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quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Sempre bom sonhar com Diana Krall


Um grande feito de Diana Krall foi o de trazer milhões de ouvintes ao universo do jazz, ou mais genericamente, ao que chamam de “Great American Songbook”. Outros, como Harry Connick, Jr., este no início de sua carreira, e Michael Feinstein, com repertório voltado aos grandes compositores americanos do século 20, nem chegaram perto de sua popularidade.

Krall começou estimulada pelo contrabaixista Ray Brown e de seu professor, o pianista Jimmy Rowles. Depois de se lançar no Canadá pelo selo Justin Time, foi contratada pelo selo americano Impulse. Desde então, ganhou a crítica, por sua maestria ao piano, muito influenciada pelo estilo de execução de Nat King Cole. Para o público menos afeito ao jazz, o que chamou atenção foi o seu lado cantora. Coincidência: King Cole grande pianista, teve vários seguidores, como o genial Oscar Peterson, mas ficou famoso como cantor. Suas vozes são únicas, inconfundíveis. Ambas são cálidas, sensuais, Cole no seu registro de barítono e Krall, no de contralto. 

Casamento e filhos. Para a surpresa de muitos, Diana Krall casou com Elvis Costello, do universo do rock, em 2003. Quem duvidava que não fosse durar, enganou-se também. Estão juntos até hoje. Mais surpreendente ainda: preferiram sair de uma metrópole e irem morar em na pequena Nanaimo, cidade natal dela, a 50 e poucos quilômetros de Vancouver, na Columbia Britânica. Com filhos gêmeos adolescentes, Diana e Elvis têm uma vida de casal padrão, principalmente, nesses tempos de pandemia, impossibilitados de fazerem apresentações ao vivo.

O título do penúltimo álbum de Diana é “Turn Up the Quiet” (Verve, 2017) é bem apropriado à vida que estava e continua vivendo. O álbum é seu último trabalho com o produtor Tommy LiPuma, colaborador de vários discos desde “Only Trust Your Heart” (1995).

“This Dream of You”, o recém lançado álbum, pode ser considerado uma continuação do anterior. São gravações que não estavam prontas em 2017. Ainda bem que existia esse material. Nesses tempos de isolamento social foi possível concluí-las. E não pense que por serem “sobras” de gravação são descartáveis. É um novo álbum, mesmo sendo um “to be continued” de “Turn Up the Quiet”.

A diversidade das formações resultam em belos resultados. Em “But Beautiful”, “That’s All”, “Almost Like Being in Love” e “Singing in the Rain” a banda é aquela que conhecemos bem: Anthony Wilson na guitarra, John Clayton no contrabaixo e Jeff Hamilton na bateria, e ela no piano. Conhecem-se tão bem que tocam por telepatia. Tudo é perfeito sem grandes esforços.

A outra formação é composta por Marc Ribot na guitarra, Stuart Duncan no violino, Tony Garnier no contrabaixo e Karriem Riggins na bateria: “Just You, Just Me” e “How Deep Is the Ocean”. Com o acréscimo de Randall Krall, temos ”This Dream of You”, a música título, de Bob Dylan.

Ouça “How Deep Is the Ocean”.


Em um único número — “There’s No You” — o trio é completado pelo brilhante Christian McBride e Russell Malone, guitarrista excepcional, que tocou nos primeiros álbuns de Diana. É um dos destaques do disco, justamente, pela guitarra de Malone e a grande qualidade dela como cantora. Que voz! Com a maior simplicidade, nos envolve.

McBride e Malone participam também de “Autumn in New York”, aqui com um arranjo orquestral matador do mestre Alan Broadbent. Cabe ao mesmo Broadbent, desta vez ao piano um dos destaques do álbum: “Don’t Smoke in Bed”. Amo essa música. Agradeço por poder ouví-la na voz de Diana, apesar de a minha preferida continuar sendo a de kd lang, e não a de Nina Simone. Um segundo duo matador é “I Wished on the Moon”, com John Clayton, seu baixista de longa data.

O vídeo oficial de “Autumn in New York”.

 

Agora é sentar, abrir um vinho e sonhar. 

Ouça o álbum.


quinta-feira, 9 de julho de 2020

Morre Johnny Mandel, o mestre dos arranjos


Coincidência ou não, muitos arranjadores iniciaram suas carreiras como trombonistas, caso de Bill Holman, Glenn Miller, Melba Liston, e até Ray Conniff. Johnny Mandel, morto em 30 de junho tocava trompete e trombone. Um caso de trompetista que acabou mais famoso como arranjador é Quincy Jones.

Tanto Mandel como Jones ficaram muito conhecidos como compositores de trilhas sonoras. Este último, começou tocando em bandas de jazz e ambicionava muito mais. Sua participação como arranjador em um álbum de Dinah Washington, em 1955, lhe trouxe fama e prestígio. Foi o grande parceiro de Ray Charles, no início de sua carreira, e também arranjador de Count Basie, Frank Sinatra, Sarah Vaughan e outros nomes da música. As gerações mais novas o conhecem por ter sido o artífice da transformação de Michael Jackson em super estrela da música pop.

Johnny Mandel não chegou a tanto e, provavelmente, não tinha a ambição de Jones. O mais próximo da popularidade pop que atingiu foi com a gravação de “Unforgettable”, por Natalie Cole, em que faz um dueto virtual com seu pai Nat King Cole.

Como compositor de trilhas para filmes, alguns temas compostos por ele são standards do cancioneiro americano: “Emily”, “The Shadow of Your Smile” e “Suicide Is Painless”, este, tema de “M*A*S*H.”, filme de Robert Altman. É autor de dois clássicos supremos também: “Here’s to Life” e “Close Enough for Love”.

Como arranjador, citando seus trabalhos menos antigos, trabalhou com Shirley Horn e Diana Krall.

Nesses tempos de pandemia pelo Covid-19, vários músicos, principalmente do jazz, foram suas vítimas — Lee Konitz, Wallace Roney e Ellis Marsalis—, comentados neste blog. Johnny Mandel morreu com 94 anos, em 29 de junho. Não foi revelada a causa.


Ouça “Here’s to Life”, com Shirley Horn. Preste atenção no arranjo. É maravilhoso.




Ouça também “A Time for Love”, composição de Mandel.




Ouça “Close Enough for Love”, interpretada pela genial Shirley Horn.




Ouça “The Shadow of Your Smile”, com Tony Bennett.




