terça-feira, 27 de novembro de 2012

As montanhas moventes de Billie Holiday e de Gal Costa

Gal Costa, Billie Holiday e as flores
Mover montanhas, o inamovível. “Inamovível” porque não existe “imovível”. Esta palavra seria um neologismo, como a expressão “imexível”. Por que não serem agregadas à língua portuguesa? Apesar de “inamovível” possuir um sentido levemente diferente, significa sim, “o que não se pode mover”, ou melhor, “que não pode ser removido”, segundo o Aurélio.

Pois, se alguém diz que moverá montanhas, esse alguém dirá que a chamam de louca. Verdade. E montanhas não são “moventes” pois elas, por si, não se movem. Podem ser removidas, mas quando canta “eu moverei montanhas/ Sei mover montanhas/ Se ele assim quiser moverei”, promete o impossível, assim como quando diz “eu andarei no fogo/ Sei andar no fogo/ Se ele assim quiser andarei”. Sim, diz que é louca, “louca de amor eu serei”. Mas não se diz que o amor não conhece limites?

Crazy He Calls Me é de autoria de Carl Sigman (música) e Bob Russell (letras). Foi composta na metade final da década de 1940. O registro mais antigo que conheço é o de Billie Holiday. Gravada em 21 de novembro de 1949, o arranjo é de Gordon Jenkins. Logo que foi contratada pela Decca, os arranjos de orquestra ficaram a cargo de Toots Camarata, músico da casa. Mas isso foi em 1944. Nos registros de 1949 a coisa melhorou bem. Além de Jenkins, outro bambambã – Sy Oliver – foram os arranjadores.

Poeta e ensaísta, Augusto de Campos, tradutor de Stephane Mallarmé, Paul Valéry, W.B. Yeats, John Keats e e.e. cummings, tem seu nome ligado à música popular brasileira pelo poema de John Donne – Elegie: Going to Bed –, intitulada, simplesmente, Elegia, musicada por Péricles Cavalcanti e cantada por Caetano Veloso, e por duas “versões” (em vez de “tradução”, é o que se usa normalmente, se bem que não cabe bem a Augusto de Campos) que foram lançadas em Caras e Bocas (1977), álbum de Gal. Esse disco é posterior ao primoroso Cantar (1976).

Apenas para completar: Augusto de Campos é autor de Balanço da Bossa e Outras Bossas (Perspectiva), uma publicação capital para se entender o período da MPB dos anos 1960 e 70.

Solitude, clássico de Duke Ellington, não teve o título vertido para o português, dada a força da palavra no original. Na versão original, vários versos são rimados, como em “Dear Lord above/ Send back my love”, ou “I sit in my chair/ And filled with despair/ There’s no one could be so sad”. É quase impossível uma tradução repetindo certas rimas. O brasileiro chega perto nos versos: “Eu sento e espero/ E me desepero”.

Transcrevo a letra de Augusto de Campos: “Eu moverei montanhas/ Sei mover montanhas/ Se ele assim quiser moverei/ Louca me chamam/ 
Sim, sou louca/ Louca de amor eu sei/ Eu andarei no fogo/ Sei andar no fogo/ Se ele assim quiser andarei/ Louca me chamam/ Sim, sou louca/ Louca de amor serei/ Como o ar que move a palha/ E abala o seu olhar/ A música eu sei cantar/ A mágica eu posso lhe ensinar/ Eu te darei pra sempre/ 
Digo para sempre/ Te darei a chave do céu/ Louca me chamam/ Sim, sou louca/ Louca de amor serei.”

Ouça Louca Me Chamam na bela interpretação de Gal.




Interpretações no original

Grande Anita O’Day! Cantava muito.



Uma interpretação que não fica devendo à de ninguém é a de Dinah Washington. É de 1954 e tem um lineup de primeira: Herb Geller no sax alto, Richie Powell no piano; George Morrow no baixo e Max Roach na bateria. A gravação é de 1954.



Billie Holiday.