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terça-feira, 5 de novembro de 2024

Algumas coisas sobre Agnaldo Rayol

Até os onze anos morei em Passos, MG. Na minha infância ouvia Tonico e Tinoco, Miguel Acevez Mejía, Agnaldo Timóteo e Elvis Presley, os preferidos da Elsa, que era a empregada doméstica – era assim que eram designadas naquele tempo. Meus pais vinham a São Paulo com frequência, mais meu pai que tinha que vir para comprar materiais para a sua loja de fotografia.

Nas vezes em que minha mãe o acompanhava sempre vinha com novidades fonográficas. Trazia discos (chamados compactos simples, em que cabiam apenas duas músicas, uma em cada lado dos disquinhos). Assim, meu gosto foi ficando mais sofisticado. Não sei se ela pedia recomendação nas lojas, mas trazia os sucessos da época: Wanderley Cardoso, Ronnie Von e Chico Buarque, que fez o maior sucesso em um dos primeiros festivais da TV Record com “A Banda”. Ah, não posso deixar de citar Roberto Carlos. A televisão não tinha chegado em Passos, mesmo assim comprava semanalmente a revista “Intervalo” e ficava sonhando com o dia em que me pai comprasse uma. Na revista, na parada de sucessos musicais, o destaque eram os Beatles, de quem não fazia a menor ideia do que tocavam.
Pensando na educação dos filhos, meu pai, quando terminei o primário, que eram os primeiros anos do antigo primeiro grau, com o dinheiro que ganhou, construiu um sobrado em que a loja ficava no térreo e casa no outro pavimento em um bairro da periferia de São Paulo, onde dois de seus irmãos tinham se estabelecido.
Desse início em São Paulo, em poucos anos ele montou uma loja em um lugar melhor, o Brooklin Paulista e prosperou. Comprou um terreno no bairro do Morumbi e construiu uma nova casa.
Bom comerciante, em pouco tempos “engoliu” seus dois concorrentes na região. A Foto Yokoyama virou “a loja do Brooklin”. Executivos da Volkswagen, Alpargatas, Casas Pernambucanas eram seus clientes, moradores da parte rica do bairro. Algumas figuras mais conhecidas moravam lá também e se tornaram clientes, dentre eles, Rivellino e alguns astros da música: Agnaldo Rayol, seu irmão Reynaldo Rayol, Marcos Roberto e Marcos Fridman, esse últimos que apareciam eventualmente no programa Jovem Guarda, de Roberto e Erasmo Carlos.

Um pequeno parágrafo antes de chegar ao último. Agnaldo Rayol era o representante, digamos, da música brega, comparando-o com Ronnie Von e Roberto Carlos. Fizera o maior sucesso com “A Praia”. Foi tanto que saiu até um disquinho promocional da pasta de dentes Kolynos. Aposto que quem nasceu em meados dos anos 1950 deve ter tido esse compacto simples, brinde que você ganhava ao comprar o dentifrício.

Bem, chegando onde eu queria chegar. O Agnaldo Rayol ia fazer uma viagem ao exterior e precisava tirar a foto 5x7 para o passaporte. Ligaram para a loja avisando que ele ia em um horário determinado, sabe, tipo estrela mesmo. Naquela época fãs atacavam seus ídolos, rasgavam suas roupas etc. Evidente que meu pai nos avisou e, estávamos todos lá, minha mãe e meus irmãos. Entra ele todo bem vestido, com óculos escuros maior que a cara dele, tira a foto e vai embora. Esse foi o meu único e derradeiro encontro com o Agnaldo Rayol.


Ouça “A Praia”.

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Um ilustre desconhecido de nome Chris Gillespie



Uma profissão que exige um bocado de abnegação é a de cantor ou músico de bares. Seus frequentadores normalmente vão para conversar, namorar, falar mal da vida alheia, enfim, tudo menos ouvir quem se apresenta. Bem diferente de locais como o Village Vanguard, Blue Note, em Nova York, ou o Cafe Montmartre, em Copenhagen, que, apesar de venderem bebidas e comidas, têm um público que está lá para, primordialmente, ouvir música. Em um nível intermediário, há o Café Carlyle, classificado como cabaré, onde por 36 anos, apresentou-se Bobby Short. Frequentado por celebridades, turistas e alguns verdadeiramente interessados em ouvir música, ainda é um lugar de entretenimento, antes de mais nada.

Vamos falar, no entanto, de bares ou clubes em que o frequentador vai mesmo é para beber, comer, conversar e, por último, ouvir uma música ao vivo. Artistas que apresentam-se nesses lugares são heróis.

Em hotéis como o Carlyle, existem vários espaços onde pode-se beber e encontrar-se com amigos. Um deles é o Betelmans Bar. Não tem a aura do Café, mas é possível ouvir-se uma boa música ao vivo. É nele que Chris Gillespie apresentou-se durante anos, cinco vezes por semana, em duas sessões, a primeira ao piano, e a outra, com seu trio.

Chris foi tipicamente um músico da noite, como tantos outros. É uma boa razão de ser pouco conhecido. Merecia mais que os holofotes do Betelmans, com certeza. Lançou poucos discos, um deles, ao vivo no Carlyle, de 2007, muito bom, e um dedicado à Cole Porter — “Portraits of Porter” —, de 2013.

Outro dado para que seja pouco conhecido é ter morrido relativamente jovem: 52 anos, em dezembro de 2017. Esportista, participou de quatro maratonas em Nova York, jogava tênis e esquiava. Mesmo assim, teve um rompimento da aorta e morreu em casa.

Sendo Gillespie, a primeira associação que se faz é com o famoso trumpetista Dizzy Gillespie. Nenhum parentesco. Era alemão. Sendo negro, filho de pai holandês e mãe natural da Tanzânia, e com esse sobrenome — não sei se era apenas nome artístico —, passaria por um músico americano tranquilamente. Com aprendizado formal em música, começou tocando em Munique. Em 2002, resolveu tentar a sorte em Nova York. Além de cantar e tocar piano no Betelmans. Gillespie dava aulas de música e contribuiu para várias fundações de caridade.

Ouça uma seleção de Chris Gillespie. No ao vivo é acompanhado por Keith Loftis no saxofone, Frank Tate no contrabaixo e Vito Lesczak na bateria. As primeiras três faixas são de “Live at Carlyle” e as restantes, de “Portraits of Porter”.




quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

As canções de amor de The King’s Singers

Essa história de “king” no nome de formações inglesas nos leva a pensar em alguma ligação com a realeza. Por esse motivo, podemos imaginar que The King’s Singers, The King’s Consort ou The Kings Sisters possam estar ligados à realeza britânica de algum modo, como várias marcas de whiskies e até artigos de perfumaria, como a Penhaligon’s, que trazem inscritas em seus rótulos “by appointment to”, como certificadores. Bem, pensando bem, nem sempre o Reino Unido foi governado por reis, ou seja, “kings”. Temos Elisabeth II a governá-lo, e antes dela, tivemos a rainha Vitória, portanto, o termo usado é “majesty”, que é o usado para os produtos considerados “by appointment”.

O conjunto de música de época The King’s Consort deve seu nome ao seu diretor Robert King, The King’s Singers tem esse nome devido ao tradicional King’s College, de Cambridge, fundada em 1441, formado por seus alunos, que tiveram essa ideia. The King’s Sisters, bem, esse pode ser assunto para um outro texto, foi formado por irmãs com o sobrenome King, nos Estados Unidos.

The King’s Singers foi criado em 1º de maio de 1968 por participantes do coral da escola. Nela, o repertório básico era de composições de música erudita e temas tradicionais anônimos consagrados através do tempo. O que almejam, afinal, uma formação a capella? Uma completude sem instrumentos como violinos, pianos e tudo o que forma uma orquestra. Essa é a sua originalidade e o seu encanto. Ainda mais, como eles, formado exclusivamente por homens. As vozes femininas são supridas pelos contra-tenores, uma tradição que vem da Idade Média, quando era vedada às mulheres a participação em serviços religiosos.

A mesma formação – dois contra tenores, um tenor, dois barítonos e um baixo – é mantida até agora. Com mais 50 anos, não sobrou nenhum membro original, mas o conceito se mantém. Com mais de 60 álbuns lançados, o repertório abrange desde temas eruditos antigos (Gesualdo, Tallis, Byrd, Purcell, etc.), atuais, com obras especialmente compostas (Peter Maxwell Davis, John Taverner, Georg Ligeti, etc.), e até composições contemporâneas populares.

