Mostrando postagens com marcador Elis Regina. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Elis Regina. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Elis Regina e Frank Sinatra

Ronaldo Bôscoli e Elis Regina: um casal feliz?
Preferências, na adolescência, tendem à polarização. Gostar de Caetano Veloso significava que não morria de amores por Chico Buarque. Como gostava de Gal Costa, outras cantoras pouco significavam para mim. O tempo provocou uma mudança e uma capacidade de ser menos radical e sectário. Posso ter todos os álbuns dos meus preferidos, como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Milton Nascimento, mas tenho cerca de dez de Chico. De Elis tenho poucos, mas um deles está entre os meus dez mais de música brasileira: “Elis & Tom”.

Assistir à minissérie – não vi o filme quando exibido nos cinemas – “Elis – Viver é Melhor que Sonhar” seria uma boa chance de reavaliação. Foi uma tremenda cantora, devo considerar. Continuo preferindo a Gal Costa dos primeiros anos. Questão de gosto. Agora, a atriz Andréia Horta subiu no meu conceito. Magnífica Elis. Nem dá para pensar alguém mais adequada para o papel.

Nesses filmes biográficos ficamos a ver o quão próximos são do real. Não li “Furacão Elis”, escrito pela jornalista Regina Echeverria. Muito do que eu sei da carreira de Elis é por meio de “Chega de Saudade” (Companhia das Letras, 1990) e do que li sobre ela em jornais e revistas. Acredito que os roteiristas usaram muito do que foi escrito no livro de Ruy Castro.

Uma é a de quando ela vai ao Rio de Janeiro fazer um teste para a peça “Pobre Menina Rica” e ouve palavras não muito lisonjeiras de Antônio Carlos Jobim. Pelo que consta no livro, Jobim teria afirmado: “Essa gaúcha é muito caipira. Ainda está cheirando a churrasco.” No filme não são essas palavras, mas percebe-se que a fonte pode ter sido o texto de Ruy Castro. O que ela soube, por Carlos Lyra, autor da canção, com Vinícius de Moraes, é que Jobim não a achara adequada para o papel. Mas ficou a bronca. Demorou para gravar alguma composição do autor de “Chega de Saudade”.

Elis não ficou inimiga de Tom, mas de Ronaldo Bôscoli, sim. Desde quando se conheceram, no Rio de Janeiro, a antipatia foi mútua.

O início
Em 26 de outubro de 1964, no show “O Remédio é Bossa”, no teatro Paramount, em que se reuniam Marcos Valle, Antônio Carlos Jobim, Alaíde Costa, Sylvia Telles, Carlos Lyra, Os Cariocas, Vera Brasil, Walter Santos, Vinícius de Moraes, Oscar Castro Neves, Paulinho Nogueira, Pedrinho Mattar, Zimbo Trio, Roberto Menescal e Quarteto em Cy, a participação por 30 segundos de Elis Regina, cantando um trecho de “Terra de Ninguém”, hipnotizou o público. Segundo Ruy Castro, “nascia uma estrela – grande demais para caber nos palcos para pulgas do Bottle’s e do Little Club.”

Pouco antes, com o furo da promessa feita pelo produtor Armando Pittiglani, ao vê-la cantar em Porto Alegre, de lançá-la no mercado fonográfico, obrigou-a a sair atrás de algum lugar que pudesse cantar e ganhar um dinheiro e não ter de voltar de mãos abanando à sua terra natal. Foi assim que conheceu Bôscoli, que em dupla com Luis Carlos Miele, produzia shows para as melhores boates do Rio de Janeiro.

Em pouco tempo, Elis ganharia um programa na TV Record, com Jair Rodrigues e o Jongo Trio. “O Fino da Bossa” foi um tremendo sucesso, mas começou a perder audiência. Enquanto isso, o programa dominical “Jovem Guarda”, com Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Vanderléa, explodia.

A direção da TV Record resolveu contratar a dupla Miéle-Bôscoli para salvar “O Fino da Bossa” do naufrágio. Elis odiava Ronaldo desde o dia em que se conheceram. E agora, iam trabalhar juntos.

O improvável aconteceu, no entanto. Pouco tempo depois de passarem a trabalhar juntos na Record, estavam casados. Carlinhos de Oliveira, o folclórico cronista do Jornal do Brasil, ao anunciar o casamento, escreveu: “Elis Regina terá para sempre o consolo de saber que a guerra do Vietnã é muito pior.”

