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| Towner e Abercrombie, sem bolsas “Capanga” |
Meu primeiro juízo, quando vi os dois entrando no palco, foi a de que alguém deve ter-lhes falado que o Brasil era um país perigoso e seria temerário deixar documentos e dinheiro no camarim. Vestidos como se estivem indo tomar um café com leite e um pão na chapa, depositaram suas “capangas” no chão ao lado das cadeiras. Quando terminou o show, colocaram seus violões nos pedestais, pegaram suas “capangas” e, saíram. No bis, voltaram segurando as bolsinhas.
Os dois no palco eram Ralph Towner e John Abercrombie. Não eram tão populares aqui; imagino que nem sejam até hoje em nossas terras. Conheci antes o trabalho do primeiro, por ser bem fã da banda Oregon, formada por ele, Collin Walcott, Glen Moore e Paul McCandless. Tinha vários álbuns dela. Abercrombie, conheci por Timeless, sua estreia como líder e em participações em alguns LPs da ECM.
Abercrombie, uns quatro anos mais novo que Towner, estudou na Berklee, e seu estilo e gosto inicial foi pela música rotulada na época como jazz-rock. Chamou a atenção de Manfred Eicher, e teve um início de ouro, gravando seu primeiro disco como líder, pela ECM. Timeless saiu em 1973 e teve como músicos parceiros o baterista Jack DeJohnette e o tecladista de alma roqueira Jan Hammer, pouco antes, membro da Mahavishnu Orchestra, de John McLaughlin. Todas as composições, com exceção da primeira, de Hammer, são de sua autoria. Tem ainda uma levada bem roqueira e sua guitarra lembra a de John McLaughlin e Larry Corell. Timeless é um disco que dá prazer de ouvir até hoje, trinta e poucos anos depois. Se não é excepcional como vários títulos posteriores, que são muitos, tem uma das grandes composições e uma das mais belas músicas de seu repertório, que é a música título.
Do estilo mais roqueiro do primeiro álbum, o som da guitarra de Abercrombie foi tendendo a um estilo mais climático, menos barulhento e mais melodioso com muitos efeitos na guitarra. Incorporou, como fez Pat Metheny, o sintetizador ao som das cordas e o bandolim elétrico também. Esse tipo de som mais atmosférico é uma das marcas do chamado “ECM sound”. Não é casual sua associação de mais de 40 anos com a gravadora.
Timeless
Towner e Abercrombie gravaram muitos discos juntos e estão entre o que há mais tempo gravam pela ECM. Quando os dois se apresentaram no antigo Palace, em São Paulo, não lembro bem quando foi, já tinham gravado em duo em Sargasso Sea (ECM, 1976) e Five Years Later (ECM, 1982).
Ralph Towner gravou Timeless, de Abercrombie mais de uma vez, uma com a sua banda Oregon, em Friends (Vanguard, 1977), e outra, em Solo Concert (ECM, 1979).
Ouça também a de 1977, em Friends.
Ouça a original, com John Abercrombie, Jan Hammer e Jack DeJohnette.
Uma pequena discografia
• Characters (ECM 1976). Excepcional. É um solo com overdubs em estúdio com guitarras e violões. Nota 10
• Animato (ECM 1989). Lembra um pouco Timeless, pois é um trio guitarra/teclados/bateria. Neste, são Vince Mendoza e Peter Erskine.
• November (ECM 1992). Muito bom, principalmente pela combinação do sax barítono e clarineta baixo de John Surman. O disco é bem distribuído em termos de autoria. Os destaques são J.S. (John Abercrombie), Rght Brain Patrol (Marc Johnson) e Rise and Fall (Peter Erskine).


