de disco é de não conseguirmos definir quem é quem. As melhores soluções são sempre as mais simples: você ouve Carrothers no canal esquerdo e Copland no direito.

O início do CD é primoroso. A escolha também é feliz. Lonely Woman, de Ornette Coleman, é um daqueles standards modernos que vieram para ficar. Ouça.




No repertório escolhido por ambos incluem-se standards tradicionais como You and the Night and the Music, Take the “A Train”, Blue in Green e Bemsha Swing, de Thelonious Monk. Mais dois temas completam No Choice: Masqualero, de Wayne Shorter, e uma surpresa. Os fãs do canadense Neil Young reconhecerão rapidamente The Needle and the Damage Done, canção incluída em Harvest (Reprise 1972). Este álbum foi o álbum mais vendido em 1972, nos EUA.

Ouça The Needle and the Damage Done.



Se você quiser conhecer outro bom álbum de duos jazzísticos de piano, acesse http://bit.ly/1qXeJa6. Brad Mehldau e Kevin Hayes, em Modern Times, são perfeitos. Por coincidência, tocam Lonely Woman, também. Ouça.




quinta-feira, 16 de maio de 2013

Jane Monheit e o gosto dos outros


O autógrafo de Jane com algumas gotas de whisky
Em três ocasiões tive a oportunidade de ver Jane Monheit no Bourbon Street Music Club, todas graças aos convites simpáticos de Carlos Conde. Ir com ele significava ficar na primeira fileira de mesas, e de graça. O único porém era de que ficávamos sujeitos aos perdigotos dos cantores. O jazz, sem chauvinismos, é mais do universo masculino, e não por coincidência, nossa mesa, na maioria das vezes, constituía-se apenas de seres deste sexo. A Dôra, mulher do Conde, ia muito de vez em quando, nunca quando era de música estritamente instrumental. Segundo outro amigo, o Zeca Leal, que conhecia tudo de jazz e, principalmente de Frank Sinatra (adorava dizer que foi a pessoa que mais comprara discos do “old blue eyes”; essa história conto em http://bit.ly/UTQNF3), a preferência das mulheres, em se tratando do gênero, recaía em temas de musicais de Hollywood.

Por ser costumeiramente uma mesa só de homens, imagine o tipo de comentários que surgiam quando os shows eram de representantes do sexo feminino, é claro, além das críticas e elogios específicos relacionados aos músicos, ao repertório, à execução, de certo solo do pianista, do baixista ou do saxofonista? Lembro que uma cantora nos impressionou especialmente por suas formas e pela beleza. O Conde não deixou de prestar atenção – e tecer comentários – em certas características físicas bem ao gosto dos brasileiros de Nnenna Freelon. Todos à mesa concordaram. E também quanto à voz, que seja dito. Aliás, a pianista, uma japonesa, de quem não recordo o nome, era muito boa.

Como vimos Jane Monheit por três vezes em ocasiões diferentes, percebemos certas mudanças físicas. Jane, mesmo hoje, com 35 anos, continua com um rosto muito bonito e seus lábios carnudos chamam muito a atenção. As observações, na primeira vez, foi quanto à pele alva, perfeita, belos olhos emoldurados por sombrancelhas bem desenhadas e nariz perfeito. Mas precisávamos arrumar um defeito. Era um pouco cheinha.

Uma das faces da sensualidade de Jane
Na segunda vez, para nossa surpresa, estava bem magra. Comentário masculino, com algo de chauvinismo: “deve estar apaixonada.” Verdade. O felizardo estava do seu lado: era Rick Montalbano, seu baterista. Bom, não disse uma palavra de suas qualidades como intérprete até agora. É afinadíssima. É, no entanto, uma qualidade que esperamos de qualquer intérprete.
Na terceira vez em que fomos vê-la no Bourbon – como John Pizzarelli havia ficado “freguês” dos palcos brasileiros – estava gordinha de novo. Aqui não direi o que foi comentado à mesa. Entre a primeira e a terceira vez havia ficado fã de Ivan Lins e cantou algumas de suas músicas e, obviamente, temas jobinianos.

