quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Antes Amy Winehouse vem Janelle Monáe

Estilo é o que não falta à moça
Em 15 de janeiro realiza-se o Summer Soul Festival, em São Paulo. A atração principal é Amy Winehouse. Apresenta-se também em Florianópolis, Rio de Janeiro e no Recife. Abrem o show para a estrela sempre presente nos noticiários –menos por sua música, e mais por conta de excessos e  namorados problemáticos – Janelle Monáe e Mayer Hawthorne.

Onde ambos estiverem com a estrela maior, estará garantida satisfação em dobro, no mínimo; digo por Janelle Monáe (pronuncia-se Janél Mônei). Saiu, inclusive, em alguns veículos que Amy não gostou nem um pouco quando soube que Janelle abriria seus shows.

A capa do primeiro CD da americana, lançado no Brasil, por si, atrai a curiosidade do mais desavisado. Vestida com uma “coisa” na cabeça, que lembra o filme Metrópolis (clássico de 1927, direção de Fritz Lang), chama-se ArchAndroid. Abaixo de seu nome, na capa, está grafado Suites II and III (a Suite I é Metropolis, seu primeiro CD).

A abertura (Suite Overture II) é um arranjo orquestral grandioso, inspirado no 2º Concerto de Piano e Orquestra de Rachmaninoff, e precede uma música “funkeada” “serial” (Dance or Die, Faster, Locked Inside), que vai mudando de clima em seu decorrer. Monáe é classuda e usa um topete enorme que ascende em sua cabeça. Tem rosto de menina, é afinada e, pelo jeito, cercada de bons produtores. Sir Greendown, a quinta, é uma música climática, meio entorpecedora. Aí, esquenta com um vibrante Cold War e Tightrope, com uma batida que lembra Outkast (Big Boi participa dessa faixa e coproduz).

O subtítulo Suites II e III explicita o conceito do CD. É um disco que se inspira em figuras díspares como Tim Burton, Star Wars, bombas atômicas, saraivadas de socos de Muhammad Ali, Fantasia de Disney, Prince, Mary Poppins e James Brown. As músicas se sucedem sugerindo uma trilha sonora. A abertura (Suite III) da segunda parte do CD tem aquele clima dos musicais da Disney, e as músicas restantes são menos agitadas e reforçam a ideia de um cinema “mental”.

O show de Janelle Monáe é para conferir e, dependendo, pode eclipsar o talento incontestável de Amy Winehouse.

Ouça Come Alive (The War of The Roses), uma das melhores faixas.



Veja Janelle cantando Tightrope no programa de David Letterman:



Um encontro de feras.: Amy Winehouse e Paul Weller cantam o clássico I Heard It Through the Grapevine. A canção composta por Norman Whitfield e Barrett Strong foi gravada pela primeira vez por Smokey Robinson & The Miracles e, posteriormente, pelo Credence Clearwater Revival, mas tornou-se clássica na voz do eterno Marvin Gaye.



Amy canta Tears Dry on Their Own.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Quando Jaco Pastorius tocou com Joni Mitchell

Em 1976, antes de gravar Hejira, Joni Mitchell procurava um tipo de som diferente do que se ouvia nessa época. Não lhe satisfazia o tipo de som predominante dos baixistas por achá-los um tanto “mortos”. Quando gravava The Hissing of Summer Lawns (1976), mostrou no teclado como pretendia que a linha do baixo fosse em The Jungle Line para Max Bennett, que a acompanhava. Ele odiou; e ela não estava satisfeita.

A perfeita combinação: Pastorius e Mitchell
No álbum seguinte, com a participação de Jaco Pastorius, viu o que era uma ideia que tinha em mente tornar-se real. Finalmente, surgia um baixista que se alternava entre os graves e os médios. Jaco transformou o som de Joni. Basta comparar as faixas em que Max Bennett é o baixista e as que é Pastorius. Impressiona já na primeira faixa, Coyote. A base é a guitarra rítmica de Joni e Larry Carlton e as congas de Bobbye Hall. O instrumento que está em primeiro plano é o baixo de Jaco. É uma verdadeira aula de ritmo e inventividade. Isso não quer dizer, de maneira nenhuma, que Bennett seja uma mau baixista. Pelo contrário, é que ele é mais de marcação e menos solista. Como termo de comparação dos estilos diferentes, Furry Sings the Blues, a terceira faixa, com Bennett no baixo, é perfeita.

A outra música em que Jaco dá um verdadeiro show é Hejira, em que se ouvem além dele, o violão de Joni e a percussão quase imperceptível de Bobbye Hall e algumas notas – perfeitas – da clarineta de Abe Most. A outra da qual Pastorius participa é a última do disco: Refuge of the Roads.

A parceria Pastorius/Mitchell continuaria em outros dois álbuns: Don Juan’s Reckless Daughter (1977), Mingus (1979) e Shadows and Lights (1980). A combinação atinge o auge em Don Juan’s. Nesse disco, o mais ambicioso de Joni, flerta com o jazz, com ritmos latino-americanos e orquestrações do mestre Michael Gibbs. Além de Jaco tocando na maioria das faixas, há participações de Wayne Shorter no sax e Alex Acuña, Airto Moreira, Don Alias e Manolo Badrena nas percussões.

O mais impressionante é o que Pastorius faz na música título, Don Juan’s Reckless Daughter. Com a palma da mão golpeia as cordas do baixo  deslizando-a de cima até em baixo fazendo um som que, onomatopaicamente, é um du du du doom, du du du doom, durante os cinco minutos da música. Depois de três minutos, a palma da mão estava em carne viva.

