Mostrando postagens com marcador Nina Simone. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Nina Simone. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Nunca é demais um Jeff Buckley a mais


Ele foi o assunto de alguns posts neste blog e, provavelmente, não será o último. É um pouco por fascínio e incredulidade por mortes como a dele e, claro, por seu enorme talento.

Em 27 de maio de 1997, Jeff Buckley e o roadie Keith Foti pararam às margens do rio Wolf. Jeff disse que ia entrar na água. Enquanto Keith pegava algo no carro, entrou com roupa e tudo no rio, cantando “Whole Lotta Love”, de Jimmy Page e Robert Plant. Foi encontrado distante alguns quilômetros adiante, próximo ao rio Mississippi, dias depois. Tinha 30 anos e “Grace”, seu álbum de estreia, era sucesso entre o público e a crítica.

Por esses dias ando a ouvir o álbum duplo póstumo “Live at Sin-é” e também os registros encontrados posteriormente e lançados recentemente: “Live at Cabaret Metro, Chicago” (13/5/1995), “Live at Wetlands, New York” (26/8/1994), “Live at Columbia Records Radio Hour” (4/6/1995) e “Live from Seattle, WA” (7/5/1995). Como Buckley vende ainda, relançaram ainda os póstumos, em versões “expanded edition”: “Sketches for the Sweetheart” e “Mystery White Boy”. Saiu uma coletânea de números ao vivo, recentemente que não sei se são inéditas, mas é bem possível que estejam repetidos nos citados anteriormente: “In Transition”. Conclusão: não sou eu apenas a continuar interessado — e a ouvir — em Jeff Buckley.

Pouco antes de “Grace”
Apenas para situar, Jeff era filho de Tim Buckley, cantor popular em sua época, morto aos 28 anos por overdose de heroína. Em um show tributo ao pai, apresentou-se e chamou a atenção de alguns produtores. Na ocasião, conheceu Gary Lucas, do Captain Beefheart. Saiu da Califórnia e foi tentar a sorte em Nova York. Dentre os lugares em que apresentou-se, o Sin-é tornou-se o mais frequente. Nele, servia café e, uma vez por semana, às segundas-feiras, fazia um pequeno show.

O Café, situado no East Village, ficou pequeno para o público que passou a aparecer. O repertório era bem eclético: Bob Dylan,Van Morrison, Nina Simone, Billie Holiday, Leonard Cohen, e até Nusrat Fateh Ali Khan, seu Elvis Presley, como diz antes de cantar “Yeh Jo Halka Halka Saroor Hai”, em paquistanês. Mas incluía também músicas próprias, que depois fariam parte de “Grace”. Acompanhado apenas da sua guitarra. Interagia com o pequeno público e incluía riffs e trechos de Nirvana, The Doors e Led Zeppelin. Jeff não foi da geração que amava os Beatlers e os Rolling Stones, como cantava Gianni Morandi em sua canção-protesto “C'era Un Ragazzo Che Come Me Amava Beatles i Rolling Stones”. A sua foi a que cresceu ouvindo Led Zeppelin, que seu pai colocava na vitrola, quando era pequeno. Parece até ficção que tenha caminhado para a morte cantando “Whole Lotta Love”, segundo Keith Foti, quando desapareceu nas águas do rio Wolf.

Dramático
Ninguém fica impune amando Nina Simone. Nos registros do Sin-é não consta “Lilac Wine”. Mas está presente com “If You Knew”. Jeff queria ser Nina. Jeff gostava das chamadas “torch songs”, não especificamente relatando amores perdidos, porém no sentido de dar cores dramáticas às interpretações. Em “Mojo Pin”, número de abertura de “Gace”, misturam-se delicadeza, na voz lamentosa introdutória, e uma tristeza interior, que culmina em um grito torturado e dolorido.

Com o sucesso do primeiro álbum, Jeff sofreu a pressão da gravadora — e dele próprio, presumo —, para fazer outro tão bom quanto. Para a sua extrema sensibilidade, foi muito. Não conseguiu terminá-lo. Morreu antes. Segundo os legistas, não estava drogado ou alcoolizado e, concluíram que pode ter sido um acidente mesmo, e não, suicídio. É, entretanto, estranho ter morrido assim sem ter concluído o que seria seu segundo disco.

