quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

John Abercrombie começou atemporal

Towner e Abercrombie, sem bolsas “Capanga”
Imagine você pagar uma quantia nada desprezível em uma dessas casas de espetáculos com cadeiras rodeando mesas ridiculamente pequenas, ao lado de um casal que você nunca viu na vida, para ver dois de seus ídolos que nunca imaginara fossem vir para o Brasil. Daí, você leva um susto, ou melhor, se surpreende; em uma casa metida à besta, entram dois caras vestindo roupas simples e sandálias tipo surfista dos anos 1980, parecidas àquelas Rider, de tiras grossas, que existem até hoje, com ambos, segurando pela tira que desce diagonalmente do ombro até a altura dos quadris, bolsas “Capanga”. Para quem é mais novo, nem deve saber que um dia existiram. Chamadas de “Capanga”, não sei por que razão, eram para ser presas na cintura, como um cinto com uma pequena bolsa costurada nela, ou, simplesmente, a bolsa com uma alça, o suficiente para prendê-la no punho e ficar segura na mão. Tinham sua praticidade e era uma opção intermediária entre ficar com os bolsos estourando com chaves, carteiras, documentos e outros apetrechos, ou usar bolsas a tiracolo, como as das mulheres. A partir dos anos 1960, haviam deixado de ser exclusivas do gênero feminino.

Meu primeiro juízo, quando vi os dois entrando no palco, foi a de que alguém deve ter-lhes falado que o Brasil era um país perigoso e seria temerário deixar documentos e dinheiro no camarim. Vestidos como se estivem indo tomar um café com leite e um pão na chapa, depositaram suas “capangas” no chão ao lado das cadeiras. Quando terminou o show, colocaram seus violões nos pedestais, pegaram suas “capangas” e, saíram. No bis, voltaram segurando as bolsinhas.

Os dois no palco eram Ralph Towner e John Abercrombie. Não eram tão populares aqui; imagino que nem sejam até hoje em nossas terras. Conheci antes o trabalho do primeiro, por ser bem fã da banda Oregon, formada por ele, Collin Walcott, Glen Moore e Paul McCandless. Tinha vários álbuns dela. Abercrombie, conheci por Timeless, sua estreia como líder e em participações em alguns LPs da ECM.

Abercrombie, uns quatro anos mais novo que Towner, estudou na Berklee, e seu estilo e gosto inicial foi pela música rotulada na época como jazz-rock. Chamou a atenção de Manfred Eicher, e teve um início de ouro, gravando seu primeiro disco como líder, pela ECM. Timeless saiu em 1973 e teve como músicos parceiros o baterista Jack DeJohnette e o tecladista de alma roqueira Jan Hammer, pouco antes, membro da Mahavishnu Orchestra, de John McLaughlin. Todas as composições, com exceção da primeira, de Hammer, são de sua autoria. Tem ainda uma levada bem roqueira e sua guitarra lembra a de John McLaughlin e Larry Corell. Timeless é um disco que dá prazer de ouvir até hoje, trinta e poucos anos depois. Se não é excepcional como vários títulos posteriores, que são muitos, tem uma das grandes composições e uma das mais belas músicas de seu repertório, que é a música título.

Do estilo mais roqueiro do primeiro álbum, o som da guitarra de Abercrombie foi tendendo a um estilo mais climático, menos barulhento e mais melodioso com muitos efeitos na guitarra. Incorporou, como fez Pat Metheny, o sintetizador ao som das cordas e o bandolim elétrico também. Esse tipo de som mais atmosférico é uma das marcas do chamado “ECM sound”. Não é casual sua associação de mais de 40 anos com a gravadora.

Timeless
Towner e Abercrombie gravaram muitos discos juntos e estão entre o que há mais tempo gravam pela ECM. Quando os dois se apresentaram no antigo Palace, em São Paulo, não lembro bem quando foi, já tinham gravado em duo em Sargasso Sea (ECM, 1976) e Five Years Later (ECM, 1982).

Ralph Towner gravou Timeless, de Abercrombie mais de uma vez, uma com a sua banda Oregon, em Friends (Vanguard, 1977), e outra, em Solo Concert (ECM, 1979).

Ouça também a de 1977, em Friends.



Ouça a original, com John Abercrombie, Jan Hammer e Jack DeJohnette.




Uma pequena discografia

• Characters (ECM 1976). Excepcional. É um solo com overdubs em estúdio com guitarras e violões. Nota 10
• Animato (ECM 1989). Lembra um pouco Timeless, pois é um trio guitarra/teclados/bateria. Neste, são Vince Mendoza e Peter Erskine.
• November (ECM 1992). Muito bom, principalmente pela combinação do sax barítono e clarineta baixo de John Surman. O disco é bem distribuído em termos de autoria. Os destaques são J.S. (John Abercrombie), Rght Brain Patrol (Marc Johnson) e Rise and Fall (Peter Erskine).