E, finalmente, “Suicide Is Painless”, em interpretação do gênio do piano Bill Evans.





quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Tony Bennett e Diana Krall, um par perfeito

Parece cada vez mais fácil chegar aos 100 anos, mas a que custo? O importante é estar inteiro e bem de saúde. É o caso de Tony Bennett, o maior cantor vivo da atualidade. Aos 92 anos, mesmo tendo passado por uma fase em que consumiu boas doses de cocaína, está forte e pimpão, como diria um amigo. E mais: canta muito ainda, mantendo a bela voz que o consagrou. E ainda gosta de pintar.

Confirma sua boa forma em sua mais recente empreitada, “Love Is Here to Stay”, com Diana Krall, com o repertório de George Gershwin. Bennett se rejuvenesce em suas parcerias com intérpretes de todos os espectros. Fez muito sucesso “A Wonderful World” (Columbia, 2002), com a canadense kd lang. Em “Duets: An American Classic” (Columbia, 2006), divide os vocais com os pop John Legend, Barbra Streisand, Celine Dion, Sting, Bono Vox, Billy Joel, Paul McCartney, James Taylor, Stevie Wonder e outros. Como os duos que Frank Sinatra cometeu em seus anos derradeiros, quando sua voz era uma sombra do que havia sido, sucumbe aos apelos comerciais. A diferença com os de Sinatra é a de que a voz de Bennett era a mesma. Gravou ainda “Duets 2” (2011) e “Viva Duets” (2012), aproveitando a onda.

Os puristas torcem o nariz para Diana Krall. Com um início fulgurante, arrombando a porta do mainstream do jazz, a ex-aluna de Jimmy Rowles e protegida de Ray Brown, a canadense tocava muito bem piano, e se quisesse, poderia seguir por essa seara. O aprendizado com Rowles e poderosa influência da maneira de tocar de Nat King Cole, foi logo notada pela gravadora Impulse, logo depois de tornar-se um sucesso instantâneo em seu país natal. Como o mestre Cole, cantava, e muito bem. A exemplo dele, consagrou-se mais como cantora do que pianista. De hoje em dia, apesar de apresentar-se sempre sentada à frente de um Steinway, mais canta que toca.

No caso de “Love Is Here to Stay”, deixa o pianista é Bill Charlap. Bom, nem precisa mesmo. O filho de Sandy Stewart tem um dos trios mais respeitados da atualidade. É mainstream, que se diga, mas sua banda está uma que chegou bem perto da perfeição.

A perfect pair
Depois de terem cantado juntos em ocasiões esparsas nos últimos 20 anos, “Love Is Here to Stay” é o primeiro álbum deles juntos. Gravado no ano passado, acaba de ser lançado. É a reunião que muitos esperavam. Bennett é a majestade, no alto de seus 92 anos; Krall é a dama do jazz da atualidade, em que pesem o valor das experientes Dee Dee Bridgewater ou Diana Reeves. Um pouco por preconceito, é criticada. Popularidade causa dor de cotovelo e críticos acham que cair no gosto de um público mais amplo é devido a concessões ao mercado. Evidente que King Cole fez concessões, mas que beleza de cantor que foi!

Tanto Bennett quanto Krall cansaram de cantar o repertório de George Gershwin, mas em “Love Here to Stay, ambos interpretam pela primeira vez em discos “My One and Only Love” e “I’ve Got a Crush on You”. É uma surpresa

Há um enorme respeito, como não poderia deixar de ser, de Diana por Tony. “Ele não apenas canta essas canções. Ele sabe o que está dentro e fora. Ele é uma pessoa profunda em muitos níveis – às vezes você pergunta sobre coisas e ele diz o que acha. É um belo fenômeno emocionalmente.” É o respeito que Krall tem pela sabedoria de um intérprete que sabe tudo de música, sabedoria que amealhou por todos os anos que o tornou um dos grandes cantores de todos os tempos na história do jazz.

Bem, se Bill Charlap é um dos grandes ao piano e Bennett e Krall craques absolutos, poderia de esperar uma obra-prima. Não é. É um álbum agradável, com algumas pérolas distribuídas, ora pelos bons achados do pianista, belas combinações da voz cálida dela e da qualidade interpretativa dele. Comparando-se, não é genial como, por exemplo, o de Frank Sinatra com Antônio Carlos Jobim, ou o de Betty Carter e Ray Charles, Ray Charles e Cleo Laine, ou Ella Fitzgerald e Louis Armstrong. Acho que, como diria minha amiga baiana, faltou um pouco de borogodó, aquela simbiose fervente que acontece inexplicavelmente entre dois seres.

Veja o clipe promocional do álbum, com os dois e o trio de Charlap interpretando a canção título.




Ouça o álbum. Um destaque é a excepcional interpretação de Krall em “But Not for Me”, com uma introdução que normalmente é cantada. A “inédita”, para os dois, “My One and Only”, é outro, pela combinação do piano e o clima relaxado entre os dois intérpretes. “Love Is Here to Stay” e “I Got Rhythm” são outras que destaco.




quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Diana Krall em momentos de tranquilidade

Impossível ficar alheio à Diana Krall

O álbum mais recente de Diana Krall foi o último produzido pelo premiadíssimo Tommy LiPuma, o responsável por “When I Look in Your Eyes”, seu primeiro CD para o selo Verve, e dos dois anteriores que saíram pelo Impulse, que a tornaram conhecida.

Antes, estreara pelo selo canadense JustinTime, com “Steppin’ Out” (1993). Nos Estados Unidos, lançou “Only Trust Your Heart” (GRP, 1995), com participações de Ray Brown e Jimmy Rowles, dois de seus mentores, Christian McBride, Lewis Nash e participação do saxofonista Stanley Turrentine. Boa cantora, o que chamou atenção foi sua maestria ao piano, confirmada em “All for You: a Tribute to Nat King Cole” (GRP/Impulse, 1996), e em “Love Scenes” (Impulse, 1997).

Em uma gravadora maior, maior estrutura, mescla faixas camerísticas e outras com orquestra. Com arranjos do genial Johnny Mandel, “When I Look in Your Eyes (1999) ganhou vários prêmios pelo mundo, angariou dois Grammy e vendeu mais de um milhão de cópias nos EUA.

Os próximos álbuns foram também extremamente bem em termos comerciais. “The Look of Love (2001), vendeu mais ainda: 1,7 milhões nos EUA, 700 mil no Canadá, 200 mil na França e 100 mil na Inglaterra. Mais uma vez, a produção foi muito bem cuidada, com orquestrações de Claus Ogerman, o arranjador idolatrado por Tom Jobim – dizia que todo mundo precisava de um alemão para dar uma ordem. Na esteira do sucesso do álbum, lançaram “Live in Paris (2002) e “Live in Rio”, belíssimo DVD, com imagens luxuriantes do Rio de Janeiro. “The Girl in Other Room” (2004) e “From This Moment on” (2006) surfaram na onda do sucesso comercial dos outros da Verve. Se não eram superiores aos outros, pouco importava aos seus fãs. Sua voz hipnotizante cega qualquer admirador.

