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quinta-feira, 31 de julho de 2014

Quatuor Ebène, Stacey Kent: o molho que talhou

Antes de entrar na FAU cursei seis meses na Faculdade de Arquitetura de Santos. Conheci por meio de outro amigo, no vestibular, o Evaristo, ou melhor, o Tinho, como era chamado pelos amigos. Não entrei na USP e em Santos entrei em 20º lugar, por pura sorte. O Tinho também havia sido aprovado lá. Propôs-me dividir um apartamento minúsculo que pertencia a uma tia. A única despesa que teríamos era o condomínio, rachado em dois. Aceitei prontamente. Óbvio.

Nos dias de hoje, são oferecidos apartamentos com menos de 40 metros quadrados por 300, 400 mil reais. Há 30 anos era moradia de pobre, favelados ou solteiros de poucas posses. Esses cubículos eram chamados de quitinetes, uma aportuguesada da palavra “kitchenette”. Você notou a palavra “kitchen”? Pois então, quitinetes eram apartamentos quarto e sala, banheiro e cozinha, evidentemente. O tal “quarto e sala” significava que a sala fazia as vezes do quarto. De dia, o sofá era sofá; à noite, era cama. Como éramos em dois, eu dormia no chão sobre um acolchoado que, de dia, ficava encostado na parede. Nessa precariedade, cheios daquela generosidade juvenil, aceitamos o João Fernando, calouro como nós na faculdade, que não tinha onde ficar, como hóspede temporário. Lá veio o João com a sua mochila e uma prancha de surfe que tomou metade do espaço da cozinha.

Ele ficou quase dois meses lá. Com mais posses que nós, estava sem lugar para morar, mas seu pai já estava negociando a compra de um apartamento em São Vicente, cidade colada a Santos. Antes de mudar-se, disse que ia preparar um jantar em agradecimento e gratidão por nossa hospitalidade. Disse-nos que seria por sua conta. Não teríamos de fazer nada. Cuidaria de tudo, inclusive do preparo. Tínhamos voltado da faculdade e vimos o João Fernando chegar com dois sacos enormes de supermercado. Antigamente, não existiam esses sacos plásticos leitosos. Usavam-se sacos de papel kraft. Não sei por que, nessa discussão ambiental sobre os males dos plásticos, não resgatam o papel.

Fernando, como o chamávamos, foi direto para a cozinha. Estávamos autorizados a entrar quando a comida estivesse pronta. O “banquete” fora preparado em um panelão de alumínio. Pronto, ao olharmos para aquilo, ficamos um tanto desconcertados. Naquele caldo de cor indefinida boiavam nacos de palmito, metades de pêssego em calda, azeitonas pretas, alfaces, pedaços de chocolate e mais algumas coisas das quais não irei lembrar agora. Agimos como pessoas bem educadas. Aquilo era intragável. Em pouco tempo, aquilo começou a exalar um cheiro estranho. A única coisa comestível eram os pedaços de chocolate, que preservaram o sabor original. O resto, imagine uma folha de alface com gosto de calda da azeitona, do palmito e dos pêssegos juntos.

O Fernando ficou chateadíssimo, a ponto de termos que consolá-lo. Ele tentava explicar. Foi ao mercado e comprou tudo o que mais gostava. Na sua cabeça, juntá-los resultaria em uma comida deliciosa. Gostava de pêssego em calda, jogou na panela os pêssegos… e a calda; gostava de azeitona, jogou-as com o caldo salgado. Junte-se folhas de alface, pedaços de algumas hortaliças e ainda chocolate. Conseguiu imaginar? Não, né? Era tão horrível que jogamos na privada. O Fernando era a expressão da pureza. Aquele jantar era a expressão de suas boas intenções. Parecia viver em outro mundo. Naquele tempo a onda da “geração saúde” ainda não havia chegado. Nossos colegas fumavam maconha de manhã, de tarde e de noite, fora outras drogas mais pesadas que circulavam bastante pela faculdade. Mas o Fernando já era “geração saúde”. Era engraçado vê-lo, enquanto muitos tomavam bebidas alcoólicas nos intervalos no bar da frente, vertendo um litro inteiro de leite que, à época, eram vendidos em embalagens de plástico mole. E, também, era o único surfista que conhecíamos que não sabia nadar.