Segundo a Signum, gravadora de “Love Songs”, recém lançado agora em fevereiro, coincide com o Valentine’s Day, que comemora lá fora o Dia dos Namorados. O nosso é em data diferente: 12 de junho. As canções abrangem do repertório pop aos temas tradicionais, de autores anônimos. É tão abrangente que, dentre essas, há um inglês, um escocês e um terceiro, coreano. Temos clássicos do cancioneiro americano, como “It’s a New World”, de Harold Arlen e Ira Gershwin, “I’ve Got the World on a String, de Harold Arlen e Ted Koehler, “Bewitched, Bothered and Bewildered, de Richard Rodgers e Lorens Hart, “Love Is Here to Stay”, de George e Ira Gershwin, “I Won’t Dance”, de Jerome Kern, Dorothy Fields e Jimmy McHugh, “At Last”, de Mack Gordon e Harry Warren, e “When I Fall in Love”, de Victor Young e Edward Heyman.Não incluíram a mais óbvia: “My Funny Valentine”. Outro clássico mundial é “La mer”, de Charles Trenet, aqui cantada na sua versão em inglês – “Beyond the Sea” –, de Jack Lawrence. Tem uma outra francesa: “Quand tu dors près de moi”, de George Auric. Quem gosta de Charles Aznavour e Yves Montand a conhece. É um dos destaques de “Love Dance”, com belo arranjo de Gordon Langford.

Ouça.




As interpretações são de alto nível, tudo a capella, um gênero que exige cantores muito afinados. São excelentes nas canções citadas acima, porém, são surpreendentes no repertório mais pop. Dois são de Paul Simon – “Some Folks’ Lives Roll Easy” e “April Come She Will” –, um de Stephen Stills – “Helpless Hoping” – e um de John Legend –“All of Me”. As duas últimas estão entre as melhores do álbum. 

Ouça “All of Me”, de John Legend.




Ouça a fabulosa “Helpless Thing”




Das tradicionais, a mais bela é “I Love My Love”, do folclore inglês.


quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

José James homenageia Bill Withers

José James e seu visual para homenagear Bill Withers
Boa parte da nova geração de vocalistas considerados do universo do jazz, estão bem longe do mainstream como, digamos, Tony Bennett.

Gerações mais novas, mesmo gostando de jazz, cresceram ouvindo outros gêneros musicais. São exemplos, Gregory Porter, José James, Leslie Odom, Jr., Jamison Ross, Dwight Trible e o alemão Theo Bleckman, esses dois últimos, nem tão jovens. Podem até cantar “Summertime”, “They Can’t Take That Away from Me” ou “I Love Paris”, mas não são o prinicipal de seus repertórios.

O mais conhecido e considerado o melhor é Gregory Porter. Tem uma bela voz de barítono, registro que não é comum. São poucos: Billy Eckstine, Johnny Hartman, e, dentre os não tão antigos, Andy Bey e Kevin Mahogany,  morto há pouco mais de um ano. No álbum mais recente, Porter homenageia seu ídolo, em “Nat King Cole & Me”.

O que ajuda na popularidade de Porter é lançar por um grande selo. Tradicional e responsável por um respeitável portfólio de grandes discos de jazz, o Blue Note, atendendo às mudanças do público, tem contratado intérpretes que em outros tempos não se encaixariam no seu perfil. Outro destaque da mesma gravadora é José James. Como Porter, lançou álbuns com repertório mais tradicional, como “For All We Know” (Impulse, 2010), com o pianista Jef Nieve, e mais recentemente, o fenomenal “Yesterday I Had the Blues” (Blue Note, 2015), tributo à Billie Holiday. Sua preferência, entretanto, é por um som cujas linhas musicais estão mais associadas ao pop, r&b e ao hip-hop.

James é outro cantor de voz grave, um pouco diferente da de Porter, um “whiskey-sour baritone”, segundo John Murph, da revista Downbeat. Coincidentemente, seu disco mais recente é um tributo, mas de alguém da seara r&b, Bill Withers, autor do clássico “Ain’t No Sunshine”

Veja JJ interpretando “Ain’t No Sunshine’, em apresentação em Paris.




Em “Lean on Me”, abre justamente com essa canção. Não é o único hit do compositor. Tem muitos outros, que estão presentes no álbum: a música título,“Kissing My Love”, “Just the Two of Us”, “Hope She’ll Be Happier” e “Better Off Dead”, as minhas preferidas.

Ouça o álbum pelo Spotify.


quinta-feira, 31 de maio de 2018

Standards. Standards

O significado do que é standard não está circunscrito aos velhos clássicos do cancioneiro americano compostos desde o início do século 20. Há porém um ciclo de ouro da música americana em que brilharam os nomes de Oscar Hammerstein II e Lorenz Hart, Johnny Mercer, Gus Kahn, Sammy Cahn, Harry Warren e muitos outros. Convencionou-se chamar de “standards” canções que se popularizaram-se por serem gravadas por muitos intérpretes diferentes. São aquelas que, usando um termo brasileiro, viraram “carne de vaca”, mas é bom frisar que, ao contrário do que nos leva a crer, são carnes de primeiríssima qualidade, ou melhor dito, o filé mignon da música.

Os standards fizeram parte do repertório de Frank Sinatra, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, Billie Holiday, Mel Tormé, Bing Crosby, Tony Bennett. E, por que não de cantores da atualidade, não apenas no universo do jazz. O inglês Seal é um dos mais recentes, comentado há algumas semanas nesse blog. Não será o último, com certeza.

Pops cantam standards
O problema é que álbuns de cantores pop gravando standards acontecem quando, aparentemente, esses intérpretes estão em um momento de refluxo criativo. Seal é um exemplo e, mais que ele Rod Stewart. O inglês, ex-coveiro que ganhou notoriedade por sua voz original, que segundo alguns, lá no começo da carreira, foi comparada a de uma taquara rachada, tempos depois de chegar ao sucesso popular, esgotado criativamente, gravou um “great american songbook”, em 2002, não parou mais de explorar o filão.

Mas antes dele, sem o mesmo problema, gravaram álbuns com standards que viraram um “standard dos standards”. É o caso do LP “Stardust”, de Willie Nelson, de 1979. Sem fugir do estilo que o consagrou, a country music, gravou, além da música título, outros clássicos como “Blue Skies”, “Georgia on My Mind”, All of Me”, “Moonlight in Vermont”, “Someone to Watch Over Me”, “Don’t Get Around Much Anymore”, dentre outros. Duke Ellington, George Gershwin, Irving Berlin, só filé.

Ouça a música título.




Ouça “Unchained Melody”.




 Cerca de dois anos depois, foi a vez de Carly Simon lançar “Torch” (Elektra, 1981). Quando nem era moda, a ex-mulher de James Taylor lançou um álbum repleto de temas dor-de-cotovelo, como “Body and Soul”, “Not a Day Goes By” e, dentro do espírito, “From the Heart”, de sua lavra, excepcional e emocionante. Como Stewart, gravou outros álbuns com standards, com muito mais competência, porém.

Ouça.




Veja Carly em “Hurt”, de Jimmie Crane e Al Jacobs. Desculpe a frivolidade, mas aquela boca da filha de Richard Simon, um dos donos da editora Simon & Schuster, me levava à pensamentos inconfessáveis.





Ferry, o rei
Desde quando passou a gravar álbuns sob seu nome, ainda membro da banda Roxy Music, Bryan Ferry revelava uma face retrô, voltado a grandes standards e clássicos do rhythm’n’blues dos anos 1950e 60. O título de seu primeiro solo, “These Foolish Things”, nome da famosa composição dos ingleses Jack Strachey e Eric Maschwitz, é um sinal desse seu olhar. Nos seguintes, gravou standards como“What a Wonderful World” e “You Go to My Head”.

O primeiro, mais focado no gênero, foi “As Time Goes By” (Virgin, 1999). Contém clássicos como “Easy Living”, “The Way You Look Tonight”, “Where or When”, “You Do Something to Me”, “September Song”, “Miss Otis Regrets”, dentre outras. Tanto na Roxy Music e em seus álbuns solo, mostra que é um músico diferenciado. Possui um conceito de som que o diferencia de quase tudo o que se conhece como música pop. Sua capacidade de inventar sonoridades únicas é o que faz de “Boys and Girls” e “Bête Noire”, álbuns imediatamente posteriores ao fim do Roxy Music, serem consagrados. Quando resolveu encarar o repertório dos standards não foi diferente. Suas concepções orquestrais não têm qualquer relação com os de um Nelson Riddle ou Billy May. É absolutamente original.

Ouça “Where or When”.




Em 2012, Ferry, sempre genial, lançou “The Jazz Age”. Ao contrário do que se imagina, não voltou aos standards. Original, como sempre, pegou treze de suas composições da época do Roxy Music e dos solos e “vestiu-os” com a sonoridade da era do jazz. Ideia genial.

Ouça “Avalon”.




Ouça “Do the Strand”.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

O mais belo grave de Johnny Hartman

Ao ouvir “Wave” no álbum “Invitation”, de Art Van Damme e The Singers Unlimited, lembrei-me de Johnny Hartman. Em LP nunca lançado em CD, “Once in Every Life” (Bee Hive Records, 1980), o cantor mais subestimado do jazz solta um “together” respeitável no verso “The fundamental loneliness goes whenever two can dream a dream together”. É um grave de respeito.

