quinta-feira, 30 de maio de 2019

O amor por Irene Kral

Uma vírgula faz muita diferença. Seria o meu amor por Irene Kral? Meu caso é muito antigo. Não sei precisar quanto tempo e nem quando começou. Quem me apresentou, acho, foi Alberico Cilento. Sabendo do meu interesse por vozes femininas, sempre colocava um CD de alguém que achasse eu não conhecer, quando ia à sua casa. Quem me acompanha aqui no blog, sabe que ouvi pela primeira vez Helen Merrill por seu intermédio. E acho que com Kral foi a mesma coisa.

Não são muitos os que a conhecem porque morreu jovem: nasceu em 1932 e morreu em 1978, em decorrência de um câncer na mama. Um deles é Clint Eastwood. Fã e profundo conhecedor de jazz, chegou a patrocinar eventos musicais em Carmel, cidade da Califórnia em que chegou a ser prefeito; e é pai do contrabaixista Kyle Eastwood. Dono de um gosto refinadíssimo, na trilha sonora de “The Bridge of Madison County” (1985), incluiu dois intérpretes considerados underrated: Johnny Hartman e Irene Kral. Assim, alguns mais tiveram o privilégio de conhecê-la.

Kral é aquele segredo que seus admiradores ciumentos receiam em contar. Outra grande admiradora sua é Stacey Kent. Leia o que escreveu no encarte de “Gentle Rain”, álbum de 1977, em que é acompanhada pelo brilhante Alan Broadbent: “Irene Kral é uma das maiores cantoras de todos os tempos. Minha primeira exposição a ela foi ouvir esse álbum, com Alan Broadbent e eu fiquei imediatamente hipnotizada. Ela tem um ataque, uma maneira de se aproximar de uma nota, que é clara e incisiva, mas tão suave e quente. Há uma sublime ressonância como um violoncelo na sua voz, um som que fala diretamente ao coração. As músicas desse álbum são todas perfeitamente compatíveis com a sua voz incomparável, e suas interpretações são, ao mesmo tempo, pungentes e sinceras, seguras e ainda assim passam a impressão de fragilidade.”

Seu sobrenome, àqueles que ouvem jazz, não é estranho: era irmão de Roy Kral, da dupla Jackie and Roy. Alguns, quando souberam da existência de Irene, pensaram que tinha parentesco com Diana Krall. Mas, não: além do “L” a mais no sobrenome, esta última é canadense, e ela, natural de Illinois, Chicago.

Bem menos conhecida que o irmão mais velho, Irene começou tocando piano. Depois de uma breve passagem na banda de Woody Herman, participou do grupo vocal The Tattletales. O impulso importante foi quando, por recomendação de Carmen McRae, passou a fazer parte da banda de Maynard Ferguson, em 1957. Nela, conheceu Joe Burnett, com quem casou.

Em 1959, virou vocalista do programa The Steve Allen Show. Gravou seu primeiro disco – “Steveireneo!” –, pela United Artists, apenas com composições do apresentador, com uma banda de estrelas: Al Cohn, Zoot Sims, Urbie Green, Jimmy Raney, Danny Banks, Eddie Cane e Hank Jones, dentre outros. No mesmo ano, saiu outro disco, com a big band de Herb Pomeroy – “The Band and I”. Depois que passou a morar na Califórnia, cantou na banda de Shelly Manne.

Pelo início de sua carreira, parecia que Irene estava talhada para ser uma cantora de big bands, como June Christy, Chris Connor e Anita O’Day, para citar suas mais ou menos contemporâneas. E parecia ser esse o seu maior desejo. Afirmou uma vez que tinha nascido na época errada. Suas preferências eram pelas big bands como a de Woody Herman e Stan Kenton. Mas o fim dos anos 1960 representou o fim delas, ou quase. Na nova era, quatro ou cinco cabeludos tinham mais público e fãs do que uma big band de Count Basie ou Duke Ellington.

