quarta-feira, 22 de junho de 2011

A máquina do tempo de Woody Allen

Como escrever de ou sobre Woody Allen é chover no molhado – aliás, Gil (Owen Wilson), a personagem principal adora os dias chuvosos de Paris – prefiro pontuar em alguns pontos ou episódios sem a intenção de contar a história de Meia-Noite em Paris, seu filme mais recente.

Adriana (Marion Coutrillard) e Gil (Owen Wilson) em Paris
1. O passado é a “época de ouro”.
Como em A Rosa Púrpura do Cairo, Gil é transportado para os “Loucos anos 20”. Gil não quer participar do programa chato da namorada com quem está prestes a casar e se perde pelas ruas da cidade. Soam os doze badalos do sino de alguma igreja anunciando a meia-noite. Nisso, sobe pela rua estreita e erma um carro antigo – um Peugeot. Param e o convidam a entrar no carro. Vai parar em uma festa animada de pessoas bem-vestidas. É abordado por uma mulher que diz se chamar Zelda. No instante seguinte, surge o marido Scott, Scott Fitzgerald. Ao piano é o próprio Cole Porter a cantar Let’s Do It. Gil não entende nada. É levado pelo casal Fitzgerald até um bar e encontram um solitário Ernest Hemingway sentado num canto.

Gil viaja ao seu passado preferido. É um roteirista de Hollywood bem-sucedido, insatisfeito, no entanto e está a escrever um romance. De repente, conhece seus ídolos: Hemingway e Fitzgerald. Levado pelos “novos amigos” à casa de Gertrude Stein – é Alice B. Toklas quem abre a porta – diz estar escrevendo um romance e pede que ela o leia.

Conta do que aconteceu na noite anterior a Inez (Rachel McAdams), sua namorada, e a leva até o lugar onde pegou o carro da “viagem ao passado”. Nada de aparecer e ela se vai. Soam os sinos da meia-noite e surge o carro.

Na segunda noite – ou será a terceira? – quando vai à casa de Stein, encontra Picasso a falar de sua pintura mais recente. O espanhol está com uma namorada – Adriana (Marion Coutrillard). Gil entabla uma conversa com a bela moça. Fica sabendo que ela “ficou” com Modigliani – “um judeu italiano atormentado”, na sua opinião –, e Braque, antes de Picasso. Gil a define como “groupie”, expressão que Adriana desconhece.

Na outra visita, fica sabendo que Adriana deixou Picasso e foi fazer uma viagem com Hemingway à África. Quando se reencontram, ouve-a dizer que, na sua opinião, gostaria de ter vivido nos tempos da Belle Époque. Retruca dizendo que os melhores anos são os que está vivendo, ou seja, o dos anos 1920. Ambos pegam uma carruagem e conhecem Toulouse-Lautrec, Degas e Gauguin.

Conclusão: assim como a “época de ouro” de Gil, dos anos 2010, é dos anos 1920, o de Adriana é o da Belle Époque. A “época de ouro” nunca é a que vivemos.

2. O intelectual “sabe tudo”.
Inez, a namorada de Gil, é fascinada pelo, na sua opinião, intelectual Paul (Michael Sheen). Ele, que está em Paris para fazer uma palestra na Sorbonne, é o típico “caga-regras”, metido a saber de tudo. Entende de qualquer coisa, até de vinhos. Gil não dá a mínima para ele e acha um saco estar com ele. Muitos de nós devemos conhecer um tipo desses. Em um filme antigo – desgraça de memória, não lembro qual é – Woody Allen está numa fila de cinema a discutir alguma ideia com sua acompanhante. Para provar que está certo, pergunta ao seu próprio formulador: Marshal McLuhan, que está na mesma fila.

3. O que um quer não é o que o outro quer.
Gil acha maravilhoso os dias chuvosos em Paris. Inez acha muito chato. Ela acha Paul o arauto da sabedoria. Ele acha um saco. Ele quer viver em Paris, ela não. Isso deve ter acontecido contigo, e mesmo assim, achar que a pessoa que está ao teu lado pode ser a que te completa ou a que tu amas.

4. Gracinhas de Allen.
Gil conhece Salvador Dalí, obcecado por rinocerontes, e, na mesma ocasião conhece os surrealistas Luis Buñnuel e Man Ray. Param em uma festa e, antes de sair, dá uma ideia de script para um filme: um grupo de pessoas se reúnem para jantar e depois, não conseguem sair da casa. Buñnuel estranha e diz que vai pensar. Na brincadeira de ir ao passado… Descobriu? É o plot de O Anjo Exterminador.

5. Frivolidade.
Em uma entrevista que deu ao New York Times (2008), Woody Allen diz o seguinte: “Sempre fui! [fascinado pela beleza feminina] Mesmo quando criancinha, eu sempre fui fissurado por mulheres. Você sabe, eu sou muito frívolo. E um dos meus traços frívolos é uma obsessão pela beleza. Durante a guerra, eu podia admirar como Rita Hayworth era magnífica… E nunca deixava de admirar a beleza nas garotas de minhas salas de aula. É um traço frívolo, porque exclui todos os aspectos mais valiosos e sensíveis das mulheres que não são belas.”

