quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Adoro histórias de amor

Higgins, um craque no piano trio
Em O Paradoxo do Amor – Ensaio sobre as metamorfoses da experiência amorosa (Difel, 2011), Pascal Bruckner escreve:

“Apaixonar-se é dar relevo às coisas, encarnar-se de novo na densidade do mundo e descobri-lo mais rico, mais consistente do que suspeitávamos. O amor nos resgata do pecado de existir: quando fracassa, ele nos oprime com a gratuidade desta vida. Sozinho eu me sinto ao mesmo tempo vazio e saturado: se sou apenas eu, eu sou demais. No momento abominável do rompimento, esse eu que desejara botar entre parênteses volta para mim como bumerangue, como um monte de preocupações inúteis. Eis-me outra vez carregando um peso morto: levantar-me, lavar-me, alimentar-me, suportar a insanidade de meu monólogo interior, matar as horas, errar como uma alma penada. Esse vazio é um transbordamento. […] O segredo desse eu, porém, é que ele é inteiramente forjado pelo outro, pelo estado de exaltação em que ele nos põe: prazer inaudito de ser amado, ou seja, salvo enquanto vivo. O amor tem um poder germinativo, faz eclodir algo que não existia senão em estado latente; ele nos libera do ego obsessivo e pobre que constitui nosso fundo pessoal. Ele nos devolve um outro aplacado, feliz, que nos torna fortes, capazes de grandes ações.” (pág. 82)

Carlos Amarán, autor de Historia de Un Amor, canta o abandono e a importância do ser amado, da falta que ele faz, o amado como a “luz da vida” e o “escuro” quando ele se vai, e o fatalismo do “sofrer”: “Por que Deus me fez te querer/ Para me fazer sofrer mais…/ Sempre foste a razão do meu existir/ […] É uma história de amor/ Como nenhuma igual/ Que me fez compreender/ Todo o bem todo o mal/ Que deu luz à minha vida? apagando-se depois/ Ai!, que vida tão escura/ Coração/ Sem teu amor não viverei!”

Dorival Caymmi, em Samba da Minha Terra, canta que “quem não gosta de samba bom sujeito não é/ é ruim da cabeça ou doente do pé.” Acho que o mesmo se aplica ao bolero: “quem não gosta de bolero é doente do pé”. O samba-canção é uma “conformação” do samba com o bolero. Basta ouvir Risque, de Ary Barroso.

O bolero foi o grande gênero latino-americano do século passado. E não poderia deixar de ser muito diferente no Brasil. O “dois pra lá dois pra cá” foi o prelúdio de muitos namoros e casamentos. Em tempos de mais recato, dois corpos se juntavam e se tocavam ao som de Besame Mucho ou Solamente Una Vez. Nesses momentos, uma perna furtiva se encaixava entre as pernas da parceira. Bom, devia ser muito bom e muito mais sensual, naquele clima de romance em que o sexo ficava sublimado.

O gênero bolero vendeu muito e serviu até como designação de vestimenta feminina, o bolerinho, aquela peça curta que cobre os ombros das moçoilas, senhoras mais recatadas e outras nem tanto. O bolero foi a festa da gravadora EMI, dona do melhor plantel de cantores e cantoras. O mundo mudou e arroubos de romantismo passaram a ser considerados bregas. Mas o amor existe e chega sem avisar. É um gênero do passado, mas é sempre revisitado. É o que bons músicos de jazz fazem. Músicos como o catalão Tete Montoliu (Tete Montoliú interpreta Boleros, Melopea Discos), os americanos Eddie Higgins (Amor, Venus Records) e Steve Kuhn (Quiereme Mucho, Venus Records), e o italiano Renato Sellani (Latin Album, Philology) gravaram seus discos elegendo o bolero como gênero. E, não sei por que, Historia de Un Amor tem tocado no meu aparelho de mp3. Está certo que bolero não combina muito com essa coisa chamada iPod.

Vamos ouvir esse clássico cantado por Eydie Gormé com o Trio Los Panchos.



Vamos ouvir também nas interpretações de Eddie Higgins e depois a de Renato Sellani.

A de Higgins.



A de Sellani.


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terça-feira, 29 de janeiro de 2013

As minhas duas preferidas de Paul McCartney depois do fim dos Beatles

Paul por Linda McCartney
Quando assisti ao show de Paul McCartney no Engenhão, Rio de Janeiro, em maio de 2011, percebi a minha ignorância em relação ao seu repertório pós Beatles: gente de menos de 20 anos cantava junto canções que eu mal conhecia. Assumindo minha ignorância musical digo que, das que conheço, as duas que mais gosto são Ram On e Junk. Num esforço “auditivo” ouvi três horas de Paul na coletânea Wingspan e All the Best! Vou contrariar muita gente, mas considero-as bem inferiores em relação às que assinava com John Lennon. Gosto de Ram (1971), Wild Life (1971), o primeiro Wings, e Tug of War (1982). Gosto também de Unplugged (The Official Bootleg), mas por razões bem específicas.

Junk é quase uma vinheta: tem apenas 1 minuto e 55 segundos. Foi lançada no primeiro disco depois da separação dos Beatles, em 1970. Ram on é do segundo, o que me faz crer – na minha opinião, repito – que piorou depois disso.

Ouça Ram On.




Ouça o Junk original, com Paul.




Existem vários cover de Junk. A de John Denver, lançada em 1971 deve ter sido a primeira e é muito boa. Ouça.




As que tenho em meus arquivos também são boas. Uma delas é a da brasileira BluBell (Bel Garcia, assinava BlueBell e depois tirou o “e”), acompanhada por ukulele – presumo –, instrumento que Paul gosta de tocar de vez em quando.




Mais uma: cantada por Kim Liggett, está no disco Easy to Remember (2004), do clarinetista Ken Peplowski.




Mas a melhor é a da cantora lírica Anne Sofie von Otter em disco com Elvis Costello – For the Stars (2004) –, lançado pela Deutsche Grammophon. Juntaram com Broken Bycicles, de Tom Waits. Ficou genial.



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