Stacey Kent e o Quatuor Ebène
Reunir duas coisas boas nem sempre resulta em algo melhor ainda. Lembrei-me do jantar do Fernando ao ouvir Brazil, álbum do Quatuor Ébène com a participação de Stacey Kent, lançado em maio. A Erato, conhecida gravadora francesa especializada em música erudita, assim como a Deutsche Grammophon e outras grandes gravadoras têm investido em registros crossover como uma maneira de ampliar seu espectro de vendas. Brasil pode ser considerado um crossover world music. Meses antes deste, a Erato lançara um álbum interessantíssimo intitulado Rio Paris, com um encontro inusitado de Natalie Dessay, Agnès Jaoui, Liat Cohen e Helena Noguerra (clique aqui). A expectativa de um álbum reunindo uma ótima cantora e um quarteto de cordas fantástico era de que o resultado ficasse ótimo.

Não é a primeira aventura do Quatuor Ébène fora da música erudita. Formada por jovens músicos, lançaram em 2010, Fiction, onde misturam jazz (Lilac Wine, conhecida na versão de Nina Simone, em Fiction, belamente interpretada pela atriz Fanny Ardant, e Unriquited, de Brad Mehldau, Smile, de Charles Chaplin, Footprints, de Wayne Shorter, Nature Boy, de eden ahbez, e uma releitura de Over the Rainbow), temas mais recentes como Come Together, de Lennon e McCartney, Streets of Philadelphia, de Bruce Springsteen, e Calling You, música tema de Bagdah Cafe, e Corcovado, de Antônio Carlos Jobim.

Capa de Brazil
Imagino que o produtor, ao conceber o disco, pensou em intérpretes que tivessem ligação com o Brasil. Os dois “estrangeiros brasileiros” são Stacey Kent e Bernard Lavilliers. Stacey é bem conhecida entre nós e até ela, provavelmente, perdeu a conta do número de vezes que esteve entre nós. Bernard, imagino, poucos o conhecem. Eu, pelo menos, nunca tinha ouvido ele cantando até então. Minha amiga Vania N, que morou por mais de 20 anos em Paris, disse-me que é uma espécie de Roberto Carlos francês.

Bernard Lavilliers tem uma biografia interessante. O pai fez parte da Resistência na Segunda Guerra Mundial e foi trabalhar em uma indústria de armas. Com 15 anos, foi parar na Febem francesa. Anos depois, Bernard afirmaria: “Não sei se era gângster, boxeur ou um poeta.” Com 18 anos, filiou-se ao PC francês. Com 20 anos, mudou-se para o Brasil. Ficou um ano. Essa é a ligação inicial com o Brasil. Quando voltou, teve problemas com a justiça novamente. Livre, começou a cantar em nightclubs, e em 1968 lançou o primeiro disco. Bom comuna, nos eventos de maio, cantou em fábricas.

O espírito aventureiro e viajante voltou a se manifestar. Comprou um barco e passou um tempão viajando por terras americanas. Passou por Nova York, Jamaica e Brasil, novamente. Quando voltou, lançou um CD com boa acolhida e boas vendas: Ó Gringo. Uma das canções foi inspirada na figura do cangaceiro Lampião. Em sua saga exploradora foi parar no Líbano, Jamaica, Nicarágua, em países africanos e asiáticos.

