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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Mel Tormé, Carlos Conde, Alberico Cilento e Siero

Carlos Conde foi uma referência para muitos de nós quando o assunto é jazz. Por muitos anos, até pouco antes de adoecer, manteve seu programa na Rádio Cultura, sempre trazendo novidades do gênero, adquiridas em suas viagens semestrais a Nova York e a outros lugares. Em cada viagem comprava cerca de 200 CDs. Para que não fossem apreendidos pela alfândega, jogava fora as caixinhas (jewel boxes), trazia os disquinhos em porta CDs da Case Logic, as capas e encartes em um envelope. 

Apesar da diferença de idade, ficamos amigos. Minha timidez impedia de abordá-lo e me apresentar. Outro grande especialista e colecionador era o Alberico Cilento. Via-o sempre na Grammophone, uma loja cuja matriz era no Rio de Janeiro, na avenida Juscelino Kubitshek, em São Paulo, e também na Edgar Discos, na rua Lacerda Franco, Pinheiros, que vendia mais discos usados do que novos. Não lembro direito de como ficamos amigos. Frequentei muito sua casa no Jardim Marajoara. Gostava de mostrar trechos de música com solos que considerava memoráveis. Aprendi muito com ele.

Por várias décadas, Alberico foi um dos bam-bam-bam do atendimento da DPZ. Ganhava muito bem mas nunca trocou seu Fiat 147; seus amigos diziam, “troca por um carro mais decente, mais de acordo com a sua posição”. Preferia ter um Steinway de um quarto da cauda do que se exibir andando em carrões. Na verdade, tinha dois pianos de um quarto de cauda. O Steinway da sala era para seus amigos músicos, como João Donato, tocarem. O Blüthner, que ficava na sua sala de música, onde ficava seu aparelho de som, os milhares de LPs e CDs, era para ele se exercitar como mero amador.

Não lembro também como foi a primeira vez em que conversei com o Carlos Conde. É bem provável que tenha sido na Grammophone. Vários compradores compulsivos de LPs, CDs e fitas de vídeo cassete (depois surgiram os Laser Discs, que eram caríssimos e tiveram vida curta) baixavam aos sábados de manhã na loja. É possível que Alberico tenha me apresentado ao Conde. Um outro colecionador que estava sempre lá era o Sieiro, um espanhol de voz forte, como a do Conde. Era mais eclético; gostava de todos os gêneros musicais, fora o sertanejo, certamente. Para se ter uma ideia, quando resolveu vender seus LPs que se encontravam no sítio em Mairiporã, entrou em contato com o músico e cantor Ed Motta e este arrematou 800 LPs de uma vez.

Apesar da diferença de idade, uns 25 anos, ficamos amigos. Do seu círculo de amizade de apaixonados por jazz eu era o mais novo. O negócio dele era o jazz trio, mais do que qualquer outra formação. Odiava jazz latino, vibrafones e congas. Nem podia ouvir falar de Tito Puente. Sendo um adolescente na década de 1970, fui iniciado no que chamavam de rock progressivo (Yes, King Crimson, Emerson, Lake & Palmer, Van der Graaf Generator). Daí, passar a me interessar pela música estritamente instrumental foi um passo natural. Conheci Weather Report, Soft Machine, Chick Corea e Miles Davis. 

Conde, Russell Malone e eu
Meu gosto se inclinava aos mais modernos também, como John McLaughlin, Miles Davis elétrico, Weather Report e outros, apesar de gostar muito dos mais antigos, como Duke Ellingotn, Coleman Hawkins, Lester Young e tantos outros, muitos deles a partir das dicas dos meus amigos jazzófilos. Como todo bom colecionador, Conde gostava de bisbilhotar o que os outros estavam comprando. Olhava os que tinha separado e dizia: Chick Corea? “Mas você é jovem, então, tudo bem”.

Com o tempo fomos ficando próximos. Como ganhava muitos convites para shows por conta de seu programa, passou a me convidar para vários deles. Os melhores eram os do Bourbon Street. Sentávamos sempre na primeira fileira. Assim, assisti às apresentações de Bucky Pizzarelli (umas três vezes), Carol Welsman, Nnena Freelon, John Carter, Russell Malone, Karyn Allyson e outros mais. Depois dos shows, íamos ao camarim e ele sempre pedia que os artistas autografassem os CDs e LPs que levava. Todos os que tenho autografados, consegui-os porque ia na cola dele.

