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quinta-feira, 9 de maio de 2019

Opções geniais para se ouvir Nature Boy

ahbez é o barbudo
Três registros novos que relaciono são interessantes de serem vistos/ouvidos. Uma delas abre o filme Moulin Rouge, de Baz Luhrman, que junto com Chicago, de Rob Marshall são os dois melhores musicais da década passada. Esta versão de David Bowie é muito boa, como a maioria das coisas que faz, imprimindo sempre a sua marca. A outra, bem diferente – não vou dizer por quê –, que não existe em CD, é a de Jamie Cullum. Imperdível. A terceira é de uma cantora muito boa, que merece ser “buscada” na Internet para quem não a conhece: Lizz Wright. Existe uma versão no YouTube que deve ser vista.

Além das versões cantadas, existem alguns registros apenas instrumentais. Para os que desejam as mais tranquilas, recomendo a de Art Pepper, grande alto-sax, que teve uma carreira um tanto atribulada devido ao seu problema com drogas. Ela está no álbum Straight Life e tem como sidemen o pianista maior Tommy Flanagan, Red Mitchell no baixo e Billy Higgins na bateria. Outra muito boa, que está em Blue Moods, é a de Miles Davis. O trumpete em surdina tem aquele tom melancólico é apenas dele. Acompanhado por Charles Mingus no baixo, o destaque é o vibrafone de Teddy Charles. A do guitarrista Joe Pass – esse é outro que andou um bom tempo preso por conta de consumo de drogas pesadas – e do trombonista “mais rápido do oeste” J.J. Johnson é excepcional. J.J. inicia com o tema em “surdina” e Joe a finaliza com um rápido solo de sua guitarra semi acústica fenomenal. A música é curta e faz com que fiquemos com aquela sensação de que “tiraram o doce da boca da gente”.

Ouça a de Miles.




A de John Coltrane – a que designaria como a versão “amalucada” – é uma longa faixa de oito minutos. Ele apresenta o tema no sax tenor sobre uma colchão bem caracteristicamente coltraneano com o piano “cheio de notas” e arpegiado de McCoy Tyner, notas de baixo no arco e a bateria brilhante e enérgica de Elvin Jones. Após um começo dramático e lento, Coltrane se lança naqueles solos contínuos, ricos e intensos. No fim da faixa, Art Davis faz um breve solo meio atonal no arco. Tudo que é dele é imperdível.




Temos uma versão bossa nova, de outro sax tenor do primeiro time, mas menos conhecido. Falo de Zoot Sims. Esta faixa está no álbum The Bossa Nova Sessions. Muita gente, na década de 1960 sucumbiu ao gênero mais exportado do Brasil. Não foram apenas Charles Byrd e Stan Getz.

Ouça.




A versão que designaria de “desconstruída” é a do pianista Jacky Terrasson. Sua maior característica é a de nunca começar pelo tema: lá no meio da música você fica sabendo o que ele está tocando. Muito bom.




Todos os CDs citados não foram prensados no Brasil. Para aquele que deseja tê-los a opção é importá-los. A outra é a de procurar pela Internet, fazer um download “piratão” ou comprá-las pelos sites de venda de música.


Bela versão de Bowie:



A de Lizz Wright, citada logo no início. É uma ao vivo.




Finalmente, Jamie Cullum.


terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Natalie Cole e seu pai

A pequena Natalie com o pai Nat
A tragédia rondou os próximos de Picasso depois de sua morte. Considerado o maior pintor do século 20, foi um gênio também na arte de conquistar as mulheres. Era um touro misógino e ególatra. Os filhos foram meros detalhes – ou acidentes – e pouco receberam atenção. O que importava era o seu trabalho e mulheres para aplacar os desejos do priápico artista.