O título original “Vou Te Contar” quase caiu no esquecimento. Até no Brasil lembram dela como “Wave”. Uma das coisas que irritava Antônio Carlos Jobim era ouvir suas músicas com letras vertidas para o inglês por Ray Gilbert e Norman e Marilyn Bergman. Fora a perda do espírito original, os letristas ficavam com metade dos royalties, o que não era nem um pouco justo. Por conta disso, Jobim resolveu ele mesmo escrever várias das versões. “Wave” é uma delas. Se não me engano, foi cantada com letra em inglês pela primeira vez por Frank Sinatra. Hartman deve ter ouvido esse registro, de 1969 pois, tão bom quanto o seu grave, é o de Sinatra. Bom, não vale comparar algum cantor com o velho Frank. É covardia. Apenas para registro, “Wave” teve sua primeira gravação nos Estados Unidos no álbum do mesmo nome, com arranjos de Claus Ogerman, em 1968.

Johnny Hartman é considerado cult, portanto, é aquele conhecido apenas pelos considerados “descolados”. Pelo menos, é o que parecia quando alguns “formadores de opinião”, como certo jornalista conhecido, em meados da década de 1990, decretou que em Nova York o álbum do momento era “Johnny Hartman and John Coltrane”. Detalhe: o disco é de 1963. Bom, dando um desconto, é provável que tenha lido alguma matéria sobre o álbum que estava sendo lançado pela primeira vez em CD, em 1995.

Bom, moda é moda. Teve uma época em que, se você não conhecesse “Chet Baker Sings”, era considerado um inculto e out. Lembro de quando trouxe esse álbum em CD, quando voltei do Japão, em 1988. Foram muitos os pedidos de cópias em fitas cassete, único meio de duplicação naquele tempo. Apenas os por volta de 50 anos tinham “CB Sings” em formato de LP e, provavelmente, em estado precário para audição, de tanto terem escutado. Os mais jovens estavam sendo apresentados àquele que diziam ter sido o grande influenciador da forma suave de cantar dos intérpretes da bossa nova. Nem o complete, inédito também no resto do mundo, de Billie Holiday na CBS, que eu tinha pago uma quantia considerável, fez tanto sucesso.

John e Johnny
Com a fama e prestígio adquiridos como sideman de Miles Davis e tocando com Thelonious Monk e os lançamentos dos excepcionais “Giant Steps” (1961). “Coltrane Jazz” (1961) e “My Favorite Things” (1961), Creed Taylor contratou John Coltrane a peso de ouro para a Impulse. Tinha recebido uma bela bolada na assinatura com a Atlantic Records. Mas no novo selo, seu passe só não foi maior do que a assinatura de Miles Davis com a CBS: 10 mil dólares no primeiro ano por dois discos, e 20 mil pelos próximos dois anos.

Os que ouviam Coltrane conheciam a sofisticação lírica inigualável ao tocar baladas e em composições próprias como “Naima”. Esse estilo belo e dinâmico nos andamentos lentos ficou registrado em “Ballads” (1963) e “Duke Ellington & John Coltrane” (1964). Sua interpretação de “In a Sentimental Mood”, neste último, é um dos clássicos de todos os tempos.

Ouça “In a Sentimental Mood”.



Hartman não atingiu a fama de Eckstine. Na fase pós Segunda Guerra Mundial, as orquestras ainda estavam à toda. Johnny começou com Earl Hines e logo depois com Dizzy Gillespie. Início brilhante. O primeiro disco que gravou como líder foi “Songs from the Heart” (1955), pela Bethlehem Records, e lançou apenas mais três LPs antes de “John Coltrane and Johnny Hartman”. O cantor mais famoso, fora Frank Sinatra, era Billy Eckstine. Era considerado o Sinatra negro. Bonitão, sua voz grave, de macho, como se falava antigamente, e carisma atraía milhões de ouvintes e, como não fosse isso suficiente, em suas orquestras tocavam os melhores músicos do jazz.

“John Coltrane and Jonnhy Hartman” foi gravado na mesma época dos dois citados. A escolha de Hartman foi a ideal. Os três álbuns representam o “gentle side” do gigante do saxofone. 

O crítico A.B. Spellman, autor das liner notes do disco original, escreve que a era dos cantores, principalmente os do sexo masculino, perderam o protagonismo com o fim das bandas de bebop. Vários crooners que ficaram conhecidos eram barítonos, com vozes potentes, casos de Hartman, Herb Jeffries, Arthur Prysock e o grande Billy Eckstine.

Ouça “My One and Only Love”. A introdução de Coltrane é doce e genial.



Devido à boa repercussão, Hartman gravou mais dois álbuns na Impulse: “I Just Dropped to Say Hello” (1963) e depois, “The Voice That Is” (1965). Mas havia um problema que acometeu o mundo do jazz. O evolução e popularidade do rock matou esse gênero tão americano. Lançou vários discos depois, mas nem tudo é bom, por conta da escolha de repertório, por razões de mercado. Nem Tony Bennett escapou.

Na minha opinião, a canção mais marcante dos dois álbuns é “Charade”. É a melhor interpretação de todos os tempos do clássico de Henry Mancini e Johnny Mercer. Ouça.



De todos os posteriores, a obra prima é “Once in Every Life” (1980), pelo selo BeeHive. Quando ninguém mais ligava para ele, nos surpreende com essa pérola. A banda que o acompanha, com exceção do pianista Billy Taylor e do flautista e saxofonista Frank Wess, mais conhecidos, é completada por Joe Wilder no trompete e flugelhorn, Al Gafa na guitarra, Victor Gaskin no contrabaixo e Keith Copeland na bateria.

Neste álbum, nunca lançado em CD, Johnny Hartman reforça o talento que tinha em cantar baladas. São clássicos como “Easy Living”, “For All We Know”, “I Could Write a Book”, “I See Your Face Before Me”, “By Myself” e “Wave”.

Clint Eastwood que, além de ator e diretor, é um grande entendedor de jazz, comprou os direitos do disco e resolveu “picá-lo” e incluir todas as canções nos dois CDs que lançou como trilha de “Madison County”. Bom, a solução foi, ideia do Carlos Conde: montar o CD com as músicas na ordem original e copiar a capa original do LP. Foi o que fiz.

Ouça “Wave”, a música que me inspirou a escrever esse texto.



‘Moonlight in Vermont” fica mais genial na voz de Hartman.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

O lado obscuro de Kevin Spacey

Depois de o ator Anthony Rapp ter acusado Kevin Spacey de tê-lo molestado quando tinha 14 anos, a coisa foi tomando proporções inesperadas. Se Rapp, hoje com 44 anos, cita um caso de muito tempo atrás e se Spacey continua com a mesma pulsão sexual – diz o lugar comum que se agrava com o tempo – muitas outras denúncias surgirão, com certeza. Segundo o The Guardian, até agora, existem mais de 20 acusações de comportamento inapropriado nos 11 anos em que foi diretor artístico do Old Vic, em Londres. As acusações são de assédio sexual contra jovens em ambientes privados e públicos, como bares. Somando-se às recentes acusações da equipe de filmagem de “House of Cards”, é bem possível que chegue a uma centena. É um assediador em série.

Spacey sempre foi muito reservado em relação à vida privada. Ao longo de sua vida, um pouco como Rock Hudson, arrumou namoradas fictícias, e, por continuar solteiro, passaram a especular que era gay, o que, peremptoriamente, negava. Saiu do armário forçado. E, por isso, recebeu muitas críticas até da comunidade gay. Imagine então o que estão achando os homofóbicos.

É preciso que esses escândalos venham à tona, para que abusos virem assunto entre a plebe anônima, que sofre tanto quanto os célebres. Se acontece entre atores hollywoodianos, imagine no mundo dos atores da vida cotidiana. Quem sabe, esses admoestadores, que estão por toda parte, nos ônibus, metrôs, nos bares e em ambientes privados, sejam também denunciados e punidos.

Mas vamos combinar: não há um exagero no comportamento das pessoas que se revoltam e exercem “linchamentos morais”? Será que aquele que chama o outro de racista não pode ser um tremendo mau caráter, homofóbico ou machista? E, vice versa? O que muitas vezes é externado por alguém representa apenas um desejo de ser ou parecer mais justo do que realmente é. Kevin Spacey deve responder pelo que fez, sim. Mas, pensando bem, será que o que é lido nas redes sociais, onde cada um pode se manifestar como quer, não é algo semelhante àquele que se revolta e mata um ladrão ou um estuprador, achando que está fazendo justiça? É um modo de sentir-se melhor que o outro, de ser o “justo”, como uma forma de camuflar os próprios defeitos. Há um cheiro de hipocrisia no ar.

Além do assédio
Será uma pena que Kevin Spacey fique marcado definitivamente como “aquele que assediou um menino de 14 anos”. Assediador e pedófilo. Mas, como diz minha amiga Celia Melhen, “entre um assédio e outro, ele é um talento”.

