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| Laurie Anderson e Lou Reed |
A referência mais recente pode ter sido quando foi noticiada a morte de Lou Reed, em outubro de 2013. Além de loucuras como a de ter namorado com um travesti, levando bem a sério suas viagens e loucuras regadas a drogas pesadas, o convívio com a cena artística de vanguarda novaiorquina, dentre suas “excentricidades”, resolveu, na maturidade, levar uma vida mais normal, participando e até organizando álbuns com propósitos humanitários. Na nova fase, resolveu manter uma bela e estável relação heterossexual. No fim do século passado, conheceu Laurie, com quem dividiu projetos artísticos e amorosos. Em 2008, formalizaram o casamento.
Há poucos dias, ao mexer nos DVDs musicais, deparei-me com “Home of the Brave”, vídeo de uma temporada Park Theater, em Union City, NJ, em 1985. Me fez lembrar do quanto gostei de Laurie e posso afirmar que é um show estupendo, que continua interessante, e as gerações mais novas que, possivelmente, nunca devem ter ouvido falar dela, devem assistir.
Anderson é uma daquelas figuras raras que souberam canalizar seus múltiplos talentos. Estudou história da arte, graduou-se em Escultura na Columbia University, desenhou histórias em quadrinhos e livros para crianças que chegaram a ser publicadas, deu aulas e escreveu críticas para uma das mais prestigiadas revistas de arte, até hoje, a Artforum. Com tantas habilidades, era de se esperar algo de inusitado quando partiu para a carreira artística. Sua primeira performance foi uma sinfonia executada com buzinas de automóvel, em 1969.
Na década de 1970, Laurie foi ficando bem conhecida e passou a ser admirada no mundo musical nova-iorquino com performances absolutamente originais como a de sua estréia. Em uma delas, a Duets on Ice, ela toca violino sobre bases pré-gravadas enquanto patina sobre uma placa de gelo. A apresentação acaba quando o gelo derrete.
Pequena, com os cabelos curtos espetados e virados para todas as direções, o violino elétrico branco e olhar perscrutador, sua figura era marcante. Nem era virtuose em seu instrumento, não tinha uma voz especial, mas ganhou notoriedade mundial a partir dos discos, que pouco desvelavam a sua verve performática. Lançar o primeiro disco por uma gravadora de grande porte ajudou. “Big Science” (1982) saiu pela Warner, o que significava ser distribuído em vários países. Nos Estados Unidos, nem ficou entre os 100 mais vendidos. Serviu contudo, para que muitos ficassem curiosos pela autora de “O Superman (for Massenet)”, que foi bem tocada nas rádios. Seu canto não era um canto especificamente; eram cantos falados, com inflexões dramáticas nas narrativas de histórias curiosas, acompanhada por “tape-bow violin”, instrumento inventado por ela, que, em vez de cordas, usava fitas magnéticas com uma cabeça de gravação.
Veja o clipe de “O Superman”.
Depois de “Big Science”, lançou “Mister Heartbreak”, este sim um sucesso, guardadas as proporções de uma artista que não era pop. Seu público era outro. Sua originalidade atraía um público mais seleto.
“Flying Birds” é um dos destaques de “Mister Heartbreak”, com participação de Peter Gabriel.
“Home of the Brave”, de 1986, é um grande showcase das loucuras de Anderson. Lançado em LP inicialmente, era uma pequena amostra do filme-show, que seria lançado pouco tempo depois. Ao revê-lo há poucos dias, fico ainda impressionado. Continua contemporâneo trinta e poucos anos depois. Conta com participações especiais como a de Nile Rogers, produtor e guitarrista que fundou o Chic, um backing vocals estelar, a do escritor William Burroughs (em voz pré-gravada), encenações teatrais inusitadas, e ainda com a performance genial de Adrian Belew que faz sua Fender emitir os sons mais inusitados, e ainda cantar. Saindo do musical, percebe-se que Belew está muito à vontade como um performer das encenações de “Home of the Brave”.
Se você já viu o show, reassista, pois vale a pena. Aqueles que não viram ou mal conhecem Laurie Anderson têm a obrigação de ver.