Quando morreu, Jaqueline Roque, sua última mulher proibiu a presença de dois dos filhos no funeral. O neto Pablito, filho de Paulo, um dos proibidos de despedir-se, dias depois, bebeu água sanitária e após três meses morreu. Paulo, seu pai, dependente da ajuda financeira do pai e rejeitado, morreu dois anos depois, vítima do alcoolismo. Marie-Thérèse Walter, uma de suas amantes suicidou-se em 1977. Jaqueline também suicidou-se, em 1985. Paloma Picasso, filha dele com Françoise Gillot, conseguiu dar a volta por cima: escandalizou posando nua e depois ficou conhecida pelo trabalho como designer de joias e por ter um perfume com seu nome.

Na época em que Picasso morreu, o artista plástico Luis Paulo Baravelli, costumeiro autor de belas tiradas, dizia que a pior coisa do mundo era ser filho de gênio. O filho de Frank Sinatra resolveu ser cantor, assim como Nancy. Ela, pelo menos, fez algum sucesso, por um tempo. Como Paloma, posou nua, aproveitando-se de um de seus bons atributos. Com o pai que teve, assim mesmo Natalie Cole resolveu ser cantora.

Nat, nascido Nathaniel, foi um dos gênios musicais do século 20, assim como foi Picasso em sua especialidade. Não foi à toa que o “King” foi agregado ao seu nome. Os mais puristas gostam de dizer que Nat King Cole foi um gênio ao piano e, cantando, curvou-se ao comercialismo. Mas é isso mesmo: sua enorme popularidade veio pela bela voz de barítono, cálida, capaz de emocionar o mais bronco da humanidade, cantando Blue Gardenia, When I Fall in Love, Unforgettable, Nature Boy e tantas outras canções.

King Cole foi revolucionário ao piano com seu trio constituído apenas de uma guitarra e um contrabaixo. Fez escola. Influenciou Oscar Peterson, Ahmad Jamal, Monty Alexander e muitos outros nascidos depois. Tocando com seu trio, vez por outra, cantava. Perceberam a bela voz que tinha. O tremendo sucesso resultou em dinheiro. Foi morar em uma bela mansão em Los Angeles, cercada exclusivamente por brancos. Pior de que agora, sofreu com a discriminação, muito mais presente e até natural para a maior parte da sociedade americana da década de 1950.

O sucesso foi tanto que ele foi um dos primeiros negros a ter um programa de televisão. Em novembro de 1956, estreou o seu Nat King Cole Show, na NBC. Durou pouco. Visto por negros e brancos, fez sucesso e trouxe grandes atrações, mas não conseguiu anunciantes e patrocinadores. Durou pouco. Perguntado sobre o fim do programa, Cole disse: “A Madison Avenue tem medo do escuro.” A avenida Madison é onde até hoje estão concentradas as maiores agências de publicidade.

Sucesso e dinheiro não correspondem garantia de longevidade. O cigarro o matou com 45 anos. Natalie Cole era uma adolescente na época. 

Natalie teve um início auspicioso como cantora. Sabia muito bem do peso do nome do pai e preferiu evitar possíveis comparações. Por isso, seguiu por outra seara. Filha de outros tempos, seu gosto era mais pop. Seus produtores imaginaram que teria bom potencial seguindo pelas sendas do rhythm’ blues e da soul music, que estava dando muito certo com Aretha Franklin. E foi assim. Emplacou várias canções entre os primeiros

Orfã aos 15, dando-se bem mal com a mãe, alguma coisa fez com que a carreira desandasse. Entrou pesado pelas carreiras da cocaína, heroína, e ainda o álcool. Teve de ser internada. Acabou, ou melhor, acabou-se.

Recuperada, com Everlasting, em 1987, voltou às paradas. Atingiu a marca de um milhão de discos vendidos. Cole estava de volta. Mas a consagração veio com Unforgettable… with Love, de 1991. O grande hit foi Unforgettable, em que Natalie Cole faz um “duo” com o pai. “Ressuscitaram” Nat e colocaram a voz da filha.  O duo tem um valor simbólico forte, pois assim, liberta-se da pesada herança que é ter um pai gênio.  Deixou as drogas, aparentemente, e ficou em paz com o pai e com o sucesso. Ao contrário de antes, Natalie passou a incluir temas mais ligados ao jazz.