Pois, entre um assédio e outro, Spacey teve grandes atuações, principalmente no teatro, que é menos visível, e eventualmente, cantou, e bem. Que eu saiba, no cinema ouvimos, pela primeira vez, Spacey cantando em “Midnight in the Garden of Good and Evil” (1997), dirigido por Clint Eastwood, a clássica “That Old Black Magic”, de Harold Arlen e Johnny Mercer. O cineasta e ator é grande admirador do jazz. Em seus filmes, a trilha, geralmente, é de temas do gênero. Nesta, todas as canções escolhidas são de Johnny Mercer, em várias parcerias. Os soundtracks de seus filmes são sempre primorosos. É assim com “Madison County” (“As Pontes de Madison”, 2011), e “Bird” (1988).

Ouça “That Old Black Magic”.




Spacey alentava fazer um filme sobre o cantor, compositor, instrumentista e ator Bobby Darin. Realmente sua vida dava um filme. Walden Robert Cassotto – esse era o seu nome real – cresceu acreditando que era filho de sua avó. Como outra estrela de Hollywood, Jack Nicholson, na verdade era filho de quem achava que era sua irmã. Naqueles tempos mais conservadores, Nina Casotto, com 17 anos, engravidou de Bobby e, para que não desse na vista, foi criado como se fosse seu irmão.

Desde cedo, revelou enorme talento com a música. Tocava piano, guitarra e bateria. Seu primeiro sucesso foi “Splish Splash”, aquela música que muitos podem achar que era de Roberto Carlos. Vendeu um milhão de cópias. Envolveu-se com a política e trabalhou com o então senador Robert Kennedy. Darin estava no Hotel Ambassador na noite em que Robert foi assassinado. Nesse mesmo ano, 1968, ficou sabendo era filho de sua irmã Nina. Foram dois episódios que o abalaram enormemente.

Um problema sério de saúde obrigou-o a implantar duas válvulas no coração. Parcialmente recuperado, voltou a apresentar-se, mas acabou morrendo em 1973. Tinha apenas 37 anos. Bobby emplacou vários sucessos. Era versátil. Cantou músicas associadas ao jazz, rock, pop, country e folk.

A participação de Spacey vai da direção, roteiro, atuação e também cantando. O filme não foi bem na bilheteria. Mas mostrou que se fosse cantor não se daria mal. O título escolhido para o filme foi“Beyond the Sea”, uma das músicas que tornou Darin conhecido mundialmente.

Vamos começar por “Mack the Knife”, clássico de Kurt Weill.




A música título “Beyond the Sea”.




O meu preferido, “Dream Lover”.




Veja Spacey cantando “Mind Games”, em “Come Together John Lennon Tribute” (2007).




quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Azul é apenas uma cor ou um sentimento?

Dave Lambert, Jon Hendricks e Annie Ross
Num filme visto em uma das Mostras de Cinema organizadas por Leon Cakoff, Isabella Rossellini é uma baronesa, dona de uma fábrica de cerveja em Winnipeg, Canadá. Passa na época da crise econômica de 1929, a Lei Seca em vigor. Pensando na prescrição da Lei, resolve montar uma competição mundial para promover sua fábrica. Nome do concurso: “The Saddest Music in the World”.

O filme é de 2003, mas não lembro do ano em que assisti. Sei que seu diretor, Guy Maddin, era um dos homenageados e foram exibidos vários de seus trabalhos na ocasião. A “originalidade” do canadense era a de realizar filmes em branco e preto, como se fossem dos primórdios do cinema: movimentos truncados, falta de sincronismo, dizeres explicativos entre as cenas etc.

Não exatamente por ser diferente que fui ver. Foi pelo título, por Isabella Rossellini e a portuguesa Maria Medeiros. Agora, na breve pesquisa que fiz, descubro que foi baseado num argumento de Kazuo Ishiguro, escritor que acaba de ganhar o Prêmio Nobel de Literatura. Uma curiosidade: o nipo-britânico é expert em jazz – escreveu em revistas e jornais sobre o assunto, inclusive sobre Billie Holiday, que é citada mais abaixo – e é parceiro de Jim Tomlinson em algumas músicas cantadas por Stacey Kent.

Domingo lúgubre
Bem antes de assistir ao filme, ouvi uma história contada pelo Zeca Leal, cerca de trinta anos mais velho que eu, conhecedor profundo de jazz, enquanto gravávamos em fita cassete um disco de Mel Tormé, seu cantor preferido depois de Frank Sinatra.

Quando tocava “Gloomy Sunday”, o Zeca contou-me que quando a música foi lançada, houve uma onda de suicídios. É realmente uma canção que seria finalista no concurso inventado pela baronesa no filme, se fosse uma das candidatos. Coincidência ou não, o concurso acontece em 1933, mesmo ano em que “Gloomy Sunday” foi composta por Rezsõ Seress. Guy Maddin devia saber da história de “Szomóru Vasárnap” – é o título original.

Os versos do húngaro se referem a alguém que pensa em suicídio depois da morte da amada, num domingo. Pensando bem, é o pior dia da semana, mesmo agora. Pensa: depois de um daqueles almoços fartos, meio bêbado, você dá uma descansada, acorda com aquele mau humor e, daqui a pouco vai pedir uma pizza delivery esperando o início do “Fantástico”. Não tem poesia num domingo desses, portanto, vamos voltar com a história de Seress.

Composta em 1933, foi lançada só em 1935, cantada por Pál Kálmar. A primeira versão em inglês é de 1936, cantada por Paul Robeson. Existe mais de uma versão em inglês. A consagrada é de Sam M. Lewis. A gravação mais conhecida é a de Billie Holiday, que saiu em 1941. A de Mel Tormé, que imaginava ser anterior à de Billie, é posterior.

Ouça, com Billie Holiday.




A minha segunda eleita é a de Mel Tormé, de vez em quando, a primeira, lançada em 1958. Ouça.




Tardes tristes
No espectro, o azul é considerado uma cor fria. Em inglês, pode significar melancolia, tristeza ou sentimento de depressão.

Uma canção, bem menos popular, e até onde sei, não provocou nenhum suicídio, é “Blue”, composta pelo pianista Gildo Mahones, com letra de Jon Hendricks, um dos cantores mais célebres da história do jazz. Além de compositor, Hendricks ficou conhecido mesmo por incorporar letras em temas do bop, coisa difícil devido à complexidade rítmica e que, na maioria dos casos, interessantes são as improvisações. Colocou letras em músicas de Horace Silver, Dizzy Gillespie, John Coltrane, Benny Golson, Clifford Brown, Randy Weston e outros. Por isso foi chamado de “poet laureate of jazz”, pelo crítico Leonard Feather, e o “James Joyce of jive”, pela revista Time. É um caso para ser estudado pela medicina: apresentou-se até 2015. Agora, em 2017, ainda criou letras para as músicas de “Miles Ahead”, de Miles Davis com Gil Evans. 

Além da carreira solo, está na história por ser um dos melhores conjuntos vocais de todos os tempos, o Lambert, Hendricks & Ross, completados por Dave Lambert e a bela Annie Ross. Ela ficou de 1957 a 1962 no trio. Foi substituída depois por Yolande Bavan. Annie, além da carreira solo, trabalhou como atriz (uma das atuações foi em “Shortcuts”, de Robert Altman), Lambert morreu em um acidente de carro, em 1966, e Hendricks seguiu em carreira solo.

O autor do tema de “Blue”, Gildo Mahones era o pianista do trio comandado pelo baixista Ike Isaacs, que acompanhou o LH&R nos álbuns lançados pela Columbia. É parte de “High Flying”, gravado em 1961.

“Blue”, na minha opinião é mais triste que “Gloomy Sunday”. Assim como os domingos são maçantes, os fins de tarde tendem a ser melancólicos. A razão de muitos terem tirado suas vidas num domingo por causa da música envolvem fatos ou sentimentos em sincronicidade, talvez uma tristeza sem fim, bem quando a música toca no rádio.

Quanto a mim, sinto uma certa melancolia ao entardecer. Acho que essa percepção ficou mais aguda quando, ao voltar para a casa, em meio a um trânsito infernal, ouvi “Blue” e, pela primeira vez, prestei atenção na letra. Mais ou menos assim: “Cada tarde, na hora em que o dia cai, cada tarde, quando a hora da noite é noite, vem um sentimento, um sentimento de solidão. Me encontra mesmo aonde não estou; me lembra que não existe ninguém mais triste que eu, que sentimento, esse sentimento de solidão.” E termina com esses versos: “Toda manhã tento saudar o dia com um sorriso/ Quando chega a tarde/ Depois de ficar um momento sozinho/ Me vem um sentimento / Que sentimento de solidão/ I’m blue/ I’m blue/ I’m Blue.”

A letra de “Blue” ficou marcada indelevelmente em mim. Agora, em qualquer hora em que ouço, seja dia, tarde ou noite, sinto um aperto no peito, e penso: “I’m blue”.