Essa cena, provavelmente, passará despercebida por muita gente. Não li uma observação sobre ela nas matérias feitas pelos principais veículos (Veja, O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo). Gil e Adriana passeiam pela região das prostitutas de rua. Não lembro exatamente o que Gil diz quando é perguntado sobre as “mulheres da vida”, mas é mais ou menos isso: “Sinto-me atraído pelas mulheres vulgares. Isso me faz mais frívolo”.

Veja o trailer de Meia Noite em Paris.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Carol Welsman ou “Afinal, por que elas cantam em português?”

Carol Welsman e seu piano
Carol Welsman é uma canadense de belo porte – deve ter, pelo menos um metro e oitenta de altura –, bonita, boa pianista e cantora. Com esses predicados poderia ter sido uma “pré” Diana Krall. O destino sorri mais para uns do que para outros. Além de Carol, lembro de Karrin Allyson, que possui mais ou menos os mesmos atributos. A discussão de dizer qual das três é melhor, facilmente, cairia no terreno da subjetividade. Objetivamente, os predicados de Krall se encaixaram melhor no mercado: desfrutou a felicidade de ter sido contratada por uma grande gravadora de jazz – a Impuse, e depois, a Verve –; foi “descoberta” pelo baixista Ray Brown e estudou piano com Jimmie Rowles; e, obviamente, é um talento explosivo em forma de uma bela mulher.

Krall pode ter mais atributos que as duas citadas, igualmente. Allyson, contratada por outra boa gravadora – a Concord – tem uma “fachada” tão boa quanto a da canadense, é boa pianista, apesar de, pouco se apresentar tocando-o, e possui uma voz levemente anasalada, irresistível e afinadíssima. Das três, a voz de Carol é a mais comum, mas é ótima no piano; como Krall, canta sentada ao piano.

Nem conhecia Carol Welsman até sua apresentação no Bourbon Street Music Club, São Paulo, 2003. O amigo Carlos Conde sempre recebia ingressos para as apresentações de jazz por conta de seu programa semanal na Rádio Cultura. A prioridade era a Dôra, sua mulher; mas quando não ia, sobrava para nós. Desse jeito, vi John Pizzarelli até enjoar, pudemos – a mesa era só de homens nessa vez – comentar sobre a boa forma física, bem ao gosto dos brasileiros, de Nnenna Freelon, ver o “efeito sanfona” agindo em Jane Monheit e, antes de tudo, compartilhar belas apresentações com o saudoso Conde.

O autógrafo à direita, na vertical
Ver Carol emergir no pequeno palco do Bourbon foi uma bela surpresa. Era uma bela senhora (43 anos na época), alta e felinamente esguia, com uma roupa que lhe realçava o corpo, e descalça; e eu que pensava que apenas Maria Bethânia e De Kalafe (alguém sabe quem é ela? Resposta no fim do texto) tinham o direito de cantarem descalças… A visão daquela mulher de cabelos claros ao piano impressionava. À habilidade no piano somava-se a voz clara e afinada e, presença de palco, principalmente.

Nem me recordo do repertório da apresentação. Lembro mesmo da grata surpresa de “descobrir” mais uma boa cantora. Esse foi meu prazer maior. Ao final do show, como de costume, quando estava com o Conde, fomos até o camarim. Muito simpática, trocou algumas palavras conosco e até ganhei um autógrafo no CD The Language of Love.

Refiro-me com certa frequência aos cantores internacionais cantando em português (http://bit.ly/miv8gt, http://bit.ly/m9Yu1j, http://bit.ly/kGTsht, http://bit.ly/ipS62M). Para continuar na toada, ouça Samba de Uma Nota Só. O interesse de Welsman é mais ou menos antigo: teve discos produzidos por Oscar Castro Neves. Tenho uma teoria: todas as que ouviram o Mais Que Nada, de Jorge Benjor, com a banda de Sergio Mendes, ficaram com vontade de cantar uma música em português. Coincidência ou não, Castro Neves estava lá, com Sergio Mendes.



Ouça e veja o belíssimo dueto de Carol Welsman e Djavan em Oceano.



Nota: De Kalafe surgiu nos anos 1960. O visual hippie – cabelos longos e “despenteados” e o costume de se apresentar vestida com uma longa bata branca – representava, de certo modo, um ato de rebeldia em relação à ditadura militar no Brasil. Participou de festivais de música e apresentou-se em programas da antiga TV Record. Sumiu. Mas esse “desaparecimento” se deu porque foi morar no México, se não me engano. E parece que é bem conhecida no mercado latino. Algum internauta brasileiro a “descobriu” em uma série de TV mexicana chamada Capadocia, pela HBO, fazendo uma participação especial. Ah, esqueci: a diferença é que ela cantava descalça, antes de Cesaria Évora.