sexta-feira, 27 de agosto de 2010

O meu Chet Baker


Comprei o meu primeiro Mac em 1988, se não me engano. Era um Mac SE, caríssimo em comparação com os PCs da época, sabendo, no máximo, ligar. A primeira brincadeira que fiz no computador desapareceu e achei-a seis meses depois; tinha salvado no floppy disc. Nem sabia que poderia escolher o destino do arquivo a ser salvo. Uma semana depois da compra, recebi a encomenda para criação de um cartaz para uma empresa cinematográfica. Passei um fim de semana no computador usando um programa de editoração considerado o melhor da época e, hoje, quase submerso pelo domínio avassalador dos Adobes da vida, o Quark X-Press, e não conseguia fazer a coisa mais simples do mundo: aplicar um logo no rodapé. Na segunda de manhã, saí com o arquivo no disquete (o tal floppy disc) e fui até o estúdio de uma amigo para socorrer-me. Parecia pegadinha: era só clicar num botão em que estava escrito algo como “ignore text wrap”. Era só isso.

Com o Adobe Photoshop instalado e um scanner que custou a módica quantia de 4.500 USD, comecei a “brincar” com o que parecia mais interessante: desenhar e pintar com o mouse. Peguei alguns livros de fotos de jazz e escaneei algumas tiradas por Herman Leonard. Fui experimentando e aplicando efeitos, cores e pinceladas sobre as imagens. Esqueci-as. Outro dia, achei-as impressas no meio de muitos desenhos que fui fazendo nesses anos todos. Reescaneei-as para tê-las em arquivo digital (os originais devem estar perdidos em alguns disquetes). A primeira que fiz foi a de Chet Baker (não lembro se tirei do livro de Leonard ou de William Claxton, outro especialista em retratar figuras do jazz). Tenho mais uns poucos. Outros, perdi, como a de Dexter Gordon sentado com o sax e um cigarro nos dedos.

Como tudo isso acima é só lorota, vamos ao que é bom. Disponibilizei a belíssima The Thrill Is Gone, do celebrado Chet Baker Sings.



Obs: não sei se é problema do divshare (o link que uso para disponibilização dos áudios) ou do Google, na hora em que se clica no “play” do tocador, começa a tocar uma música ridícula. Tenha paciência. Clique na botão circular e dê o play novamente.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

O Miles Davis de Cassandra Wilson

Uma amiga disse, em relação à Cassandra Wilson, de que a cada disco que grava, canta “mais devagar”. Entendi o que quis dizer. Não é pelo tipo de canções que escolhe para cantar, apesar de poucas serem uptempo. É mais pela forma de abordagem. Cooperam também o registro grave da voz e a interpretação sem muitos contrastes entre agudos e graves, sem arroubos.

O CD Traveling Miles (1999), conceitualmente, é uma “viagem” sobre os temas de Miles Davis – e também um trocadilho com Travelin’ Light – composição de Johnny Mercer. Alguns temas são de sua própria verve – as letras também –, algumas do trumpetista e outras que o mesmo gravou. Serve como exemplo comparativo aos originais e à forma única de suas leituras musicais. Influi, decerto, a formação instrumental. Fugindo do formato mais tradicional do jazz – piano, baixo, bateria, mais um instrumento de sopro –, na utilização forte da percussão e no acompanhamento de violões, guitarras elétricas e exploração de instrumentos de cordas diferentes como o mandolin, mandocellos, bazouki (uma espécie de mandolin grego), o som resultante dessa mistura é, no mínimo, peculiar.

Um exemplo é a conhecida balada Blue in Green, gravada pela primeira vez no clássico Kind of Blue – creditada a Miles, mas original de seu pianista à época, Bill Evans. A frieza que passa se deve a certa “desdramatização” do que é dramático. O mesmo acontece com Time After Time, de Cindy Lauper, que o trumpetista gravou em You’re Under Arrest (1985) – nesse CD registrou Human Nature, conhecida na voz de Michael Jackson, outra música identificada com a linguagem pop –, se bem que menos. No clássico Someday My Prince Will Come, tema de Branca de Neve, de Walt Disney, a impressão é a mesma. Não significa, no entanto, que sejam chatas; são diferentes.

A última fase de Miles Davis é a de 1979 até sua morte. Recuperado do uso excessivo de drogas ilegais, voltou a gravar e a se apresentar. Rodeado de músicos mais jovens seu retorno ao mercado fonográfico foi com o disco The Man with the Horn. Um deles era o baixista Marcus Miller. Essa parceria estreitou-se e resultou no melhor disco de “Miles Elétrico – O Retorno” – Tutu (1986) – e num registro ao vivo com uma interpretação de My Man’s Gone Now absolutamente bela – We Want Miles (1982). Compuseram uma bela trilha sonora para o filme  Siesta (1987) também. Pois, então, um dos destaques é Tutu, reintitulada Ressurrection Blues, lyrics de Wilson. Ouçam.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

“Pouco faladas”: Barbara Casini

Não seria nenhum sacrilégio dizer que Barbara Casini é uma cantora brasileira. Essa italiana nascida em Florença formou-se em Psicologia mas foi “chamada” pela música de Tom Jobim e João Gilberto. Não sem razão é considerada a “mais importante” intérprete de música brasileira na Itália”. Seu amor pelo Brasil é tão grande que, sem se resumir às músicas consagradas da bossa nova, gravou Caetano Veloso (Uma Voz para Caetano), Chico Buarque (Palavra Prima), e até ao forró (Nordestina).

O fato de Barbara Casini ter gravado tanta música do repertório da MpB pode, enganosamente, fazer pensar que seja uma italiana “fora de lugar”. Fez discos acompanhada de músicos locais de primeira, como o trumpetista Enrico Rava, o pianista Stefano Bollani, conhecidos mundialmente no universo do jazz. E não é só isso: gravou com os saxofonistas alto Lee Konitz e Phil Woods. Não é pouca coisa. Atesta apenas sua qualidade como intérprete.