Para sair da mesmice, Krall gravou um álbum com canções dos anos 1930 e 1940, que seu pai ouvia em discos de 78 rotações. Produzido por T-Bone Burnett, “Glad Rag Doll” foi lançado em 2012.

Assumindo o conceito oposto, “Wallflower” (2014), é com temas do pop e do rock a partir dos anos 1960. Fazem parte do repertório composições clássicas de Elton John (“Sorry Seems to Be the Hardest Word”), Eagles (“Desperado”), Mamas & Papas (California Dreamin’), Bob Dylan (“Wallflower”), e Gilbert O’Sullivan (“Alone Again (Naturally), dentre outras.

Tranquilidade
Com dois filhos em idade escolar, Diana Krall voltou a morar em Nanaimo, onde nasceu, na Columbia Britânica, província do extremo oeste do Canadá. É uma cidade tranquila, com menos de 100 mil habitantes, a 50 e poucos quilômetros de Vancouver. Coincidência ou não, seu álbum mais recente se chama “Turn Up the Quiet” (Verve, 2017). É também o retorno à parceria com Tommy LiPuma, falecido em março do ano passado.

O repertório é mais do mesmo. São standards conhecidos e vários que já foram cantados por ela. E os músicos são os que costumam tocar com ela, em formações pequenas. Alguns números são com orquestra, mas nunca com a qualidade e pujança dos arranjos de Johnny Mandel e Claus Ogerman. A voz sensual, sussurrante, predomina, principalmente nas canções em que seu piano é acompanhado apenas pela guitarra, contrabaixo e bateria. Soa déjà vu para quem conhece seus primeiros trabalhos, o que não quer dizer que seja ruim. Apenas não apresenta grandes novidades. É como se tivesse desistido de mostrar ao que veio, pois não precisa mais disso. Se a crítica especializada não se animou muito, não é bem o que seus fãs acharam. Foi considerado o álbum do ano pelos leitores da revista Downbeat, que não são exatamente leigos no assunto, com 99 votos a mais que o segundo, o que é significativo.

Uma das melhores faixas é “Isn’It Romantic”, com a bela guitarra de Anthony Wilson.



O ritmo malemolente que imprime à caliente “Sway” (“¿Quién será?”), de Luiz Demetrio, transforma a música. Maravilha.


quinta-feira, 11 de maio de 2017

Delicadezas de Diana Panton

Diana Panton, por Jose Crespo
Escrevi sobre cantoras canadenses há tempos. É impressionante o número de boas intérpretes, “tão perto dos Estados Unidos e tão longe, ao mesmo tempo”. Joni Mitchell e kd lang servem de exemplo como exceções, e no terreno do jazz, Diana Krall sua melhor representante, e que representante! Falar mal dela, dizer que ficou comercial, é crítica pequena. Tem alguma semelhança com a trajetória de Nat King Cole: ótima pianista, aliás, o tem como um de seus ídolos, mais canta que toca. Também, com aquela voz cálida e marcante, difícil falar mal, mesmo que seja casada com o feioso e talentoso Elvis Costello.

No post “O Canadá e suas cantoras”, cito Paul Anka, Michael Bublé, Sophie Milman (é russa naturalizada canadense), Holly Cole, Carol Welsman, Nikki Yanowsky (mais pop que jazz), Susie Arioli, Brigitte Zarie, Emilie-Claire Barlow, Elizabeth Shepherd (é a diferente) e Laila Biali. Não citei Diana Panton porque não a conhecia à época que o escrevi.

Depois de ouvir “I Believe in Little Things” (2015), que nem acho ser um grande disco, deixou-me impressionado a afinação e o belo registro da voz de Diana. A revista Downbeat deu 4 estrelas, o que o coloca no patamar dos excelentes. Foi ganhadora no Juno Awards, o Grammy canadense, e foi considerado o melhor álbum do ano na categoria “Children Records”. Acho que deve ser essa a razão por não gostar tanto: canções consideradas infanto-juvenis. “When You Wish Upon a Star”, de Leigh Harline e Ned Washington, canção do “Pinocchio”, é um standard, assim como a bela “Rainbow Connection”, dos “Muppets”, e outras temas menos conhecidos. É um álbum “fofo”, como alguns diriam.

Bom, mas sua bela voz foi o suficiente para que me interessasse em conhecer melhor a obra de Panton. Não são muitos: sete. O primeiro, “… Yesterday Perhaps”, é de 2005. Ao ouví-los – ou vê-los –, uma conclusão: ela é chegada em álbuns temáticos. Um deles é “To Brazil with Love” (2011), outro, “Christmas Kiss” (2102). Mesmo os restante têm títulos que sugerem o temático: os coloridos “If the Moon Turns Green…” (2007), “Pink” (2009), e “Red” (2013). Pelo repertório do lançado em 2007, fácil fazer as associações com o título: “How High the Moon”, “Quiet Nights of Quiet Stars”, “Moonlight Serenade”, “Moon River”, “Reaching for the Moon”, “So Many Stars”, e assim caminha a humanidade. Por coincidência ou porque brasileiros adoram uma noite estrelada e enluarada, duas delas constam na lista: Quiet Nights of Quiet Stars” (Tom Jobim) e “So Many Stars” (Sérgio Mendes).

Há uma unidade musical bem evidente, desde o primeiro ao último. Uma das razões deve ser a de que os músicos de base têm sido sempre os mesmos, de 2007 até agora: Don Thompson, nos teclados, contrabaixo e vibrafone, e Reg Schwager, na guitarra. A banda é acrescida de outros músicos vez ou outra, como o trompetista Giovanni Basso, o saxofonista Phil Dwyer, um quarteto de cordas, os brasileiros Maninho Costa e Silas Silva, em “To Brazil with Love”.

Naturalmente, o meu preferido é “To Brazil with Love”. Acho “If the Moon Turns Green” – o segundo na minha preferência – o de estreia e “Red” os melhores.

Ouça “Dreamer” (“Vivo Sonhando”).



Ouça “Manhã de Carnaval”, de Luiz Bonfá… em francês. Nunca tinha ouvido nessa língua.



De “If the Moon…”, “Fly Me to the Moon” é um destaque, com instrumentação precisa e delicada. Veja Diana, com Don Thompson ao piano e Reg Schagwer ao violão, em ritmo bossa nova.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

O Canadá e suas cantoras

O Canadá é quê nem o Santos, digo, o Santos Futebol Clube, o time de futebol. Sob esse parâmetro um tanto improvável, Diana Krall é o Pelé do Canadá. Como é difícil surgir um novo Pelé (há controvérsias), não será fácil surgir alguém como Krall, mas ambos estão sempre a revelar novos nomes. Depois de Edson Arantes do Nascimento o grande da atualidade é Neymar da Silva Santos Júnior, ou, simplesmente, Neymar. Acho que ainda não surgiu um Neymar no Canadá, mas há nomes a considerar.

