sexta-feira, 12 de agosto de 2011

O amor de Tracey Thorn que não está à venda

Everything But The Girl, vulgo EBTG
Muito breve: apenas três minutos e cinco segundos. É o tempo que dura This Love (Not for Sale). A letra é de Tracy Thorn, e a música, de Ben Watt. Juntos, formavam o Everything But The Girl. Estranho nome. Estranho também, no uso dos anglo saxões, de nomear com as iniciais. EBTG? Se duas dessas iniciais correspondem a palavras com apenas três letras?

Os derradeiros anos da década de 1970 e início dos 80 foram a época de pequenas gravadoras como a Blanco y Negro, a Factory e a 4AD abrigarem os nomes mais representativos da cena inglesa. Foi quando os The Smiths – algo que traduzido para o português poderia ser “Os Silvas” – explodiram e fizeram com que muitos concluíssem que “sim, a música inglesa não morreu”. New Order deu luzes dançantes ao som depressivo do Joy Division, antiga banda de todos os seus membros menos Ian Curtis, que se matara com 23 anos. O Echo & The Bunnymen, do cantor Ian McCullouch, a guitarra especial de Will Sergeant, o baixo poderoso e certeiro de Les Patinson e a bateria de Pete de Freitas lançaram, a partir de 1979, um disco genial atrás do outro. Em vertentes um tanto alternativas surgiram o Dead Can Dance, de Lisa Gerrard e Brendan Perry, Durutti Column, banda do excepcional Vini Reilly, o This Mortal Coil, A.R. Kane e o Cocteau Twins. Pouquíssimo tempo antes, abriam a seara da nova música britânica, a banda de Roberto Silva (Roberth Smith), The Cure, e Siouxsie & The Banshees. Em comum com a cantora Siouxsie, Smith tinha o gosto de exibir-se com os lábios lambuzados de batom vermelho.

Vi apresentações do New Order, Echo & The Bunnymen, Cocteau Twins, Dead Can Dance e do EBTG. Pagaria qualquer quantia pela banda (de um homem só), Durutti Column, a minha preferida. É o fascínio pela música considerada “para baixo”. Dá para escutar Tomorrow eternamente, mesmo com Reilly repetindo o refrão “Tomorrow never comes”. Dos citados, o melhor foi o do Echo & The Bunnymen (vi três vezes), em segundo, o do New Order – som dançante e presença de Peter Hook tocando o baixo, quase no chão, com os braços esticados. O de Dead Can Dance foi impressionante pela presença magnética de Lisa Gerrard, com sua pele de louça, meio etérea, como o som que produzia. As duas bandas que, na verdade, são duplas, Cocteau Twins e EBTG, são fracas de show. O som extremamente elaborado e cheio de efeitos perde magia num palco e o som produzido é inferior ao dos discos: saí antes do fim. O do Everything But The Girl, vi em um teatro londrino. Se o que percebi é a natureza do inglês, deve-se considerar a frieza e educação de centenas de espectadores sentadinhos e parcimoniosos nos aplausos. Bem, e se considerarmos que a fleuma inglesa é a mesma dos hooligans (os fanáticos torcedores de futebol)?

Tracey Thorn se vestia com roupas como terninhos e distribuía mechas e fios de cabelos em tufos turbinados por fixadores poderosos, e Ben Watts se parecia mais a um “reco” americano. Tracey não tinha a voz de Elizabeth Fraser, etérea e bela, era um tanto monocórdia, mas tinha seu encanto, uma certa melancolia que sempre me atraiu.

O acesso a qualquer informação na internet anulou um certo sentido de temporalidade das coisas. Um garoto, nos anos 1960, sabia da existência dos Beatles, dos Rolling Stones, de bandas como Renato e Seus Blue Caps ou The Fevers, que gravavam versões em português dos sucessos dos ingleses, ou se empolgava com um movimento chamado Jovem Guarda, porém via Elvis Presley e Jerry Lee Lewis como quase “dinossauros” do rock. Esse hiato de dez ou menos anos representava uma distância de tempo que, hoje, se dilui através de informações das quais temos acesso a qualquer hora.

É curioso ver a juventude cantando junto com Paul McCartney sucessos de quase cinquenta anos atrás sem isso parecer nostalgia. O garoto de hoje acha “fácil” gostar de Bob Dylan sem levar em consideração as circunstâncias que o levaram a se tornar conhecido. Ouvir bandas surgidas nos anos 1980, hoje, equivale àqueles que fizeram sucesso nos anos 1960. Assim, as “fronteiras” desaparecem e a sensação de que algo com 30 ou 40 anos tenha ficado velho se desvanece.