A história do disco com assinatura falsa. Acho que existe ainda a Jazz Record Center, uma loja que fica no oitavo andar de um prédio na West 26th Street. Conheci por causa dele. Além de venderem discos novos, a especialidade são itens de colecionadores e uma vasta memorabilia como pôsteres, livros, camisetas e revistas. Um dos itens são LPs e CDs autografados. Foi aí que descobri que o Conde não pedia autógrafos apenas porque era fã. Ele levava para Nova York e vendia. 

Certa vez, logo depois de voltar de Nova York, Conde disse com a maior alegria de que tinha vendido um LP do Mel Tormé autografado por 120 dólares. Daí Alberico contou que ele e um outro amigo resolveram pregar uma peça nele dando o LP em que eles próprios falsificaram o autógrafo, sabendo da idolatria que elnutria pelo cantor. Nunca imaginariam que ele levasse o disco para vender. Resposta do Conde: “Agora já foi; está vendido”.

Um último parágrafo. Nos Estados Unidos, muitos discos são anunciados nas revistas com datas de lançamento determinadas. Desafortunadamente, o CD “The Classic Concert”, com Mel Tormé, Gerry Mulligan e George Shearing, gravação de um show de 1982 no Carnegie Hall, sairia alguns dias depois que Conde já não estaria em Nova York. Ele ficou louco. Como sabia que eu estava indo para lá pouco depois, ligou para mim pedindo que comprasse o disco. Disse que assistiu ao show e era importante tê-lo. Claro, comprei para ele e para mim na J&R. Ouça o CD.


quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Rei ou rainha, Teddi King, é cult



Teddi King nasceu Theodora King, em Boston, em 1929. Ganhou uma competição em sua cidade natal em um programa estrelado pela apresentadora e (boa) cantora Dinah Shore. O jornalista Sergio Augusto, em um artigo antigo, escreveu que Shore foi uma espécie de Hebe Camargo americana. Forçada. Cantava muito bem, ao contrário da emblemática apresentadora brasileira, que entrou na carreira artística participando de programas de calouros.

King gravou o primeiro disco em 1949, com Nat Pierce e excursionou por dois anos com o inglês George Shearing. Nat e George foram figuras importantes do meio musical anglo americano.

Teddi, sem ter chegado ao estrelato, tem fãs fanáticos. Como Irene Kral, outra cantora (uma das minhas preferidas), é uma cantora cult, ou seja, é pedante dizer, mas é venerada por um grupo seleto. Não lançou muitos títulos.

King desenvolveu uma enfermidade rara e complicada, lúpus, que a obrigou a se afastar do business da música, ainda no início dos anos 1960. Essa é a razão de ser pouco conhecida. Não fosse por isso, seria considerada uma das grandes. Uma sinalização de que seria, foi a de que foi empresariada pelo prestigiado George Wein, criador do Newport Jazz Festival.

Teve um breve retorno e gravou dois álbuns pela Audiophile, com o pianista Dave McKenna, que foram lançados postumamente. Teddi King morreu em 1977. Tinha apenas 48 anos.

Do repertório de King, evidentemente, destacam-se standards como “Porgy”, “You Don’t Know What Love Is”, “Our Love Is Here to Stay”, “You Go to My Head”, mas também, menos conhecidas, mesmo que gravadas por Frank Sinatra, Ella Fitzgerald e Ray Charles, como This Love of Mine, de Sol Parker.




Ouça “You Don’t Know What Love Is”.