Na música disponível para audição nesse post, canta Luíza acompanhada por um excepcional pianista – Riccardo Arrighini. Prestem atenção em seu solo. O Alberico Cilento tinha razão quando mencionou esse pianista.Para quem tiver a curiosidade de conhecê-la melhor, o CD Luíza foi lançado pela gravadora Guanabara e é distribuído pela Tratore. Portanto, é fácil de achar. Acesse o site Buscapé, que você o encontrará, e por um preço barato.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Um aperitivo para Jasmine, o novo CD de Keith Jarrett com Charlie Haden

Acaba de ser lançado Jasmine, “re-união” do pianista Keith Jarrett e o baixista Charlie Haden. Nos anos 1970 e 80 gravaram vários álbuns para as gravadoras Impulse e ECM no formato quarteto ou quinteto, com o saxofonista Dewey Redman e o baterista Paul Motian. Gravaram o belíssimo Arbour Zena num formato híbrido erudito/jazz, com orquestra e participação do saxofonista Jan Garbarek.

Em 1976, Charlie Haden gravou pela A&M o álbum Closeness, de duetos com alguns de seus costumeiros parceiros: Keith Jarrett, Ornette Coleman, Alice Coltrane e Paul Motian.

Ouça Ellen David, o duo com Jarrett.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

O tango esquisito de Carla Bley

Veja a foto de Carla Bley e deem suas opiniões. Afinal, é uma esquisitona? Bem, pelo menos, não passa em branco se você cruzar com ela na rua. Carla se parece com a replicante, protagonizada por Daryl Hannah em Blade Runner. Esse seu cabelo louro, cortado reto e meio frisado, mais parece a uma vassoura com o cabo – seu corpo – virado para baixo.

A “esquisitice” pode ser até uma forma de aparecer. Apenas uma hipótese, pois Carla não precisou nunca apelar para a sua beleza ou excentricidade. Está com 74 anos, está na ativa “mandando bem”, apresentando-se em todo lugar – já esteve no Brasil –, nos últimos tempos, com seu marido Steve Swallow, um dos melhores baixistas elétricos do jazz. Carla nasceu Borg. Virou Bley pelo casamento com outro grande pianista, o canadense Paul Bley. Antes de se casar, trabalhou na Birdland, lendária casa jazzística em Nova York. Foi onde conheceu seu futuro marido. A união serviu de empurrãozinho para que, além de pianista, compusesse.

O próximo passo – ou o próximo companheiro – foi Michael Mantler, com quem montou a Jazz Composers’ Orchestra. A banda era composta por um pessoal considerado vanguarda, mas um time de primeira: o trombonista Roswell Rudd, o trumpetista Don Cherry, o saxofonista e antigo membro da última formação de John Coltrane, Pharoah Sanders, o baterista Andrew Cyrille, e o pianista “mais vanguarda impossível” Cecil Taylor. São muitos os que participaram dessa empreitada: nem dá de citá-los todos. Três anos depois gravou um disco – Escalator Over Hills, 1971 – tão ou mais avant-garde que o anterior. Com texto de Paul Haines é considerada uma jazz-ópera. (Vejam que mundo estranho: o canadense Paul Haines é pai da talentosíssima Emily Haynes, de uma das melhores bandas da atualidade, o Metric)

Paralelamente, participou de outro disco-marco do avant-garde e, nesse caso, de música “revolucionária”, o Liberation Orchestra Music, empreendido pelo baixista Charlie Haden. Se seu “engajamento” é considerado por muitos até folclórico – foi expulso de Portugal antes de se apresentar no Festival de Estoril por protestar contra o colonialismo, no fim do salazarismo, considerando-se que após a morte de seu líder, coube a continuidade a Marcelo Caetano até a Revolução dos Cravos, em 1974 –, a música é de primeira, não apenas no primeiro disco lançado em 1969. Mas, para se ter uma ideia desse engajamento, vejam que três canções – El Quinto Regimiento, Los Cuatro Generales e Viva la Quince Brigada – são relacionadas à Guerra Civil Espanhola, uma é de Brecht e Hans Eisler (Song of The United Front), e há uma canção que se chama Song for Che.

Carla e Steve Swallow
António de Oliveira Salazar e o Generalíssimo Franco foram varridos da Península, africanos e asiáticos viram-se livres do colonialismo e Haden continuou na mesma toada. Em 1963, com muitos que fizeram parte do Liberation Orchestra – Bley incluída – gravou em 1983 um disco magistral: The Ballad of the Fallen. Uma das compostas por Haden chama-se La Pasionaria, referência a um dos símbolos da luta contra Franco, Dolores Ibárruri Gomez. A música que abre o disco é Els Segador, canção tradicional catalã que se tornou o hino oficial dessa região espanhola. Fora do político – pelo menos com títulos “tendenciosos” – duas músicas estão entre as melhores que tanto Carla como Haden gravaram: Too Late, da primeira; e Silence, do baixista. A propósito, The Ballad of the Fallen foi considerado o “Jazz album of the year” pela revista Downbeat, em 1984.

Carla, a partir de 1974, passou a gravar discos com seu nome. Sem dúvida, é uma das figuras mais importantes da música instrumental e, apesar de estar associada a muitos nomes considerados da chamada avant-garde, é difícil classificá-la. Um dado importante é sua versatilidade, incluindo entre suas habilidades, a de compositora, de arranjadora e menos a de pianista. Nos últimos anos, tem gravado vários discos em duo com seu marido Steve Swallow. Ouçam Reactionary Tango.