Sempre Jeff
Gerações que não viveram a época em que Buckley surgiu, têm a oportunidade de conhecê-lo com os relançamentos e com os registros de apresentações ao vivo disponíveis agora. Aos que o conheceram quando foi lançado “Grace”, nunca é demais ouvi-lo nessas gravações que foram sendo reveladas depois. Em cada uma há diferenças do modo como interpreta as mesmas canções, tantas vezes repetida. É como deleitar-se com as sutilezas de um amor eterno, aquele amor que nasceu em ‘Grace” e é sempre lembrado.

No ao vivo no Sin-É, não há registro de “Lilac Wine”, um dos números mais emblemáticos do repertório de Jeff. Há, entretanto, outra “torch song” clássica. Ouça sua versão matadora de de “Strange Fruit”.




Ouça “Mojo Pin”, em registro de 1994, no Wetlands, em Nova York. É uma faixa bem mais longa do que a gravação em estúdio. É interessante, porque fica reforçado seu gosto pela forma lamentosa de interpretação. Essa versão de quase 15 minutos é excepcional.




Ouça uma versão longa de “Lilac Wine”. Esta é do ao vivo no Columbia Records Radio Hour, Nova York, em 4 de junho de 1995.







quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

A primeira de um milhão de interpretações de “Wild Is the Wind”

Shirley Horn, grande cantora e pianista.
Ganha um pirulito quem sabe quem foi o primeiro a cantar “Wild Is the Wind”. Bom, se você disse que é Johnny Mathis, acertou na mosca. Mas, quem se lembra dele? Possuía uma bela voz, açucarada, se é que me entendem. Teve, entretanto, seus fãs, até no Brasil.

“Wild is the Wind” é o nome de um filme dirigido por George Cukor, lançado em 1957, com Anna Magnani e Anthony Quinn. No Brasil, o título foi “Fúria na Carne”. Os portugueses foram mais literais: “Selvagem É o Vento”. A música tema foi composta por Dimitri Tiomkin, com letras de Ned Washington..

Depois de Mathis, a primeira a gravar pode ter sido Nina Simone, em “Nina Simone at Town Hall” (1959). Sua versão mais conhecida, no entanto, é a que está no álbum “Wild Is the Wind” (1966). Apesar de muitos intérpretes tê-la cantado, ficou quase indissociável a ela, tanto que é a referência de músicos pop, como David Bowie e Cat Power.

Uma das melhores interpretações é de Shirley Horn, de 1961.




Jeff Buckley (leia “O morto Jeff Buckley”) adorava Nina Simone. Em outra encarnação, possivelmente, sonharia em nascer na pele dela. Um dos grandes covers dele, além de “Hallelujah”, de Leonard Cohen, é “Lilac Wine”. Existe, se não me engano, um registro dele cantando “Wild Is the Wind”. É pena que não tenha uma gravação de boa qualidade. Jeff tinha uma atração fatal pelos estados de dor e melancolia. Combinava bem com torch songs.

Menos obcecado por Simone, David Bowie canta “Wild Is the Wind” de forma menos dramática.



A melhor das releituras modernas de “Wild Is the Wind” é de Cat Power. É outra que se dá bem em canções tristes. Ouça.




Leia também sobre outro clássico que ficou conhecido na voz de Nina Simone: “Breve história de Lilac Wine”.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Breve história de Lilac Wine

O musical “Dance Me a Song” ficou pouquíssimo tempo em cartaz, mas uma canção que fazia parte dele tornou-se um clássico. Composta por James Shelton, “Lilac Wine” é uma torch song daquelas. O tal do “vinho lilás” o leva a um delírio etílico em que busca o amor que ele próprio não está convencido de sentir: “Quando eu penso mais do que quero pensar/ Faço tantas coisas que nunca deveria fazer/ Bebo muito mais do que devo beber/ Porque isso me leva de volta pra você…/ Vinho rubro é doce e faz a cabeça, como meu amor/ Vinho rubro, eu me sinto inconstante, como meu amor/ Escute-me…/ Eu não consigo ver claramente.” Shelton inspirou-se, pelo que se sabe, em uma linha do romance “Sorrow in Sunlight”, de Ronald Fink: “offering a light lilac wine, sweet and heady.”


