quinta-feira, 5 de agosto de 2010

“Pouco faladas”: Laverne Butler

Se você fizer uma busca pelo Google, encontrará poucos dados sobre Laverne Butler: no site da MaxJazz, sua gravadora, alguns comentário em publicações não muito conhecidas, com exceção do All About Jazz e no próprio site deles, mais algumas informações. Fica-se sabendo que é filha do saxofonista Scott Butler e que atuou com a banda de jazz da Universidade de New Orleans. Ah, e o dado mais importante: o cantor Jon Hendricks encorajou-a a “pensar como um instrumento” e disse que deveria mudar-se para Nova York.

Devem existir outras tantas como Laverne, ou seja, boas cantoras. O caminho do sucesso, às vezes, é misterioso e ardiloso. Conseguiu porém, gravar na MaxJazz, que tem se destacado, com capas e encartes bem cuidados e em revelar alguns novos talentos. Tem no seu cast pianistas bem conhecidos como Mulgrew Miller e, outros menos, como Peter Martin e Bruce Barth, ou um bom trumpetista como Jermy Pelter e, principalmente, bons cantores. Além de Laverne, gravaram Nancy King, Carla Cook e Mary Stallings.

O título “pouco faladas” se refere a alguns cantoras menos conhecidos. Apresentarei algumas delas, sempre com uma amostra em áudio para que possam ouvi-las. Casualmente começo com Laverne Butler. É porque, simplesmente, na exploração pelo que tenho gravado no meu iPod, a ouvi hoje. Apresento uma música bem familiar: Dindi, de Antonio Carlos Jobim. Anexei também um vídeo promocional da MaxJazz com Butler cantando The Days of Wine and Roses, de Henri Mancini. Ouçam e curtam:




quarta-feira, 4 de agosto de 2010

A força de Strange Fruit

A melhor Strange Fruit é a de Billie Holiday. Pelo menos, essa é a opinião geral. Impossível dissociar essa música da cantora. Ela fala de estranhas “frutas” dependuradas em árvores. A letra se compõe de “contrastes”: perfumes de magnólia misturam-se ao cheiro de carne humana carbonizada, de paisagens pastoris de um “galante sul” que se contrapõem à vista de olhos esbugalhados e bocas retorcidas, e o verde das folhas é manchado pelo rubro do sangue.

Foto de Lawrence Breitler que inspirou Strange Fruit
A história de Strange Fruit, no entanto, é anterior à cantora. Um judeu nova-iorquino, morador de Bronx e professor do ensino médio, a partir de uma foto de Lawrence Breitler em que aparecem Thomas Shipp e Abram Smith pendurados numa árvore, linchados, e no primeiro plano, um aglomerado de pessoas brancas indiferentes àqueles corpos, fez um poema assinando como Lewis Allan e o publicou no The New Masses. O nome sugestivo não é mero acaso: o jornal era comunista, como era também Abel Meeropol, verdadeiro nome de seu autor. Lewis e Allan eram os nomes de seus dois filhos que morreram crianças. Juntou-os para forma seu pseudônimo. Meeropol é constantemente lembrado por ter ficado com a guarda dos filhos de Julius e Ethel Rosenberg após a execução de ambos, acusados de espionagem em favor da antiga União Soviética.

Num local chamado Café Society, frequentado por “líderes sindicais, intelectuais, escritores, amantes do jazz, celebridades, estudantes e outras tipos de pessoas de esquerda” – segundo o historiador David W. Stowe – Holiday cantou a música composta por Meeropol. O modelo desse Café era o das casas musicais de Berlim e Paris. Nesse lugar esbarrava-se com simpatizantes ou militantes do comunismo como a escritora Lilian Hellman, o poeta negro Langston Hughes, o cantor Paul Robeson, o músico e teatrólogo Marc Blitzstein, Charles Chaplin ou até Nelson Rockefeller e Lauren Bacall. Mais tarde, a perseguição implacável de Edgar G. Hoover acabou sufocando a existência desses lugares que reuniam esses “subversivos”.

Billie não tinha exatamente o perfil de uma pessoa engajada. “Para ser franco, não acho que ela tenha se sentido à vontade com a canção, porque muito diferente das canções que estava acostumada a cantar.” Meeropol complementa dizendo que Billie perguntou: “O que a palavra ‘pastoral’ significa?” Mesmo sem entender direito o significado das palavras do que cantava, até por certa falta de “sofisticação” intelectual, soube transmitir magnificamente a força contida na letra de Strange Fruit. Essa é a força do grande artista.

Holiday, nessa época, era contratada da Columbia. Seus dirigentes recusaram gravá-la. Acabou sendo registrada por uma pequena gravadora, a Commodore em 1939. Atingiu o 16º lugar nas paradas. Num disco de 10 polegadas gravou quatro músicas e recebeu, no começo, 500 dólares e depois, mais mil. Era um bom dinheiro. Milt Gabler, dono da gravadora, afirmou que, ocasionalmente lhe dava algum dinheiro, pois Billie vivia tendo alguns “probleminhas” financeiros. Além desse registro, existem outros que Billie fez pela Verve Records. Um fato interessante é John Hammond, seu descobridor e produtor na Columbia, não apenas ter recusado a gravar Strange Fruit, como ter afirmado que ela significava ser “o começo do fim para Billie”. Deve-se reconhecer, diante dessa afirmação que seu auge como cantora foi registrado na década de 1930 por essa gravadora. É claro que milhões irão discordar. Muitos acham que a voz judiada pelo abuso do álcool e pelas drogas ficou mais densa, dramática, e por isso, melhor. Alguns estudiosos de sua obra afirmam que Strange Fruit é uma música estranha ao seu repertório.