Pois Ó Gringo é a faixa que abre Brazil. Encantado com a vida aventureira de Lavilliers, a ligação com o PC francês e a ligação estreita com o grande Léo Ferré, minhas boas expectativas se frustram um pouco. Ó Gringo é algo como uma “bossa nova do branco doido”. Sem desconsiderar as boas intenções do francês, há algo da visão “turística” do Primeiro Mundo sobre o Terceiro – ah, somos Segundo ou Terceiro? – em suas notas no encarte: “Poderia encontrá-los [o Quatuor Ébène] em Manaus, nas profundezas da selva amazônica tocando Mozart em um teatro cópia do Opera de Paris, em enormes cipós e trepadeiras. Poderíamos estar embriagados pela caipirinha em Salvador ou no Rio, enquanto ficávamos a admirar as vistas e os sons do carnaval tocando riffs sobre hits de Jorge Ben, rodeados de mulheres nuas.” Não importa se ele morou no Brasil ou tenha estado aqui inúmeras vezes, mas, convenhamos, é um olhar folclórico sobre nós. O triste é de que deve ser isso mesmo o que os estrangeiros interpretam como sendo o Brasil.

Com Stacey é diferente. Sua aproximação com o Brasil, mais especificamente com a língua portuguesa, é menos folclórica. São provas belíssimas interpretações cantadas em português e até composições com letras do poeta português António Ladeira e música de Jim Tomlinson. Não é mera coincidência que os melhores momentos do álbum sejam os que contam com participação da americana sediada na Grã-Bretanha. Não é a primeira vez que grava So Nice e Águas de Março. Na composição de Jobim, tem a voz do compositor de So Nice. Stacey conheceu Valle e Não é a primeira vez que grava o clássico Smile, de Charlie Chaplin, muito menos The Ice Hotel, original de Tomlinson com letra do romancista Kazuo Ishiguro.

Um dos pontos altos de Brazil é Bebê, composição de Hermeto Pascoal. I Can’t Help It, original de Stevie Wonder, Fragile (Sting) e Ana Maria (Wayne Shorter) são registros medianos. Outro destaque é Libertango, interpretado pelo Quarteto. Muito bom mesmo. Os pontos baixos, na minha opinião, são Guitar Song, Salomé, ambas – coincidência? – de Lavilliers, e Brazil (Aquarela do Brasil), de Ary Barroso, em uma interpretação estilo “samba do crioulo branco”, bem chata, triunfante, um tanto pretensiosa em fundir climas diferentes em pouco mais de sete minutos.

So Nice é um dos destaques do CD. Seu autor, Marcos Valle participa nos vocais em Águas de Março.




Veja o ensaio do Quarteto e Kent de Fragile, de Sting.




Esta não está em Brazil. É a participação de Stacey e Jim Tomlinson no saxofone tenor em Fiction (Erato, 2010). Veja-os em Corcovado.


terça-feira, 30 de julho de 2013

Prato cheio pra quem gostava do Mahavishnu Orchestra

Os membros do radio.string.quartet.vienna
Quartetos de cordas estão associados à música erudita. É uma das formações mais tradicionais da música de câmara. Normalmente são dois violinos, uma viola e um violoncelo. Se a música é uma linguagem aberta, que conversa com seus múltiplos gêneros, natural que surgissem formações tocando música popular com instrumentos da seara erudita. Violinos não são tão estranhos assim. Stephane Grapelli, no jazz, foi o mais conhecido e o trompetista Ray Nance tocava violino e cantava na orquestra de Duke Ellington. Nos dias de hoje, dois violinistas se destacam: Mark Feldman e Regina Carter.

O primeiro quarteto a ficar conhecido interpretando o repertório popular foi o Turtle Island String Quartet, formado em 1985. Tocaram com músicos do jazz e “arranjaram” John Coltrane, Robert Johnson, Jimi Hendrix e Dave Brubeck, dentre outros. Continuam na ativa, mas não se ouve falar deles como antigamente..

Mais recentemente, dois quartetos de cordas se destacam: o Quatuor Ebène e o radio.string.quartet.vienna. O primeiro, formado em 1999, gravou várias obras do repertório camerístico erudito de Fauré, Brahms, Debussy e Mozart pelo selo Virgin Classics. Lançaram um CD – Fiction (2010) – contendo composições da música popular e do jazz.