Por um pouco de preconceito, alguns puristas, simplesmente, ignoram Natalie ou a chamam de medíocre. A comparação com o talento do pai é injusta. Não considerada, deve-se reconhecer que tinha boa voz e não fez feio cantando standards.

No dia 31 de dezembro do ano passado, Natalie foi fazer companhia ao pai. Tinha hepatite C e a causa mortis foi uma insuficiência cardíaca, provocada por uma hipertensão arterial pulmonar idiopática.

O duo Unforgettable. 




Veja Natalie com Diana Krall.




Ouça What a Difference a Day Made, que ficou clássica com Dinah Washington.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Agora, Natalie Cole também canta em espanhol

A “espanhola” Natalie Cole
Quem é espírita ou acredita em coisas como reencarnação, deve ter jurado que Nat King Cole tinha ressucitado em 1991. Nesse ano fora lançado um dueto de Natalie Cole e seu pai cantando Unforgettable. Era tão perfeito que poderia jurar-se que Nat estava entre nós, novamente. Não sei se Natalie foi pioneira nesse tipo de “truque”. O certo é que ficou banal, tal o número de gente que veio do além e sem direito de levar seus royalties para o céu ou para o inferno.

Infelizmente, Nat está morto desde 1959, em consequência dos três maços de cigarro que fumava diariamente. Era um cara especial. Grande pianista, influenciou muitos, como Oscar Peterson, com seu trio pioneiro composto de piano, guitarra e contrabaixo. Revolucionário, em sua maestria ao piano, tornou-se popular – e bote popular nisso – como cantor com sua voz de barítono cantando baladas como Mona Lisa e Nature Boy. Tão popular que foi o primeiro negro a ter um programa só seu na NBC. Mesmo fazendo sucesso, durou apenas uma ano por falta de patrocinadores. Na América racista, ninguém tinha coragem de anunciar seus produtos no The Nat King Cole Show. Era um boa praça carismático, sempre a sorrir, mas sofreu na pele o fato de ser preto. Campeão de vendas, ganhando muito dinheiro, comprou uma casa em Los Angeles. A vizinhança não gostou nenhum pouco e a Ku Klu Klan, muito menos: fincaram uma cruz em chamas na frente dela.

É sempre difícil ser filho de gênios. Ou você é um perfeito idiota que não vai importar-se com isso, ou é aquela velha questão do desejo de ser melhor que a geração anterior. Não deve ter sido fácil para Natalie Cole. Nove dias depois de completar 15 anos, o pai morreu. Abusou no consumo de cocaína, heroína e alcool. A consequência, descobriu em 2008: tem hepatite C.

De hoje em dia há uma profusão de atores que são filhos de atores, cantores filhos de cantores, jogadores filhos de jogadores, mas experimente contar quantos conseguem ser melhor que seus progenitores. Mercer herdou a orquestra do pai Duke Ellington e não conseguiu nem ao menos ser uma sombra. E Frank Sinatra Jr? E Nancy? Bom, Nancy até conseguiu certa projeção. E o filho de Pelé? O vício de Natalie Cole bem que pode ter sido pelo peso imenso de ter o pai que teve o “King” acrescentado ao nome, tal a sua genialidade. Mas ela tinha voz e capacidade e perseverou. Sem o peso do nome, porventura tivesse sido mais fácil.

