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| Dave Lambert, Jon Hendricks e Annie Ross |
O filme é de 2003, mas não lembro do ano em que assisti. Sei que seu diretor, Guy Maddin, era um dos homenageados e foram exibidos vários de seus trabalhos na ocasião. A “originalidade” do canadense era a de realizar filmes em branco e preto, como se fossem dos primórdios do cinema: movimentos truncados, falta de sincronismo, dizeres explicativos entre as cenas etc.
Não exatamente por ser diferente que fui ver. Foi pelo título, por Isabella Rossellini e a portuguesa Maria Medeiros. Agora, na breve pesquisa que fiz, descubro que foi baseado num argumento de Kazuo Ishiguro, escritor que acaba de ganhar o Prêmio Nobel de Literatura. Uma curiosidade: o nipo-britânico é expert em jazz – escreveu em revistas e jornais sobre o assunto, inclusive sobre Billie Holiday, que é citada mais abaixo – e é parceiro de Jim Tomlinson em algumas músicas cantadas por Stacey Kent.
Domingo lúgubre
Bem antes de assistir ao filme, ouvi uma história contada pelo Zeca Leal, cerca de trinta anos mais velho que eu, conhecedor profundo de jazz, enquanto gravávamos em fita cassete um disco de Mel Tormé, seu cantor preferido depois de Frank Sinatra.
Quando tocava “Gloomy Sunday”, o Zeca contou-me que quando a música foi lançada, houve uma onda de suicídios. É realmente uma canção que seria finalista no concurso inventado pela baronesa no filme, se fosse uma das candidatos. Coincidência ou não, o concurso acontece em 1933, mesmo ano em que “Gloomy Sunday” foi composta por Rezsõ Seress. Guy Maddin devia saber da história de “Szomóru Vasárnap” – é o título original.
Os versos do húngaro se referem a alguém que pensa em suicídio depois da morte da amada, num domingo. Pensando bem, é o pior dia da semana, mesmo agora. Pensa: depois de um daqueles almoços fartos, meio bêbado, você dá uma descansada, acorda com aquele mau humor e, daqui a pouco vai pedir uma pizza delivery esperando o início do “Fantástico”. Não tem poesia num domingo desses, portanto, vamos voltar com a história de Seress.
Composta em 1933, foi lançada só em 1935, cantada por Pál Kálmar. A primeira versão em inglês é de 1936, cantada por Paul Robeson. Existe mais de uma versão em inglês. A consagrada é de Sam M. Lewis. A gravação mais conhecida é a de Billie Holiday, que saiu em 1941. A de Mel Tormé, que imaginava ser anterior à de Billie, é posterior.
Ouça, com Billie Holiday.
A minha segunda eleita é a de Mel Tormé, de vez em quando, a primeira, lançada em 1958. Ouça.
Tardes tristes
No espectro, o azul é considerado uma cor fria. Em inglês, pode significar melancolia, tristeza ou sentimento de depressão.
Uma canção, bem menos popular, e até onde sei, não provocou nenhum suicídio, é “Blue”, composta pelo pianista Gildo Mahones, com letra de Jon Hendricks, um dos cantores mais célebres da história do jazz. Além de compositor, Hendricks ficou conhecido mesmo por incorporar letras em temas do bop, coisa difícil devido à complexidade rítmica e que, na maioria dos casos, interessantes são as improvisações. Colocou letras em músicas de Horace Silver, Dizzy Gillespie, John Coltrane, Benny Golson, Clifford Brown, Randy Weston e outros. Por isso foi chamado de “poet laureate of jazz”, pelo crítico Leonard Feather, e o “James Joyce of jive”, pela revista Time. É um caso para ser estudado pela medicina: apresentou-se até 2015. Agora, em 2017, ainda criou letras para as músicas de “Miles Ahead”, de Miles Davis com Gil Evans.
Além da carreira solo, está na história por ser um dos melhores conjuntos vocais de todos os tempos, o Lambert, Hendricks & Ross, completados por Dave Lambert e a bela Annie Ross. Ela ficou de 1957 a 1962 no trio. Foi substituída depois por Yolande Bavan. Annie, além da carreira solo, trabalhou como atriz (uma das atuações foi em “Shortcuts”, de Robert Altman), Lambert morreu em um acidente de carro, em 1966, e Hendricks seguiu em carreira solo.
O autor do tema de “Blue”, Gildo Mahones era o pianista do trio comandado pelo baixista Ike Isaacs, que acompanhou o LH&R nos álbuns lançados pela Columbia. É parte de “High Flying”, gravado em 1961.
“Blue”, na minha opinião é mais triste que “Gloomy Sunday”. Assim como os domingos são maçantes, os fins de tarde tendem a ser melancólicos. A razão de muitos terem tirado suas vidas num domingo por causa da música envolvem fatos ou sentimentos em sincronicidade, talvez uma tristeza sem fim, bem quando a música toca no rádio.
Quanto a mim, sinto uma certa melancolia ao entardecer. Acho que essa percepção ficou mais aguda quando, ao voltar para a casa, em meio a um trânsito infernal, ouvi “Blue” e, pela primeira vez, prestei atenção na letra. Mais ou menos assim: “Cada tarde, na hora em que o dia cai, cada tarde, quando a hora da noite é noite, vem um sentimento, um sentimento de solidão. Me encontra mesmo aonde não estou; me lembra que não existe ninguém mais triste que eu, que sentimento, esse sentimento de solidão.” E termina com esses versos: “Toda manhã tento saudar o dia com um sorriso/ Quando chega a tarde/ Depois de ficar um momento sozinho/ Me vem um sentimento / Que sentimento de solidão/ I’m blue/ I’m blue/ I’m Blue.”
A letra de “Blue” ficou marcada indelevelmente em mim. Agora, em qualquer hora em que ouço, seja dia, tarde ou noite, sinto um aperto no peito, e penso: “I’m blue”.
Ouça a música, com Lambert, Hendricks & Ross. A única outra gravação de “Blue” que conheço é a de Annie Ross, depois de ter saído do trio.
“Blue”, na minha opinião é mais triste que “Gloomy Sunday”. Assim como os domingos são maçantes, os fins de tarde tendem a ser melancólicos. A razão de muitos terem tirado suas vidas num domingo por causa da música envolvem fatos ou sentimentos em sincronicidade, talvez uma tristeza sem fim, bem quando a música toca no rádio.
Quanto a mim, sinto uma certa melancolia ao entardecer. Acho que essa percepção ficou mais aguda quando, ao voltar para a casa, em meio a um trânsito infernal, ouvi “Blue” e, pela primeira vez, prestei atenção na letra. Mais ou menos assim: “Cada tarde, na hora em que o dia cai, cada tarde, quando a hora da noite é noite, vem um sentimento, um sentimento de solidão. Me encontra mesmo aonde não estou; me lembra que não existe ninguém mais triste que eu, que sentimento, esse sentimento de solidão.” E termina com esses versos: “Toda manhã tento saudar o dia com um sorriso/ Quando chega a tarde/ Depois de ficar um momento sozinho/ Me vem um sentimento / Que sentimento de solidão/ I’m blue/ I’m blue/ I’m Blue.”
A letra de “Blue” ficou marcada indelevelmente em mim. Agora, em qualquer hora em que ouço, seja dia, tarde ou noite, sinto um aperto no peito, e penso: “I’m blue”.
Ouça a música, com Lambert, Hendricks & Ross. A única outra gravação de “Blue” que conheço é a de Annie Ross, depois de ter saído do trio.

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