quinta-feira, 24 de outubro de 2019
O duo perfeito de Sean Foran e Stuart McCallum
Para os que leram a postagem de duas semanas atrás, esta é uma continuação. Nã exatamente, mas é por ser sobre um álbum em que tocam juntos de novo. Chama-se “Counterpart”, lançado neste ano.
Sobre Foran. Natural da Austrália, ficou conhecido pelo trio Trichotomy, dele com Samuel Vincent e John Parker, em 1999. Além da fama local, encontraram boa acolhida na Inglaterra.
Sobre McCallum. O inglês é um dos bons guitarristas da nova geração. Eclético, tocou com músicos associados ao jazz — John Surman, Kenny Wheeler, Ira Coleman e Ari Koenig, dentre outros —, mas seu universo não se restringe apenas a esse gênero. Participou também em projetos de Björk, Manu Delago e José James, dentre outros. Em seu interessante álbum solo “City” (2015), envereda pelo terreno do pop. Em outro, divide a liderança com Mike Walker — “The Space Between” (2016) —, interessante diálogo de guitarras, com o último na guitarra, e McCallum ao violão e instrumentos eletrônicos. Há o acréscimo de um quarteto de cordas em quatro números.
“Counterpart”. O disco pode ser ouvido, praticamente, como uma continuação, como escrevi sobre “Frame of Reference”. É a mesma guitarra climática, intervenções belas e econômicas ao violão sem floreios entremeado de sonoridades brilhantes. Neste Foran toca também piano elétrico. O Fender Rhodes aparece pouco, e serve para dar um colorido suplementar.
“Stasis” é um início espetacular. As poucas notas do piano elétrico se fundem de modo quase imperceptível ao solo de Sean, para depois entrar o violão, e Stuart voltando ao tema principal, na guitarra, beiram a perfeição.
Na maior parte do tempo, ambos, com Sam Vicary no contrabaixo e John Parker na bateria, nos levam a temas noturnos, como noites, que, em alguns momentos, vemos estrelas a brilhar no céu outonal. É assim com “November”, “While the Trees Waltz”. Em “Panorama”, McCallum é primoroso. Umas poucas notas no piano elétrico fecham o tema. “Triple Bypass” evoca algum tempo passado ou remoto. Sean e Stuart, sem volteios delirantes, com simplicidade impressionante e sonoridades belas nos levam a um mundo inaudito, que não habitamos antes. O que fazem é poesia sonora.
Ouça o álbum. Preste atenção na guitarra na faixa final. É uma bela conclusão.
terça-feira, 22 de outubro de 2019
Genial Vitor Araújo
Vitor Araújo é um desses gênios que não aparece todos os dias. Pouco conhecido no Brasil, estreou com “A/B”, mostrando sua maestria ao piano e na composição, com o ciclo “Solidão”. No seguinte, “Levaguiã Terê”, álbum duplo de 2016, lançado pela gravadora alemã Nutriot Recordings, o som é um pouco diferente. Neste, claramente, percebe-se a influência de Thom Yorke, do Radiohead.
O texto a seguir foi em 24 de janeiro de 2013 e aborda o disco “A/B”.
Com certo atraso, vou falar de um rapaz chamado Vitor Araujo. Depois de ler no “Guia Livros Discos Filmes” da Folha (27/10/2012) o “5 perguntas para Vitor Araujo”, assinado por Manuel da Costa Pinto, fiquei bem curioso. Com pouco mais de 20 anos, o rapaz faz uma música entre o pop e o erudito.
Na primeira resposta, Vitor escreve sobre o conceito do álbum “A/B”: “Na minha forma de ver, existe unidade no disco. Consigo perceber que ele desenha um sentimento que aparece fortemente em todas as faixas – porém, claramente, olha para este sentimento de formas diametralmente opostas, antagônicas, por assim dizer. Sinto o disco como uma gradação, sinto uma narratividade. No ‘lado A’, existe um se deparar sobriamente com o sentimento de solidão; no ‘lado B’, uma dificuldade incrível de gerir tal sentimento e uma descrença na realidade. Cada um vai ter sua própria sensação, pois o ato de absorver um produto artístico está profundamente ligado a experiências individuais, como elas reverberam dentro de si.”
Perguntado sobre o que pesa mais, “o repertório erudito, o instrumental de Egberto Gismonti e Hermeto Paschoal ou o registro pop”, responde: “Difícil dizer. Acho que “A/B” tem exatamente essa dificuldade em se ater a uma vertente específica. Prefiro conter em mim os meus estudos de Villa-Lobos, minha observação dos instrumentistas geniais e minha paixão desenfreada pelo Radiohead.”
Por fim, ao ser perguntado sobre a “relação entre Nietzsche citado no encarte e as dedicatórias das músicas a Modigliani, Renoir, Zé Celso, Bukowski, Tarantino e Angeli, entre outros”, responde que “o texto de Nietzsche contém em palavras muito do que eu tenho a dizer no disco através das melodias, das harmonias e, principalmente, pela forma como ele está organizado. As homenagens são para os artistas que me inspiraram fortemente em músicas específicas.”
Vai lá que vale a pena. O rapaz é bom.
Veja a brilhante interpretação de “Paranoid Android”, do Radiohead. O primeiro instrumentista a gravá-la foi o jazzista Brad Mehldau. Desde então, faz parte das apresentações dele. O de Vitor Araújo é excepcional. Confira.
Vitor toca “Asa Branca”.
Veja Vitor estraçalhando em “Baião”.
Veja Vítor executando “Solidão 1”, com orquestra, no SESC Belenzinho.
Como é uma repostagem com algumas alterações, veja Vitor na faixa de “Canto 3”, do álbum “Levaguiã Terê”, de 2016.
“Toque no. 1 (Rondó Fálcigo) é a primeira do álbum.
Assinar:
Comentários (Atom)