A bela negra de olhos cor de mel, aos trancos e barrancos, erigiu uma carreira respeitável e hoje é contratada da Verve Records, uma das majors especializadas em jazz. Está na estrada desde 1975 e tem mais de vinte discos lançados. O último chama-se Natalie en Español. Um disco em “espanhol”, com certeza. Fãs de King Cole devem conhecer Cole Español (1956), A Mis Amigos (1959) e More Cole Español (1962). No primeiro tem até música brasileira: Suas Mãos, de Antonio Maria, Caboclo do Rio (a única interpretação que eu conheço é a de Inesita Barroso) e Não Tenho Lágrimas, cantadas em nossa língua. E mais: Nadie Me Ama. Advinhe de quem é? É aquela mesma, o Ninguém Me Ama, de Antonio Maria, “en español”. Ouça.




As músicas hispânicas mais conhecidas são as do gênero que, antigamente, chamavam de “mela cueca”, o bolero. O nome vem do tempo em que se dançava coladinho, corpos se tocando, sussurros nos ouvidos. Era a chance dos casais ficarem se roçando longe das vistas dos pais. Nos três álbuns de King Cole, temos clássicos desse tipo, como Perfídia, Noche de Ronda, A Media Luz e Solamente Una Vez.

Natalie Cole se acerca de alguns convidados, como Andrea Bocelli (esse não podia faltar; deve ser campeão de parcerias) e Juan Luis Guerra, e instrumentistas como os trumpetistas Arturo Sandoval e Chris Botti, e claro, seu pai. Ouça Acércate Más, com os dois.




A parte boa do álbum de Natalie são algumas músicas mais recentes, como Oye Como Va e Yo Lo Amo. Esta é a conhecida And I Love Her, de Lennon e McCartney. Uma curiosidade é uma versão de Manhã de Carnaval, de Luiz Bonfá, em espanhol.

Confira.

Nota: todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.


Ouça Besame Mucho, com Andrea Bocelli.




Ouça o medley de Voy Apagar la Luz e Contigo Aprendi.




Ouça a bela El Dia en Que Me Quieras.




terça-feira, 13 de novembro de 2012

Chá para um ou para dois? O de Robert Plant é para um

Doris Day e Robert Plant
Tea for Two, composta em 1925, é do musical No, No Nanette. É de Vincent Youmans, com letra de Irving Caesar. É um dos grandes standards do cancioneiro americano. Foi gravada e tocada por meio mundo. Funciona bem cantada e, tocada apenas, também. Não foi Nick Hornby, em Alta Fidelidade, quem inventou a mania de listas dos melhores – as dez mais, os livros que se deve ler antes de morrer, etc. –, mas dali em diante, o inglês virou referência à mania, tão comum, de fazermos listas. No meu levantamento, tenho 37 interpretações diferentes de Tea for Two, o que comprova a popularidade desse tema de quase 100 anos de idade. Gosto, particularmente, dessa música no piano. Elegeria as de Nat “King” Cole, Art Tatum e de Bud Powell as melhores nesse instrumento. Existe uma no saxofone, excepcional, a de Lester Young, em The President Plays (Verve). “Presidente” era o apelido de Young. Com letras, pode-se destacar as de Anita O’Day, Bobby Short, Ella Fitzgerald, Lee Wiley, Jane Monheit e, é claro, a de Doris Day.

A letra de Caesar é a narração de um momento ideal do amor, o chá para dois e “nós dois com chá”. Refere-se àquelas horas em que se vive o amor sem que os amigos ou um parente possam estragá-lo, sem um telefone a atrapalhar o idílio. O chá para dois é o momento só dos dois.

O chá para uma pessoa, ao contrário, celebra a solidão, o tédio, distância e saudade: “Como é que vinte e quatro horas,/ baby, às vezes, parecem dias/ Oh, vinte e quatro horas/ Baby, às vezes, parecem dias/ Quando um minuto parece durar toda a vida.”

Tea for One é a última faixa de Presence, o sétimo álbum do Led Zeppelin. Como a banda andou “falada” nos últimos dias por conta do lançamento do DVD e exibição nos cinemas de Celebration Day, o último show deles, e Robert Plant se apresentou no Brasil, fiquei ouvindo o Zeppelin nesses dias em que andei aprisionado no trânsito paulistano. Quando ouvi esse blues, lembrei-me que tinha esquecido dele; e é tão bom quanto Since I’ve Been Loving You.