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

O melhor disco da última fase de Johnny Hartman não saiu em CD

Johnny Hartman, Elvin Jones e Coltrane no fundo
Um jornalista, que chegou a ocupar os cargos mais altos, “chique no último”, como se dizia, no alto de sua autoridade, escreveu uma vez que John Coltrane & Johnny Hartman era o “disco do momento” em Nova York. Isso foi no fim do século 20. Não faz tanto tempo. Se ele e essas pessoas estavam “descobrindo” Hartman, estavam um pouco atrasados. Pode ter pesado que o álbum originalmente lançado em 1963, saiu pela primeira vez em formato CD em 1995. Esses moderninhos estavam, provavelmente, ouvindo esse clássico pela primeira vez.

O cantor, que um dia foi chamado de “Bronze Sinatra” nunca ficou efetivamente conhecido. Mas foi cultuado por muitos. Não era um cara bonitão como Billy Eckstine, que chegou a ser considerado um Sinatra negro. Este foi um verdadeiro ídolo em seu tempo e um talento para arregimentar grandes músicos para a sua orquestra.

Hartman, pelo contrário, nem unanimidade foi entre os apreciadores do jazz. Seus crítico diziam que não tinha suingue. É uma verdade, parcialmente. Cantores com registro de barítono têm esse problema. Mas cantando baladas, foi inigualável.

É possível que não tenha feito tanto sucesso como Billy Eckstine ou Arthur Prysock, nitidamente inferior a Hartman, ficando entre os de voz de barítono, em razão de ter sido uma pessoa de natureza mais retraída e alguém que nunca frequentou páginas de jornais e revistas fazendo o modelo do músico doidão, drogado ou alcóolatra, ou notado por sair com estrelas de Hollywood. Outra coisa que pesou, foi a falta de sorte com produtores e gravadoras.

Johnny e John
Bob Thiele, diretor da Impulse Records, tencionava gravar um álbum de John Coltrane com algum cantor. Sugeriu Sarah Vaughan. Este se mostrou reticente e falou de Hartman. Marcou, pois foi a única vez que Coltrane gravou com cantores e foi o disco de Hartman que mais vendeu. O crítico Will Friedwald classificou-o como o “Kind of Blue dos álbuns com vocalistas”.


Ouça Lush Life, de Billy Strayhorn.




Ouça My One and Only Love, com a linda abertura com o tenor de Coltrane.




Aproveitando a onda do sucesso, gravou mais alguns álbuns para o mesmo selo. I Just Dropped By to Say Hello, lançado no mesmo ano, apresenta a mesma qualidade do que gravou com Coltrane. Charade, de Henri Mancini, é a primeira faixa. É, simplesmente, a melhor interpretação de todos os tempos da música tema do filme do mesmo nome, de Richard Donen.

Ouça Charade.




Depois de The Voice That Is, saiu da Impulse e foi para a ABC-Paramount. Seus produtores acharam que gravando um repertório mais acessível, teriam vendas melhores. Não deu certo. Não agradou nem esse público que almejaram e muito menos os seus fãs. Com 60 anos, faleceu em decorrência de um câncer no pulmão.

O único álbum bom que lançou depois da Impulse foi Once in Every Life, pelo selo Bee Hive, em 1980. É excepcional e recebeu a cotação máxima pela Downbeat na época. Conta com músicos como Frank Wess na flauta e saxofone, Billy Taylor ao piano, Joe Wilder no trompete e flugel, e Al Gafa na guitarra. Creio que foi último em vida, pois morreu em 1983. Todos os demais lançados depois são de gravações anteriores.

Pegadinha
Once in Every Life saiu apenas em LP e, infelizmente, nunca no formato CD e, provavelmente, nunca sairá. Os direitos pertencem a Clint Eastwood. Muitos devem saber do apreço que o ator e diretor tem pelo jazz. Ele é autor da cinebiografia Bird, sobre Charlie Parker, já foi o homenageado no show After Hours, no Carnegie Hall, Nova York, com participações de Slide Hampton, Hank Jones, Joshua Redman, Christian McBride, dentre outros, e costuma inserir bons números em seus filmes. Tem um filho, Kyle Eastwood, que tomou gosto pelo gênero e é um contrabaixista de talento.

Quem assistiu ao filme As Pontes de Madison deve lembrar-se das belas músicas que acompanham a história de Francesca e Robert Kincaid. Na trilha, Clinton, foge do óbvio. Fora Dinah Washington, a mais conhecida, os outros intérpretes são Irene Kral, grande cantora, falecida precocemente de câncer, Barbara Lewis e Johnny Hartman. São escolhas de alguém que tem um conhecimento além da superfície do jazz. De Johnny são quatro as que constam no CD lançado.

Quando percebi que eram de Once in Every Life, fiquei endoidecido. Era um daqueles álbuns que sonhava em repor no formato CD.

Não sei quanto tempo depois, um segundo CD referente ao filme de Clint, foi lançado. Em Remembering Madison County tinha mais sete números de Hartman, que eram exatamente as que faltavam para completar Once in Every Life. Quando comentei com o Carlos Conde, um expert do jazz, contou-me que “montou” o CD conforme o original. Não tinha pensado nisso. Fiz o mesmo.