O radio.string.quartet.vienna grava pelo selo alemão ACT Music. Estrearam com Celebrating The Mahavishnu Orchestra, em 2007. Foi um sucesso. Depois desse, com Klaus Paier, lançaram Radiotree. Em 2011 saiu Radiodream. Desta vez não se restringem a um compositor ou banda: várias são de autoria de Bernie Mallinger, primeiro violino do quarteto, e da violoncelista Asja Valčić, mescladas com standards como Strange Fruit, I Loves You Porgy e Moon River e temas contemporâneos, caso de Nice Dream da banda inglesa Radiohead. Agora em 2013 foi lançado Posting Joe. Celebrating Weather Report. A homenagem a Joe Zawinul é justa: nasceu em Viena.

Não tanto quanto a astro pop David Bowie, John McLaughlin é um “mutante”. Seu primeiro álbum solo foi Extrapolation (1969). Os músicos, como ele, eram todos ingleses: John Surman, Tony Oxley e Brian Odgers. Foi um início excepcional. Logo chamou a atenção do meio musical e tornou-se membro da banda Lifetime, do baterista Tony Williams. Passou a tocar com Miles Davis e participou de uma série de gravações: Jack Johnson, In a Silent Way, Get Up With It, Bitches Brew e de vários álbuns lançados posteriormente com gravações do tempo em que colaborou com o trompetista. Era, como disse uma vez, um “doidão” que vivia tropeçando em fios e cabos no palco. Ligou-se ao guru Shri Chinmoy e, não sei se parou com as drogas, mas mudou. Lançou Devotion e My Goal’s Beyond pela Douglas Records. São discos mais calmos, com toques orientais. Já bem devoto do guru, criou a Mahavishnu Orchestra e gravou também um disco com Carlos Santana, que, convertido à tal religião – ou seita – de Sri Chinmoy, acrescentou Devadip como primeiro nome. Na capa de Love Devotion Surrender vemos duas pessoas de branco com aparência serena. Não sei se Santana, que até então tinha consumido algumas toneladas de marijuana, parou momentaneamente com a droga. Não deve ter não. Seu álbum gravado com Alice Coltrane – Illuminations (1974) – é viajante. Parece uma viagem de ácido com água benta (bem sujinha) do rio Ganges.

Na onda do fusion, músicos que fizeram parte da fase elétrica de Miles Davis seguiram caminhos próprios. Chick Corea montou o Return to Forever, Herbie Hancock, os Headhunters, Joe Zawinul e Wayne Shorter o Weather Report, e McLaughlin montou a Mahavishnu Orchestra. Na primeira formação era ele nas guitarras, Jan Hammer nos teclados, Rick Laird no baixo, Jerry Goodman no violino, e Billy Cobham na bateria. Os dois primeiros álbuns são clássicos do fusion ou do jazz rock, como também era designada a música de improviso com instrumentos elétricos: The Inner Mounting Flame (Columbia, 1971), e Birds of Fire (Columbia, 1972). O terceiro, muito bom também, de uma energia tremenda, é o ao vivo Between Nothingness and Eternity, gravado no Central Park, em 1973. Foi o fim da melhor formação. O mutante John mexeu na banda dando-lhe um som mais orquestral em Apocalypse (1974), com a regência de Michael Tilson Thomas. É bom, mas sem mais a energia tensa e densa dos primeiros. John “reativou” a Mahavishnu algumas vezes em anos posteriores.

A “celebração” à música da Mahavishnu Orchestra do radio.string.quartet.vienna, sabiamente, se resumiu aos três primeiros álbuns. São leituras poderosas e captam a energia dessa banda.

Veja um registro de Meeting of the Spirits. Nessa apresentação, o trombonista Nils Landgren participa. Na gravação original é só o quarteto.




Veja apresentação da Mahavishnu Orchestra na BBC tocando Meeting of the Spirits e You Know You Know. As duas faixas são do primeiro álbum.




Veja também Dawn.




Veja o quarteto tocando Dawn em registro lançado em DVD.




Ouça Inner Mounting Flame na íntegra.




Ouça o álbum Birds of Fire.