Agora, é ouvir (e ver) Tea for One.




E, que tal matar as saudades do Led Zeppelin ouvindo Since I’ve Been Loving You?




Doris Day. Em Saudades do Século 20 (Companhia das Letras, 1994), de Ruy Castro, Doris é um dos treze gênios do século passado. Não é pouco. Ouça Tea for Two, por Doris. Outro dia, “mataram” o arquiteto Oscar Niemeyer (sábado, 10 denovembro). Doris (nasceu em 1922) está vivinha da silva.



Nat “King” Cole interpreta Tea for Two. Essa é daquelas que não se pode perder. Maravilha pura.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Jesse Belvin, aquele teria sido. Ou, não.

Mr. Belvin
Até o mês passado, não conhecia Jesse Belvin. Disse que voltaria a citar Jorge Cravo, o Cravinho (leia http://bit.ly/SOPR5Q), colecionador de discos e autor de O Caçador das Bolachas Perdidas (Editora Record, 2002). O apreciador de um gênero tem suas preferências específicas. Um fanático de rock pode adorar os Beatles e odiar o punk, por exemplo. Percebe-se, por meio do livro, que Cravinho tem predileção por cantores e cantoras. Nas páginas finais, em “Grandes, grandes discos – um guia para colecionadores”, escreve sobre alguns e, como ninguém é obrigado a conhecer tudo, fiquei curioso sobre alguns sobre quem nunca tinha ouvido falar. O bom dessa lista são as referências a intérpretes que fogem dos consagrados como Frank Sinatra, Billie Holiday e companhia.

Um, em especial, me deixou na maior curiosidade: Jesse Belvin; principalmente, em razão do subtítulo: “O disco perfeito e único”. E começa dizendo que “não são muitos discos em que todas as faixas são imperdíveis. É raro que o repertório, os arranjos e o cantor se combinem tão bem que, para o ouvinte, torna-se quase impossível preferir esta ou aquela faixa (o jeito é ouvir o disco de cabo a rabo, sem parar). Um dia, encontraram a fórmula mágica, envolvendo o cantor Jesse Belvin, o arranjador e regente Marty Paich e o produtor Dick Pierce.” Bom, depois do que o Cravinho escreveu, faça o que eu fiz: entrei na Apple Store e adquiri por US 9.99 Mr. Easy – Jesse Belvin, o único disponível na loja..

Mas, se o cara era tão bom, por que apenas esse disco? A resposta é que, algumas semanas depois de ter gravado esse disco, morreu em um acidente de carro, em fevereiro de 1960. Lembra-se da sina dos 27 anos? Jimi Hendrix, Amy Winehouse, Jim Morrison, Kurt Cobain e Janis Joplin são os que morreram com essa idade. Antes, bem antes deles, morreu o bluesman Robert Johnson, num distante ano de 1938. Belvin tinha 27, também. Não é sina exclusiva de roqueiros.

O autor do texto da contracapa (antigamente, não podia faltar aquele longo texto em letras minúsculas de algum crítico ou conhecedor) “especula a que ponto chegaria a carreira de Jesse Belvin se não tivesse morrido tão cedo”. Cravinho arremata: “Não tenho bola de cristal, mas, também especulando, acho que, pelo demonstrado nesse disco, ele teria easily (botar em itálico) uma brilhante carreira. E arrisco um palpite: como cantor, Jesse Belvin talvez se tornasse um novo Nat ‘King’ Cole.”

Depois disso, você ficou tão curioso quanto eu? Pois aqui está uma pequena amostra daquele que poderia ter sido, ou não. Ouça Blues in the Night. O arranjo bacana é de Marty Paich.