O crítico Leonard Feather afirmou que Strange Fruit foi a primeira música significativa de protesto e a primeira que se manifesta tão diretamente contra o racismo. Alguns discordam e dizem que Black and Blue, de Louis Armstrong, é a pioneira. Contextualizada ou não, foi gravada por muitos cantores, na maioria, negros. A mais conhecida é a de Nina Simone. Era a perfeita combinação com seu estilo dramático e grave de cantar. Soma-se o fato de que Nina foi uma cantora mais identificada com a luta pelos direitos dos negros; e Strange Fruit não foi a única que Nina cantava e que convergia para a causa racial.

Outro registro que pode nos levar a imaginar algum “engajamento” seria o de Abbey Lincoln, mais por ser conhecida, com seu ex-marido Max Roach, por seu alinhamento com a luta dos negros contra a discriminação. Sua versão em Abbey Sings Billie, porém deve ser considerada como mais uma das canções que gravou do repertório de Lady Day, já que é “alguém cantando alguém”, como tantos outros que existem no mercado fonográfico. Comparando, é como um “Sarah Vaughan Sings Gershwin” ou um “Ella Sings Brecht”. Os discos que Carmen McRae e de Dee Dee Bridgewater gravaram seguem também esse mesmo contexto. Não se pode dizer que a Strange Fruit contida em Lover Man and Other Holiday Classics e To Billie with Love, respectivamente, estejam nesses discos como um alinhamento de ambas pelas causas dos negros.

Ainda no contexto jazzístico, vale registrar o de algumas intérpretes mais contemporâneas. A de René Marie está em Vertigo, de 2001, e a da canadense Ranee Lee em Deep Song, de 1989. Na seara pop há o registro de Sting com a orquestra de Gil Evans, o de Robert Wyatt – belíssima – em Nothing Can Stop Us e outra de Antony & The Johnsons que conheço apenas por um vídeo postado no You Tube (vejam em http://www.youtube.com/watch?v=GUJj01Xhm6g), numa interpretação personalíssima e delicada. Wyatt, em sua carreira solo, depois de se desligar do Soft Machine, gravou várias músicas adequadas para esse contexto de engajamento e identificação com causas sociais e políticas ligadas à esquerda. Gravou Guantanamera, é autor de Timor (contra o domínio colonialista de Portugal) e Song for Che.

Nota: várias informações sobre o Café Society e a conjuntura americana à época em que Strange Fruit foi composta foram baseadas em artigo de David Margolick para a Vanity Fair, de setembro de 1988.

Assistam a um registro de Lady Day cantando Strange Fruit e outro de Robert Wyatt.




Com Robert Wyatt:

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Johnny Marr: grande guitarrista!

Por onde anda Johnny Marr? Depois da dissolução do The Smiths, “dissolveu-se” também, formando o Electronic com o baixista Peter Hook, do New Order. E assim, foi pouco aparecendo, gravando em discos alheios. Como o mundo musical pode prescindir de um grande guitarrista como Marr? Uma das últimas bandas em que participou se chama Modest Mouse.

Cansei do rock. Em 1984 ouvia quase que exclusivamente jazz e música erudita. E como nunca fui de ouvir rádio, ficava completamente por fora das novas tendências – como continuo até hoje. Um dia, indo para a praia com minhas sobrinhas coloquei no CD player uma música do Outkast que tinha acabado de descobrir: Hey Ya! Para a minha surpresa, vi que pelo espelho retrovisor que as duas dançavam fazendo movimentos coreografados com os braços. Riram, e uma delas disse, “tio, faz uns dois anos que essa música faz sucesso nas rádios e na MTV.”

Surgiam novas bandas no início dos anos 1980: Siouxie & The Banshees, The Cure e Echo & The Bunnymen. Mesmo o Joy Division, que mais tarde se tornaria uma de minhas preferidas de todos os tempos, não conhecia.; aliás, conhecia, mas nunca tinha ouvido. Fui escutar só depois da morte de Ian Curtis. Mais do que todos os citados, os jornais  e outros veículos falavam muito de um tal The Smiths. De tanto ouvir falar, fui até o Museu do Disco, a melhor loja de discos importados à época, em São Paulo, e morri com uma bela grana comprando o lp deles. Foi um choque ouvir. Começava com uma música meio dolente chamada Reel Around the Fountain. Meio chata, achei. Quando cheguei em Hand in Glove, tinha ficado fã e totalmente impressionado com o som do guitarrista. Daí, voltei a comprar alguns dias de rock, inglês, principalmente.

Os comentários sobre Marr surgiram porque tenho ouvido uma coletânea com algumas faixas inéditas que saiu há alguns anos. Ouvi em dias próximos uma banda chamada The XX e o Our Love to Admire, do Interpol. São bons discos, mas – coincidência? – achei as guitarras tão fracas, sem energia, pouco criativas.

Ouçam uma amostra do que Johnny Marr faz com a guitarra em uma faixa menos conhecida dos Smiths: Money Changes Everything.