O primeiro disco de Monheit foi Never Never Land, lançado em 2000, na esteira do segundo lugar conquistado no prestigiado Thelonious Monk International Jazz Competition. Fôra avaliada por um júri primeiro time: Dianne Reeves, Diana Krall, Nnenna Freelon, Dee Dee Bridgewater e Joe Williams. Nos álbuns seguintes, como no primeiro, prevalecem os standards, com um ou outro tema mais recente como A Case of You, de Joni Mitchell, e é acompanhada por um músicos de jazz excepcionais como Alan Broadbent, Ron Carter, Christian McBride, Tom Harrell, Kenny Barron, Hank Crawford, Bucky Pizzarelli (pai de John Pizzarelli), Toots Thielmans e Geoffrey Keezer. Demonstração de prestígio.

Em In the Sun, de 2002, Jane canta, pela primeira vez Ivan Lins: Começar de Novo e Once I Walked in the Sun (se não me engano, em português é A cor do pôr-do-sol, letra de Celso Viáfora). Once I Walked in the Sun é cantada com participação de Lins. Começar de Novo é com arranjo de Vince Mendoza e no final há um belíssimo e mínimo solo de trompete de Tom Harrell. Confira. É um dos melhores Começar de Novo até agora registrados.


Nota: Todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.


É evidente a paixão de Jane pela música brasileira. Em Surrender (2007), das dez faixas, seis são de brasileiros. Como de costume, inclui uma composição de Ivan (participa cantando também) – Rio de Maio –, outra da feliz parceria com Viáfora. As outras são de Jobim, Dori Caymmi e Sérgio Mendes. O toque “pop” é a gravação de Overjoyed, de Stevie Wonder. É um bom disco.

Agora em 2013, Jane acaba de lançar The Heart of Matter, seu décimo álbum. Ouvi e baixou a bronca. Apesar de considerá-la afinadíssima, é muito certinha para o meu gosto. Tem alguma coisa faltando. Em matéria da Downbeat (junho de 2013), Allen Morrison tece rasgados elogios à cantora. Depois de ouvir por algumas vezes, vou discordar. Enjoei. Seu jeito “sensual” de cantar, arfante, me faz lembrar o que o Zeca Leal, amigo que faz falta, agora que se foi, com seus comentários ácidos e engraçados. Disse uma vez que alguns intérpretes cantam com um fole na garganta. Para cada frase, uma puxada de ar, como se estivesse afogando. Não tinha percebido o quanto Monheit “arfa” e suas modulações vocais, sabe, aquelas em que a voz vai num sobe e desce suspirante, especialmente em Two Lonely People (quarta faixa), é irritante. Allen Morrison escreve que “ela nunca cantou melhor ou com maior convicção, desmentindo a sabedoria convencional de que a melhor arte nasce das cinzas da desgraça.” O que escreve outro Bobby Reed, da mesma revista, em “Editor’s Picks” do mês de maio, é só elogios. Estou começando a pensar que sou o único que não gostou do disco. Outra coisa que passou a irritar-me e havia percebido nos shows, mas não incomodava tanto é sua tendência a reforçar um lado sensual, não apenas pelos movimentos no palco, assim como pelo modo de cantar, cheio de modulações e, como havia dito, arfante. Garanto porém que deve ter muitos que adoram esse seu estilo. Prefiro Julie London.

Última coisa: não falta Ivan Lins. Desta vez, canta Depende de Nós e A Gente Merece Ser Feliz. Curiosidade: Sing, aquela do Vila Sésamo. A melhor do disco: Born to Be Blue, de Mel Tormé e Robert Wells.

Ouça Sing.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

O “Duos III”, de Luciana Souza

Foto de Bob Wofelson, bela capa de Kiko Farkas
Sempre lembro de histórias do Carlos Conde. Não sei se a que vou contar já foi contada por mim. Como tantas que divertiam seus amigos por conta de suas idiossincrasias e particularidades, essa também tem seu lado engraçado. Em um dos festivais de jazz, em São Paulo, Luciana Souza estava dando sopa no saguão do teatro, depois de terminadas as sessões, muito simpática, autografando discos, conversando com os fãs. O Alberico Cilento, muito amigo do Conde, sabendo da “mania” dele de colecionar autógrafos, perguntou se não ia pedir um para ela. O Conde respondeu: “Mas ela é muito nova.”

