quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Quase matam Horace Silver

Horace Silver
Uma semana depois da morte de Jim Hall, surgiu a notícia de que Horace Silver tinha falecido (hoje, 17/12). A notícia provou-se falsa. Sua gravadora oficial, a Blue Note, desmentiu. Está “vivinho da silva”. Aliás, seu nome verdadeiro é Silva. Mais velho dois anos que Jim Hall, é outro que, quando morrer, de fato, será manchete na imprensa especializada. Silver faz parte da história como um dos grandes pianistas da história do jazz, não só como instrumentista, mas como compositor. Muitos são virtuoses em seus instrumentos, mas não são numerosos os que possuem composições que se tornaram clássicos. Silver é autor de temas como The Preacher, Señor Blues, Opus De Funk, Doodlin’, Peace, e Sister Sadie.

Houvesse nascido em algum país de língua portuguesa seu nome seria Horácio Silva. O Carlos Conde adorava brincar com isso. Seu pai veio de Cabo Verde, antigamente, colônia portuguesa. Casou-se com uma descendente de negros e irlandeses. Horace Ward Martin Tavares Silva adotou como nome artístico Horace Silver. Poderia ter mantido o “Silva”, como seu colega, o baixista Alan Silva, filho de mãe açoriana.

Horace Silver e Art Blakey são considerados os criadores de um gênero, o hard bop. Uma geração que cresceu ouvindo rhythm and blues e a música gospel incorporou esses ritmos ao jazz. Era uma reação, de certo modo, ao cerebralismo do bebop de Charlie Parker e Dizzy Gillespie. O estilo vibrante de Blakey casou perfeitamente com as composições e a forma mais percussiva e ritmica de Silver.

The Preacher, de Silver, lançada em 1955, é considerada o tema que “inaugura” o hard bop. Ouça.




Logo depois que surgiram notas anunciando o falecimento de Horace Silver na internet, um blogueiro entrou em contato com Gregory, filho dele. Disse que “tomando café e fazendo o desjejum nesse momento.” Que bom, pois os fins de ano são pródigos em matar pessoas.

Ouça outro clássico: Opus De Funk.



Pianista dos bons, mesmo tocando outros: ouça Silver em Prelude to a Kiss, de Duke Ellington, acompanhado por Curly Russell, Percy Heath e Art Blakey.



Veja Silver com Blue Mitchell e Junior Cook em sua composição Señor Blues.



Silver interpreta Song for My Father.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Miles Davis elétrico e Sonny Fortune

O passado me condena: os primeiros Miles Davis que gostei foram os dos anos 1970: Agharta e Get Up with It, dois álbuns que não devem estar entre os preferidos da maioria. Charlie Parker, conhecia de nome. Tinha curiosidade de ouví-lo depois de ler O Perseguidor, conto de Julio Cortázar (veja em http://bit.ly/ICzw2X), de quem era fã incondicional. Era fã dele, de Jorge Luis Borges e de Alejo Carpentier. Os latino-americanos estavam em alta no meio dos estudantes da USP, a ponto de existir uma banquinha montada pela Ciça que vendia livros de arquitetura e também de Roa Bastos, Juan Carlos Onetti, Eduardo Galeano, Lezama Lima e outros autores que não publicados em português.

Os dois Miles foram os primeiros de quase uma centena que hoje tenho dele em CD. Multiplique por dois, pois os primeiros eram no formato LP, ou vinil, como são chamados atualmente, com a onda revivalista, os velhos bolachões 33 rpm. Minhas primeiras aquisições jazzísticas – os puristas não diriam que era jazz –, além desses, foram álbuns do Return to Forever, Weather Report e Jeff Beck, coisas do tipo. O inglês, um dos grandes da cena do rock britânico, com Eric Clapton, Jimmy Page e Pete Townsend, ao contrário deles, não cantava. Em 1975, lançou Blow by Blow, exclusivamente instrumental. Foi sucesso de vendas e ganhou fãs que curtiam o jazz fusion.

Veja Jeff Beck tocando Cause We’ve Ended As Lovers, de Stevie Wonder, uma das melhores faixas de Blow by Blow, em apresentação no Ronnie Scott. O nome da baixista é Tal Wilkenfeld. Pena que, quando veio ao Brasil, Tal não estava mais na banda.



Antes disso, quando ainda estava fazendo o cursinho preparatório para o vestibular, conheci Lucila W. Ela tinha o que eu não tinha: condições financeiras para viajar para fora. Bem antes da era Lula, viagens eram coisa para pessoas da classe média alta, a qual não pertencia. Os primeiros discos da banda inglesa Soft Machine e do Weather Report os conheci por seu intermédio. Emprestou-me e os gravei. É um débito que tenho com ela. Continuamos amigos por um bom tempo e como viajava sempre, cada volta, significava novos sons a descobrir.

Capa de Get Up With It
O Miles Davis elétrico

Agartha é a gravação de um show em Osaka, em 1º de fevereiro de 1975. Get Up with It é um apanhado de gravações de estúdio entre 1972 e 1974, com formações diferentes, mas no básico, seus músicos são quase os mesmos da banda que se apresentara no Japão: Sonny Fortune (sax soprano, sax alto, flauta), Michael Henderson (baixo Fender), Pete Cosey e Reggie Lucas (guitarras), Al Foster (bateria), e Mtume (percussão). Em Get Up with It, em várias faixas, a guitarra era de John McLaughlin, que fora indicado por Tony Williams.