Krall é bela (há controvérsias) – desculpe uma certa misoginia ou considerar essa qualidade –, talentosa, intérprete de voz inigualável, sensual, quente, além de excepcional pianista. Tal como Nat King Cole, abriu mão de ser o gênio do piano e priorizar o seu lado cantor. Diana, hoje, mais cantora que pianista, até hoje, não assumiu exatamente esse papel. Nunca deixou de apresentar-se sentada usando o instrumento como “acessório”. Nat, ao contrário, assumiu o papel e, carismático, foi o primeiro negro a ter um programa de TV (durou pouco, apesar do sucesso, pois ninguém – leia-se brancos – teve coragem de patrocinar a atração).

Além de bons instrumentistas, como Oscar Peterson, Oliver Jones, Dave Young, Renee Rosnes, Gil Evans e Maynard Ferguson, o Canadá tem sido pródigo em revelar bons cantores como Paul Anka, Michael Bublé (há controvérsias se ele é bom), Sophie Milman (é russa naturalizada canadense), Holly Cole, Carol Welsman, Nikki Yanowsky (mais pop que jazz), Susie Arioli, Brigitte Zarie, Emilie-Claire Barlow, Elizabeth Shepherd (é a diferente) e Laila Biali. Nenhuma das citadas é um Neymar, no entanto, merecem atenção, caso de Carol Welsman. É bonita, no alto de seus 55 anos, uma loura de belo porte, uma potranca, como diria um amigo, toca piano e canta. Quando se apresentou em São Paulo, no Bourbon Street, nos impressionou, a mim e ao Carlos Conde, não apenas por essas qualidades, mas por um pequeno detalhe: apresentou-se descalça. Depois do show, fomos ao camarim e ganhamos autógrafos nas capinhas de CD que tínhamos levado.


Veja Carol com Djavan e Oscar Castro-Neves, cantando em português.




Do time das veteranas, outra bem conhecida é Holly Cole. Não é uma grande cantora, mas tem seu encanto. Veja-a cantando I Can See Clearly Now.




Das mais (um pouco mais) novas, Emilie-Claire Barlow é bem interessante. Seu Live in Tokyo (2014) é muito bom mesmo, bem vibrante. O último também é bem interessante. Clear Day é Barlow com a Metrople Orkest. Veja a apresentação do CD mais recente.




Ouça Like a Lover, de Dori Caymmi, com Emilie-Claire.




Nikki Yanofsky é menos interessante. Ela não se decidiu se quer ser uma cantora de jazz ou ser pop. Aqui ataca no jazz cantando o clássico You’ve Changed.




Susie Arioli não faz feio cantando Pennies from Heaven.





Laila Biali, com Krall, canta e toca pian, como Krall e Welsman.
Veja Biali cantando Show Me the Place, de seu conterrâneo Leonard Cohen.




Laila canta outro conterrâneo, dessa vez, Neil Young (Heart of Gold).




Não poderia faltar outra canadense. Laila canta Woodstock, de Joni Mitchell.




Sophie Milman preenche, com méritos, vários quesitos para ser uma estrela. COnfira em Água de Beber.




Outra: La vie en rose.




No clássico Like Someone in Love.




Quer saber um pouco mais de Milman? Leia em http://guenyokoyama.blogspot.com.br/2012/05/sophie-milman-cantora-que-veio-do-frio.html

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Só Diana Krall para nos alegrar

A voz cálida e algo grave de Diana Krall faz com que seus ouvintes queiram ouví-la de joelhos. Tão boa pianista, sabe bem que seu sucesso se deve a sua belíssima voz, morna como os fluidos sexuais.

Antes, pianista, foi ficando mais cantora, um pouco como Nat King Cole. Está certo que é covardia compará-la a Nat, que era excepcional nos teclados, pioneiro no formato trio sem bateria, e cantor superlativo. Mas Nat morreu há muito tempo. E Diana faz jus ao tremendo sucesso que faz com seu estilo híbrido entre o jazz e o pop, aliás, cada vez mais pop.

Glad Rag Doll, lançado em 2012, era um álbum um tanto estranho. Produzido por T-Bone Burnett, as músicas escolhidas poderiam, grosseiramente, ser classificadas como algo meio country meio western. Pode até não ser bem isso, mas pela capa, com Krall vestida de dançarina de saloon, nos leva a essa associação. Não são clássicos como um Night and Day ou um Sophisticated Lady, mas canções dos anos 1920 e 30 que, segundo ela, faziam parte da coleção de discos 78 rpm do pai.

O álbum Wallflower estava marcado para sair no mesmo mês do anterior, no ano passado, ou seja, em outubro. Um contratempo adiou-o para 2 de fevereiro. Ela contraiu uma pneumonia que acabou por comprometer, não só o lançamento, mas uma extensa programação de shows para promovê-lo. Seus fãs mais ardorosos apenas puderam lamentar e ficarem com expectativas maiores ainda. E Wallflower não deve decepcioná-los. É muito bom, mesmo que possa frustrar aqueles que passaram a apreciá-la logo no início da carreira, como ótima pianista de jazz e boa cantora. Foi pendendo, pouco a pouco para o pop e foi amealhando um número cada vez maior de admiradores. Acabou até casando com um bom representante do gênero.

Se a inspiração de Glad Rag Dolls foram os discos 78 rpm do pai, a de Wallflower veio do que ouvia na adolescência. Assim, as canções são bem conhecidas da geração dos que se aproximam dos 50, para mais e para menos. A mais antiga do CD é de 1963, por coincidência, a que mais se aproxima do jazz, em razão de um de seus autores ser Jon Hendricks, que gravou com seus companheiros do Lambert, Hendricks and Bavan (a parte feminina mais conhecida do trio foi com Annie Ross, que resolvera partir para a carreira solo). A versão de Yeh Yeh mais conhecida, porém, não é a deles; é a de George Fame & Blue Flames, de 1965. Outras duas desse ano são as manjadas In My Life e California Dreamin’, a primeira faixa do álbum.

Ouça.




É um início de ajoelhar. Parece que a voz de Krall, depois do nascimento dos gêmeos, ganhou um tom mais aveludado e quente. Quando gravou-a não tinha em mente a versão mais conhecida, a de The Mamas & The Papas, e sim a de José Feliciano.