Ouça “That Old Feeling”.




quinta-feira, 28 de junho de 2012

Jack Kerouac e o jazz

Neal Cassady é o da esquerda, e Kerouac, o da direita
Pelo jeito, como se dizia antigamente, On the Road (Pé na Estrada, pela tradução de Antônio Bivar), está na crista da onda de novo, em razão da proximidade do lançamento do filme de Walter Moreira Salles Jr. baseado no romance de Jack Kerouac. Esse clássico beat (a expressão “beatnik”, inventada pelo jornalista Herb Caen, com a adição de “nik”, inspirada no nome do primeiro satélite artificial lançado no espaço pela ex-União Soviética, não era de agrado de Allen Ginsberg, um dos notáveis desse movimento) foi o livro de cabeceira de várias gerações no mundo todo. Aqui, foi lançado apenas em 1984. Foram quase trinta anos de espera até a primeira tradução em português, lançada pela Brasiliense Editora, em 1978. Quem não quis (ou não conseguiu) esperar leu no original em inglês ou na edição lançada pela editora argentina Sudamericana, intitulada Por La Carretera (tirei essa informação do excelente texto publicado em OESP, em 22/6/2012, de Ignácio de Loyola Brandão; leia em http://bit.ly/MWEJ0c). Posteriormente, em 2004, a L&PM lançou a versão integral, sem os cortes impostos pela Viking Press em sua edição original.

O jazz, mais particularmente, o bop, gênero em voga no período pós-guerra, que teve protagonistas geniais como Bud Powell, Charlie Parker, Dizzy Gillespie e Miles Davis, era a música tocada nos bares, clubes, nas rádios, em casa e também nos alto-falantes dos automóveis. O jazz está entranhado em On the Road. Por curiosidade, procurei por essas passagens. A pesquisa foi feita na primeira edição do livro e não na lançada pela L&PM e traduzida por Eduardo Bueno. Tive a ideia de fazê-lo ao lembrar da paixão de Jack Kerouac por George Shearing.

O vento vindo do lago Michigan, bop-jazz no Loop, longas caminhadas ao redor de South Haisted e North Clark e, na madrugada silenciosa, uma longa jornada pela selva de pedra, quando uma râdio-patrulha me seguiu como suspeito. Nessa época, 1947, o bop enlouquecia a América. Os rapazes no Loop seguiam soprando, mas com um ar melancólico, porque o bop atravessava um momento indeciso entre o período ornitológico de Charlie Parker e a nova era que começou com Miles Davis. E enquanto eu sentava ali ouvindo esse som noturno que o bop tinha vindo representar para todos nós, pensei nos meus amigos espalhados de um canto a outro da nação e em como todos eles viviam frenéticos e velozes, dentro dos limites de um único e imenso quintal. Na tarde seguinte, segui para o Oeste pela primeira vez na minha vida. Era um lindo dia ensolarado, perfeito para cair na estrada. Fugindo da impossível complexidade do tráfego de Chicago, peguei um ônibus até Joliet, Illinois, cruzei pela penitenciária de Joliet, escapei em direção à periferia da cidade depois de uma caminhada por suas minúsculas ruas frondosas e deixei que meu dedo apontasse o caminho. (pág. 16)

Ouça o gênio Charlie Parker, com Miles Davis. “A Night in Tunisia”.



Parker e Dizzy Gillespie. “Hot House”.




[…] Eu tiritava no vento frio e chuvoso e observava tudo através dos tristes vinhedos de outubro deste vale. Eu estava com a cabeça nesta grande canção que é Lover Man, cantada por Billie Holiiday; curti meu próprio concerto entre os arbustos. “Someday we’ll meet, and you’ll dry ali my tears, and whisper sweet, little things in my ear, hugging and a-kissing, oh what we’ve been missing, lover Man, oh where can you be...” Não era tanto a letra mas a incrível melodia harmônica e o jeito que Billie canta, como uma mulher acariciando o cabelo de seu homem sob a luz suave do abajur. Os ventos uivavam. Fiquei com frio. (pág. 116)

Billie Holiday canta Lover Man.




Eles comiam vorazmente enquanto Dean, com um sanduíche na mão, pulava em frente a uma grande vitrola, escutando um disco de bop muito louco que eu havia comprado naqueles dias, chamado The Hunt; Dexter Gordon e Wardell Gray soprando seus trumpetes [está assim no texto, mas deve haver algum engano, pois ambos eram saxofonistas] numa performance magnífica perante a uma audiência delirante que transmitia ao disco um volume fantástico e frenético. A parentada sulista se entreolhou. surpresa, balançando a cabeça. “Afinal, que tipo de amigos Sal tem?”, diziam para meu irmão. Ele foi desafiado a lhes dar uma resposta. Os sulistas não gostam nem um pouco da loucura, principalmente feito essa do Dean. Ele simplesmente nem olhava para eles. A loucura de Dean havia desabrochado como uma flor exótica. Eu não tinha percebido isso até que ele, eu, Marylou e Ed Dunkel saímos para um breve giro de Hudson quando ficamos finalmente sozinhos pela primeira vez e pudemos falar o que bem entendíamos. Dean se grudou no volante, mudou de rota em um segundo, refletiu por um minuto e, numa decisão furiosa, fez o carro despencar estrada abaixo, a toda a velocidade. (pág. 119)