Aqui, entra Frank Sinatra na história. Bôscoli dizia: “Gosto mais de Frank Sinatra do que de mulher.” E olhe quem dizia! O produtor e letrista era o que se chamava antigamente, um tremendo “rabo de saia”. Namorou Maysa e Nara Leão, para citar apenas as cantoras. Tremendo mulherengo, sentiu na carne as consequências de sua cafajestice. Depois de uma briga, ao voltar para o apartamento, viu toda a sua coleção de LPs e raríssimos discos de 10 polegadas de Frank Sinatra atirada “como discos voadores, no Oceano Atlântico. Alguns dos discos não haviam chegado ao mar e podiam ser vistos, como peixes mortos, na pista da av. Niemeyer”, escreveu Ruy Castro, em “Chega de Saudade”.

O casamento não durou muito tempo.

Ouça a música-título de Only the Lonely”, de Jimmy van Heusen e Sammy Cahn. É um dos grandes álbuns de Sinatra, de sua fase na Capitol Records. Nessa época, Frank encontrava-se no auge da dor pelo fim do casamento com Ava Garner.




Anos depois de ter sido chamada caipira por Tom, passou a raiva. Gravaram, em 1974, o antológico “Elis & Tom”. 

 Ouça o disco na íntegra.




Nota final
No filme, Elis joga uns poucos LPs. Foi por conta dessa cena que resolvi escrever esse texto. Tudo o que foi citado está em “Chega de Saudade”, de Ruy Castro.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Por toda a minha vida ou o amor incondicional

Nunca haverá o “amor por toda a minha vida”, mas não custa pensar de que possa existir; ou seguir o princípio “viniciano” – um neologismo torto para a conhecida frase de Vinícius de Moraes: “o amor, que seja eterno enquanto dure”.

Qualquer ser humano, um dia, sonhou ou se iludiu que o amor nutrido por outra pessoa seria eterno, provavelmente. Imagino que existam alguns felizardos e esses devam ser invejados. Às vezes, penso se o amor que a Brisa – minha cachorra – nutre por seu dono é um amor incondicional. Mas é um animal de reino diferente ao qual pertencemos. Mesmo assim, por um átimo de tempo ou num impulso em que tudo pode parecer tão perfeito e harmônico, o “apaixonado instantâneo” poderia ter escrito versos assim: “Oh, meu bem amado/ Quero fazer de um juramento uma canção/ Eu prometo por toda a minha vida/ Ser somente teu e amar-te como nunca/ Ninguém jamais amou, ninguém// Oh, meu bem amado/ Estrela pura, aparecida/ Eu te amo e te proclamo/ O meu amor, o meu amor/ Maior que tudo quanto existe/ Oh, meu amor”. Melhor esclarecer: nunca seriam tão belos como esses, que são de Vinícius de Moraes. Outra observação: o “amor por toda a vida” é uma música em tom menor e, em vez de transmitir ideia de felicidade, passa uma sensação fatalista.

Difícil discordar do quase consenso de que o Por Toda a Minha Vida gravado por Elis Regina em Elis & Tom, acompanhada por uma orquestra de cordas arranjada por seu marido à época, Cesar Camargo Mariano, é “A” interpretação. Aliás, esse disco gravado em 1974, em pouco mais de duas semanas, é uma coleção de “melhor das melhores” das composições de Jobim.

Elis & Tom transformou alguns paradigmas da interpretação do repertório jobiniano, mas nem por isso alguém vai deixar de gravá-lo. Ouvindo a brasileira radicada em Londres (não sei se continua lá) cantando Por Toda a Minha Vida, faz-me pensar que standards de qualquer classe ou categoria podem (e até devem) ter um “quê” de transgressão, algo como um ato psicanalítico de ruptura criador/criatura.

Cibelle no encarte do segundo CD
O percurso de Cibelle, como o de alguns músicos e intérpretes brasileiros que estão na “bem falados”, passaram pelas mãos do produtor sérvio Suba, trágica e precocemente morto. Foi a principal vocalista de São Paulo Confessions, lançado pela Crammed Discs. A cantora, que foi modelo também, chamou a atenção e foi convidada a continuar a trabalhar com a gravadora. No primeiro, de 2003, já mostrava ao que veio. Fez um belo disco e desvela a candura de sua voz; e a parte bacana: resgata Johnny Alf do esquecimento (sobre ele leia: http://bit.ly/q2KkEw) em que toca teclados (Fender Rhodes) e canta Inútil Paisagem com Cibelle.

O segundo, de 2006, é um álbum de nome meio psicodélico e intrigante: The Shine of Dried Electric Leaves. É apenas o título do disco; não tem nenhuma música com esse nome. Mistura músicas compostas por Cibelle, só ou em parcerias com Apollo Nove e Mike Lindsay, conta com participações de Seu Jorge e Lany Gordin, e canta composições de Jobim, Caetano Veloso (London London, Cajuína), e Tom Waits (a belíssima Green Grass, a primeira do CD). A de Jobim é, exatamente, Por Toda a Minha Vida, que você ouve a seguir.