Ouça a música, com Lambert, Hendricks & Ross. A única outra gravação de “Blue” que conheço é a de Annie Ross, depois de ter saído do trio.









sexta-feira, 18 de agosto de 2017

O mar e Alfonsina

A inspiradora Alfonsina Storni
A primeira gravação de “Alfonsina y el Mar”, de Ariel Ramirez e letra de Félix Luna, é de 1969. Saiu em compacto simples, e depois no álbum “Mujeres Argentinas”. É hoje um dos grandes clássicos do cancioneiro latino americano. Foi interpretada por inúmeros músicos, com letra ou não. A referência, no entanto, é de sua intérprete original: Mercedes Sosa.

A Alfonsina da música existiu realmente. Foi a poeta Alfonsina Storni. O autor do clássico “Missa Criola”, uma das grandes expressões da música regional, com centenas de clássicos, não a conheceu, mas seu pai sim. Foi sua aluna e Ariel deve ter ouvido relatos do triste fim de Alfonsina.

O mar, na vida de Alfonsina, está representado em três momentos. Nasceu na Suiça e atravessou-o para ir morar em uma cidade do interior da Argentina. Posteriormente, mudou-se para Buenos Aires, tornou-se professora e foi uma das primeiras mulheres a frequentar os círculos literários, essencialmente masculinos, no fim do século 19 e início do 20. Em 1935, banhava-se no mar quando uma onda a derrubou e deixou-a desacordada. Quando recobrou a consciência, percebeu que um nódulo em seu peito doía muito. Era um tumor maligno na mama. Ao extirpá-lo, eram duas cicatrizes: a física e a emocional. Alfonsina, que antes revelara sintomas de depressão e paranóia, isolou-se mais ainda.

Com seu filho, Alfonsina hospedou-se em um hotel de Mar del Plata. Em 25 de outubro de 1938, de madrugada, saiu do hotel e foi à praia de Perla. Segundo alguns biógrafos, jogou-se de um quebra-mar. Ariel preferiu a versão romântica de que ela foi caminhando lentamente mar adentro. “Cinco sereias te levaram/ Por caminhos de algas e de coral/ E cavalos marinhos fosforescentes farão/ Uma ronda ao teu lado/ E os habitantes da água vão jogar/ Logo ao seu lado”, são os versos finais da canção.

O suicídio esteve sempre a rondar a vida de Alfonsina. Teve uma relação estreita com o escritor uruguaio Horacio Quiroga, a quem dedicou um poema após sua morte ingerindo cianureto. Quando inscreveu-se em um concurso literário, em 1938, perguntou: “¿Y si uno muere, a quien le pagan el premio?”

 “Alfonsina y el mar” tem centenas de registros, inclusive em versões instrumentais.

Ouça-a com Mercedes Sosa.




Outra versão muito boa é a do espanhol El Cigala.




“Alfonsina”,  pelo seu compositor, Ariel Ramirez.




A portuguesa Cristina Branco é outra a cantar “Afonsina”.




Até de intérpretes da música erudita cantaram a canção de Ariel Ramires. Veja José Carreras, com a Vienna Symphonic Orchestra.







quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

O encontro especial de Kurt Elling e Branford Marsalis

Kurt Elling. Outro fã do “soul patch”
Quando Kurt Elling esteve em São Paulo para apresentar-se no Bourbon Street Music Club, não lembro mais há quanto tempo, o Carlos Conde (desconfio que ele não gostava muito dele) ofereceu-me dois convites para o show. Normalmente me chamava para ir em apresentações internacionais de jazz quando Dora, sua mulher não estava a fim. Nessa altura, Kurt já era, disparado, considerado o melhor cantor de jazz; pela crítica, que seja dito.

Quase desconhecido no Brasil até hoje, acredito, depois de ser considerado o melhor pelos críticos da Downbeat por uns quinze anos seguidos, em 2013, foi “destronado” por Gregory Porter. Não sei se é justo. É provável que os britânicos estejam um pouco fartos da rainha Elisabeth, assim como, os cubanos, de Fidel, que acaba de falecer. Cansa, né. Chega uma hora em que desejamos uma mudança, por melhor que sejam os que estão no trono.

Um dos fatores responsáveis pela “queda” de Elling pode ser a de que seus dois últimos álbuns não acrescentem muita coisa em relação aos anteriores. Reverenciado pela crítica, não imagino que seja amado pela patuleia. Apesar de ser desse grupo, desde o começo, achei-o um cantor diferenciado, o melhor na minha opinião. Não tem o apelo popular de um Michael Bublé ou Jamie Cullum, o que, serve como elogio.

Terminada a apresentação no Bourbon, para a minha e a surpresa de outros, postava-se na saída para cumprimentar um a um os que saíam. Adorei o seu gesto. Simples e de extrema cortesia. Poderia ter trocado algumas palavras ou pedido um autógrafo, porém, devido a surpresa, apenas trocamos um cumprimento. Naquela época, Kurt tinha os cabelos compridos, em corte reto, que passavam um pouco da nuca e um montículo de barba logo abaixo do lábio que descubro agora chamar-se “soul patch”, como o de Dizzy Gillespie.

O tempo passou e Elling, de vez em quando cansa do “soul patch”, mas volta a usá-lo. Deixou a magreza para trás e a cabeleira, mais curta, continua impecavelmente cofiada.

Aproveitando a proximidade do Natal, acaba de lançar o seu “sings Christmas”. Diferente de qualquer disco de Natal, sempre com aqueles temas batidos tocados de maneira burocrática, é bem Kurt: há sempre um traço de originalidade e de ousadia. Quem sabe, essa pode ser a razão de não ser tão popular. Recusa-se a caminhar nas vias do meramente conhecido, mesmo quando interpreta standards. Em seus álbuns além de clássicos do cancioneiro americano, sempre há algum número fiferente. Canta músicas do repertório brasileiro, em português, geralmente – e não fica apenas na bossa nova –, espanhol, francês e até arrisca um lied, de Johannes Brahms, como no último “Passion World” (Concord Jazz, 2015), Além de algumas composições de próprio punho, gosta de ciscar em outros ninhos. Com aquela surpresa positiva, encontramos, por exemplo, uma música do King Crimson, ou alguma do Weather Report, com letras dele.

Branford e Kurt. O “soul patch” ficou branco
Branford Marsalis e Kurt
Se “Passion World” e o anterior “1619 Broadway” (Concord 2013) – referência ao endereço da Brill Building, local que abrigou estúdios e escritórios de gente ligada à música –, não são superiores aos seus CDs anteriores, o recente “Upward Spiral” (OKeh, 2016), de Branford Marsalis, “featuring Kurt Elling”, atende bem ao gosto daquele que queria vê-lo mais “jazz”, o que não significa dizer que deixe de explorar outros gêneros. Kurt e Branford subverteram ordens estabelecidas desde o início de suas carreiras.

O primeiro da família Marsalis a tornar-se conhecido foi Wynton. Pouco depois, foi a vez de Branford, que teve seu primeiro álbum lançado pela mesma gravadora, a Columbia. Aí descobriram que os dois tinham um tremendo pianista na família, o pai Ellis Marsalis Jr., cuja fama se circunscrevia aos limites de New Orleans. Ellis Jr., por sua vez, era filho de músico. Ellis Sr. tocava bateria. Não parou por aí. Mais dois filhos de Ellis são músicos: Delfayo (trombone) e Jason (bateria).

O nome de Wynton está ligado à turma que ficou conhecida como “young lions”. Surgiram vários músicos, jovens arrumadinhos que abraçaram a causa dos que pretendiam resgatar os “nobres valores” do jazz. Com boas razões, muitos devem ter achado um retrocesso. O mundo tinha mudado bem desde Fats Waller e Louis Armstrong, e o que era considerado jazz foi “contaminado” por essas transformações.

Branford Marsalis, um ano mais velho que Wynton, surgiu para o mercado logo depois. Ao contrário do irmão, parecia mais aberto musicalmente, mais permeável aos outros gêneros como o rock, o rap e o hip-hop. Estreou como líder pela mesma Columbia. Aparecia engravatado, mas mostrava que seu projeto não era resgatar a “pureza perdida”. Em suas incursões iniciais, ele e Kenny Kirkland, pouco mais velho que os “brothers”, mas pianista dos dois em alguns álbuns, foram tocar com o pop Sting, ex-Police. Por essas e outras coisas, Branford era o antagonista de Wynton. Por essas diferenças dizia-se que um era Caim, e o outro, Abel. Nada confirma. Aparentemente, sempre se deram bem.

Uma confirmação de suas diferenças foi a banda Buckshot LeFonque, bem fora do que se convencionou ser classificado como jazz. Enveredou-se por trilhas sonoras para o cineasta Spike Lee. Em seus movimentos, aos poucos, caminhou em direção a um jazz mais clássico, com o pianista Joey Calderazzo, parceiro constante nos últimos anos.