Tudo nesse mundo, todas as caras do mundo amontoavam-se dentro de um mesmo quarto úmido. Na casa de lan MacArthur a festa prosseguia. Ian MacArthur é um cara maravilhoso e gentil que usa óculos e espia a vida com paixão por detrás deles. Começou a aprender a dizer “Sim” para tudo, exatamente como Dean nessa mesma época, e não parou desde então. Sob o furioso som de Dexter Gordon e Wardell Gray soprando The Hunt, Dean e eu brincamos de pega-pega com Marylou por cima do sofá; ela já não era nenhuma boneca indefesa. Dean circulava sem camisa, apenas de calças, pés descalços, até que já era hora de pegar o carro e ir buscar mais gente. Aconteceu de tudo. (pág. 133)


Dexter Gordon e Wardell Gray. Eram comuns na época os chamados “sax battles”. “The Hunt”.




Encontramos o louco, extasiante Rollo Greb e passamos a noite em sua casa em Long Island. […] Fiquei imaginando como ele conseguia morar com ela dessa maneira. Ele tinha mais livros do que eu jamais havia visto em toda a minha vida — duas bibliotecas, dois quartos repletos de livros do rodapé ao forro em todas as quatro paredes, e livros como apócrifos da Bíblia ou qualquer coisa assim, em dez volumes. […] “Este Rollo Greb é o maior, o mais incrível de todos. É isso que to tentando te falar — é assim que eu quero ser. Quero ser como ele. Ele nunca se atrapalha, é capaz de entrar em qualquer uma, põe tudo pra fora, saca qual é a dá vida, não tem nada a fazer senão seguir o ritmo. Cara, ele é o máximo! Saca só, se você agir como ele, você finalmente vai conseguir.”

“Conseguir o quê?”

“ISSO! ISSO! Mais tarde te digo — agora não, agora não temos tempo.” Dean correu de volta para curtir Rollo Greb um pouco mais.

George Shearing, o grande pianista de jazz, Dean falou, era justamente como Rollo Greb. Dean e eu fomos assistir Shearing no Birdland no meio deste fim de semana longo e louco. O lugar estava às moscas, éramos os primeiros fregueses, às dez da noite. Shearing apareceu, cego, com alguém conduzindo-o pela mão até o piano. Era um inglês distinto e bem apessoado, com o colarinho branco duro, levemente bofe, loiro, envolto por uma suave brisa noturna de verão inglês que se tornou evidente no primeiro número suave e murmurante, que ele executou enquanto o baixista se curvava reverencialmente para ele enquanto marcava o ritmo. Denzil Best, o baterista, permanecia sentado e imóvel, exceto por seus pulsos estalando as baquetas. E Shearing deu início ao embalo; um sorriso aflorava de seu rosto extasiado; ele começou a suingar no banquinho do piano, para a frente e para trás, a princípio lentamente até que o ritmo esquentou e ele começou a balançar mais rápido, seu pé esquerdo marcando o ritmo de cada batida, seu pescoço acompanhando tortuosamente em loucos meandros, ele baixando a cara até os teclados, levando o cabelo para trás, seu penteado se desmanchando, e ele começando a suar. A música esquentou. O baixista arqueava surrando as cordas, mais e mais rápido, quer dizer, parecia ir cada vez mais rápido, apenas isso. Shearing começou a tocar seus acordes; eles ressoavam a cântaros pra fora de seu piano em incríveis tons suntuosos. Chegava-se a pensar que o homem não conseguiria alinhá-los. Eles deixavam o som rolar e rolar, como ondas do mar. A rapaziada gritava “Vai” para ele. Dean estava todo suado, o suor escorria pela sua gola. “Aí está ele! Ele é esse aí! O Pai de Todos! Shearing é o Pai de Todos!” Só é! Sim, é ele!” E Shearing já se apercebera do louco às suas costas, ele podia ouvir cada uma das exclamações e sussurros de Dean, não podia vê-lo mas podia senti-las. “É isso aí!”, disse Dean. “Legal!” Shearing sorriu; ele balançava. Shearing levantou-se do piano, suando em bicas; esses eram seus grandes dias de 1949, antes de ele ficar frio e comercial. Quando ele se foi, Dean apontou para o banco desocupado do piano. “O trono vazio de Deus”, disse. Sobre o piano repousava um trumpete; sua sombra dourada provocava um estranho reflexo na direção da caravana do deserto pintada na parede, atrás da bateria. Deus se fora, restava o silêncio de sua retirada. Era uma noite chuvosa. Era o mito da noite chuvosa. Dean estava abobalhado e reverente. Essa loucura não iria conduzir a lugar nenhum. Eu não sabia o que estava acontecendo comigo, e de repente percebi que era apenas o chá que estávamos fumando; Dean tinha comprado um pouco em Nova Iorque. Ele me fazia pensar que tudo estava prestes a acontecer — aquele momento em que você sabe tudo e tudo fica decidido, para a eternidade.
(pág. 133–135)