Seu último CD é puro estilo. Cibelle se traveste de Sonia Khalecallon, um trocadilho com os nomes da artista mexicana cult Frida Khalo e da artista conceitual Sophie Calle, que resulta em sonoridade que traz à memória a expressão “canecalon”. Gerações mais recentes devem não conhecer as famosas perucas femininas de canecalon, que eram feitas de material sintético imitando cabelos naturais. Apesar de todo o conceito e do nome impactante do CD – Las Vênus Resort Palace Hotel –, não é tão bom quanto o anterior.


Cibelle canta Por Toda Minha Vida.



Será a versão de Por Toda Minha Vida, de Elis & Tom, a definitiva?

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

O “só tinha que ser com você” e o “tinha que ser você”

Dizer “it had to be you” é sintético e certeiro. É “você” e, pronto. Por associação, lembro-me do clássico brasileiro Só Tinha de Ser com Você. Na Wikipedia, dá que foi composta em 1974 (se não me engano, é de 1965; o dado está errado ), por Antônio Carlos Jobim e Aloysio de Oliveira. Será que os dois se lembraram de It Had to Be You, clássico de Isham Jones e letra de Gus Kahn, composição de 1924? Fica a pergunta.

A letra de It Had to Be You:
It had to be you, it had to be you/ I wandered around, and finally found/ The somebody who could make me be true/ Could make me be blue or even be glad/ Just to be sad just thinking of you/ Some others I've seen might never be mean/ Might never be cross or try to be boss/ But they wouldn't do/ For nobody else gave me the thrill/ With all your faults I love you still/ It had to be you/ It had to be you/ It had to be you.

A letra de Só Tinha de com Você:
É, só eu sei/ Quanto amor eu guardei/ Sem saber que era só prá você// É, só tinha de ser com você/ Havia de ser pra você/ Senão era mais uma dor/ Senão não seria o amor/ Aquele que a gente não vê/ O amor que chegou para dar/ O que ninguém deu pra você// É, você que é feita de azul/ Me deixa morar nesse azul/ Me deixa encontrar minha paz/ Você que é bonita demais/ Se ao menos pudesse saber// Que eu sempre fui só de você/ Você sempre foi só de mim.

Na letra de Gus Kahn, a “que tinha de ser você” é aquela que, como ninguém, mexeu com seus sentimentos, “apesar de todas as suas falhas”, continua a amá-la; poderia deixá-lo triste ou até se sentir feliz, apenas sentindo-se triste ao pensar nela. O “blue” de Kahn é diferente do “azul” de Jobim e Aloysio de Oliveira: “[…] você que é feita de azul, me deixa morar nesse azul”. O “blue” de Kahn é decorrência da falta que ela faz, da amada que, apesar dos “defeitos”, tinha de ser ela; o azul dos brasileiros é associada à tranquilidade, a um bem-estar.

Harry Connick, Jr: retrato do artista quando jovem
Outro dado interessante é certa semelhança na “atmosfera” (mood) da música. Ambas transmitem uma tranquilidade, uma paz, passíveis de acontecer quando a felicidade se associa ao sentimento do amor.

Centenas de intérpretes cantaram It Had to Be You. Funcionam tão bem, sonoramente, as rimas “you” / “true”, “around” / “found”, e “blue” / “you”, tornando esse clássico mais irresistível ainda. Ouça-a na interpretação de Harry Connick, Jr. Quando surgiu, rapaz de bela fachada, andaram dizendo que era o novo Frank Sinatra. É muita responsabilidade! Bom cantor e bom pianista, nascido em New Orleans, e crescido com seus companheiros musicais, os irmãos Marsalis; belo background! Mas, variou muito por conta de suas habilidades múltiplas: flertou com o trabalho como ator (é um dos tripulantes do avião “Memphis Belle”, no filme homônimo; nele, canta Danny Boy), quis deixar de ser o “garoto bonitinho” e enveredou por experimentações mais jazzísticas. Mas o hoje senhor Connick Jr. não deixou de ser o que é: quem é bom não deixa de sê-lo. Os marqueteiros da música sempre foram ávidos em lançar novos Sinatras. O exemplo mais recente é o de Michael Bublé.

Ouça “It Had to Be You”, com Harry Connick, Jr.




O Só Tinha de Ser com Você no álbum Elis & Tom é irrepreensível, com o piano elétrico de César Camargo Mariano, mas nada melhor que com o seu autor. Jobim fez de suas limitações vocais uma qualidade idiossincrática (quem não gosta de Tom cantando Na Batucada da Vida?; é só ele, especialmente ele, quando canta o verso final no limite grave de sua voz). Que encantador o seu “você que é bonita demais”. A versão que você ouve é de 1967, com Nelson Riddle, o mesmo arranjador das melhores gravações de Frank Sinatra.




“Só Tinha Que Ser com Você” com Elis e Tom.


E tem também “O Que Tinha de Ser”, maravilhosa na voz de Elis.