Ele tinha uma infinidade de discos autografados, desde a época dos LPs. A dezena de discos com autógrafos foram conseguidos quando eu estava com ele. Normalmente, nos shows levava os LPs e os CDs em um envelope e, findas as apresentações, ia ao camarim conversar com os músicos e pedir autógrafos. Bom papo, sempre tinha do que conversar com eles devido ao enorme conhecimento que tinha do jazz. Eu, bem mais tímido que ele, passei a levar os encartes dos CDs dos artistas no bolso e, aproveitando da situação, pedia também.

A parte engraçada do “mais ela é muito nova” se devia a um motivo bem particular. Cliente dos bons da Jazz Record Center, o melhor lugar para se adquirir discos, cartazes, revistas e souvenirs relacionados ao gênero, descobriu que aqueles autógrafos poderiam se transformar em dólares. Como ia com frequência – umas duas vezes por ano a Nova York –, ficara amigo do dono, o Fred Cohen. Em uma das ocasiões em que fui à loja, que fica em um lugar escondido no Chelsea, no oitavo andar, o Fred perguntou pela saúde do Conde, sabendo que ele estava doente. Era um dos bons clientes do Fred.

Lembro dessa história, agora quandoé lançado o álbum Duos III, de Luciana. Estabelecida há muito tempo em Nova York, é um nome bem conhecido e consagrado. No último “Melhores do Ano”, da revista Downbeat, foi considerada a décima melhor cantora. Não é pouco. Num universo concorrido em que o que não falta é cantora, é uma boa classificação, principalmente por interpretar mais em português do que em inglês. Para se ter uma ideia, dentre as vinte melhores, quase todas são americanas, canadenses ou inglesas. As exceções são Roberta Gambarini – italiana –, e Claudia Acuña – chilena.

Em seu Duos III, os “outros” são os brasileiros Toninho Horta, Marco Pereira e Romero Lubambo. As atuações dos violonistas são divididas democraticamente em quatro num total de doze faixas. Toninho toca em Pedra da Lua, Tim Tim por Tim Tim, Inútil Paisagem e Beijo Partido; Marco Pereira em Chora Coração, Dona Lu, Eu Vim da Bahia e Mágoas de Caboclo; e Romero Lubambo em Doralice, As Rosas Não Falam, Lamento Sertanejo/ Maçã do Rosto e Dindi. O repertório bem conhecido.

Toninho Horta sempre imprime sua marca ao violão. Possui uma levada só dele, muito especial. É o único que participa nos vocais, fazendo um belo vocalise em Pedra da Lua. Participa com duas composições próprias: além desta, Beijo Partido. Pereira também tem uma sua, sem letra, apenas com vocal de Luciana, e a música se chama Dona Lu; acho que não é para dona Lu Alckmin. Marco, dos três, é o mais clássico. É da tradição dos grandes virtuoses do violão no Brasil. Lubambo, desde 1985, mora nos EUA e, além do trabalho solo, tocou e gravou com Paquito D’Rivera, Dianne Reeves, Astrud Gilberto, Dizzy Gillespie, Herbie Mann, Michael Brecker, Al Jarreau e Dave Douglas.

Duos III é um disco muito agradável de se ouvir, intimista. Ela é afinada, mas parece muito contida. Sempre foi assim. Não empolga, bom, essa é a minha opinião e nem todos precisam concordar. Mesmo quando canta mais “balançado”, como Maçã do Rosto, de Djavan, não é daquelas que nos faça sair dançando pela sala. Sem ser uma crítica e, já que comecei, acho que os americanos deviam conhecer Monica Salmaso.

Como sou fã de carteirinha de Toninho Horta, acho que você deve ouvir Pedra da Lua. (Sobre ele, leia O céu mais lindo do Brasil, TH, um talento pouco reconhecido? , TH e espinha de peixe)


Outro belo destaque é Mágoas de Caboclo, com Marco Pereira.

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Ouça Luciana e Toninho Horta em Pedra da Lua.

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Agora, bom mesmo é Mágoas de Caboclo, com Orlando Silva. Essa é imperdível.