A versão mais conhecida – ou a que você conhece – deve ser a de Nina Simone. É excepcional, sem dúvida, mas é uma música que, acredite, até ficou boa com Miley Cyrus. Uma das primeiras a gravá-la foi Eartha Kitt, em 1953. Outra grande cantora gravou “Lilac Wine”, em 1955: Helen Merrill.

Ouça a de Kitt.



Ouça a de Helen Merrill. É uma das minhas preferidas.




A consagração absoluta veio mesmo é com a de Nina Simone, em 1966. É de Nina o melhor “Listen to me…/ I cannot see clearly.” É dramaticamente belo o breve silêncio do piano.

Ouça a de Nina.




Jeff Buckley, se quisesse ser outro alguém, queria ser a Nina Simone. Era um apaixonado por ela. Não poderia ter deixado de gravá-la. Ouça. É grande. Combinava com sua persona. Não é à tôa que morreu daquela maneira. [sobre a morte dele, leia “O morto Jeff Buckley”




Veja Buckley cantando “Lilac Wine” em Chicago.


Aqui e agora
Estava a ouvir “Wonder Wheel”, de André Fernandes, bom guitarrista português, e a última faixa do álbum é justamente “Lilac Wine”, cantada por Inês Souza. Muitos devem desconhecer que Portugal é um grande pólo do jazz, não só pelo tradicional festival de Cascais. Há uma enormidade de bons nomes como os de Mário Laginha (o pianista desse disco), Susana Santos Silva, Bernardo Sassetti, Rodrigo Amado, Sara Serpa, Carlos Martins e Julio Resende, dentre outros.

Veja Inês Souza, com a banda de André Fernandes a cantar “Lilac Wine”.


terça-feira, 28 de julho de 2015

Nina Simone revista e revisitada

Um CD e um documentário na Netflix, lançados neste mês, trazem o nome de Nina Simone à luz da ribalta. O primeiro chama-se Nina Revisited, e o segundo, What Happened, Nina Simone?

Boa pergunta: o que aconteceu com Nina Simone? Ela é uma daquelas unanimidades, uma quase deusa, de quem não se pode falar, sob o risco de ser linchado publicamente. Alguns nomes despertam esse sentimento beatífico. Como Chet Baker, ou, Elis Regina. No caso da brasileira, parece que ninguém se lembra que andou cantando Eu Te Amo Meu Brasil, de Dom e Ravel, e que foi orgulhosa participante dos festejos dos 150 anos da Independência do Brasil, em 1972, época em que a ditadura fazia um bom estrago. Por esse episódio, o humorista Henfil enterrou-a no Cemitério dos Mortos-Vivos do Cabôco Mamadô, que era o lugar para onde mandava os afinados ao regime militar.

Nina Simone, pelo contrário, nunca “cantou” ou adulou ditadores. Seu despertar para a segregação racial, aliás, ceifou a carreira ascendente da cantora.

Nina, nascida Eunice Kathleen Waymon, adotou o nome unindo “Nina”, derivado do apelido “Niña” que um namorado lhe dera quando adolescente, e “Simone”, depois de ter visto um filme da atriz francesa Simone Signoret. Coincidentemente, seu primeiro álbum chamou-se Little Girl Blue. Era comnhecida quando casou-se com Andrew Stroud. Este largou a polícia para tornar-se seu empresário.

Andy era um cara esperto. Investiu em um show no Carnegie Hall, Nova York. Foi a virada. Consagrada, a agenda vivia lotada. E o dinheiro veio em pencas. Compraram uma bela casa e tiveram uma filha: Lisa. O marido caiu como uma luva em relação aos seus mais íntimos desejos. Em uma lousa de sua casa estava escrito: “Serei a negra mais rica”’. Além da casa, possuía um carro luxuoso na garagem e tinha prazer em ver estampadas fotos posando em seu possante automóvel.

Se Andrew era bom empresário, como marido não era dos melhores. Batia em Nina com frequência. Pelo jeito, Nina não via isso como problema. Sentia-se esgotada com o número de apresentações que tinha de fazer. Vivia se queixando de cansaço, dormia sob efeitos de soníferos, reclamava, mas ele dizia: se você quer ficar rica tem que trabalhar. Nesse estado, perdera a vontade de fazer sexo.

Os dois tinham ido a uma boate e um admirador deu-lhe um bilhete. Andrew viu-a colocar o papel no bolso. Enfurecido, tirou-a de lá a passou a socá-la. Em casa, continuou, até quando subiam a escada. Apontou-lhe uma arma, amarrou-a na cama, e a estuprou. Não era normal. Em seu diário está escrito: “Adoro violência física, mesmo no sexo e no amor.”