A face pop de Belvin, em Guess Who, em uma apresentação disponível no YouTube. Muito bom. E a música é belíssima.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Gregory Porter não é mais uma promessa

Gregory, quando criança, costumava ouvir Nat “King” Cole, cantor preferido de sua mãe. Bom começo! E, tornou-se seu cantor preferido também. “King” Cole permeou suas escolhas, daí em diante. Gregory, um dia, descobriu-se cantor. Ou descobriram?

Hoje, Porter tem uma voz potente, aquela voz tão característica dos negros, um registro muito especial que parece ser destinado apenas aos dessa raça, como uma impressão digital. E, não adianta dizer que as vozes de Joss Stone, Amy Winehouse ou Janis Joplin são “negras”. É algo próximo, no máximo, o que não depõe contra o enorme talento com que as duas últimas foram abençoadas..

E, pelos dois discos que lançou até agora – Water e Be Good –, Gregory Porter é o próximo “next big thing” entre os cantores. Não sei se irá destronar o longo reinado de Kurt Elling, mas o cara é muito bom.

Como Porter é negro, as associações naturais serão com as vozes de Joe Williams, registro de barítono poderoso, com “King” Cole, seu ídolo desde criancinha, ou com a de Donny Hathaway, pelo seu lado “soul” e modo interpretativo. Mas Porter tem um registro próprio. Parece até que nasceu pronto.

Be Good, seu mais recente, foi considerado o quarto melhor disco do ano, na votação dos críticos para a revista Downbeat. Bom que tenha um disco não instrumental entre os melhores. (sobre os melhores pela Downbeat, leia: http://bit.ly/RG8H14, bit.ly/Quyty2).


Water, de 2010, foi um grande disco de estreia. Não poderia deixar de faltar alguns standards servindo de showcase dos seus dotes vocais. São elas Skylark e But Beautiful. Na primeira é acompanhado por Chip Crawford. O piano é discreto e realça sua interpretação contida e segura. Em But Beautiful, Porter estraçalha. É uma revelação o surgimento de um cantor que demonstra essa segurança logo no primeiro disco. E mostra que também é bom compositor. De sua lavra ouvimos baladas belas como Lonely One, em belíssimo arranjo de Crawford, e Water, que evoca esse elemento com seu ritmo flutuante em desenhos, ora evocativos, ora dramáticos do piano, único instrumento a acompanhá-lo. O disco fecha com um Felling Good cantado à capella. Maravilhoso.

Ouça Lonely One.



Bom, comecei pelo fim. Termina com Feeling Good e começa com Illusion, composição dele. É um início apenas com a voz e o piano. A segunda – Pretty – é mais jazz. Belo arranjo com naipe de sopros. Magic Cup é uma faixa em que há maior espaço de improvisos de saxofone e trumpete. 1960 What? é a faixa política, que segundo a publicação All About Jazz, foi inspirada em experiências suas e de seu amigo e mentor Kamau Kenyatta.

Um dos grandes méritos do segundo CD – e do primeiro também – é a qualidade dos arranjos. Na primeira audição, não “pega”. Quanto mais se ouve, é possível perceber como Porter é bom cantor e, em um repertório em que a maioria das canções é de autoria própria, é preciso ir se acostumando com elas. Se fossem, como têm sido os álbuns de cantores do jazz, cheio de standards, acostumados que estamos com temas tão repetidos, tendemos a compará-los tendo como referência outros cantores. Ao ouvirmos All the Way de um novo cantor, certamente, temos a de Frank Sinatra para nos balizar, ou, se alguém canta What a Wonderful World, impossível não ter como referência Louis Armstrong. Quando a canção é desconhecida ou nova é impossível uma empatia imediata; fazemos uma avaliação dupla, primeiro com a qualidade dela como composição e depois, nos atemos à interpretação.