Mingus foi o álbum em que Joni Mitchell presta um tributo a um dos maiores baixistas de todos os tempos do jazz. Há, inclusive, uma “participação especial” de Charles Mingus. Nessa época, encontrava-se preso a uma cadeira de rodas e vivia no México com sua mulher. Ela, Sue Graham Mingus, permitiu que Joni usasse uma fita em que foi gravado um “Parabéns a Você” em algumas partes do disco. Mingus é um álbum mais orientado ao jazz, por conta do objeto do tributo. Participam, além de Pastorius, Wayne Shorter, Herbie Hancock, o baterista Peter Erskine (ex-Weather Report), Don Alias e Emil Richards na percussão.

Depois desse disco, Pastorius participou da turnê que resultou no DVD Shadows and Lights. As participações são mais que especiais: Wayne Shorter, Randy Brecker (sax-tenor), Pat Metheny (guitarra), Don Alias (bateria e percussão), Lyle Mays (teclados), e o grupo vocal The Persuations. Pastorius foi o diretor musical desse projeto. O registro em DVD é item essencial na prateleira dos amantes da boa música.

Em um relato para a Musician Magazine, em 1987, Mitchell disse que Pastorius era arrogante e ciente do enorme talento que tinha. Ele dizia “Eu sou o máximo. Não sou de me gabar. Só estou dizendo a verdade.” Essa arrogância e o uso da cocaína e do álcool corroeram-lhe o seu talento e a inspiração.

Anos depois, Joni tinha ido à abertura de uma exposição em Nova York. Havia um pequeno restaurante na mesma rua anunciando “Jaco Pastorius Tonight”. Foi vê-lo. Na apresentação, Jaco, ao vê-la, não parava de dizer: Joni Mitchell é o máximo! Ela é a única “isso”, é a única “aquilo”, a ponto de ficar constrangedor. As poucas pessoas no clube também ficaram constrangidas. Joni subiu ao palco, mas deu tudo errado. Foi frustrante.

Em 11 de setembro de 1987, arrumou encrenca com o gerente de um clube na Florida, e na briga, sofreu traumatismo craniano, morrendo dez dias depois. Tinha 36 anos.

Veja Joni e Jaco em The Dry Cleaner from Des Moines, do show Shadows and Lights.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Juízos antagônicos quanto a Mark Lanegan

Mark Lanegan é um quarentão quase cinquentão e fez parte do Screaming Trees, grupo de Seattle, cidade onde nasceu Jimi Hendrix e palco do movimento grunge. É  só lembar de Nirvana, Alice in Chains e o mais longevo Pearl Jam. A revolução foi diluída no tempo. Da fase da voga, ficaram alguns clássicos definitivos de Kurt Cobain – Smells Like Teen Spirit e Come As You Are.

Mark juntou-se a Isobel Campbell, que fez parte do Belle & Sebastian até 2006. Gravaram Ballad of the Broken Sea em 2006 e em 2008 fizeram um outro: Sunday at Devil Dirt, e agora, há pouco, lançaram Hawk. Quem aparece mesmo é Mark com sua voz áspera e soturna. A voz de Isobel funciona mais como um backing vocals. As composições, entretanto, na maioria, são dela; talvez por isso, seu nome apareça em primeiro lugar nos discos; ou, quem sabe, por cavalheirismo de Mark.

Quando decidiu pela carreira musical, Leonard Cohen tinha quase 30 anos. Antes, tinha publicado três livros de poemas e um romance no país natal, Canadá. Mudou-se para os EUA e conseguiu ter duas músicas – Suzanne e Dress Rehearsal Rag – gravadas pela cantora folk Judy Collins. Serviu como passaporte para sua entrada no mundo musical norte-americano. Em 1967, ano seguinte, participou do Newport Folk Festival e chamou a atenção do produtor John Hammond. Resultado: foi contratado pela CBS, a mesma gravadora de Bob Dylan.

Songs of Leonard Cohen, o primeiro, era composto de canções “lamentosas”, apropriadas para o tom melancólico de sua voz. Mas nessa época, não era tão grave como é atualmente. Décadas de consumo de cigarros e de outros aditivos tiraram o viço da juventude de sua voz, que foi ficando bem grave: de barítono virou baixo E é esse o Cohen de grande sucesso popular, provavelmente maior do que o que tinha em fins dos anos 1960.

Ao se ouvir Mark Lanegan cantando é inevitável lembrar-se do bardo canadense. Alguns outros, também. Por que não Tom Waits? Mais que todos, é o paradigma do cantor de voz grave, “rasgada”. Ninguém melhor que ele, talvez. Ou a do australiano Nick Cave? Há algo de grave no que cantam, literalmente.

No quesito “aspereza da voz”, Tom Waits é hors concours, sem dúvida. Closing Time, o disco de estreia, é de 1973, pela gravadora Asylum. Ou, quem sabe, Joe Cocker? Em 1969, no Festival de Woodstock, fez uma apresentação arrasadora cantando With a Little Help from My Friends. Diziam que a razão da voz “rascante” de Cocker era por conta do excesso do álcool e da canabis. Coincidência ou não, a carreira do inglês naufragou devido a esses excessos. Ressurgiu cantando You Are So Beautiful, em homenagem à princesa Diana: triste fim.

Antes de todos os citados, existiu Louis Armstrong. Mas não há como compará-lo. Apesar da voz áspera, não era soturna como a Waits, Cohen ou Lanegan.

Ouvindo mais vezes e esquecendo um pouco de Cohen (é que, por um momento, quando ouvi Seafaring Song, a canção que abre o álbum Sunday at Devil Dirt, pensei que era um clone do canadense), passo a gostar mais da combinação de sua voz grave com a de Isobel, que me lembra, de vez em quando, uma cantora da década de 1990, Mazzy Star, de quem nunca mais ouvi falar.


Ouça e veja os dois em Who Built the Road.