Movimentos ascendentes
O primogênito dos Marsalis, em seus últimos trabalhos, sem precisar mostrar ao que veio, em plena maturidade, tende aos climas melancólicos. No solo “In My Solitude” (OKeh, 2014), explora a acústica da Grace Cathedral, onde foi gravada, e as canções e improvisos são sempre em tom menor, até como forma de amoldar-se ao ambiente. No disco em duo com o pianista Joey Calderazzo, o título, por si, é uma boa pista: “Songs of Mirth and Melancholy” (2011).

Em “Upward Spiral” (OKeh, 2016), apesar de a primeira (There’s a Boat Dat’s Leaving’ Soon for New York”) e última (“The Return – Upward Spiral”) serem mais upbeat, Paul de Barros, em sua crítica na Downbeat, em que confere 4 estrelas e meia para um máximo de cinco, descreve o álbum como “um trabalho outonal que reflete sobre perda, dor e expectativas frustradas.”

Em um repertório “outonal”, não poderiam faltar “Blue Gardenia”, “I’m a Fool to Want You”, “Só Tinha de Ser com Você” e a soturna “Blue Velvet”, de Bernie Wayne e Lee Morris. Dois bons destaques são do repertório pop-rock: “From One Island to Another”, de Chris Whitley, e “Practical Arrangement”, de Sting, que, aliás, estão entre as melhores, a primeira, pela brilhante e enérgica interpretação da banda, com destaque para Joey Calderazzo, e a segunda, pelo canto emocionante de Kurt. Dentre as composições próprias, o ponto alto é “Cassandra’s Song”, de Marsalis e Elling.

Ouça “Cassandra’s Song”.



Dentre os standards, bela é “Blue Gardenia”. Traz na lembrança o brilhante álbum de John Coltrane com Johnny Hartman, ao se ouvir o sax de Marsalis.



Brilhante mesmo é “Practical Arrangement”. Elling arregaça.



Veja também os dois em “I’m a Fool to Want You”. 



Um preview do álbum.

terça-feira, 5 de abril de 2016

A morte precoce de Roger Cicero

No dia 26 de março, morreu Roger Cicero, devido a um acidente vascular cerebral, com apenas 45 anos Coincidentemente, seu pai, Eugen Cicero, faleceu com a mesma moléstia. Meses antes, Cicero tinha sido diagnosticado com síndrome de fadiga crônica aguda com suspeita de miocardite. Depois de internado, não recuperou a consciência.

Imagino que seja um desconhecido para a maioria que não é alemã. Filho de pais romenos ligados às artes, pai pianista conhecido de jazz e mãe dançarina, partiu para a carreira de músico ainda adolescente. Estudou música em Amsterdam e fez carreira na Alemanha, seu país natal.

Voltado mais ao jazz, tocando com o pai Eugen, participando do Festival de Montreux, como crooner da banda Jazzkantine ou formando a Roger Cicero Quartet, em vez de fazer como a maioria de seus conterrâneos que escolheram o gênero como caminho, preferia cantar em alemão. Essa escolha, provavelmente, dificultava que se tornasse mais conhecido em outros países. De certo modo, com jeito de galã, como Michael Bublé, mais talentoso até do que o canadense, deve ter sido a opção que fez. Poderia ter virado uma astro internacional.

Roger e Julia
Como conheço Julia Hülsmann, que grava pela ACT e pela ECM, acabei “descobrindo Roger Cicero. Apesar de a maioria dos discos de Julia seguirem o formato instrumental, gravou três com cantores europeus. Conheci primeiro o com Rebekka Bakken (ACT, 2003), logo depois, Good Morning Midnight (ACT, 2006), com Cicero, e, mais recentemente, A Clear Midnight – Kurt Weill in America (ECM, 2015), com o cult, natural da Alemanha também, Theo Bleckmann, radicado em Nova York. Os três têm em comum serem cantados em inglês.

Curioso em conhecer outros discos de Roger Cicero, o primeiro que ouvi, fora o que gravara com Hülsmann, ouvi There I Go (Jazzsick Records, 2005). Como não me interessei pelos cantados em alemão, ouvi depois Cicero Sings Sinatra: Live in Hamburg (Sony/RCA 2015) e The Roger Cicero Jazz Experience (Wave Music, 2015). Os três são muito bons. Ele cantando Sinatra é um pouco menos porque lembra muito as incursões de Michael Bublé pelos standards. Passa aquela impressão de “já visto”, mesmo sendo melhor que o canadense.

Em There I Go, Roger canta vários standards, mas nem tudo é tão comum. Temos as batidas My Favorite Things, No Moon at All, mas outras como Red Top, Joy Spring e Bluesette são temas mais executados instrumentalmente e pouco cantadas, por serem mais específicas do jazz. São obras que exigem maior familiaridade dos cantores com esse gênero.


Roger mostra que é do ramo em Bluesette. Ouça.




Há um vídeo de Roger no Festival de Montreux cantando Bluesette com uma bigband, mas que não pode ser compartilhada. Se você quiser ver, vá para https://www.youtube.com/watch?v=nx4js_dNqBI

O recente The Roger Cicero Jazz Experience é o melhor testamento. O álbum é impecável. Como em There I Go, neste canta coisas do repertório moderno como Shower the People, de James Taylor, 50 Ways to Leave Your Love, de Paul Simon, From the Morning, de Nick Drake, The Long and Winding Road, de John Lennon e Paul McCartney, e Tom Traubert’s Blues, de Tom Waits. As mais antigas, como Moody’s Mood e Benny’s from Heaven, são essencialmente jazzísticas, tanto que as letras são de autoria de Eddie Jefferson que, como Jon Hendricks, notabilizou-se por colocar letras em temas bebop.

Um dos temas que pode se destacar é Keep It Loose Keep It Tight. A referência a essa composição é proposital, porque Roger lembra muito Amos Leee, o autor dessa composição. Confira.




Veja Cicero no Leverkusener Jazztage 2013, cantando com seu Jazz Experience. Além de standards, interpreta clássicos modernos como The Long and Winding Road, de Lennon e McCartney, e Shower the People, de James Taylor.



terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

O melhor disco da última fase de Johnny Hartman não saiu em CD

Johnny Hartman, Elvin Jones e Coltrane no fundo
Um jornalista, que chegou a ocupar os cargos mais altos, “chique no último”, como se dizia, no alto de sua autoridade, escreveu uma vez que John Coltrane & Johnny Hartman era o “disco do momento” em Nova York. Isso foi no fim do século 20. Não faz tanto tempo. Se ele e essas pessoas estavam “descobrindo” Hartman, estavam um pouco atrasados. Pode ter pesado que o álbum originalmente lançado em 1963, saiu pela primeira vez em formato CD em 1995. Esses moderninhos estavam, provavelmente, ouvindo esse clássico pela primeira vez.

O cantor, que um dia foi chamado de “Bronze Sinatra” nunca ficou efetivamente conhecido. Mas foi cultuado por muitos. Não era um cara bonitão como Billy Eckstine, que chegou a ser considerado um Sinatra negro. Este foi um verdadeiro ídolo em seu tempo e um talento para arregimentar grandes músicos para a sua orquestra.

Hartman, pelo contrário, nem unanimidade foi entre os apreciadores do jazz. Seus crítico diziam que não tinha suingue. É uma verdade, parcialmente. Cantores com registro de barítono têm esse problema. Mas cantando baladas, foi inigualável.

É possível que não tenha feito tanto sucesso como Billy Eckstine ou Arthur Prysock, este nitidamente inferior a Hartman, ficando entre os de voz de barítono, em razão de ter sido uma pessoa de natureza mais retraída e alguém que nunca frequentou páginas de jornais e revistas fazendo o modelo do músico doidão, drogado ou alcoólatra, ou notado por sair com estrelas de Hollywood. Outra coisa que pesou, foi a falta de sorte com produtores e gravadoras.

Johnny e John
Bob Thiele, diretor da Impulse Records, tencionava gravar um álbum de John Coltrane com algum cantor. Sugeriu Sarah Vaughan. Este se mostrou reticente e falou de Hartman. Marcou, pois foi a única vez que Coltrane gravou com cantores e foi o disco de Hartman que mais vendeu. O crítico Will Friedwald classificou-o como o “Kind of Blue dos álbuns com vocalistas”.


Ouça Lush Life, de Billy Strayhorn.



Ouça My One and Only Love, com a linda abertura com o tenor de Coltrane.



Aproveitando a onda do sucesso, gravou mais alguns álbuns para o mesmo selo. I Just Dropped By to Say Hello, lançado no mesmo ano, apresenta a mesma qualidade do que gravou com Coltrane. Charade, de Henri Mancini, é a primeira faixa. É, simplesmente, a melhor interpretação de todos os tempos da música tema do filme do mesmo nome, de Richard Donen.

Ouça Charade.



Depois de The Voice That Is, saiu da Impulse e foi para a ABC-Paramount. Seus produtores acharam que gravando um repertório mais acessível, teriam vendas melhores. Não deu certo. Não agradou nem esse público que almejaram e muito menos os seus fãs. Com 60 anos, faleceu em decorrência de um câncer no pulmão.