Os distúrbios de setembro de 1963, em Birmingham, depois da morte de quatro crianças negras e 20 feridos em uma decorrência de uma bomba jogada em uma escola cristã, representam uma guinada na vida e na arte de Nina. Revoltada, lança Mississippi Goddam. A cantora que desejava ser a negra mais rica deixou de existir. Era agora a Nina “Passionária”, engajada. A luta pelos direitos civis aproximou-a de intelectuais negros como Langston Hughes, James Baldwin, o cantor Harry Belafonte, ligados ao Partido Comunista americano, ativistas como Martin Luther King e Malcolm X, e artistas e músicos como Sammy Davis, Jr. e brancos como Leonard Bernstein.

Uma das consequências de seu engajamento foi a drástica diminuição de convites para apresentar-se. Os brancos não estavam acostumados com palavrões em rede nacional. “Puta que pariu” (goddam) era um tanto forte. A nova fase representou outra transformação: se antes perdera o apetite para o sexo, nessa nova fase, voltou, e de modo intenso. Isso serviu para a degradação do casamento. Andrew devia ter muitas mulheres, mas não devia estar gostando de ver Nina transando com muitos homens.

Nina deixou os EUA e mudou-se para a Libéria, país na África criada por escravos americanos libertos. Morou também em Barbados, Holanda, Inglaterra, Bélgica e França. Longe da América, viu a carreira declinar. Foram seis anos desde o último até gravar o álbum, em Bruxelas, para a CTI, de Creed Taylor. Eram conhecidas as oscilações de humor de Nina. Desde o início da carreira, passava pitos na plateia e interrompia shows. Dizia que o público tinha de ser como os das salas de concerto. Com o passar do tempo, a instabilidade de humor se agravou. Era quase impossível conviver com a cantora. Replicava a violência física vivida com o marido batendo na filha. Lisa foi embora quando tinha 14 anos. No fim dos anos 1980, Simone foi diagnosticada como bipolar.

O mundo tinha esquecido de Simone. Graças aos esforços do amigo Clifton Henderson, voltou a fazer shows. Não possuía mais o antigo brilho. Mas era cultuada pela crítica, mais pelo seu passado. E o público foi na onda “cult”. A maioria dos fãs de hoje são aqueles que a conheceram quando era uma sombra do que fora. Natural. Quem era fã de Nina Simone no início dos anos 1960 deve ter por volta de 70, 80 anos. Assisti a uma apresentação dela nessa fase final. Entrou vagarosamente – parecia bêbada –, sentou-se ao piano, não olhou uma vez para os que a assistiam, desafinou bastante, e foi embora.

Mais um álbum tributo. Depois do belo álbum Autour de Nina (http://bit.ly/1Hs0L7l), é lançado o tributo americano. Nina Revisited – A Tribute to Nina Simone, uma produção de Lauryn Hill e Robert Glasper. Considerando-se os envolvidos, alguns podem adorar antes de ouvir o álbum e, outros, ficarão com um pé atrás. O ideal é ouvir sem juízos anteriores. Glasper é um pianista rising star. Mostrou competência com seu trio e agradou até aqueles que não são fãs do rap ou do hiphop.

Quem conhece The Miseducation of Lauryn Hill sabe do quanto ela é boa. Inexplicavelmente, sua discografia se resume a este álbum e um ao vivo na MTV. Desde o seu lançamento – 1998 – até agora, passou mais de uma década. A última vez em que se falou de Hill foi quando foi presa, em 2013, acusada de ter sonegado imposto sobre 1,3 milhão de dólares de ganhos.

Quando entrou no projeto de Nina Revisited, sua participação não seria tão grande como acabou acontecendo. Sorte nossa. Lauryn arrasa em vários números.

Ouça Black Is the Colour of My True Love’s Hair.


Ouça a original com Nina Simone.


Grande interpretação de Feeling Good.



A melhor: Wild Is the Wind.



Outro destaque é Gregory Porter – como sempre, ótimo – cantando Sinnerman.