Para que, aos poucos, nos acostumemos, as duas primeiras canções são baladas melancólicas com belos solos de sax soprano e naipes de sopros na exata medida. On My Way to Harlem, a seguir, é uma explosão rítmica no piano de Chip Crawford e sax alto de Yosuke Sato, eletra que alude ao Harlem, às suas raízes (“Você não pode me manter longe de onde eu nasci”, ou “fui batizado pela corneta de meu pai”), em referências como à Duke Ellington (“que não mora mais por aqui/ ele se mudou daqui”), Marvin Gaye (“Eu sei que Marvin Gaye costumava cantar What’s Goin’ on por aqui), ou ao poeta Langston Hughes, rimado com a palavra “blues”, que se mudou de lá.

Veja Porter em On My Way to Harlem.




Veja também o vídeo oficial de Be Good (A Lion”s Song).




Veja Porter a cantar Painted on Canvas, deste CD.




Tudo se acalma com Real Good Hands, The Way You Want to Live, When Did You Learn, Imitation of Life (só ele e Chip ao piano, em uma das poucas composições que não são de Porter), Mother’s Song (belo arranjo!), e Our Love. A temperatura volta a subir com Bling Bling. É um número com aquela pulsação intensa, puro jazz, na batida e nos solos do sax alto em alta voltagem. É música para se levantar da cadeira. Worksong, de Nat Adderley, é maravilhosa, talvez a melhor do CD. É tudo: dramática, enérgica, riffs de sopros marcando o ritmo e Porter, simplesmente perfeito. E para fechar, Gregory Porter canta a capella (em seu álbum de estréia fez o mesmo) God Bless the Child. Esta é para cair da cadeira.

É o que você ouve aqui, em uma versão remix.



quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

The Boulevard of Broken Dreams

Esqueçam a versão da banda de rock Green Day de Boulevard of Broken Dreams. Por melhor que seja, nunca será tão boa quanto é a que foi composta em 1934 por Al Dubin (letras) e Harry Warren (música), para o filme Moulin Rouge, dirigido por Sidney Lanfield. Quem se apropriou do nome foram os do Green Day.

A música tem um sabor latino, algo entre um tango e um bolero, e, contraditoriamente, possui uma letra amarga (“Eu ando pela rua da amargura/ O bulevar dos sonhos desfeitos/ Onde gigolô e gigolete/ Podem levar um beijo sem arrependimentos/ E assim esquecerem dos seus sonhos desfeitos”). Não existem tantos registros dessa música, curiosamente.

Bennett, bem mais jovem; o nariz continua igual
A minha preferida é a de Tony Bennett. Bem, mas qual? Tony deve tê-la gravado umas três vezes. A primeira, de 1950, segue o ritmo da original (está disponibilizado abaixo). A de que gosto mesmo, é a que está no álbum que gravou com o pianista Ralph Sharon – Astoria: Portrait of an Artist (1990). Não é “esfuziante”, é mais uma balada, mais de acordo com a letra.

No disco All for You (1996), tributo de Diana Krall ao trio de Nat King Cole, está o segundo Boulevard, na minha classificação, friso (gosto não se discute, apenas se lamenta: não é o que dizem?). O que está disponibilizado abaixo é um pouco diferente da que consta no disco, mas é belíssima também.

Outra interpretação que vale a pena – até porque combina com ela –, é a de Marianne Faithfull. A de King Cole segue um pouco os tempos em que foi gravada: é “latinizada”, como a original. Como se vê pelo ano em que foi composta Boulevard, vê-se que a influência dos ritmos latinos e caribenhos é anterior à Segunda Guerra. Basta lembrarmos de Carmen Miranda.

Para complementar, Amy Winehouse andou cantando essa música nas apresentações que fez no Brasil; e não é a do Green Day. Ela tem bom gosto.


Constance Bennett em Moulin Rouge.




Com Nat King Cole:




Diana Krall canta. Preste atenção no guitarrista Russell Malone, antecessor de Anthony Wilson, e também no “caco” de The Peacocks, de Jimmie Rowles, no solo que faz ao piano.




Marianne Faithfull canta.




Tony Bennettt