O único álbum bom que lançou depois da Impulse foi Once in Every Life, pelo selo Bee Hive, em 1980. É excepcional e recebeu a cotação máxima pela Downbeat na época. Conta com músicos como Frank Wess na flauta e saxofone, Billy Taylor ao piano, Joe Wilder no trompete e flugel, e Al Gafa na guitarra. Creio que foi último em vida, pois morreu em 1983. Todos os demais lançados depois são de gravações anteriores.

Pegadinha
Once in Every Life saiu apenas em LP e, infelizmente, nunca no formato CD e, provavelmente, nunca sairá. Os direitos pertencem a Clint Eastwood. Muitos devem saber do apreço que o ator e diretor tem pelo jazz. Ele é autor da cinebiografia Bird, sobre Charlie Parker, já foi o homenageado no show After Hours, no Carnegie Hall, Nova York, com participações de Slide Hampton, Hank Jones, Joshua Redman, Christian McBride, dentre outros, e costuma inserir bons números em seus filmes. Tem um filho, Kyle Eastwood, que tomou gosto pelo gênero e é um contrabaixista de talento.

Quem assistiu ao filme As Pontes de Madison (Bridges of Madison County) deve lembrar-se das belas músicas que acompanham a história de Francesca e Robert Kincaid. Na trilha, Eastwood, foge do óbvio. Fora Dinah Washington, a mais conhecida, os outros intérpretes são Irene Kral, grande cantora, falecida precocemente de câncer, Barbara Lewis e Johnny Hartman. São escolhas de alguém que tem um conhecimento além da superfície do jazz. De Johnny são quatro as que constam no CD lançado.

Quando percebi que eram de Once in Every Life, fiquei endoidecido. Era um daqueles álbuns que sonhava em repor no formato CD.

Não sei quanto tempo depois, um segundo CD referente ao filme de Clint, foi lançado. Em Remembering Madison County tinha mais sete números de Hartman, que eram exatamente as que faltavam para completar Once in Every Life. Quando comentei com o Carlos Conde, expert do jazz, cque tinha um programa exclusivamente sobre o gênero na Rádio Cultura, contou-me que “montou” o CD conforme o original. Não tinha pensado nisso. Fiz o mesmo.

Anos depois, acho que nem o Conde deve ter percebido, senão teria falado. Clint Eastwood tinha nos pregado uma peça. No primeiro CD, Easy Living é a terceira, I See Your Face Before Me é a de número 5, It Was Almost Like a Song a nona, e For All We Know, a décima primeira.

Faltaram a primeira (I Could Write a Book), a segunda (Nobody Home), a quarta (Will You Still Be Mine), a sexta (Wave), a sétima (By Myself), e a oitava (I See Your Face Before Me). Juntando os dois “Madison County”, na ordem, dava Once in Every Life completo.

Na plataforma que uso para streaming, o Tidal, não tem o LP disponível. Por sorte o Spotify tem. Ouça na íntegra e perceberão como Hartman era genial.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

David Bowie, jazz e Dylan Howe

Bowie e Catherine Deneuve, em Fome de Viver
Até no último ato, David Bowie foi gênio. Foi uma saída espetacular: anunciou a própria morte no clip Lazarus e sem que ninguém ao menos imaginasse que estivesse perto de morrer. Blackstar (★) estava programado para ser lançado no dia de seu aniversário, mas vazou uns dias antes pela internet. Isso pouco importa. O caso é que Bowie morreu, muito cedo. 69 é pouco. Sinal que, como em The Hunger (Fome de Viver), de Tony Scott, tenha percebido que a vida era finita. Mas, imaginamos que pudesse ser imortal. Pensando bem, talvez, nunca tenha sido desse mundo, na verdade, como a personagem de The Man Who Fell to Earth (O Homem Que Caiu na Terra, de Nicholas Roeg).

Dentre a série de “transformações” do cantor, uma das mais interessantes é a que corresponde ao tempo em que morou em Berlim. Os álbuns Low, Heroes e Lodger compõem o que ficou conhecido como a “Trilogia de Berlim”. Os três contaram com a colaboração de Brian Eno e é a fase mais experimental de Bowie, quando flerta com a música ambiental, o minimalismo e o jazz. Nas várias faixas instrumentais, toca saxofone. São quase sempre climáticas, soturnas, bem ao gosto do produtor Eno. Uma curiosidade: Robert Fripp foi convidado para participar de Heroes (é sua a guitarra na música título); mandaram uma passagem. Foi a sua primeira viagem na primeira classe, disse ele.

★ recebeu vários tipos de críticas, inclusive negativas, logo depois de lançado. Provavelmente, agora que morreu, será elogiado unanimemente. É, a morte faz coisa. Mas não é um álbum para todos os gostos. Alguns críticos, ao ouvirem ★ , lembraram-se da “Trilogia de Berlim”.

Veja o clipe de Lazarus.




Dylan Howe e Bowie jazz

Um dado bastante ressaltado de ★  foi a formação instrumental. Apesar de contar com seu tradicional produtor, Tony Visconti, optou de ser acompanhado pela banda do saxofonista Don McCaslin, composta pelo guitarrista Ben Monder, Tim Lefebvre (baixo), Jason Lindner (teclados) e Mark Guiliana (bateria). É uma formação bem jazzística.

Por coincidência, andava ouvindo Subterraneans - New Designs on Bowie’s Berlin, de Dylan Howe. Este baterista inglês é um rapaz ainda, e sendo filho do guitarrista Steve Howe, que foi do Yes, deve ter crescido ouvindo os sons do pai e de David Bowie, certamente. Nesse álbum, Dylan baseou-se no repertório da trilogia de Berlim. Esse fato despertou a minha curiosidade. 

De Low, Dylan e sua banda tocam Subterranean, Weeping Wall, All Saints, Some Are. Art Decade e Warzawa, de Heroes, Moss Garden e Neuköln. Como não poderia deixar de ser, o clima é igualmente soturno.

A banda de Dylan é formada por Brandon Allen (sax tenor), Ross Stanley (piano e sintetizadores), Mark Hodgson (baixo acústico), Adrian Utley (guitarra), e conta com a participação do pai Steve Howe tocando koto em Moss Garden.

A faixa que era a última da edição oficial de Low é a que abre o álbum Subterraneans. O mesmo clima fantasmagórico e claustrofóbico está presente na concepção de Howe. Quem conhece Subterraneans deve lembrar-se dos teclados de Eno, do saxofone alto e os vocais de Bowie. São sete minutos e poucos de magia que servem de apresentação para o disco.

Ouça Subterraneans.



All Saints, a segunda, já tem o tom bem mais jazz, com marcações de contrabaixo bem definidas, que mudam de andamento repentinamente acompanhando o belo solo de Ross Stanley ao piano. As breves notas ao sintetizador que se alternam funcionam muito bem como contraponto do elétrico com o acústico.

O disco é excepcional. Dylan une a atmosfera dos originais com a linguagem improvisativa do jazz. Em vários momentos, lembra as jornadas musicais do guitarrista Terje Rydal, construindo um som original unindo o acústico e o eletrônico. Essencial, esse álbum merece as cinco estrelas que recebeu pela revista Downbeat.

Ouça o álbum em sua íntegra.


terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Frank faz 100 anos

Frank Sinatra e Ava Gardner
Estávamos eu e minha amiga Vera G a almoçar em um restaurante japonês com um telão. O que tem a a ver um telão em um restaurante em um japonês? Bem, isso não vem ao caso. As imagens exibidas eram, se recordo, as da emissora Globo News. Comentei com a Vera: “Só aparece imagem do Frank Sinatra!”. O comentário ficou por isso. Não lembro se ficávamos acessando a internet a cada dois minutos em 1989. Fiquei sabendo, mais tarde, que Sinatra tinha morrido. A partir desse dia, se ficam a mostrar imagens de alguém a toda hora na televisão, já penso: “Morreu”.

Das inúmeras imagens que vi na noite deste dia, a mais marcante foi a de Frank Sinatra cortando o bolo de aniversário com ajuda de sua mulher Barbara Marx, Marx porque fora casada com Zeppo, um dos irmãos Marx. Frank estava por um fio. Morreu cinco meses depois. Se vivo, como pretendia, estaria completando 100 anos no dia 12 passado.

Histórias de amor

Na sua coluna de sábado, o jornalista Sergio Augusto escreve que, em uma dessas enquetes feitas na internet elegendo os melhores cantores do século 20, Sinatra ficou em 126º. Há controvérsias. Como bem salienta, na mesma coluna, “Duke Ellington, Stan Getz, Benny Goodman, Gerry Mulligan, Oscar Peterson, Lester Young – elegeram Sinatra seu ‘cantor favorito’.” E escreve ainda, que Miles Davis moldou “seu estilo de tocar pelos fraseados do cantor.”