A maioria das canções sugeridas pelo produtor David Foster e aceitas por Krall são da década de 1970. É o caso da segunda: Desperado, da banda Eagles.



É curioso que dois dos grandes sucessos dos Carpenters sejam de autoria de Leon Russell, cuja imagem é mais associada ao Mad Dog and The Englishmen e Joe Cocker. Nesse álbum, Diana resgata a bela Superstar, em versão mais lenta e algo grandiosa com a orquestração de David Foster. A próxima – Alone Again (Naturally) –, em dueto com Michael Bublé, é outra da época (de 1972 e a anterior, de 1969). É mais agradável que a original. A estridência da voz de Gilbert O’Sullivan sempre me incomodou.

A seguinte é a música que dá título ao álbum. Diana dirigia seu carro com seus filhos enquanto ouvia um dos discos que têm sido lançados – o Bootleg Series – com gravações inéditas de Bob Dylan. Pensou que Wallflower muito bem que poderia ser uma música que todos poderiam estar cantando no carro. Ouça



If I Take You Home Tonight é outro achado de Krall. Ao participar das gravações de Kisses on the Bottom, penúltimo de Paul McCartney, conheceu a música e ficou encantada. É Paul exercitando a sua veia lírica de grande baladeiro e um dos destaques desse belo álbum.

Diana retorna aos Eagles cantando I Can’t Tell You Why, composição um pouco mais recente, mas bem antiga: é de 1980. A canção a seguir é uma das mais belas de Elton John, um dos heróis de sua adolescência. É Sorry Seems to Be the Hardest Word. Belíssima. Na edição especial tem a mesma música em apresentação ao vivo.



Bom, com tantos belos exemplares, já bastava. Mas não. Diana quer nos matar. Resgata a bela Operator (That's Not the Way It Feels), do hoje pouco lembrado Jim Croce, e I’m Not in Love. Quem se lembra dela? É uma música do 10cc, banda australiana de relativo sucesso na década de 1970. Krall completa o álbum com dois números um pouco mais recentes: Feels Like Home (1995), em dueto com Bryan Adams, Don’t Dream It’s Over, do Crowded House (1986), In My Life, de Lennon e McCartney, e a suingada Yeh Yeh.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Preciso rever meus conceitos sobre Tierney Sutton

Tierney Sutton
Tierney Sutton e Jane Monheit surgiram mais ou menos na mesma época. Apesar da diferença de idade (a primeira nasceu em 1963, e a segunda, em 1977), lançaram seus primeiros discos em datas próximas. Introducing Tierney Sutton é de 1998, pela Telarc, e, Never Never Land é do ano de 2000. Eram duas belas (esteticamente) novidades: uma, rosto angelical, pele de leite e lindos olhos entre o cinza e o azul, e a outra, Tierney, loura, nem tão bonita, mas com alguma característica que lembra Greta Garbo (perdoem-me fãs incondicionais da diva, se estou exagerando), e muito afinadas.

Desde tempos imemoriais, “beleza põe mesa”. Chato dizer isso: apesar da propalada evolução da humanidade, certas coisas não mudaram muito. Enquanto um “feião” como Humphrey Bogart ou Sean Penn dão certo, uma penca de “bonitões” enveredam pelo caminho do sucesso sem possuirem o mesmo talento. A “boniteza” funciona também na música, principalmente no gênero feminino.

Um dado curioso – pode estar até um pouco fora do contexto – é o de atrizes bonitas que encontraram um nicho como cantoras. Brigitte Bardot, Marilyn Monroe e Lena Horne são exemplos. No Brasil, tivemos Norma Benguell e Odette Lara. Particularmente, minha interpretação preferida de Samba em Prelúdio, de Baden Powell e Vinícius de Moraes, continua sendo a de Odette. Pelo jeito, não se interessou em prosseguir na sua carreira de intérprete.

Em medidas e doses diferentes, Diana Krall, quando foi lançado Only Trust Your Heart, pela GRP Records, deve ter despertado alguma impressão extramusical: aquela loura da capa, com os os olhos enigmaticamente semicerrados, era um bom apelo à curiosidade. Quem comprou o disco por essa razão, exclusivamente, ganhou um prêmio extra: a moça era uma tremenda pianista e, cantava bem; possuía uma voz cálida e poderosa. Eram muitos predicados em uma só pessoa. Depois disso, “descobriram” seu primeiro disco – Steppin’ Out –, lançado pela canadense Justin Time, de dois anos antes. Diana estava pronta desde o primeiro disco.

Diana Krall era um bom produto para a indústria fonográfica. O mundo do jazz havia ficado órfão de Sarah Vaughan (falecida em 1990), Ella Fitzgerald (1996) e Carmen McRae (1994). A era das divas tinha terminado. Dianne Reeves, Dee Dee Bridgewate, e até as com mais quilômetros rodados, como Shirley Horn, Abbey Lincoln, Anita O’Day e Nancy Wilson eram ótimas, sem a aura, no entanto, do trio citado.

Próximo do fim do século passado, o mercado fonográfico tinha passado a investir pesado na imagem, mais até do que nas virtudes musicais. Entre Madonnas e Michaels Jacksons, em um nicho que nem precisava de tantos apelos comerciais, certas coisas se replicavam. Ampliou-se o investimento em qualidades extramusicais. Aí entra o apelo estético. Em tempos de culto a celebridades e “descerebrados”, a “boniteza” era um ás a mais na manga dos marqueteiros. Nessa senda aberta, Jane Monheit era a aposta da pequena N-Coded Music, Tierney Sutton, pela Telarc, Nenna Freelon, pela Columbia/Sony, e Norah Jones, pela Blue Note.

Sempre fiquei com os pés e as mãos para trás. Sempre tentei não cair nessa armadilha.


Tierney Sutton e American Road
Sutton, Freelon, Monheit e Jones aparentavam ter qualidades além da beleza ou do charme. Bem, estou comentando sobre Sutton. Pois, sentia que faltava alguma coisa nela e em Jane Monheit. Afinadas, quase perfeitas, mas faltava aquele “a mais”, aquilo que nos impele a ouvir vezes e vezes e nos fascinar.

Em alguma hora, pode acontecer uma surpresa. Quando ouvi Desire (2009), nesse ano, percebi alguma diferença. American Road, o mais recente, lançado em 2011, então, é muito bom.

O que faz uma boa cantora, além de boa voz? Suingue? Ritmo? Inteligência? Bom, um dos grandes pecados é ter boa voz e não captar o sentido do que canta. Isso pode ser resolvido, parcialmente, com um bom produtor, alguém que saiba escolher um bom repertório, bom acompanhamento, bons instrumentistas. No caso de Sutton, o dado que sinaliza essa transformação é a de que seus álbuns, desde On the Other Side (2007), constam como sendo da Tierney Sutton Band. É uma grande diferença. Pode ser falsa a minha impressão, mas parece que a participação de Christian Jacob e dos restantes Kevin Axt e Trey Henry, nos baixos (sim, a banda tem dois baixistas), e Ray Brinker na bateria, mudaram o conceito do som; não são apenas acompanhantes; são partes de um todo.

