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| Uma loja que todo mundo deve conhecer |
Duas lojas do Rio de Janeiro, a Modern Sound e a Billboard, ambas localizadas na Barata Ribeiro, em Copacabana, fizeram a alegria de muita gente. Lembro que, moleque, quando ia para lá, mesmo com pouco dinheiro, fazia questão de comprar “aquele” disco importado que nenhuma loja em São Paulo possuía. Em São Paulo, existiam duas grandes lojas especializadas em jazz e música erudita: a Bruno Blois e a Brenno Rossi. Uma terceira loja, o Museu do Disco, era o paraíso dos que buscavam as últimas novidades do rock. Como as importações eram difíceis e custosas, os discos chegavam em lotes de centenas. Os clientes mais contumazes tinham o privilégio de ser avisados antecipadamente. Sobre isso, há uma história muito boa, contada por Carlos Conde. Disse que o Alberico Cilento era o “inimigo” a ser combatido no caso de compras de discos.
Um americano ia voltar à terra natal e pretendia vender sua coleção de LPs. Assíduo frequentador da Bruno Blois, fez um arranjo para que a loja conseguisse compradores de uma coleção de 450 vinis em perfeito estado. Vários clientes foram avisados: o Conde, o Alberico e o Ronald Rodrigues, executivo da Gessy Lever, que tinha a sede perto da Praça da República, bem próxima à rua 24 de Maio, onde ficava a loja. Alberico tomou um táxi e foi até lá. Chegou antes de todos. Escolheu os que queria. No lote, simplesmente, todas aquelas joias da gravadora Blue Note estavam dando sopa. Bom, o Alberico levou 446 LPs. Deixou quatro porque os tinha repetidos ou porque não se interessou. No dia seguinte, quando apareceram os demais avisados, restava menos 1% do que tinham posto à venda. Todo mundo ficou chateado com o Alberico.
Fui vítima do Alberico uma vez. Na época em que ainda era estudante, sobrevivendo de mesada, costumava ir a uma pequena loja no bairro de Pinheiros, a Edgar Discos (tenho uma história sobre esse estabelecimento; se quiserem ler, está em http://bit.ly/cKfOiM). Era ótimo, pois, frequentemente, encontrava boas ofertas de LPs usados de jazz e música clássica. Tinha visto um disco de Ben Webster com o pianista Joe Zawinul. Como a minha capacidade de compra era bem limitada, olhava tudo para depois levar dois ou três LPs. Enquanto ia fuçando, chega o Alberico que, naquela época sabia quem era e o conhecia de vista apenas, e logo vai separando uns LPs. E, assim, fiquei sem o disco do Ben Webster. Anos depois, quando já tinha me tornado seu amigo, contei do ocorrido. Alberico disse: “Podia ter falado que eu deixava o disco para você.” Bom, na oportunidade, não tive coragem de dizer alguma coisa.
Uma loja do Rio abriu uma filial em São Paulo, na avenida Juscelino Kubitshek. Tinha boas ofertas de LPs importados de jazz e música erudita, e também de CDs – naquele tempo, os dois coexistiam e ainda muita coisa não tinha sido lançada nesse novo formato. Os sábados se tornaram o dia em que a turma do jazz se encontrava na Grammophone. Entre às 11 e 13 horas, o Conde, o Alberico, o Sieiro, eu e outros mais trocávamos considerações e recomendações. Como eram mais velhos e experts, as recomendações eram para mim. Gastei muito dinheiro por culpa deles. Aprendi muito, também.
As grandes dicas são as lojas fora do Brasil. Alguns países como a Espanha e os Estados Unidos, naturalmente, são lugares preciosos. Além das tradicionais HMV (cadeia inglesa), a Virgin e a Tower, todas desaparecidas, assim como a Borders que, se não me engano, se foi também, o grande lugar para se encontrar discos a bom preço é ainda a J&R, que fica perto das caídas Torres Gêmeas. A propósito, dias depois do 11 de setembro, falei com o Conde e ele saiu com uma de humor negro: “Você sabe qual a maneira mais rápida de se chegar à J&R? De avião.” Ele tinha voltado de Nova York uns três dias antes da tragédia. Dôra, sua mulher, e Denise, a filha, ainda se encontravam lá e estavam tendo problemas de voltar para o Brasil.
Com o fim das megastores, sobraram as pequenas. E são elas os achados. Passei dias em Firenze e não encontrava uma loja de discos. Casualmente, passando por uma ruela ouvi alguma música. Entrei e comecei a fuçar. Era o único cliente. Perguntei de Roberta Gambarini. Apesar de radicada em Nova York, nasceu na Itália. Queria saber se encontrava algum disco anterior aos que gravou em gravadoras americanas. Disse-me que tinha acabado de sair um, mas pela americana EmArcy. Mostrou-me um álbum duplo gravado na Itália com Andrea Donati, cantado em italiano. Falei da dificuldade em achar lojas de discos pelos lugares que havia passado. Conclusão: esse tipo de comércio tende a desaparecer.
Chegou-me pelo correio o livro Jazz Covers, editado pela Taschen. Ao abri-lo, vi que a segunda apresentação era de um tal Fred Cohen. Lembrei logo dele. É o dono de uma loja escondida na West 26th Street no oitavo andar de um prédio. É preciso apertar a campainha para que abram a porta. Conheci-a por causa do Conde. Na primeira vez em que estive lá, falei dele e Fred perguntou dele. A loja não é só de discos. É, antes de mais nada, a memorabilia do jazz. Tem desde vinis raros, como posters, publicações, discos autografados e filmes. Tem outra história muito boa envolvendo o Conde relacionada a essa loja. Ele, ao longo da vida, colecionou discos autografados pelos artistas. Descobriu que podia vendê-los, não no Brasil, mas nos EUA, onde há um comércio desse tipo de coisa. Como costumava ir, ao menos duas vezes por ano a Nova York, sempre levava alguma coisa e deixava em consignação. Uma vez, disse para o Alberico Cilento que tinha vendido um LP do Mel Tormé autografado por 100 dólares. O problema é que o disco não era dele. Era do Alberico.
Faz dois anos que não vou à Jazz Record Center, a melhor loja de jazz do mundo. Espero que não tenha fechado.

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