Pois, quando ouço o EBTG cantando This Love (Not for Sale), numa seleção de músicas que fazia em Minidisc (invenção da Sony, de vida curta) para ouví-los no carro no tempo em que o formato mp3 engatinhava, aflora certa emoção; não por nostalgia ou do fato de me fazer lembrar de algum momento específico; é, simplesmente, porque percebo a riqueza e sofisticação do arranjo para sopros, a bela introdução do órgão tocado por Ben, acompanhado por sons de prato da bateria de June Miles Kingston. A voz triste de Tracey Thorn – que coincidência ter “thorn” no nome! – se faz acompanhar por saxofones e trumpetes, lindo e pungente; pena que dure apenas três minutos e cinco segundos.


Ouça.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Eu vi Mercedes Sosa

Sosa esteve no Brasil em 1976
Uma das coisas mais marcantes durante a minha passagem pela USP foi a apresentação de Mercedes Sosa.

Meses depois que entrei na Faculdade de Arquitetura, a Universidede entrou em greve, e a tônica dominante foi a política. Um tanto compulsoriamente ficamos politizados. Vivíamos em assembleias e em formações de grupos de trabalho. Como um Fla x Flu, as tendências se digladiavam. O domínio, na FAU, era o do grupo de linha trotskista, Liberdade e Luta, e o “inimigo” maior, a Refazendo. Nas festas da Libelu tínhamos rock e tropicalistas, nas da Refazendo, samba e Chico Buarque.

Nesse meu primeiro ano – foi em 1976 – quase no fim dele, aconteceu a apresentação de Mercedes Sosa no Anfiteatro da USP, localizado nas franjas do bosque da Biologia. Governava, nessa época, o general Ernesto Geisel. Seu ministro do Exército, Sylvio Frota, aspirava sucedê-lo e isso representava um retrocesso mais à direita ainda. Seu subordinado no II Exército, Ednardo d’Ávila Mello, depois de o jornalista Vladimir Herzog e o operário Manoel Fiel Filho terem sido mortos nas dependências do DOI-CODI, foi afastado.Os estudantes, em bom número, temiam o recrudescimento da ditadura, e, engajaram-se na luta pelo restabelecimento da democracia e até, por um governo efetivo de esquerda. O chefe de polícia do governador Paulo Egydio era a representação do demônio repressor na figura de um senhor de cabelo escovinha e olhar satânico. Diante do engajamento cada vez maior dos estudantes, a polícia pôs Brucutus (esses veículos eram chamados assim) nas ruas, lançando jatos de água colorida contra os manifestantes. Culminou com a invasão da PUC em 1977, da polícia, quebrando tudo, jogando bombas de efeito moral. Resultado: três estudantes sofreram graves queimaduras. Essa invasão, segundo o Rui (falo dele abaixo), “foi uma represália à realização, em São Paulo, do encontro preparatório à recriação da UNE, quando a Faculdade de Medicina foi cercada, mas os representantes da organização foram liberados como estudantes da faculdade e estes ficaram para ser presos e viabilizar o Encontro.”

Um colega uspiano, depois de feita uma vaquinha para angariar dinheiro, colocou um anúncio da morte do nobre chefe da polícia, na Folha de S. Paulo. O melhor de tudo: muito contrariado, o “doutor” assistiu ao próprio “enterro” da rampa da Escola de Polícia, na entrada da Cidade Universitária. A convocação ao enterro foi uma atitude bem humorada – e moleque até – contra os descalabros e excessos que estavam ocorrendo.

Sosa é considerada uma das maiores propagadoras da música folclórica latina e tem sua imagem ligada à canção de protesto. No ano em que se apresentou no Brasil, Isabelita Perón, viúva do caudilho argentino, a quem substituíra, foi deposta. Assumiu uma junta militar liderada por Jorge Videla. Em 1979, viu sua apresentação ser interrompida na cidade de La Plata. Deixou o país para voltar apenas em 1982, ano que corresponde à derrocada do regime sob o governo do general Leopoldo Galtieri.

A apresentação aconteceu em uma tarde ensolarada de outubro (ou novembro?, não me lembro). Em decorrência da situação política, o fato de Sosa se apresentar em São Paulo e ainda na USP, se revestia de uma importância especial. Representava um ato contra a ditadura. Numa certa altura, duas pessoas do DCE pediram que cantasse uma música de Violeta Parra. Sosa perguntou se se podia cantar uma música proibida. Responderam que o campus da USP era território livre. Cantou La Carta. Em algumas situações, a catarse funciona. Imagine uma situação dessas no meio de estudantes universitários que viviam ou temiam um retrocesso político.

