quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Essa é pra quem gostava do Weather Report

Joe Zawinul, um dos criadores do Weather Report
O Joe em questão de Posting Joe é Joe Zawinul. O austríaco de sangue cigano começou no acordeão e foi para o piano, ainda criança. Estudou no Conservatório de Viena. Ganhou bolsa para estudar na Berklee School of Music. Ficou pouco. Caiu na estrada rápido. Tocou com Cannonball Adderley, acompanhou Ella Fitzgerald e Dinah Washington. Gravou um disco com o saxofonista Ben Webster e como solista, estreou na gravadora Atlantic. Entre o jazz e o erudito, ou o que foi chamado naquele tempo de “third stream”, ou no que se designa agora como “crossover”, sua música não negava as raízes européias.

Tempos depois passou a tocar com Miles Davis e tornou-se cúmplice da mais nova transformação do trompetista. In a Silent Way, álbum que representa a transição e o fim do grande quinteto com Wayne Shorter, Herbie Hancock, Ron Carter e Tony Williams, tem a participação de Joe como compositor do tema título,

O radio.string.quartet.vienna, depois de produzir um álbum em homenagem à Mahavishnu Orchestra (leia http://bit.ly/1345Bon), agora faz um tributo a Joe Zawinul e também à banda Weather Report, que liderou com Wayne Shorter. É curioso que uma formação essencialmente acústica como um quarteto de cordas tenha escolhido, justamente, duas bandas bem eletrônicas. Em apresentação ao vivo, tocam alguns clássicos como Birdland, Freezing Fire, Cannonball, Black Market e Volcano for Fire. O destaque, no entanto, é mesmo In a Silent Way, tema que é a passagem de Miles Davis para o jazz eletrônico e que vai desembocar no clássico Bitches Brew.

Ouça In a Silent Way, com o radio.string.quartet.vienna.


Nota: todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.


Ouça Volcano for Hire.



Ouça Volcano for Hire, com o Weather Report.


Veja o teaser do álbum Posting Joe.



Sobre Joe Zawinul, leia http://bit.ly/1348fuj

terça-feira, 30 de julho de 2013

Prato cheio pra quem gostava do Mahavishnu Orchestra

Os membros do radio.string.quartet.vienna
Quartetos de cordas estão associados à música erudita. É uma das formações mais tradicionais da música de câmara. Normalmente são dois violinos, uma viola e um violoncelo. Se a música é uma linguagem aberta, que conversa com seus múltiplos gêneros, natural que surgissem formações tocando música popular com instrumentos da seara erudita. Violinos não são tão estranhos assim. Stephane Grapelli, no jazz, foi o mais conhecido e o trompetista Ray Nance tocava violino e cantava na orquestra de Duke Ellington. Nos dias de hoje, dois violinistas se destacam: Mark Feldman e Regina Carter.

O primeiro quarteto a ficar conhecido interpretando o repertório popular foi o Turtle Island String Quartet, formado em 1985. Tocaram com músicos do jazz e “arranjaram” John Coltrane, Robert Johnson, Jimi Hendrix e Dave Brubeck, dentre outros. Continuam na ativa, mas não se ouve falar deles como antigamente..

Mais recentemente, dois quartetos de cordas se destacam: o Quatuor Ebène e o radio.string.quartet.vienna. O primeiro, formado em 1999, gravou várias obras do repertório camerístico erudito de Fauré, Brahms, Debussy e Mozart pelo selo Virgin Classics. Lançaram um CD – Fiction (2010) – contendo composições da música popular e do jazz.

O radio.string.quartet.vienna grava pelo selo alemão ACT Music. Estrearam com Celebrating The Mahavishnu Orchestra, em 2007. Foi um sucesso. Depois desse, com Klaus Paier, lançaram Radiotree. Em 2011 saiu Radiodream. Desta vez não se restringem a um compositor ou banda: várias são de autoria de Bernie Mallinger, primeiro violino do quarteto, e da violoncelista Asja Valčić, mescladas com standards como Strange Fruit, I Loves You Porgy e Moon River e temas contemporâneos, caso de Nice Dream da banda inglesa Radiohead. Agora em 2013 foi lançado Posting Joe. Celebrating Weather Report. A homenagem a Joe Zawinul é justa: nasceu em Viena.

Não tanto quanto a astro pop David Bowie, John McLaughlin é um “mutante”. Seu primeiro álbum solo foi Extrapolation (1969). Os músicos, como ele, eram todos ingleses: John Surman, Tony Oxley e Brian Odgers. Foi um início excepcional. Logo chamou a atenção do meio musical e tornou-se membro da banda Lifetime, do baterista Tony Williams. Passou a tocar com Miles Davis e participou de uma série de gravações: Jack Johnson, In a Silent Way, Get Up With It, Bitches Brew e de vários álbuns lançados posteriormente com gravações do tempo em que colaborou com o trompetista. Era, como disse uma vez, um “doidão” que vivia tropeçando em fios e cabos no palco. Ligou-se ao guru Shri Chinmoy e, não sei se parou com as drogas, mas mudou. Lançou Devotion e My Goal’s Beyond pela Douglas Records. São discos mais calmos, com toques orientais. Já bem devoto do guru, criou a Mahavishnu Orchestra e gravou também um disco com Carlos Santana, que, convertido à tal religião – ou seita – de Sri Chinmoy, acrescentou Devadip como primeiro nome. Na capa de Love Devotion Surrender vemos duas pessoas de branco com aparência serena. Não sei se Santana, que até então tinha consumido algumas toneladas de marijuana, parou momentaneamente com a droga. Não deve ter não. Seu álbum gravado com Alice Coltrane – Illuminations (1974) – é viajante. Parece uma viagem de ácido com água benta (bem sujinha) do rio Ganges.

Na onda do fusion, músicos que fizeram parte da fase elétrica de Miles Davis seguiram caminhos próprios. Chick Corea montou o Return to Forever, Herbie Hancock, os Headhunters, Joe Zawinul e Wayne Shorter o Weather Report, e McLaughlin montou a Mahavishnu Orchestra. Na primeira formação era ele nas guitarras, Jan Hammer nos teclados, Rick Laird no baixo, Jerry Goodman no violino, e Billy Cobham na bateria. Os dois primeiros álbuns são clássicos do fusion ou do jazz rock, como também era designada a música de improviso com instrumentos elétricos: The Inner Mounting Flame (Columbia, 1971), e Birds of Fire (Columbia, 1972). O terceiro, muito bom também, de uma energia tremenda, é o ao vivo Between Nothingness and Eternity, gravado no Central Park, em 1973. Foi o fim da melhor formação. O mutante John mexeu na banda dando-lhe um som mais orquestral em Apocalypse (1974), com a regência de Michael Tilson Thomas. É bom, mas sem mais a energia tensa e densa dos primeiros. John “reativou” a Mahavishnu algumas vezes em anos posteriores.

A “celebração” à música da Mahavishnu Orchestra do radio.string.quartet.vienna, sabiamente, se resumiu aos três primeiros álbuns. São leituras poderosas e captam a energia dessa banda.

Veja um registro de Meeting of the Spirits. Nessa apresentação, o trombonista Nils Landgren participa. Na gravação original é só o quarteto.




Veja apresentação da Mahavishnu Orchestra na BBC tocando Meeting of the Spirits e You Know You Know. As duas faixas são do primeiro álbum.




Veja também Dawn.




Veja o quarteto tocando Dawn em registro lançado em DVD.




Ouça Inner Mounting Flame na íntegra.




Ouça o álbum Birds of Fire.