[…]

Eles entraram no clube da Anita 0’Day e ficaram tocando até as nove da manhã. Dean e eu estávamos lá, entre cervejas.

De repente, Dean encarou fixamente um canto escuro atrás do palco e balbuciou: “Sal, Deus acaba de chegar”.

Olhei. George Shearíng. E, como sempre, estava com a cabeça cega apoiada em sua mão pálida, com todos os poros do ouvido bem abertos, como o ouvido de um elefante, sempre escutando os sons da noite americana e rearranjando-os à sua maneira inglesa e notuma. Era preciso que ele começasse imediatamente. Ele tocou. Soprou milhares de refrões e estribilhos, uma quantidade inumerável deles, com acordes encantadores cada vez mais elevados, até que seu suor gotejasse sobre o piano e todos o escutassem com reverência e temor. Depois de uma hora o conduziram fora do palco. Ele retornou para seu canto escuro, o velho Deus Shearing; os rapazes comentaram, desiludidos: “Já não resta mais nada, depois dele.” Mas o líder da banda, aquele sujeito esbelto e esguio, franziu as sobrancelhas e sentenciou: “Vamos tocar um pouco, mesmo assim”.

Havia ainda algo a escutar. Sempre há mais, um pouco além, nunca acaba! Eles se contorceram na tentativa de novas frases musicais depois das ousadas explorações do infinito universo sonoro de Shearing; isso exigia deles um esforço descomunal. Retorceram-se, se enroscaram, sopraram com paixão. De vez em quando um gemido preciso e harmonioso sugeria uma nova melodia que algum dia até poderia se transformar na única música do planeta Terra, enchendo de alegria os corações dos homens. Eles a encontravam momentaneamente, seguravam-na por frações de tempo e perdiam-na, contorcendo-se em busca do som puro e único, e voltavam a encontrá-lo, sorriam, gemiam — e Dean suando em bicas os incentivava vai, vai, vai. (pág. 253–254)


George Shearing toca Lullaby of Birdland, sua composição mais conhecida. Veja.




Peggy Lee canta, Shearing a acompanha ao piano. Veja.




De repente Dean ficou indignado com um disco que a pequena Janet estava escutando e quebrou-o no joelho: era um disco de música sertaneja. Na casa, também havia um disco de Dizzy Gillespie que ele realmente admirava — Congo Blues, com Max West na bateria. Eu o tinha dado de presente para Janet na minha primeira estada, e agora eu lhe dizia, enquanto ela chorava, que pegasse o disco e o quebrasse na cabeça dele. Foi exatamente o que ela fez. Dean cambaleou e entendeu tudo. Rimos todos. Estava tudo bem. Então mamãe Frankie quis sair para beber cerveja nos bares da estrada. “Vamos logo!”, gritou Dean. “Tá vendo que merda? Se você tivesse comprado aquele carro que te mostrei na terça-feira, não teríamos que caminhar.” (pág. 230)