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quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Dose dupla de Bill Charlap: duas mulheres e duplo arco-íris

Bill e Rosnes; à direita, a mãe Sandy
Seguir os passos dos pais se, principalmente, geniais, é um bocado difícil. É um peso tremendo. É a velha história de o filho querer ser melhor que o pai – ou a mãe –, ou do filho carregar o peso dos anseios, frustrações e projeções paternas. Agora, imagine se o seu pai é Frank Sinatra… ou Pablo Picasso? Fico a pensar por que o filho de Sinatra (o Jr.) resolveu virar cantor; ou sua filha Nancy. Pelo menos, Nancy teve seus momentos de glória. “Explodiu” com These Boots Are Made for Walking. Na memória “mais fresca”, aloja-se a música Bang, Bang, inserida em Kill Bill I, de Quentin Tarantino. Ótima. Mas, glória mesmo foi quando mostrou algo além dos dotes vocais: posou nua na revista Playboy quando tinha 55 anos de idade. Ótima, repito. Mas, Frank Sinatra Jr.? Valha-me Deus… e ainda emulando o pai sagrado.

Nem tudo segue esse determinismo. É o caso de Dewey Redman e seu filho Joshua Redman, ambos saxofonistas excepcionais. É certo que Joshua cresceu longe do pai. Outro é o de Kenny Drew. Seu filho – Kenny Drew, Jr. – é pianista, como foi o pai, tão bom quanto ele.

O Drew “sênior” nasceu em Nova York, tocou com uma turma “allstar” (John Coltrane, Howard McGhee, Coleman Hawkins, Charlie Parker) e, como muitos bons músicos que tiveram problemas com drogas, e outros, por conta do segregacionismo racial, mudou-se para a Europa. Lá, tiveram boa acolhida e foram idolatrados pelos amantes do jazz. São clássicos os inúmeros discos que gravou com o baixista Niels-Henning Ørsted Pedersen. O Drew filho tem um estilo bem diferente, muito em razão do aprendizado iniciado na música clássica. Possui um estilo bem diferente. Em ambos os casos, é de se examinar com lupa: por que escolheram os mesmos instrumentos que tornaram seus pais conhecidos? Joshua podia ter virado pianista e Drew Jr., saxofonista; ou baterista, como o filho de Thelonious Monk; seria o melhor modo de se escapar de constrangedoras comparações.

Bill Charlap vem de uma família de músicos. O pai, Moose Charlap, foi compositor e tem o nome creditado como autor de composições de musicais da Broadway como Peter Pan, Alice Através do Espelho e Kelly. A mãe, Sandy Stewart é cantora, participou da banda de Benny Goodman e do programa de televisão de Perry Como. E como se não bastasse, é primo distante de Dick Hyman por parte de pai. É quase natural que fizesse alguma coisa ligada à música. E mais: desde 2007, está casado com a pianista Renee Rosnes.

A imagem que ilustra a capa de Double Portrait
Renee gravou o primeiro disco em 1989 pela EMI Toshiba. Contratada pela Blue Note, lançou vários álbuns que chamaram a atenção da crítica e tiveram boa receptividade de público. Bill lançou seu primeiro solo em 1993. Explica-se: ela é um pouco mais velha (é de 1962, e ele, de 1966). A parceria não é apenas doméstica: gravaram Double Portrait (Blue Note, 2010).

Para quem, como Carlos Conde, que não gostava de piano solo – tinha paixão pelo formato piano, baixo e bateria –, ouvir dois pianos então, era tortura chinesa ou garrote vil. Soube, outro dia, pelo Alberico Cilento, que foi um dos seus melhores amigos musicais, que ele detestava Herbie Hancock. É aquela história: gosto não se discute. Era tanto que, uma vez, ao gravar uma apresentação de Miles Davis, cortou as partes em que Hancock solava.

