terça-feira, 30 de junho de 2020

Lee Konitz é mais uma vítima da Covid-19

Miles Davis e Lee Konitz em foto de 1951

Com certo atraso, escrevo sobre Lee Konitz. Efeitos da quarentena forçada. Dispersei. Apenas agora, afinal, o saxofonista morreu em 15 de abril, o post está sendo publicado.

Um álbum de Lee Konitz, “The Lee Konitz Duets”, serve de exemplo de seu estilo. Produzido por Dick Katz, para o selo Fantasy, foi gravado em setembro de 1967. Nessa época, o jazz era um gênero em risco de extinção. O rock, que emplacou seus primeiros sucessos em meados da década de 1950, explodiu de vez com as bandas inglesas, como os Rolling Stones e os Beatles, acabou com a era das grandes bandas como as de Duke Ellington e Count Basie.

Fora a última, os outros sete temas são com Konitz e um outro instrumentista. Eventualmente tocava outros tipos de saxofone, mas sua especialidade sempre foi o alto. O primeiro dueto — “Struttin’ with Some Barbecue” — sola com o trombonista Marshall Brown. Na clássica balada “You Don’t Know What Love Is”, no estilo “pergunta/resposta”, é ele com o saxofonista tenor Joe Henderson. De todos os números, o mais interessante é “Variations on Alone Together”. Numa longa faixa de 15 minutos, os duetos vão se alternando, uma hora com a bateria de Elvin Jones, o vibrafone de Karl Berger, o contrabaixo de Eddie Gomez, e, finalmente, com todos eles tocando juntos no trecho final. Outra faixa que merece ser destacada é “Erb”, com Jim Hall que, como ele, no início de suas carreiras, fizeram parte do combo de Jimmy Giuffre.

Para alguém que viveu tantos anos — 92 —, passou por muitas fases. Querido como era, generoso, gravou muitos álbuns mundo afora com músicos pouco conhecidos do mercado americano. Como exemplo, um deles é “Lee Konitz in Rio” (1989), gravado com Luis Avellar, Victor Biglione, Nico Assumpção, Carlos “Bala” Gomez e Marçal, bem fraquinho, por sinal.

O começo
Em todos os obituários destacou-se que Konitz foi um dos músicos do álbum “The Birth of the Cool”, considerado um marco no jazz. São mais importantes — ou tanto quanto —, no entanto, sua participação em gravações com o lendário Lennie Tristano, dono de um estilo único, um mestre no uso da técnica do contraponto, inédito até então na linguagem do jazz, de harmonias ricas e ritmos complexos. Seu piano contribuiu na forma de tocar de Konitz. Esses registros estão em “The Complete Atlantic Recordings of Lennie Tristano, Lee Konitz & Warne Marsh (1954-1958)”, lançado em 1997.

Foi importante também ter tocado com o clarinetista e saxofonista Jimmy Giuffre, outro grande do cool jazz. Ambos gravaram, em 1959, “Lee Konitz Meets Jimmy Giuffre”

Em sua longa carreira foi cool, bebop, hardbop, avant garde, mas o que melhor o classifica é que criou um estilo único, que foi moldado nos anos 1950 e cristalizou-se nos anos seguintes. O sopro sem vibratos, solos que privilegiavam as harmonias e a originalidade, que pode ser avaliada principalmente em standards, que permitem comparações com outras interpretações. Foi um saxofonista discreto. Não impactou o jazz como Charlie Parker, o maior saxofonista alto da história. Não deixou uma marca, digamos, como Johnny Hodges e seu sax “açucarado”, o sopro redondo e melodioso de Paul Desmond, ou a agilidade estratosférica de Phil Woods. Konitz correu por fora, como um fundista. A idade não pesou, como pesou paraoutros, como Woods, que nos anos derradeiros executava solos cada vez mais curtos.

Como líder
“Subconcious-Lee” (1950) é um clássico. Algumas parcerias renderam bons álbuns: “Lee Konitz & Warne Marsh” (1955) e “Konitz Meets Mulligan” (1953). Os dois tinham tocado juntos antes, em “Birth of the Cool”.

Tendo gravado mais de uma centena de álbuns, fica difícil destacar os melhores, até porque não ouvi todos. Porém, dos que conheço, destaco “Solitudes” (1988), com o ótimo pianista Enrico Pieranunzi. É uma boa amostra da originalidade de Konitz em improvisar sobre standards como “When I Fall in Love”, “The Shadow of Your Smile”, “Solitude” e outros.

Ouça “The Shadow of Your Smile”.




Nada como bons parceiros. Michel Petrucciani, por exemplo. Pena que tenha morrido tão cedo. Tinha o que chamam de “a doença dos ossos de vidro”. Morreu com 36 anos. Em 1981, participou de uma turnê com o saxofonista. Essa brilhante parceria está registrada em “Toot Sweet” (1982). Os dois se revezam em solos belos e originais. Em “‘Round Midnight” genial, assim como na clássica “Lover Man”, o saxofone de Konitz voa por rotas únicas.

Ouça “‘Round Midnight”.




Aliás, essa é a grande qualidade de Konitz. É a sua capacidade de aliteração em temas tão conhecidos, pelo menos, do público que ouve e gosta de jazz. Por essa razão, os álbuns que ele gravou em formato trio, com Brad Mehldau e Charlie Haden, são bem interessantes. Ele arrumou o parceiro ideal. Mehldau é o exemplo ideal do instrumentista que possui essa capacidade de ir além do imaginável. São dois os álbuns existentes: “Alone Together” (1997) e “Another Shade of Blue” (1999), ambos captados em apresentações no Jazz Bakery, em Los Angeles.

Ouça a brilhante interpretação dos três em “Alone Together.




Outro álbum interessante é “Three Guys” (1999), em que o trio é completado por Steve Swallow e Paul Motian. Ambos, velhos conhecidos pelos que estão familiarizados com lançamentos da ECM Records, são considerados mestres em seus instrumentos, o primeiro, por ter trocado o contrabaixo acústico pelo elétrico, criador de uma sonoridade única, e o segundo, baterista por muito tempo do quarteto americano de Keith Jarrett, e iniciado e do lendário trio de Bill Evans, que tinha Scott LaFaro como contrabaixista, cuja maior propriedade era a sutileza e musicalidade com que manejava as baquetas.

Desse álbum, ouça “Luiza”, uma das últimas obras primas de Antônio Carlos Jobim.


Como gravou muito, teria que fazer um post enorme. Paro por aqui.Há uma quantidade razoável de álbuns de Lee Konitz no Spotify, caso interesse alguém.


Do primeiro disco citado, ouça “Variations on Alone Together”, citado no início do texto.

















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