Ouça os 30 minutos iniciais de Agharta.



Em 1974, Miles apresentou-se no Theatro Municipal de São Paulo, com a mesma formação (não tenho certeza absoluta) e, nessa altura, seu problema com as drogas tinha se agravado de tal maneira que uma ambulância ficou estacionada no teatro, caso acontecesse alguma coisa. Sergio Porto, o Stanislau Ponte Preta, uma vez escreveu: “Uma feijoada, para ser completa, precisa de ambulância na porta.” Mais ou menos assim, era a frase. Miles não tinha comido uma feijoada, mas estava um caco, com sérios problemas de saúde e nem tinha chegado nos 50, não se sabe como. Não muito tempo depois, retirou-se dos palcos e retornou só em 1981 com o álbum A Man with the Horn.

No show do Municipal, fãs do velho Miles saíram no meio e os jovens, que mal o conheciam, ficaram extasiados com aquele som. Foi a iniciação de muita gente no jazz, por vias tortas, é certo. Continuei minha coleção do trumpetista pela fase de transição para o elétrico: Filles de Kilimanjaro, In a Silent Way e Jack Johnson; Bitches Brew também, pois quem não conhecia, como se dizia, “estava por fora”.

A EMI tinha lançado uma série de jazz do selo Capitol. Foi meu primeiro contato com Coleman Hawkins e o Miles do início da carreira. Não era bem dele. Era um dos que participava do clássico The Birth of the Cool, com Gerry Mulligan, John Lewis, J.J. Johnson, Gunther Schüller, Lee Konitz, dentre outros. Um outro selo distribuiu um álbum duplo de Miles Davis chamado The Tallest Trees. As “árvores mais altas” tinham nome: Thelonious Monk, Sonny Rollins, Horace Silver e Milt Jackson, além de Davis. Foi a minha rendição. Para chegar nos registros de Davis com Charlie Parker pela Dial Records foi um passo. Percebi que aquele som que parecia careta aos ouvidos de um adolescente que estava entrando na faculdade era revolucionário.

O jazz se encontrava em uma encruizilhada face a mudança da indústria da música ocorrida a partir dos primeiros rebolados de Elvis Presley. Alguns preferiram ignorá-la ou maldizer. Mas era um fenômeno avassalador. Sobrou para o jazz. Miles Davis encantou-se com a nova música que surgia pelas mãos de Jimi Hendrix e do Sly and The Family Stone. Antes mesmo de Bitches Brew, considerado o “disco da virada”, essas influências se apresentavam nos anteriores Filles de Kilimanjaro e In a Silent Way.

Sonny Fortune no saxofone alto
Ainda com alguns dos remanescentes do quinteto anterior – Wayne Shorter, Herbie Hancock e Tony Williams –, acrescentou guitarras (John McLaughlin), baixo elétrico (Dave Holland), e teclados eletrônicos (Chick Corea e Joe Zawinul). Hancock resistiu, Foi demitido, readmitido e curvou-se à vontade do chefe. Meio que a contragosto sentou-se no banquinho do piano elétrico. Quem diria: Hancock foi um dos mais radicais nos experimentos com os novos instrumentos que surgiam e foi um dos pioneiros em incorporar a música que nascia nas ruas e nos guetos americanos.

Calcado em solos e ritmos frenéticos das guitarras de Pete Cosey e Reggie Lucas, e longos acordes no órgão, Miles mais uma vez, revolucionava a linguagem da música instrumental em Agharta. Os outros da banda eram Michael Henderson no baixo elétrico, Al Foster na bateria, e Sonny Fortune no saxofone alto e na flauta.

Sonny Fortune

Conheci Fortune assim: tocando com Davis. Em 1975 lançou seu primeiro álbum solo: Awakening. Muito diferente da fase “esquizofrênica” anterior, o disco era bem mais mainstream. À exceção do Fender Rhodes que aparece na última faixa, todos os instrumentos eram acústicos, com um line-up de primeira, a começar pelo belíssimo piano de Kenny Barron e outro craque do mesmo instrumento participando de For Duke and Cannon: John Hicks. Era uma belíssima estreia.

Ouça Awakening, última faixa do disco.



No ano seguinte lançou Waves of Dreams. Quase tão bom, conta com o craque Buster Williams no contrabaixo. O trumpete é de Charles Sullivan, o mesmo do disco anterior. Tem mais percussão, sintetizadores mini-moog e piano elétrico, mas não a ponto de estragar.

Ouça Thoughts. É Sonny no saxophone alto.


Veja Sonny Fortune tocando Waves of Dreams no sax soprano, em apresentação de 2009.



Por razões comerciais ou por gosto mesmo, Fortune enveredou pelo funk jazz. Pegou o sax alto e começou a tocar “açucarado”, bem naquele estilo Grover Washington, David Sanborn e andou gravando coisas como With Sound Reason. No meio de música de quinta encontra-se uma pérola. É Francisco, de Milton Nascimento. Fortune, grande flautista, arrasa.

Confira.



Desisti de Fortune a partir daí. Ouvindo discos posterior, vejo, que voltou aos bons caminhos. Em Great Friends (1986), os amigos são Billy Hart, Stanley Cowell, Reggie Workman e Billy Hart. Outro, igualmente bom, é Four in One (1999), com composições de Thelonious Monk, está na companhia de bons músicos como Buster Williams, Billy Hart e Kirk Lightsey.