A grande surpresa (boa) é a versão matadora de I Put a Spell on You, com Alice Smith.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Não fume na cama com kd lang

Aparentemente, lang não fuma
Uma das minhas canções favoritas é Don’t Smoke in Bed. Esse texto é antigo e foi publicado no blogue do Paulo Moreira Leite, quando era chefe da sucursal de Brasília da revista Época, portanto, há um bom tempo. Lembrei-me da música ao ver uma foto de Marilyn Monroe fumando na cama (veja a foto no fim do post). Fiz alguns acréscimos como, por exemplo, a de Nina Simone.


A cruzada de José Serra contra fumar em locais fechados, transformada em lei, junto com a possibilidade de multa e cadeia por dirigir alcoolizado resultou em grandes mudanças em São Paulo. Isso muda a paisagem, com pessoas andando nas ruas com cigarros na mão, braços para fora dos carros com aqueles tocos brancos fumegantes, pequenas aglomerações na frente de prédios comerciais. Sem tomar partido e saindo do real e entrando um pouco na fantasia, que belas imagens o cigarro nos deu no cinema! Cenas inesquecíveis de Humphrey Bogart com o cigarro pendurado no canto da boca, belas mulheres segurando-o sensualmente suas piteiras e aqueles desenhos sinuosos que as cinzas construiam de encontro com a luz e fundos escuros. Era um “chiaroscuro” muito diferente das que vemos nas pinturas renascentistas de um Caravaggio ou de um Rembrandt. A fumaça é o elemento de contraste, por excelência, dos filmes “noir” dos anos 1950.

A cantora kd lang não está no meu panteão de cantoras, certamente. No entanto é autora de versões definitivas de algumas músicas, principalmente daquelas que foram cantadas por outras: comparações são um bom parâmetro de avaliação. Na minha opinião, não existe melhor versão de Don’t Smoke in Bed, um clássico das “torch songs”, composta por Willard Robison. A dramaticidade com o que ela canta é do tamanho da dor que a letra passa. Na hora em que canta “don’t look for me / I’ll get a hand / Remember darling / Don’t smoke in bed”, arrepia. Cometo a imprudência de dizer que sua versão é melhor do que a de Nina Simone. A letra é um primor do abandono simbolizado pelo anel de casamento deixado e pela advertência: “não fume na cama” (reproduzo a letra no fim do texto). Outras conhecidas são cantadas por gente do calibre de Julie London, Peggy Lee, e das “modernas” Holly Cole, Patti Smith e Carly Simon, de quem falo mais adiante.

Simon, vestida para matar
Todas as canções de Drag referem-se ao cigarro. É uma espécie de “disco-conceito”, como é também o pioneiro álbum Only the Lonely, de Frank Sinatra. A capa é uma grande sacada: é kd, meio andrógina, vestida com um um costume masculino em pose de quem segura um cigarro, mas sem ele.

Outra versão que, se não é definitiva, está entre as melhores – e olhe que existem centenas ou até milhares de registros dela –, é a de So in Love, contida no dvd e cd Red, Hot + Blue, gravado em prol das pesquisas para a cura da Aids. Com algum esforço, ainda é possível encontrar o dvd, que tem vários clássicos da música americana dirigidos por gente como Wim Wenders, Percy Adlon, Jim Jarmusch e Neil Jordan e interpretados por David Byrne, Aztec Camera, Sinead O’Connor, Debbie Harry, Tom Waits, U2 e Annie Lennox. Não é pouco. Outro cd de lang, Hymns of the 49th Parallel, contém apenas canções de seus conterrâneos canadenses Neil Young, Leonard Cohen, Jane Siberry e Joni Mitchell. A Case of You, de Mitchell, Helpless, de Young e Hallelujah, de Cohen, valem uma atenciosa audição.