Irene Kral, entretanto, adaptou-se maravilhosamente aos novos tempos, assim como Christy, Connor e O’Day. Em relação às três citadas, não ficou tão conhecida, provavelmente, por, mudando-se para um pequeno subúrbio de Los Angeles, com filho para criar, preferir apresentar-se apenas em clubes das proximidades. Mas, um dia, o casamento acabou. Até que durou bastante.

Arrumou um namorado, Dennis Smith, que lhe deu a maior força para retomar a carreira efetivamente. Em 1975, gravou “Where Is Love?”, pelo selo Choice, ela e Alan Broadbent ao piano. Na nova era, optou pelo formato mais minimalista. E assim, revelou-se a tremenda intérprete que era, uma voz cálida, intimista, levemente anasalada, suave, sedutora, num formato em que não é possível enganar.

Nas notas do encarte, Kral escreveu: “Deve ser ouvido apenas naquela hora tranquila do dia, de preferência com alguém que você ama, quando você pode afundar na sua poltrona favorita, fechar os olhos e deixar pensamentos externos de lado.” Foi, antes de mais nada, uma cantora de baladas. Dizia que preferia três vezes mais esse tipo de canção que as “up tunes”.

Antes desse álbum, o anterior foi “Better Than Anything”, em 1963, com Junior Mance, Bob Cranshaw e Mickey Rocker. Nesse, temas mais uptempo, como “Better Than Anything”, “Rock Me to Sleep”, “Passing By”, It’s a Wonderful World”, “Just Friends” e “Nobody Else But Me”, equilibram-se com “The Touch of Your Lips” e “Guess I’ll Hang My Tears out to Dry”. Belo disco!

Ouça “When I Look in Your Eyes”, de “Where Is Love?”




No álbum seguinte, “Kral Space”, de 1977, pela Catalyst, com o mesmo Broadbent, dessa vez acompanhada por um contrabaixo, bateria, percussão e vibrafone, é um pouco mais suingado. Matthew Ball, do site allmusic é só elogios quanto às qualidades vocais dela: “Sempre impecavelmente afinada, Irene Kral tinha um registro de contralto seco e ressonante que empregava com efeito devastador. Sua arte estava em seu fraseado, que foi ajudada pela dicção perfeita e marcada por sua tendência a alongar suas vogais.” Outra grande qualidade é a dela mesclar clássicos como “Everytime We Say Goodbye” e “The Song Is You”, com músicas dos cult Dave Frishberg (“Wheelers and Dealers”) e Bob Dorough (a belíssima “Small Day Tomorrow”) e “Star Eyes”, e um clássico nem tão conhecido de Gene De Paul e Don Raye. Pelos dois álbuns – “Where Is Love” e “Kral Space” – foi indicada no Grammy como melhor performance vocal.

Ouça “Small Day Tomorrow”




Não sei precisar qual foi o último que lançou em vida. Morreu em agosto de 1978. “Gentle Rain”, mais um disco com Alan Broadbent, foi gravado em 1977, mas não sei se saiu quando ainda estava viva. Nesse, além do clássico de Luiz Bonfá, tem duas de Dave Frishberg – “The Underdog” e “You Are There” – e standards como “Something to Live for”, Blue Gardenia”, “What’s New?” e “If You Could See Me Now”.

Ouça “Gentle Rain”.




Depois da morte
Quando Kral podia consagrar-se, veio um câncer. Lutou contra por cerca de seis anos. Uma pena. Por conta disso e o “afastamento” para cuidar dos filhos, gravou poucos discos. Depois que morreu, foram lançados vários, na maioria com apresentações ao vivo, com resultados desiguais.

Alguns dos CDs:
• “Live” (Just Jazz, 2000)
• “Just for Now” (Jazzed Media, 2004)
•  “Second Chance” (Jazzed Media, 2010)
• “You Are There (Audiophile, 1999) coletânea
• “Gentle Rain: Live in Tokyo” (Absord, 1977)
• “Irene Kral - In the Name of Love” (2015)





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