Jacob é um francês emigrado e, no início, fez parte da banda do trumpetista Maynard Ferguson. De formação erudita, interessou-se em cursar uma escola mais voltada ao jazz para “aprender” a improvisar. Sem querer desmerecer a cozinha (baixos e bateria), seu piano faz muita diferença. É um estilista. Sutton encontrou o seu “Flanagan”, assim como Billie Holiday teve Teddy Wilson, e Ella Fitzgerald teve Tommy Flanagan (daí a referência acima), e Hank Jones.

A “Band” de Sutton deixou-a mais solta; não é apenas a voz afinada à frente de boa fachada. Somaram-se a esses dois atributos uma interpretação mais livre: a voz anasalada é parte do conjunto, ou seja, a voz é um instrumento, como são os baixos, o piano e a bateria. Como um elemento das partes que fazem o todo, por exemplo, faz um Amazing Grace maravilhoso; seu canto é acompanhado pela marcação do contrabaixo e o que é quase um hino vira uma peça, que sem perder a majestade, é uma outra “majestade”. Em três standards gershwinianos de Porgy and Bess “in a row” – It Ain’t Necessarily So, Summertime, e My Man’s Gone Now – revela sua verve jazzística, e muito bem. São três interpretações de tirar o chapéu.

Em mais um standard – Tenderly –, evidencia-se o casamento da vocalista com o pianista. Jacob ataca na notas mais graves, em andamento lento para a voz muito bem colocada, sem dramatismos gratuitos: belo duo. E quando, achamos que é suficiente, Sutton vem com outras surpresas. Entoa um belíssimo Somewhere, em que a tensão crescente desemboca em três palavras: “somehow, someday, somewhere”. Something’s Coming e Cool completam a trilogia Leonard Bernstein/Stephen Sondheim, de West Side Story.

O fecho é um duo maravilhoso de Sutton e Jacob, em America the Beautiful. Bem, comecei por Amazing Grace e quase esquecia de falar das primeiras. Sutton começa com um spiritual tradicional: Wayfarer Stranger. Serve para esquentar os motores. A temperatura aumenta com o medley Oh Shenandoah/The Water Is Wide, duas outras tradicionais, a primeira americana e a segunda, escocesa. A terceira é On Broadway, conhecidíssima na interpretação de George Benson, que é puro balanço com o baixo e a bateria “quebrando tudo”. Aí, chega Amazing Grace, que foi por onde comecei. E é o que você vai ouvir.

Esta versão de “Amazing Grace” é diferente da que consta no CD. É de uma apresentação ao vivo.





Ouça “Wayfaring Stranger”, a faixa de abertura.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Diana Krall: a pose na capa é para quem pode

Krall, de corpo inteiro
Na primeira audição é um susto total. Glad Rag Doll é totalmente diferente do que gravou até hoje. Mas, acostumando-se, é possível se dizer que é bom.

Ainda não há muita coisa escrita sobre o CD que tem lançamento oficial anunciado para hoje, 2 de outubro (escrevo quatro dias antes). O repertório é quase todo composto de músicas compostas no período entreguerras. Está aí também a explicação pela imagem glamurosa dessa moça de 47 anos. Foi inspirada nos figurinos de Ziegfeld Follies.

Diferentemente dos outros discos em que os sidemen são John Clayton e Jeff Hamilton, temos uma profusão de violões, guitarras e assemelhados como o ukulele e o banjo; e seu guitarrista de costume – Anthony Wilson – nem participa.

Na fase pré adolescente e adolescente, Krall costumava ouvir a vasta coleção de discos 78 rpm do pai. Algumas das canções de Glad Rag Doll, conheceu-as naquele tempo. A cantora/compositora selecionou 35 canções e apresentou-as ao produtor e guitarrista T Bone Burnett. A ele coube a escolha. Algumas como I’m a Little Mixed Up, um rockabilly de 1961, entraram por sugestão de T Bone. Diana considerou um desafio, mas T Bone disse achá-la ótima também como pianista “rock’n’roll”. Outra “fora do tempo” é Lonely Avenue, gravada por Ray Charles em 1956, com arranjo inspirado, segundo T Bone, em entrevista disponível no Vimeo, em Tribute to Jack Johnson, grande disco de Miles Davis de sua fase elétrica inicial.

A capa do CD
Sem a presença de Anthony Wilson, quem dá show é Marc Ribot. O “cubano postizo”, a exemplo de outro americano – Ry Cooder –, sempre dá um toque diferenciado por onde passa (leia sobre sua participação no disco de Madeleine Peyroux aqui)

Pois, como dizia, à medida que se ouve mais, o “susto” se vai e vejo que posso clicar “curtir” em várias faixas. E, pensando bem, mesmo louco para falar mal de Diana, não consigo: é paixão incondicional. É até perdoável uma capa como a de Glad Rag Doll, em que se explora a imagem da mulher sensual em detrimento de outras qualidades. Falei mal mais de uma vez desse tipo de exploração que “coisifica” o artista. Imagino, porém, que ela está de pleno acordo em aparecer do modo como é apresentada na capa. Não se deve nunca esquecer que o narcisismo é um comportamento natural e Diana deve ficar muito feliz quando a elogiam por sua beleza, quem sabe, mais até do que pelo seu talento musical.

Após ouvir cinco vezes em um período de dois dias, já tenho as minhas preferências: Let It Rain (suave, acústica, violão, baixo e bateria), Glad Rag Doll (prefiro o alternate take, com ela ao piano), Wide River Cross, a “roqueira” I’m a Little Mixed Up, When the Curtain Comes Down, e, principalmente, Lonely Avenue. É a que você ouve aqui.



Ouça a mesma canção, com Ray Charles.



Ouça Wide River to Cross.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

The Boulevard of Broken Dreams

Esqueçam a versão da banda de rock Green Day de Boulevard of Broken Dreams. Por melhor que seja, nunca será tão boa quanto é a que foi composta em 1934 por Al Dubin (letras) e Harry Warren (música), para o filme Moulin Rouge, dirigido por Sidney Lanfield. Quem se apropriou do nome foram os do Green Day.

A música tem um sabor latino, algo entre um tango e um bolero, e, contraditoriamente, possui uma letra amarga (“Eu ando pela rua da amargura/ O bulevar dos sonhos desfeitos/ Onde gigolô e gigolete/ Podem levar um beijo sem arrependimentos/ E assim esquecerem dos seus sonhos desfeitos”). Não existem tantos registros dessa música, curiosamente.