Dando meia razão ao Conde, dois pianos podem ser um excesso. Como adoro piano solo, gosto de dois pianos e a quatro mãos, tanto na música erudita como no jazz. Está certo que não significa prazer em dobro. Pode até, às vezes, ser um tanto chato, pelo excesso. Mas, vamos; e se os dois são Hank Jones e Tommy Flanagan, por exemplo?, ou Brad Mehldau e Kevin Hayes? Por alguma razão – e não é pelo Conde –, acho o de Herbie Hancock e Chick Corea (An Evening with HH & CC - In Concert) meio chato. Um recente de Chick Corea, dessa vez, com o italiano Stefano Bolani (Orvieto. ECM, 2011), em apresentação ao vivo, por enquanto, não me “pegou”; é questão de pensar que dois bons, na soma, não resultam em algo duplamente bom.

Esse não é o caso de Double Rainbow (Blue Note, 2010), perdão, Double Portrait. Título e capa bem-sacados, com a imagem de Acima da vila, de Marc Chagall. Perfeito. E o CD é ótimo. Começa bem brasileiro com Chorinho, creditado ao tecladista Lyle Mays. A próxima é a nossa Chovendo na Roseira com seu nome americanizado. É um belo tema instrumental e letra ótima (“Olha/ Está chovendo na roseira/Que só dá rosa mas não cheira/ A frescura das gotas úmidas/ Que é de Betinho, que é de Paulinho, que é de João/ Que é de ninguém!”… e termina com um “ah, você não é de ninguém.”).

Já que o assunto é “duplo”, Double Portrait não é o único de Charlap gravado com alguém da família. Antes desse gravou um álbum acompanhando a mãe. Chama-se Love Is Here to Stay (2005); mais “bandeiroso”, impossível. Sem julgar se Sandy Stewart é ou não uma grande intérprete, parece haver um respeito muito grande de Bill para com sua mãe; em excesso. A impressão é que ficou tímido. Não há um solo daqueles que ele costuma fazer quando toca com seu trio. Double Portrait é exuberante, quase explosivo, e esse com Sandy é tímido, contido. Ficamos a esperar um rompante, como um arranca-rabo entre mãe e filho, e isso nunca acontece. E se tudo parece tão harmônico, neuroticamente, estamos à busca de mais emoções, algo que nos faça duvidar do amor perfeito.

A música que você ouve é Double Rainbow, de Jobim.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

O clássico da Noviça Rebelde por Eric Alexander

Alexander e seu tenor
My Favorite Things, de Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II, faz parte do musical A Noviça Rebelde; é de 1959. Quando, em 1961, John Coltrane gravou essa canção em longos 14 minutos no disco de mesmo título pela gravadora Atlantic, imediatamente, tornou-a um clássico. Quando os long-play (LP) substituiram os discos de 7 e 10 polegadas, abriu-se a possibilidade de se registrarem performances mais longas, coisa antes circunscrita às apresentações ao vivo.

Coltrane foi participante e protagonista das várias transformações que aconteceram no jazz a partir dos anos 1950. Tocou com Dizzy Gillespie no início da carreira e entrou para o grupo de Miles Davis em 1955. Não ficou muito tempo em decorrência de um problema que afligia boa parte dos melhores músicos de jazz da época: as drogas. Mesmo assim, continuou na ativa gravando discos para o selo Prestige e tocando com Thelonious Monk. Foi um aprendizado e tanto. Segundo Coltrane, “ele me mostrou as respostas tocando-as… Monk foi um dos primeiros a me mostrar como tocar duas ou três notas ao mesmo tempo no tenor.” Era o início da consolidação do estilo que o crítico Ira Glitter chamou de “sheets of sound”.

Quando voltou ao grupo de Miles, em 1958, era outro Coltrane. Em quatro sessões, uma em 26 de maio de 1958 das 19 às 22h; em 2 de março de 1959, das 14h30 às 17h30; e outra das 19 às 22h; em 22 de abril, das 14h30 às 17h30, nos estúdios da Columbia gravaram um dos melhores discos de todos os tempos: Kind of Blue.

No mesmo ano de 1959, assinou um contrato com a Atlantic Records e gravou Giant Steps, Coltrane Jazz, My Favorite Things, Olé Coltrane, Coltrane’s Sound (lançado em 1964), e Coltrane’s Blues (lançado em 1962), como líder.

Nos discos gravados pela Atlantic passou a tocar o sax soprano também, instrumento consagrado por Sidney Bechet, e que, praticamante, havia deixado de ser usado no jazz. A execução de My Favorite Things no sax soprano foi o perfeito exemplo das novas possibilidades de improvisação que esse instrumento abriu para o que Coltrane vislumbrava.