Anos depois, acho que nem o Conde deve ter percebido, senão teria falado. Clint Eastwood tinha nos pregado uma peça. No primeiro CD, Easy Living é a terceira, I See Your Face Before Me é a de número 5, It Was Almost Like a Song a nona, e For All We Know, a décima primeira.

Faltaram a primeira (I Could Write a Book), a segunda (Nobody Home), a quarta (Will You Still Be Mine), a sexta (Wave), a sétima (By Myself), e a oitava (I See Your Face Before Me). Juntando os dois “Madison County”, na ordem, dava Once in Every Life completo.

Vamos ouvir Wave. Preste atenção no “together”. Que voz!



Easy Living.



I See Your Face Before Me. Belíssimo.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Clint Eastwood, o homem que veio do oeste

His name is Clint. Eastwood
Alguém se lembra de que Clint Eastwood foi prefeito de Carmel? Pelo partido republicano, o que nos faz pensar que, gostos musicais são apartidários. Ele ama o jazz, assim como adorava Eisenhower e, até o caso Watergate, apoiou Richard Nixon. Depois disso, suas posições se tornaram dúbias, defendendo causas que estariam mais associadas ao partido democrata.

Não assisti a nenhum dos Dirty Harry, da vida, dirigidos por seu parceiro de muitos filmes, Don Siegel. Não vi Por um Punhado de Dólares ou suas continuações por causa de Clint: vi porque o filme era de Sergio Leone, um dos meus diretores preferidos. Quem fez Era Uma Vez no Oeste não precisa fazer mais nada para ser considerado gênio. Digo tudo isso, porque, confesso, até um certo tempo, tinha preconceito em relação a Eastwood. E preconceito é uma m….! Porém comecei a “rever os meus conceitos” ao assistir Bird, dirigido por ele. Forrest Whitaker faz o papel do maior sax alto de todos os tempos, Charlie Parker. Só fui ver um outro de Clint muitos anos depois: Os Imperdoáveis (Unforgiven, 1992) – grande filme –, e depois, Pontes de Madison (The Bridges of Madison County, 1995), sensível leitura do amor da meia-idade.

No entanto, a razão desse texto não são seus filmes especificamente. São os soundtracks lançados por sua gravadora Malpaso. O álbum lançado em razão do filme Meia Noite no Jardim do Bem e do Mal (Midnight in the Garden of Good and Evil, 1997) contém verdadeiras preciosidades, a começar pela sempre competente k.d. lang cantando Skylark. A tia do ator George Clooney, Rosemary Clooney, cantora das “antigas”, contribui com Fools Rushes In. Temos belas interpretações de Cassandra Wilson (Days of Wine and Roses), Tonny Bennett (I Wanna Be Around), o basieano Joe Williams (Too Marvelous for Words), Diana Krall (Midnight Sun) e o “Barry White do jazz”, Kevin Mahogany (Laura). As faixas instrumentais também são de primeira: Dream, com o pianista Brad Mehldau e I’m an Old Cowhand, com o sax tenor Joshua Redman. Como curiosidades há um registro de Ac-cent-tchu-ate The Positive, cantado por Clint e That Old Black Magic, com o ator – e bom cantor – Kevin Spacey, protagonista do filme.

Melhor ainda são as músicas dos álbuns The Bridges of Madison County (1995) e seu apêndice, Remembering Madison County. São preciosidades como Dinah Washington cantando I’ll Close My Eyes, Easy Living e Blue Gardenia e Irene Kral, grande intérprete, morta prematuramente em razão de um câncer, cantando It’s a Wonderful World e This Is Always. O destaque dentre as instrumentais são as interpretações do pianista preferido de Miles Davis, Ahmad Jamal, com (Put Another Nickel in) Music! Music! Music! e o consagrado Poinciana. Porém o melhor são as canções interpretadas pela “voz de trovão’, Johnny Hartman. Aqui, Clint Eastwood cometeu um verdadeiro crime: detentor dos direitos de alguns registros da extinta gravadora BeeHive, picotou o genial LP – nunca saiu em CD – Once in Every Life. Nele tem uma versão maravilhosa de Wave, de Tom Jobim e um não menos brilhante Moonlight in Vermont.

Em 1996 aconteceu um concerto em homenagem a Clint Eastwood no Carnegie Hall, com vários músicos de primeira. Quem tiver interessse em assisti-lo, está disponível em DVD: Eastwood After Hours: Live at Carnegie Hall. Grande concerto e grandes músicos.

Ouça algumas preciosidades do gosto de Clint.
Kevin Spacey canta That Old Balck Magic.




Dinah Washington canta I’ll Close My Eyes.




Johnny Hartman
Ouça uma que não está no disco do John Coltrane e é o máximo: “Charade”.




Esse texto foi publicado, pela primeira vez, em 2011.