Também jogamos basquete, e tão freneticamente que os meninos diziam: “Calma, não precisam se matar”. Eles saltitavam agilmente à nossa volta e nos venciam com a maior facilidade. Dean e eu suávamos. […] Ofegávamos, bufávamos na tentativa de tirar a bola das mãos dos meninos; eles davam um giro e saíam jogando. Outros imprimiam uma arrancada veloz e jogavam a bola sobre nossas cabeças. Pulávamos em direção à cesta como loucos, os garotos se limitavam a levantar os braços, tirar a bola de nossas mãos suadas e driblar-nos sem a menor dificuldade. Éramos como músicos de programas de calouros tentando jogar basquete contra Stan Getz e Cool Charlie. Pensaram que éramos loucos. (pág. 265)


Outrora fora Louis Armstrong, mandando ver nos lamaçais de Nova Orleans; antes dele, os músicos loucos que entravam nas paradas, aos feriados, e desfaziam as marchas marciais transformando-as em ragtime. Surgiu então o swing, e Roy Eldridge, vigoroso e viril, quase rebentando seu trumpete ao arrancar dele sonoras ondas de poder, sutileza, astúcia e requinte lógicos — inclinado, com os olhos radiantes e um sorriso encantador, fazendo gingar todo o universo do jazz. Chega então a vez de Charlie Parker entrar em cena, ele era apenas um garoto no casebre de madeira de sua mãe em Kansas City, soprando seu sax-alto todo remendado, entre as toras, praticando apenas nos dias de chuva, fugindo vez ou outra para assistir a banda do velho Basie e de Benny Moten, que tinha Hot Lips Page e todo o resto — e então Charlie Parker saiu de casa e foi para o Harlem encontrar o louco Thelonious Monk e Gillespie, mais louco ainda — Charlie Parker, que na mocidade movia-se em círculos enquanto tocava. De alguma maneira mais moderno, mais inovador do que Lester Young, também nascido em Kansas City, aquele bobalhão singelo e sombrio no qual está envolta toda a história do jazz — porque, ao erguer seu sax, retilineo e horizontal, sempre colado à boca seca e calejada, ele tocava melhor do que qualquer outro; e à medida que deixava o cabelo crescer ia ficando mais preguiçoso e desleixado, deixando o sax à meia altura; até que ficou definitivamente apontado para baixo e hoje, calçando seus sapatos de sola larga para não se desgastar nas calçadas dessa vida, Young sustenta debilmente seu sax, mantendo-o sempre de encontro ao peito, soprando notas fáceis — cool, ainda assim. São essas as crianças da noite bop americana. (251–252)


Ouça Lester Young, acompanhado pelo pianista Teddy Wilson, tocando Prisoner of Love.


terça-feira, 26 de junho de 2012

Bom dia, tristeza. Ou: a melhor das tristezas

George Shearing e Mel Tormé: parceiros ideais
A melhor interpretação — cantada pelo menos — de Good Morning Heartache é a de Billie Holiday. Essa composição de Dan Fisher, Irene Higginbotham e Ervin Drake, foi gravada pela primeira vez (presumo, não estou cem por cento certo) por Billie para a gravadora Decca, em 22 de janeiro de 1946, com a orquestra de Bill Stegmeyer (Gordon ‘Chris’ Griffin e Joe Guy nos trompetes, Bill Stegmeyer no sax alto, Hank Ross, Armand Camgros e Bernie Kaufman no sax-tenor, Joe Springer no piano), Tiny Grimes na guitarra, John Simmons no contrabaixo, e Sidney Catlett na bateria. Muitos, posteriormante, a gravaram: Dinah Washington, Tony Bennett, Ella Fitzgerald, Billie Eckstine, Dee Dee Bridgewater, Joe Williams, Carmen McRae, Rosemary Clooney, Etta James, Natalie Cole.

Pelo título, pode se presumir que não é uma canção “para cima”. Canta a dor que não sai dela: “Bom dia, tristeza/ Achei que tínhamos nos despedido noite passada/ Me virei e revirei e achei que você tinha ido embora/ Mas aqui está você com o alvorecer/ […] // Bom dia, tristeza/ Você é aquela/ Que me conhece bem/ Poderíamos até dar umas voltas por aí/ Bom dia, tristeza/ Sente-se.”