Pode-se dizer que Coltrane “inventou” o tema de My Favorite Things para o jazz. Seu início com o piano de McCoy Tyner, o longo solo de Coltrane e a bateria “drum machine” de Elvin Jones são inesquecíveis e são referências para qualquer interpretação posterior.

É o que sucede com a brilhante interpretação de Eric Alexander. David Hazeltine, no acompanhamento, segue as mesmas linhas melódicas de McCoy Tyner. Alexander era um dos saxofonistas preferidos do amigo Carlos Conde (ele detestava Ben Webster, um dos meus ídolos). Foi por ele que o descobri. Assistimos a uma apresentação de Alexander em um festival de jazz há alguns anos. O tenorista navega com desenvoltura em andamentos lentos – como na série Gentle Ballads, pela gravadora japonesa Venus – com performances mais uptempo, caso de My Favorite Things, que você vai ouvir agora. Tem como sidemen, além de Hazeltine, do baixista John Webber e do baterista Joe Fansworth.




Ouça o clássico de Coltrane em apresentação para uma emissora de TV.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Carol Welsman ou “Afinal, por que elas cantam em português?”

Carol Welsman e seu piano
Carol Welsman é uma canadense de belo porte – deve ter, pelo menos um metro e oitenta de altura –, bonita, boa pianista e cantora. Com esses predicados poderia ter sido uma “pré” Diana Krall. O destino sorri mais para uns do que para outros. Além de Carol, lembro de Karrin Allyson, que possui mais ou menos os mesmos atributos. A discussão de dizer qual das três é melhor, facilmente, cairia no terreno da subjetividade. Objetivamente, os predicados de Krall se encaixaram melhor no mercado: desfrutou a felicidade de ter sido contratada por uma grande gravadora de jazz – a Impuse, e depois, a Verve –; foi “descoberta” pelo baixista Ray Brown e estudou piano com Jimmie Rowles; e, obviamente, é um talento explosivo em forma de uma bela mulher.

Krall pode ter mais atributos que as duas citadas, igualmente. Allyson, contratada por outra boa gravadora – a Concord – tem uma “fachada” tão boa quanto a da canadense, é boa pianista, apesar de, pouco se apresentar tocando-o, e possui uma voz levemente anasalada, irresistível e afinadíssima. Das três, a voz de Carol é a mais comum, mas é ótima no piano; como Krall, canta sentada ao piano.

Nem conhecia Carol Welsman até sua apresentação no Bourbon Street Music Club, São Paulo, 2003. O amigo Carlos Conde sempre recebia ingressos para as apresentações de jazz por conta de seu programa semanal na Rádio Cultura. A prioridade era a Dôra, sua mulher; mas quando não ia, sobrava para nós. Desse jeito, vi John Pizzarelli até enjoar, pudemos – a mesa era só de homens nessa vez – comentar sobre a boa forma física, bem ao gosto dos brasileiros, de Nnenna Freelon, ver o “efeito sanfona” agindo em Jane Monheit e, antes de tudo, compartilhar belas apresentações com o saudoso Conde.

O autógrafo à direita, na vertical
Ver Carol emergir no pequeno palco do Bourbon foi uma bela surpresa. Era uma bela senhora (43 anos na época), alta e felinamente esguia, com uma roupa que lhe realçava o corpo, e descalça; e eu que pensava que apenas Maria Bethânia e De Kalafe (alguém sabe quem é ela? Resposta no fim do texto) tinham o direito de cantarem descalças… A visão daquela mulher de cabelos claros ao piano impressionava. À habilidade no piano somava-se a voz clara e afinada e, presença de palco, principalmente.

Nem me recordo do repertório da apresentação. Lembro mesmo da grata surpresa de “descobrir” mais uma boa cantora. Esse foi meu prazer maior. Ao final do show, como de costume, quando estava com o Conde, fomos até o camarim. Muito simpática, trocou algumas palavras conosco e até ganhei um autógrafo no CD The Language of Love.