Bennett, bem mais jovem; o nariz continua igual
A minha preferida é a de Tony Bennett. Bem, mas qual? Tony deve tê-la gravado umas três vezes. A primeira, de 1950, segue o ritmo da original (está disponibilizado abaixo). A de que gosto mesmo, é a que está no álbum que gravou com o pianista Ralph Sharon – Astoria: Portrait of an Artist (1990). Não é “esfuziante”, é mais uma balada, mais de acordo com a letra.

No disco All for You (1996), tributo de Diana Krall ao trio de Nat King Cole, está o segundo Boulevard, na minha classificação, friso (gosto não se discute, apenas se lamenta: não é o que dizem?). O que está disponibilizado abaixo é um pouco diferente da que consta no disco, mas é belíssima também.

Outra interpretação que vale a pena – até porque combina com ela –, é a de Marianne Faithfull. A de King Cole segue um pouco os tempos em que foi gravada: é “latinizada”, como a original. Como se vê pelo ano em que foi composta Boulevard, vê-se que a influência dos ritmos latinos e caribenhos é anterior à Segunda Guerra. Basta lembrarmos de Carmen Miranda.

Para complementar, Amy Winehouse andou cantando essa música nas apresentações que fez no Brasil; e não é a do Green Day. Ela tem bom gosto.


Constance Bennett em Moulin Rouge.




Com Nat King Cole:




Diana Krall canta. Preste atenção no guitarrista Russell Malone, antecessor de Anthony Wilson, e também no “caco” de The Peacocks, de Jimmie Rowles, no solo que faz ao piano.




Marianne Faithfull canta.




Tony Bennettt

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Diana Krall também compõe

O fato é que Diana nasceu pronta. Quando lançaram pelo selo GRP, em 1995, o álbum Only Trust Your Heart, tornando-a conhecida no mercado americano, era um talento consolidado. Tinha demonstrado no primeiro disco – Stepping Out –, lançado em 1993 pela gravadora canadense Justin’Time. 

Gravado em formato trio (John Clayton no baixo, e Jeff Hamilton na bateria, seus parceiros até hoje), parece um disco de uma veterana e não o de uma noviça. Estão lá a voz segura e cheia de personalidade, um piano competentíssimo, suingue contagiante e ótimo gosto na escolha de repertório. Tem um Body and Soul deslumbrante, daqueles que o saudoso Carlos Conde (tinha todas as gravações possíveis dessa música. Leia em http://bit.ly/eKayLn) reconheceria como muito boa.

Diana e Jimmie
Por isso não é exagero dizer que Krall nasceu pronta. Ray Brown conheceu-a quando era adolescente ainda em Nanaimo, Canadá, sua cidade natal. Querendo aperfeiçoar-se no piano, tempos depois, pediu uma sugestão para o baixista. Ele pensou em Hank Jones e Jimmie Rowles. Ficou com o segundo. Perfeito. Rowles, além de ótimo pianista cantava eventualmente, de um modo bem peculiar (mais músico-cantor que cantor-músico). É também autor de uma das mais belas canções de todos os tempos – The Peacocks. O estilo de Krall no piano é uma mix de Nat King Cole e de seu ex-professor. Cantando, desde o início da carreira, é “ela”. Não é emulação de qualquer das divas como Billie Holiday, Ella Fitzgerald ou alguma cantora branca conhecida. É ela e, pronto.

Depois de Only Trust Your Heart, Krall lançou All for You (Dedicated to Nat King Cole Trio), em 1996. É um tributo mais ao pianista Nat do que ao cantor Nat. É brilhante, um dos melhores que gravou até hoje. Para quem desconhece, o trio de Nat era ele ao piano, Oscar Moore na guitarra, e Wesley Prince no baixo. É claro que, como tributo, não podia faltar um Hit that Jive Jack ou Baby Baby all the Time. Agora, bom mesmo é ouvir Diana Krall cantando Boulevard of Broken Dreams. É especial.

Todos conhecem o lado cantora de Diana. Eventualmente, compõe. Em seu primeiro disco, tem uma composição chamada Jimmie, homenagem a dois Jimmies: seu pai e Jimmie Rowles. Preste atenção. Tem um “quê” de Bill Evans, e de Rowles, especialmente. Ouça.



quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Diana Krall, embrulhada para o Natal

Bing Crosby, o pioneiro
Fazem parte de longa tradição lançamentos de discos com temas natalinos na época das festas de final de ano. Não sei quando isso surgiu, mas o que parecia ser parte dos costumes de alguns países do hemisfério norte tornou-se habitual até no Brasil.

Tem-se notícia do disco lançado por Bing Crosby com a música White Christmas, em 1941. Fora composta pelo judeu russo Irving Berlin um ano antes.

Esse frisson por compras e festejos por um ano findado, em muitos casos, é motivo para deixar o sujeito deprimido. É quase impossível fugir desse clima; a não ser que você esteja embrenhado na floresta amazônica, sem um televisor ligado num raio de um quilômetro. Essa coisa de abraçar desconhecidos nas passagens de ano, então, é um tanto deprimente, não? Imaginei que esse costume era exclusivo dessa época. Engano. Fui a uma missa de sétimo dia numa igreja católica e, num certo momento, as pessoas se davam as mãos, cumprimentavam-se e abraçavam-se. Muito estranho esse mundo! Camufla-se o bem assim, como o mal.

Envolvido que estava com o clima natalino de Nova York – se você não está, a pessoa ao seu lado estará –, a pedidos de uma amiga brasileira, lembrei-me de fotografar a árvore montada no Rockefeller Center. As vitrines dos magazines e a iluminação das ruas são um espetáculo impossível de ser ignorado. Vá lá. Alguns são bem bonitos, mas nunca na vida pegaria o carro ou o metrô só para visitar um ponto com uma árvore de natal iluminada. É que é impossível não passar na frente do Rockefeller.

Diana Krall, vestida para o Natal
Menos comum é entrar em uma loja que venda CDs à procura de alguma coisa, um cedêzinho mais barato, aquele que você procurou em Frankfurt e encontrou em oferta na J&R. Comum mesmo é o espírito natalino. Até calcinhas, lingeries podem ter relação com Papai Noel. Não é diferente em megastores como Tower, Virgin e HMV, que existiam até alguns anos atrás. Numa dessas, vi um calendário do ano de 1999 no formato de CD (lembram-se; foi moda um tempo: o “jewel box” virava um porta-retratos) cujo tema era Diana Krall. Vinha um CD com três músicas de Natal. Comprei por Diana, não pelas músicas do disquinho.