Na Capitol, George Shearing registrou dois discos em seu nome é grafado com o mesmo peso do segundo, gente do primeiro time, como você vai ver: com Peggy Lee — Beauty and the Beat (1959) —, trocadilho evidente sobre “A Bela e a Fera”, e Nat King Cole Sings/George Shearing Plays (1962).

Pela Concord Jazz, gravou discos com Mel Tormé (Top Drawer, A Vintage Year, An Evening with George Shearing & Mel Tormé, An Evening at Charlie's, Mel and George "Do" World War II e A Vintage Year), Brian Torff (On a Clear Day e Blue Alley Jazz), Ernestine Anderson (A Perfect Match e Dexterity), Marian McPartland (Alone Together), Carmen McRae (Two for the Road), Michael Feinstein (Hopeless Romantics), Gary Burton (Bright Dimensions) e Hank Jones (The Spirit of 176). Pela Telarc, gravou com John Pizzarelli, The Rare Delight of You. Como Shearing gravou muita coisa, posso ter esquecido de alguns dos que gravou em “dupla”.

George Shearing nasceu na Inglaterra. Era o mais novo dos nove irmãos. Nasceu cego (leia mais em “Ensaio” sobre a cegueira no piano). Cego de nascença e de família numerosa: filho da classe operária. O que lhe salvou de herdar a pobreza dos pais foi o talento revelado quando ainda criança no piano. Pouco depois do fim da 2ª Grande Guerra, emigrou para os EUA e passou a tocar em casas de jazz. Dono de estilo bem pessoal, além da linguagem jazzística, absorveu as lições de compositores da música erudita, como Erik Satie e Claude Debussy. Bright Dimensions, que gravou com o vibrafonista Gary Burton, em 1984, é um bom exemplo dessa combinação do erudito com o jazz. Não apenas instrumentista, Shearing, de vez em quando, cantava (e bem), e é autor de dois clássicos: September in the Rain e Lullaby of Birdland. O inglês, mesmo naturalizado americano, recebeu o título de “Sir” pelas mãos da rainha Elizabeth II, em 2007. Honraria merecida para alguém que gravou cerca de 300 discos em seus 91 anos de vida.

Apesar de ter gravado dois discos em duo com o baixista Brian Torff, Good Morning Heartache não está em nenhum deles; está no álbum “An Evening with George Shearing & Mel Tormé”. Os dois gravaram muitos discos juntos. Eram o que definem como “a perfect match”.

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George Shearing e Jack Kerouac. O autor de On the Road — Pé na Estrada, na tradução de Antônio Bivar, para a Editora Brasiliense — tinha verdadeira paixão pelo jazz. Esse gênero, nas décadas de 1940-50, era o que foi o rock na década seguinte. Kerouac adorava o pianista inglês. Leia um trecho:

De repente, Dean encarou fixamente um canto escuro atrás do palco e balbuciou: “Sal, Deus acaba de chegar”. Olhei. George Shearíng. E, como sempre, estava com a cabeça cega apoiada em sua mão pálida, com todos os poros do ouvido bem abertos, como o ouvido de um elefante, sempre escutando os sons da noite americana e rearranjando-os à sua maneira inglesa e notuma. […] Depois de uma hora o conduziram fora do palco. Ele retornou para seu canto escuro, o velho Deus Shearing; os rapazes comentaram, desiludidos: “Já não resta mais nada, depois dele.”

terça-feira, 26 de outubro de 2010

“Ensaio” sobre a cegueira no piano

É bem conhecida a história de que Django Reinhardt não tinha movimento em dois dedos da mão esquerda devido a um acidente doméstico. Mesmo assim é considerado um dos maiores guitarristas de todos os tempos. É onde entram o “apesar de”, ou “mesmo assim”.