Refiro-me com certa frequência aos cantores internacionais cantando em português (http://bit.ly/miv8gt, http://bit.ly/m9Yu1j, http://bit.ly/kGTsht, http://bit.ly/ipS62M). Para continuar na toada, ouça Samba de Uma Nota Só. O interesse de Welsman é mais ou menos antigo: teve discos produzidos por Oscar Castro Neves. Tenho uma teoria: todas as que ouviram o Mais Que Nada, de Jorge Benjor, com a banda de Sergio Mendes, ficaram com vontade de cantar uma música em português. Coincidência ou não, Castro Neves estava lá, com Sergio Mendes.



Ouça e veja o belíssimo dueto de Carol Welsman e Djavan em Oceano.



Nota: De Kalafe surgiu nos anos 1960. O visual hippie – cabelos longos e “despenteados” e o costume de se apresentar vestida com uma longa bata branca – representava, de certo modo, um ato de rebeldia em relação à ditadura militar no Brasil. Participou de festivais de música e apresentou-se em programas da antiga TV Record. Sumiu. Mas esse “desaparecimento” se deu porque foi morar no México, se não me engano. E parece que é bem conhecida no mercado latino. Algum internauta brasileiro a “descobriu” em uma série de TV mexicana chamada Capadocia, pela HBO, fazendo uma participação especial. Ah, esqueci: a diferença é que ela cantava descalça, antes de Cesaria Évora.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

A melhor loja de jazz no mundo

Uma loja que todo mundo deve conhecer
Na obsessão que a humanidade tem de classificar e comparar tudo o que existe nessa terra, afirmo que a melhor loja especializada em jazz do mundo é a Jazz Record Center, do Fred Cohen, em Nova York. O colecionador é, antes de mais nada, um obsessivo. É capaz de ir até o fim do mundo à caça do objeto de seu desejo. Pode ser para colecionar tampinhas de garrafa ou maços de cigarros. É capaz de arrumar um jeito de conseguir aquela tampinha de certa garrafa de cerveja do Cazaquistão. Às vezes, o colecionador, em sua patológica busca, deixa de fruir e passa a, simplesmente, ter o prazer de possuir, de conseguir ter seu objeto de desejo.

Duas lojas do Rio de Janeiro, a Modern Sound e a Billboard, ambas localizadas na Barata Ribeiro, em Copacabana, fizeram a alegria de muita gente. Lembro que, moleque, quando ia para lá, mesmo com pouco dinheiro, fazia questão de comprar “aquele” disco importado que nenhuma loja em São Paulo possuía. Em São Paulo, existiam duas grandes lojas especializadas em jazz e música erudita: a Bruno Blois e a Brenno Rossi. Uma terceira loja, o Museu do Disco, era o paraíso dos que buscavam as últimas novidades do rock. Como as importações eram difíceis e custosas, os discos chegavam em lotes de centenas. Os clientes mais contumazes tinham o privilégio de ser avisados antecipadamente. Sobre isso, há uma história muito boa, contada por Carlos Conde. Disse que o Alberico Cilento era o “inimigo” a ser combatido no caso de compras de discos.

Um americano ia voltar à terra natal e pretendia vender sua coleção de LPs. Assíduo frequentador da Bruno Blois, fez um arranjo para que a loja conseguisse compradores de uma coleção de 450 vinis em perfeito estado. Vários clientes foram avisados: o Conde, o Alberico e o Ronald Rodrigues, executivo da Gessy Lever, que tinha a sede perto da Praça da República, bem próxima à rua 24 de Maio, onde ficava a loja. Alberico tomou um táxi e foi até lá. Chegou antes de todos. Escolheu os que queria. No lote, simplesmente, todas aquelas joias da gravadora Blue Note estavam dando sopa. Bom, o Alberico levou 446 LPs. Deixou quatro porque os tinha repetidos ou porque não se interessou. No dia seguinte, quando apareceram os demais avisados, restava menos 1% do que tinham posto à venda. Todo mundo ficou chateado com o Alberico.