Meu amigo Rui Moreira Leite estava bem próximo de Mercedes. Quando terminou a apresentação, deu-lhe de presente uma xilogravura de sua autoria com duas imagens relacionadas às eleições em Portugal (após a queda do regime salazarista, em 1974, fora aprovada, em abril de 1976, a Constituição, e assim se instaurava o regime democrático). Ganhou um beijo de Mercedes Sosa.

Com a minha memória virando uma peneira, esse relato foi possível graças à memória prodigiosa do amigo Rui, o do beijo de Mercedes.

A música disponibilizada é a conhecida Alfonsina y el Mar, de Ariel Ramirez e Felix Luna. Foi gravada por Sosa em 1969 no disco Mujeres Argentinas. A outra interpretação é a do espanhol El Cigala. Tem gente que não gosta dele. Eu gosto muito.



El Cigala.


Sosa canta La Carta.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Quem é Jacintha?

O repertório jazzístico do cancioneiro americano possui uma atração irresistível e se espalhou pelos lugares mais recônditos. Provavelmente, num barzinho em local improvável como Papua-Guiné, Oceania, há um cantor ou uma cantora distraindo seus clientes com My Way ou I’ve Got You Under My Skin. Num local menos distante do continente americano, em Bombay, Índia, nasceu Christine Correa. Não fosse o fato de ter gravado com Ran Blake, pianista que passei a admirar depois de conhecer You Stepped Out of a Cloud (Owl, 1989) com a gloriosa Jeanne Lee, jamais teria tomado conhecimento dessa cantora que, pelo jeito, deve ter raízes em Goa, antiga possessão portuguesa.

A cosmopolita Jacintha
Num ponto entre Papua-Guiné e Bombay, mais exatamente em Singapura, nasceu, em 1957, Jacintha Abisheganaden, filha de pais de origem chinesa e do Sri Lanka. Jacintha (assina apenas com o primeiro nome) é contratada da Groove Note Records desde 1999. Sem ser excepcional, possui voz agradabilíssima. Sem querer ser maldoso, é uma daquelas cantoras que chamo de “roda-presa”: cantam “straight” e não ousam muito. Escaldado por comentários, até agressivos, por ter, uma vez, critiicado a brasileira Eliane Elias (é proibido criticar brasileiros; senti-me um sacrílego, um profanador de reputações) pelo fato de fazer parte desse rol. Não ousarei falar mal de Jacintha, até porque, se não gostasse dela, não teria três CDs dessa moça; assim como em relação a Elias: tenho sete discos dela. Não seria tão masoquista e idiota de ficar gastando meu dinheiro com coisa de que não gosto.

Um mérito de Jacintha é o de, apesar do repertório previsível, escolher bem o que cantar. E não é só isso: os músicos que a acompanham são do primeiro time (Larry Goldings, Anthony Wilson, Teddy Edwards, Joe LaBarbera, dentre outros). O pianista japonês Kei Akagi é sideman em vários discos e dá muito bem conta do recado. Em outro CD – Lush Life –, cabe ao pianista Bill Cunlife acompanhá-la. É responsável também pelos arranjos das cordas, aliás, belíssimos, que valorizam interpretações de clássicos como Boulevard of Broken Dreams, The Shadow of Your Smile, Black Coffee, Summertime, Lush Life, Smile, e September Song. Sem arroubos vocais e scats como os de grandes damas do jazz como Ella Fitzgerald ou Sarah Vaughan, propicia momentos intimistas e evocativos com uma voz que acaricia nossos ouvidos.

Devido ao estilo straight e pelo repertório, é considerada por alguns críticos como “easy listening”. Nas lojas há um setor separado com esse nome e é onde você encontra os discos de Frank Sinatra, Sammy Davis Jr, Matt Monro, Doris Day e uma infinidade de cantores e cantoras. Convenhamos, Jacintha não está em má companhia.


Para quem não a conhece, alguma coisa que está no Yutube.

Here’s to Life. Essa belíssima música tem em Shirley Horn como sua maior intérprete. A de Jacintha não fica muito atrás. A de Horn tem como arranjador orquestral o fabuloso Johnny Mandel.




Wave.



Midnight Sun. Adoro essa música de Johnny Mercer. Leia sobre ela em
http://bit.ly/pbDrTV), e http://bit.ly/pjaiGi