Em novembro de 2005, Krall lançou o CD Christmas Album, com doze faixas. Esse é o seu verdadeiro disco de Natal. Have Yourself a Merry Little Christmas, o CD/ep que vinha junto do calendário continha apenas três músicas: Have Yourself a Merry Little Christmas, Christmas Time Is Here e Jingle Bells.

Nos rastros de Bing Crosby – ficou até um pouco estigmatizado por causa da gravação de White Christmas – vieram outros. Até Elvis Presley fez o seu. Mesmo caso é o de Tony Bennett. Nem todas as músicas relativas ao Natal têm aquele “toque jingle bells”. É ouvir e provar Diana cantando músicas de Natal (e até aprovar).

Algumas lâminas do calendário de 1999









Ouça The Christmas Song, composta por Mel Tormé e Robert Wells.






 

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

A Diana Krall que poucos conhecem

O título capcioso não serve para revelar algum segredo ou fato obscuro da vida de Diana Krall, e muito menos, do marido Elvis Costello. É claro que, não sendo Elvis um modelo de beleza, e Krall, bela e talentosa como é – muitos acham que poderia ter arrumado um homem mais “aprumado” –, o casal é alvo de fofocas e maledicências. Já se disse até que o casamento é de fachada (a exemplo da união de Tom Cruise e Nicole Kidman) e que os filhos gêmeos são de proveta.

Costello e Diana: um casal feliz
Existe gente que não o acha talentoso; mas, de fato, é. Costello participou de algumas pequenas “revoluções” da música. Passou pelo punk, country, folk, new wave, rockabilly, sempre adicionando alguma novidade. É autor de Shipbuilding e Almost Blue. Não precisava fazer mais nada. Elvis tem o “desassossego” dos grandes artistas, é um subversivo, enfim. Foi a Nashville e lá gravou um disco country (fãs e desafetos devem ter torcido o nariz), colaborou em disco do trumpetista cult Chet Baker, associou-se a intérpretes geniais como Robert Wyatt, gravou com Burt Bacharach (um escândalo; Elvis fazendo música easy listening?), gravou discos com uma das melhores mezzo-sopranos da atualidade –Anne Sofie von Otter –, compôs música para balé (Il Sogno), ambos pela mais prestigiada gravadora de música erudita, a Deutsche Grammophon. Não é pouco, não.

Faz parte dos meus roteiros turísticos entrar em lojas que vendem CDs e DVDs. Meio pobre, não? Quando se viaja, deve-se incluir visitas a museus, sítios arqueológicos, espetáculos de música, restaurantes etc. Minha pobreza de espírito e falta de refinamento cultural me empurram para o consumo, principalmente de discos. Quando vou a Nova York, passo por, pelo menos, duas lojas por dia. É uma pena que estejam desaparecendo. Terei de arrumar outras coisas para fazer. Ouvi muito dizerem que, se você vai a Nova York e não vê um musical da Broadway, efetivamente, você não foi a Nova York. Passei dessa fase e depois, acho os ingressos caríssimos. Quase dormi em Cats. Duas filas atrás um japonês roncava, virado de boca aberta para cima. Tive até inveja dele, mas como é que iria dizer aos amigos que tinha achado Cats chata? Aqueles efeitos de um helicóptero descendo em pleno palco ou um lustre descer a toda a velocidade não se sabe de onde, tudo isso não me impressiona. Prefiro passar horas no MoMA e no Metropolitan e depois passar numa Borders, Barnes & Noble, Rizzolli, J&R ou na minha preferida, a Jazz Record Center (sobre a loja, leia http://bit.ly/hYoeP5), que fica escondido num prédio no lado oeste da metrópole.

Pois, em Paris, em 1995, como não conhecia o La Défense, e não era a primeira vez que visitava a cidade, em razão dos clamores de meus companheiros arquitetos, fui até lá. É a parte “muderna” de Paris. Há um grande arco que, visualmente, “abriga” o velho Arco do Triunfo: dá uma linha reta que corre pela Champs Elisées. É a sede do mercado financeiro. Na frieza de sua arquitetura, encontrei uma loja Fnac. Enquanto remexia nas bancadas dos CDs, no setor de jazz, o som que tocavam naquela hora chamou-me a atenção. Fiquei curioso de saber quem era o pianista. Logo mais, ouço uma voz familiar. Era a de Diana Krall. Não tinha essa fama que tem agora. Diana era uma espécie de “segredo bem guardado” de alguns aficionados de jazz. Desde o primeiro que comprara – Only Trust Your Heart – a canadense chamou-me a atenção, pelo piano que lembrava Nat King Cole, pela beleza e pela voz.

Turn Up the Quiet foi lançado em 1996
Falo, no máximo umas vinte palavras em francês, todas relacionadas a comida. Na França, a amiga Vania deu algumas dicas. Uma delas era a de que sempre se usa artigo antes do substantivo. Por exemplo, se fosse pedir água, em vez de dizer “eau”, deveria dizer “l’eau”. Quem viu Pulp Fiction deve lembrar da cena em que John Travolta explica a Samuel L. Jackson que, para se pedir um Big Mac na França, deve-se dizer “Le” Big Mac. Hilariante. Graças a essa lição básica, em vez de pedir a Perrier, um pouco gasosa demais para o meu gosto, podia pedir a “l’eau Badoit, s'il vous plaît”, a minha preferida. Quando tinha de falar com ela, fui instruído a dizer ao telefone: “Vaniá, si vu plé”

Por conta da dificuldade em comunicar-me na língua de Flaubert e Proust, demorei-me uns dez minutos para tomar coragem e abordar um atendente. Solícito, mostrou-me o CD. Era de um pianista que não conhecia: Geoff Keezer (depois, descobri que possuía um disco de Art Blakey, em que tocava). Em inglês, disse-lhe que queria comprá-lo. Ele disse que não podia vender pois era uma amostra para os lojistas e iria estar disponibilizado apenas no começo de outubro. Era setembro e, em poucos dias voltaria ao Brasil. Saí frustrado da loja.

De volta ao Brasil, tempos depois, fui ter com o Odair – grande Odair!, a quem conhecia desde os tempos em que era gerente da melhor loja de discos importados entre os anos 1970 e 80, o Museu do Disco e nessa época, trabalhava numa loja próxima ao Colégio Dante Alighieri. Os catálogos ainda eram impressos (verdadeiros catataus em papel jornal) e não disponibilizados pela internet como hoje. Bom, resumindo, o disco foi lançado uns seis ou sete meses depois. Acho que foi o disco mais esperado daquele 1996.

É desse belo disco que você vai ouvir Love Dance, de Ivan Lins.