Fui vítima do Alberico uma vez. Na época em que ainda era estudante, sobrevivendo de mesada, costumava ir a uma pequena loja no bairro de Pinheiros, a Edgar Discos (tenho uma história sobre esse estabelecimento; se quiserem ler, está em http://bit.ly/cKfOiM). Era ótimo, pois, frequentemente, encontrava boas ofertas de LPs usados de jazz e música clássica. Tinha visto um disco de Ben Webster com o pianista Joe Zawinul. Como a minha capacidade de compra era bem limitada, olhava tudo para depois levar dois ou três LPs. Enquanto ia fuçando, chega o Alberico que, naquela época sabia quem era e o conhecia de vista apenas, e logo vai separando uns LPs. E, assim, fiquei sem o disco do Ben Webster. Anos depois, quando já tinha me tornado seu amigo, contei do ocorrido. Alberico disse: “Podia ter falado que eu deixava o disco para você.” Bom, na oportunidade, não tive coragem de dizer alguma coisa.

Uma loja do Rio abriu uma filial em São Paulo, na avenida Juscelino Kubitshek. Tinha boas ofertas de LPs importados de jazz e música erudita, e também de CDs – naquele tempo, os dois coexistiam e ainda muita coisa não tinha sido lançada nesse novo formato. Os sábados se tornaram o dia em que a turma do jazz se encontrava na Grammophone. Entre às 11 e 13 horas, o Conde, o Alberico, o Sieiro, eu e outros mais trocávamos considerações e recomendações. Como eram mais velhos e experts, as recomendações eram para mim. Gastei muito dinheiro por culpa deles. Aprendi muito, também.

As grandes dicas são as lojas fora do Brasil. Alguns países como a Espanha e os Estados Unidos, naturalmente, são lugares preciosos. Além das tradicionais HMV (cadeia inglesa), a Virgin e a Tower, todas desaparecidas, assim como a Borders que, se não me engano, se foi também, o grande lugar para se encontrar discos a bom preço é ainda a J&R, que fica perto das caídas Torres Gêmeas. A propósito, dias depois do 11 de setembro, falei com o Conde e ele saiu com uma de humor negro: “Você sabe qual a maneira mais rápida de se chegar à J&R? De avião.” Ele tinha voltado de Nova York uns três dias antes da tragédia. Dôra, sua mulher, e Denise, a filha, ainda se encontravam lá e estavam tendo problemas de voltar para o Brasil.

Com o fim das megastores, sobraram as pequenas. E são elas os achados. Passei dias em Firenze e não encontrava uma loja de discos. Casualmente, passando por uma ruela ouvi alguma música. Entrei e comecei a fuçar. Era o único cliente. Perguntei de Roberta Gambarini. Apesar de radicada em Nova York, nasceu na Itália. Queria saber se encontrava algum disco anterior aos que gravou em gravadoras americanas. Disse-me que tinha acabado de sair um, mas pela americana EmArcy. Mostrou-me um álbum duplo gravado na Itália com Andrea Donati, cantado em italiano. Falei da dificuldade em achar lojas de discos pelos lugares que havia passado. Conclusão: esse tipo de comércio tende a desaparecer.

Chegou-me pelo correio o livro Jazz Covers, editado pela Taschen. Ao abri-lo, vi que a segunda apresentação era de um tal Fred Cohen. Lembrei logo dele. É o dono de uma loja escondida na West 26th Street no oitavo andar de um prédio. É preciso apertar a campainha para que abram a porta. Conheci-a por causa do Conde. Na primeira vez em que estive lá, falei dele e Fred perguntou dele. A loja não é só de discos. É, antes de mais nada, a memorabilia do jazz. Tem desde vinis raros, como posters, publicações, discos autografados e filmes. Tem outra história muito boa envolvendo o Conde relacionada a essa loja. Ele, ao longo da vida, colecionou discos autografados pelos artistas. Descobriu que podia vendê-los, não no Brasil, mas nos EUA, onde há um comércio desse tipo de coisa. Como costumava ir, ao menos duas vezes por ano a Nova York, sempre levava alguma coisa e deixava em consignação. Uma vez, disse para o Alberico Cilento que tinha vendido um LP do Mel Tormé autografado por 100 dólares. O problema é que o disco não era dele. Era do Alberico.

Faz dois anos que não vou à Jazz Record Center, a melhor loja de jazz do mundo. Espero que não tenha fechado.