Melhor ficar com que esses músicos achavam do que com a patuleia – desculpe o preconceito – que participou da enquete. Frank Sinatra é o maior cantor de todos os tempos e fim de papo. Seu fraseado era inigualável e foi o cantor que melhor tratou da língua, além de um controle estupendo da respiração, alongando ou encurtando as notas. Cada verso, cada palavra era entoada com clareza impressionante. Meu amigo Zeca Leal que, atualmente, está em sua companhia, dizia que aprendeu inglês ouvindo Sinatra.

Caso 1. Aliás, o Zeca é o primeiro de quem falo, dos que amavam Sinatra. Com seu habitual humor sempre cáustico que nem perdoava a si mesmo, gostava de dizer que foi o maior comprador de discos de Frank. Como bebia muito, em muitas ocasiões, ao pousar a agulha sobre o disco, em razão de seu estado, riscava-o. E como, para ele, nada podia macular a voz de Sinatra, saía para comprar outro igual. Quando não tinha condições de sair, pedia aos filhos que fossem procurar o disco.

Muitos devem saber como acabam histórias de alcoolismo. O Zeca gostava da noite e de um bom scotch. Era amigo de músicos, inclusive ajudava Dick Farney a fazer o imposto de renda. Mas numa hora deixou de ser divertido. A bebida acabou com o seu casamento. Quando nasceu seu primeiro neto, apareceu no hospital e jurou que iria parar de beber. E foi assim. Tinha 43 anos, com ajuda dos Alcóolicos Anônimos.

Algumas pessoas achavam que o “Zeca sóbrio” tinha perdido a graça. Logo que parou, uma namorada andou colocando vodca no seu suco de laranja da manhã. Ele percebeu. Terminou o namoro. Algumas doses de whisky o ajudavam em muito em deixar a timidez de lado. Percebeu que sem a bebida não conseguia se aproximar de uma mulher. Em vez de voltar a beber, procurou um terapeuta. Deu certo: arrumou uma namorada e viu que as pessoas se divertiam com suas histórias, como antigamente. Aprendi muita coisa de jazz e de Sinatra com ele. Até onde sua saúde permitiu, vinha a minha casa munido de várias fitas cassete para gravar coisas que gostava e que não possuía mais.

Caso 2. Outra boa história de amor por Frank Sinatra, esta de segunda mão, é a de Ronaldo Bôscoli, contada por Ruy Castro. O jornalista e compositor costumava dizer que gostava mais do Frank Sinatra do que de mulher, o que era mais uma frase de efeito, dado que era um mulherengo atávico, tendo entre suas conquistas Nara Leão, Maysa e Elis Regina.

Certo dia, quando chegava em seu apartamento, deparou-se com uma cena inusitada: centenas de LPs espalhados na avenida Atlântica, no Rio de Janeiro. Olhando o extrato de despesas de seu cartão de crédito, Elis, sua mulher na época, constatou uma despesa em um motel bem conhecido, e o gasto não fora com ela. Possessa, vingou-se jogando toda a coleção de LPs de Frank Sinatra pela janela.

Caso 3. Esta aconteceu com Frank e é do conhecimento de todos. Muitas mulheres passaram pela sua cama, mas nenhuma o fez sofrer tanto quanto Ava Gardner. O amor ou a sua perda sempre foram poderosos elixires para a criatividade. Em carreira ascendente, no início da década de 1950, Frank viu o que construíra até então desmoronar-se. Estando por baixo, conseguiu um papel de coadjuvante em A Um Passo da Eternidade. Conquistou o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante. Na nova fase, assinou contrato com a Capitol Records.

Na vida pessoal, o caos chamou-se Ava Gardner. Separou-se de Nancy para ficar com ela. O amor que lhe causou tantos sofrimentos, em conjunção com outras circunstâncias, resultou em seu segundo auge, na opinião de muitos, seu melhor momento na carreira. Com o advento dos LPs (abreviação de “long playing”), o tempo de duração de um disco aumentou tremendamente, e é a época do surgimento da alta fidelidade nas gravações. Era comum nos discos o selo “high-fidelity” impresso nas capas.

Juntando o sofrimento da relação tumultuada, o tempo maior dos LPs, Sinatra é o inventor do que pode ser chamado de “álbum conceitual”. Muito antes de Dark Side of the Moon e da ópera-rock Tommy, de The Who, ele lançou uma série de discos que continham uma ideia. 

Os álbuns In the Wee Small Hours of the Morning, Where Are You? e Only the Lonely e No One Cares são os melhores de Frank. Formam um conjunto de canções de dor de cotovelo, amores desfeitos e de abandono, com orquestrações sombrias, melancólicas com arranjos e orquestrações magistrais de Nelson Riddle, Gordon Jenkins. As capas são também ítens a destacar, com imagens tocantes de Sinatra, só, com um cigarro na mão na noite azulada (In the Wee Small Hours of the Morning), pensativo, com um cigarro novamente (Where Are You?), retratado como um palhaço (Only the Lonely), ou sozinho e pensativo, sentado com os braços apoiados no balcão de um bar, enquanto as pessoas se divertem as suas costas (No One Cares). Desses álbuns em que Sinatra se apresenta como um “loser”, todas obras primas, a crítica e os amantes de Frank consideram Only the Lonely como o seu álbum mais perfeito.

O sofrimento por amor, se é indelével, ao menos gerou grandes discos para Frank Sinatra.

De Only the Lonely, ouça Angel Eyes.



What’s New.



De In the Wee Small Hours of the Morning, Glad to Be Unhappy.



O grande clássico da dor de cotovelo está em Where Are You? (1957): I’m a Fool to Want You, com as cordas da orquestra de Gordon Jenkins.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

O prestígio de Vinícius Cantuária lá e cá

Vinícius Cantuária e Bill Frisell, ao fundo.
O mesmo autor de uma canção “fofa“ como Só Você foi um dos fundadores da banda progressiva O Terço. É autor também da bela e “fofa” Lua e Estrela, que fez muito sucesso na voz de Caetano Veloso. Provavelmente, quando compôs essas duas canções, Vinícius Cantuária estava apaixonado por alguma bela loura.

Saindo d’O Terço, Cantuária foi participar de uma outra banda, de belo nome, A Outra Banda da Terra, assim nomeada por Caetano Veloso, como baterista também. Em um show dessa época, comecinho dos anos 1980, o baiano estava em uma fase pós-revolucionária, menos experimental, mais hedonista e compondo muito bem. A banda apresentava-se vestida de branco, com um coro de belas moças que mais embelezavam o palco que qualquer outra coisa. Qualquer banda que se prezasse tinha que ter backing vocals. Lua e Estrela era um dos temas que faziam parte do show.

É de 1984 o maior sucesso de Cantuária. Só Você era uma canção daquelas “grudentas”. Virou hit nas vozes de Fabio Jr. e Fagner. Quando poderia tornar-se um sucesso de vendas, sumiu. E foi para longe. Quando tiveram notícias dele, estava morando nos Estados Unidos.

No Brasil, Cantuária é um quase desconhecido. Pouco saiu dele aqui. Na América, também, não deve ser um astro, mas desde 1986, ano em que mudou-se para lá, tem conseguido lançar álbuns em gravadoras prestigiadas no mundo do jazz, como a tradicional Verve e a Grammavision. E não para de lançar. Desde 2008, seus discos saem pela Naïve, gravadora francesa independente bem conhecida pelos bons títulos de música erudita e também de jazz.

Outro sinal de que que Cantuária é respeitado são os músicos que têm tocado com ele. Um deles é o guitarrista Bill Frisell. Ambos assinam Lágrimas Mexicanas, bem recebido pela crítica. [leia sobre ele em http://bit.ly/1I7w9io]. A colaboração do americano não se restringe a esse somente. Ele participa de Índio de Apartamento (2012). Índio ainda conta com participações de Ryuichi Sakamoto, Norah Jones e o bom cantor Jesse Harris.

Seu álbum mais recente é Vinícius canta Antônio Carlos Jobim. O título é dúbio, pois logo associamos a um dos parceiros de Tom, este de sobrenome Moraes, letrista de seis das treze músicas do CD. Aqui também conta com colaborações preciosas como as de Melody Gardot (sobre ela, veja links no fim do post),  dos mesmos Ryuichi Sakamoto, Bill Frisell, e a participação nos vocais em Caminhos Cruzados da brasileira Joyce Moreno.

Vinícius deixou de ser baterista quando partiu para a carreira solo e optou pelo violão. Nunca foi exatamente um roqueiro, apesar de ter sido d’O Terço. Suas composições tendem mesmo à bossa nova e ao samba-canção. Nunca foi grande cantor e nunca será. É até um enigma ser tão prestigiado. Mas de uma coisa, tanto cá como lá, pode-se dizer. Sua música é agradável e seu modo de cantar é quase sempre melancólico, o que pode ser um atrativo para alguns.


Ouça Insensatez, com participação de Melody Gardot.



Ouça trechos de todas as canções do disco.