sexta-feira, 21 de julho de 2023

Sons viajantes de Jon Durant e Stephan Thelen

Ao ouvir “Crossings”, duo dos guitarristas Jon Durant e Stephen Thelen, a primeira associação é com os álbuns de Robert Fripp com Brian Eno e Andy Summers, ex-Police. Evidente que o protagonismo do trio era do baixista e cantor Sting, mas, como é de costume em trios, tanto nos de jazz, como nos de rock, cujo exemplo maior foi o Cream, formado por Eric Clapton e Jack Bruce, o bom som é a soma das partes. Tinha a guitarra de Summers como elemento primordial e a brilhante bateria de Stewart Copeland. Resumo: Andy Summers era muito mais que um suporte para o brilho de Gordon Sumner. Além de gravar com o ícone Robert Fripp, chegou a enveredar pela música brasileira, por meio de gravações com o também guitarrista argentino, radicado no Brasil, Victor Biglione, e até em parceria com Fernanda Takai.

Os discos gravados com Fripp conservam um frescor, depois de tanto tempo, principalmente, para os fãs do chamado rock progressivo. São eles “I Advance Mask” (1982) e “Bewitched” (1984). 

“Crossings” nos faz lembrar do duo de Fripp, mas não com outro guitarrista, mas sim com Brian Eno: “(No Pussyfooting)” (1973). Lembro até hoje com que estranheza ouvi pela primeira vez esse LP (não existia CD nem streaming naquele tempo). Na época analógica, quando o sintetizador inventado por Robert Moog era uma invenção recente a ser explorada, o som dos dois era uma novidade. Ainda não tinha surgido o termo “ambient music”. Pois, Eno é a figura central dessa nova linguagem que depois ficou comum e incorporada em todos os gêneros musicais.

A guitarra, nas mãos de Robert Fripp, atingiu um novo patamar. Além desse instrumento, popularizou o Mellotron, uma engenhoca, ainda na era analógica, que tinha um “banco de dados” de sons pré-gravados em fitas magnéticas que eram acionadas pelo teclado. Não foram pioneiros, mas Fripp e Edgar Froese, do Tangerine Dream, souberam explorar sonoridades originais do instrumento, não apenas como fundo sonoro. 

Robert Fripp, criador do King Crimson, é um dos que expandiu as possibilidades de uma simples guitarra conectada a pedais. Além da guitarra, é o músico que melhor soube explorar um instrumento – se bem que não se deve deixar de citar outro mestre, Edgar Froese, do Tangerine Dream – , ainda analógico, que tinha um “banco de dados” de sons pré-gravados em fitas magnéticas que eram acionadas pelo teclado. É também o criador do que ficou conhecido como “frippetronics”. Seu estilo de tocar fez escola e impressiona até hoje. Resumindo: é gênio.

Não sei se de quantos possam ter ouvido “(No Pussyfooting)”, mas tê-lo ouvido em 1973 ou pouco depois, foi uma experiência insólita. Era um tipo de música pura novidade na época. Os sons interligados, contínuos em duas faixas longas apresentavam um novo lugar, uma paisagem desértica e infinita. Os dois tinham “inventado” uma cascata de sons que eram reproduzidos em looping. Tudo muito simples, visto hoje, mas muito engenhoso, pelo menos para aquele tempo. Ambos gravaram sons em uma fita magnética e colaram uma ponta na outra para serem tocadas em um gravado de rolo Revox, considerado o top desestimo de aparelho. Uma explicação: antes do streaming, dos CDs, existiram os gravadores e reprodutores em fita. Os populares eram os que nós chamávamos de “fita cassete” e os mais sofisticados e de reprodução de alta fidelidade os gravadores de rolo.

Pois Eno e Fripp fizeram um disco usando os gravadores/reprodutores Revox, sintetizadores VCS 3 e guitarras. O que se ouve em “(Nopussyfooting)” é uma cascata sonora, às vezes, opressiva, climática e original.

Escrevi cinco parágrafos sobre Robert Fripp e suas parcerias com Andy Summers e Brian Eno para escrever poucas linhas de Jon Durant e Stephen Thelen. É que “Crossings” lembra muito “(No Pussyfooting)”. Quase esqueço de citar “Evening Star” (1975) e, menos ainda, “Equatorial Stars” (2004), mas é de propósito. Mas é o álbum que me vem à cabeça quando ouço “Crossings”.

Jon Durant toca uma guitarra fretless. Não conheço muitos que tocam esse tipo de instrumento.Stephan Thelen produz sons no e-bowed guitar, que vem a ser uma engenhoca eletrônica em que se obtém um “sustain” infinito, o que lembra o “looping” do Revox. Esse som atmosférico evoca os climas sonoros de Robert Fripp e Terje Rypdal. Sobre eles não tenho muito mais o que comentar. Que tal mergulhar no som dos dois?

Ouça o álbum.

Nenhum comentário:

Postar um comentário