Algumas limitações físicas podem ser impedimentos para algumas atividades. Existe um número significativo de músicos cegos. Enxergar não parece ser um empecilho efetivo. De todos, o que ficou mais conhecido foi Ray Charles. Além da voz abençoada, tocava piano e saxofone e prendado de enorme carisma naquele seu jeito “balouçante” de caminhar e tocar. Como uma brincadeira de que, na verdade, “vê” muito bem, lembram-se de uma cena em The Blues Brothers? Ray encarna um vendedor de uma loja de instrumentos musicais. Um menino tenta surrupiar uma guitarra (era isso? Não lembro direito; vi há algumas décadas). Ray pega um revólver e enxota o pretendente a larápio. A música é uma arte bem mais abstrata que a pintura. Sua beleza ecoa pelo ar. Não é vista.

A música popular é o “lugar” natural desses intérpretes cegos. em sua maioria, nascidos em regiões muito pobres. No Brasil, na região nordestina, encontram-se muitos repentistas, rabequistas e sanfoneiros cegos apresentando-se nas ruas e feiras. Alguns dos mais conhecidos intérpretes do blues são cegos… e negros: Blind Lemon Jefferson, Blind Willie McTell, Blind Willie Jonhson. Poucos tiveram aprendizado formal. “Apesar de” ou “mesmo assim”, ficaram conhecidos devido aos seus talentos, principalmente. É natural haver certa mistificação sobre essas figuras: “apesar de cegos são bons”.

No jazz, não é diferente. O multi-instrumentista Rahsaan Roland Kirk é um deles. Era um pouco estranho aquela figura de óculos escuros com três ou quatro instrumentos pendurados no pescoço apresentando-se. Mais estranho era o fato de que tocava mais de um ao mesmo tempo. Kirk tocava sax-tenor, manzello, flauta e outros instrumentos de sopro. Conseguia tocar flauta com o nariz. Se não fosse bom caberia bem como atração circense. Mas o maluco não só tocava tantos instrumentos como produziu uma música que explorava gêneros como o swing, o bebop, o free jazz e até o pop.

A seara que abrigou uma enormidade desses grandes talentos, no entanto, foi a dos teclados. O maior deles foi Art Tatum. Cego de um olho e quase sem enxergar do outro, gravou centenas de músicas em brilhantes interpretações. Suas mãos dançavam sobre as teclas, literalmente. Era um poço criativo. Basta comparar interpretações de uma mesma música. Cada interpretação de uma mesma música, era única..

Outro quase tão genial foi Lennie Tristano. Sua música era harmônica e melodicamente intrincada, sofisticada e angulosa. Antecipou, de certo modo, Bill Evans. Depois de tanto tempo de quando foram gravadas, suas composições e mesmo interpretando standards, não perdeu a contemporaneidade. Seus solos em acordes vigorosos, meio “quebrados”, são brilhantes na sua maneira percussiva de marcar os ritmos no registro mais grave do piano.

Shearing “esbarra” em Stevie Wonder
Logo após o primeiro número, em show de 1981, em Pasadena, California, George Shearing puxa o microfone, dá umas batidinhas com a mão para ver se tem som e diz que a composição é de Cole Porter e se chama Love for Scale. Ups, corrige logo: Love for Sale. Antes de anunciar a segunda, ouve alguns sons estranhos — é claro que é uma brincadeira de seu acompanhante, o baixista Brian Torff — e diz: “Pequena sabotagem. É Ray Charles que está por aí?” A plateia cai na gargalhada. “Num dia claro e mesmo assim não consigo ver”. Nova graça para dizer que vai tocar On a Clear Day. Esse inglês, autor do clássico Lullaby of Birdland, nascido em 1919, vivo ainda, portanto com 91 anos, é um pianista versátil, que incorporou as várias evoluções da linguagem jazzística que presenciou. Além dos álbuns que tocou em vários formações, possui gravações excepcionais com cantores como Carmen McRae e, principalmente, Mel Tormé.

Veja Tormé e George Shearing em “Lullaby of Birdland”. É um clássico na voz do americano.




Outro pianista muito bom, pouco conhecido — ou pouco reconhecido? — foi Chris Anderson. Sabe-se que foi professor de Herbie Hancock. Gravou pouco. Além de cego, tinha problemas sérios ósseos. Faleceu em 2008. Existe uma gravação excepcional em catálogo, que fez com o baixista Charlie Haden. Respeitosamente, Haden é quase que um acompanhante. É ele que ouvimos em Body and Soul.