Quase tão bom quanto o registro de kd lang de Don’t Smoke… é o de Carly Simon. Nessa onda que se torna maçante, que é a de se gravar álbuns com clássicos americanos – Rod Stewart parece ter esquecido que é um cantor pop e, pensando na grana, gravou vários cds após o sucesso de sua primeira investida no gênero –, uma das primeiras cantoras do universo pop a embarcar nessa ideia foi ela. Torch, gravado em 1981 pela Warner Bros Records, possui preciosidades como I’ll Be Around (Alec Wilder), de 1942, o clássico ellingtoniano, I Got It Bad and That Ain’t Good, de 1941, I Get Along without You Very Well (Hoagy Carmichael), de 1939, Spring Is Here (Rodgers & Hart), de 1938, e Body and Soul (Heyman, Sour, Eyton e Green), de 1930, além de músicas da década de 1950 como Pretty Strange (Jon Hendricks e Randy Weston) e Not a Day Goes By (Stephen Sondheim), da década de 1980. Numa roupagem que pode assustar os mais empedernidos fãs de jazz, com arranjos de Mike Manieri, que toca marimba em algumas faixas e Warren Bernhardt no piano elétrico e sintetizadores, mesmo assim, agrada aos ouvidos de bom gosto. Tudo bem, tem o sax alto chatinho de David Sanborn, mas, em contrapartida, tem o do brilhante Phil Woods. Torch, como como nos induz o título, é um disco de dor de cotovelo e de corno, como as músicas rodrigueanas – refiro-me a Lupicínio e não ao grande dramaturgo Nelson Rodrigues. Bem nesse espírito, a composição da própria, From the Heart, é uma peça que merece estar no repertório desse gênero. Amigão, se você não se emocionar com essa música, corra para o seu psiquiatra, pois você está arriscado a estar sofrendo de palidez afetiva.

Além de Torch, não sei se por motivos comerciais ou emocionais, gravou mais um álbum com conceito semelhante: Film Noir, em 1997, pela Arista. Pelo título já dá para desconfiar. O clima do disco remete à fatal Gilda – “nunca houve uma mulher como Gilda” – a Lauren Bacall, a Humphrey Bogart e seu indefectível – já que o título se refere a ele – cigarro, à cara “feia” de Robert Mitchum surgindo das trevas e aos heróis amargurados e atormentados do cinema “noir”, estilo que dominou os anos pós-Segunda Guerra. No CD estão presentes a música tema do filme Laura, protagonizado pela inesquecível Gene Tierney e dirigido por Otto Preminger, o clássico alemão desse período, Lili Marlene e I’m a Fool to Want You, música símbolo de “dores de amores” e que se encaixa bem à fase em que Frank Sinatra viveu a perda de Ava Gardner; esta música está em Where Are You?, que com Only the Lonely, são daqueles discos para ouvir e sentar na sarjeta ou recostar-se no poste e chorar convulsivamente.

Para quem se interessar, transcrevo a letra de Don’t Smoke in Bed:

I left a note on his dresser
And my old wedding ring
With these few goodbye words
How can I sing
Goodbye old sleepy head
I’m packing you in like I said


Take care of everything
I’m leaving my wedding ring
Don’t look for me
I’ll get a hand
Remember darling
Don’t smoke in bed


Don’t look for me
I’ll get a hand
Remember darling
Don’t smoke in bed

Veja kd lang cantando Don’t Smoke in Bed, em 2001, no programa de Jools Holland. Preste atenção no piano. Muito bom.




Carly Simon canta Don’t Smoke in Bed




Ouça também a de Nina Simone, considerada por seus fervorosos fãs, a melhor. Eu discordo. kd lang é imbatível.




A inesquecível Marilyn na cama… fumando.




terça-feira, 25 de novembro de 2014

O disco tributo francês a Nina Simone

Imagem da capa de Autour de Nina
Uma das fórmulas mais usadas pela indústria musical é homenagear algum medalhão aproveitando alguma efeméride. Se antigamente apenas cinquentenários ou centenários eram comemorados, hoje, qualquer ocasião serve.

Se Nina Simone nasceu nasceu em fevereiro de 1933 e morreu em abril de 2003, com 70 anos, teria sido razoável um festival de homenagens no ano passado, pois, viva, completaria 80. Não lembro de algum. Mas, agora no fim de 2014, foi lançado Autour de Nina, pela Verve francesa.

A França fez parte da vida de Nina. Foi sua última morada nos últimos dez anos. Devido a relação bipolar de amor e ódio ao país que nasceu, saiu dos EUA no início de 1970 e foi mudou-se para Barbados. Passou pela Libéria e Suiça, antes de estabelecer-se na região de Aix-en-Provence. Essa pode ser uma boa razão para a produção de Autour de Nina. Agorinha, em 16 de novembro aconteceu o concerto de lançamento no Studio 104, da Maison de la Radio, em Paris.

O álbum é uma seleção com títulos menos e mais conhecidos associados à Nina. Ao contrário da maioria dos tributos, habitualmente, saco de gatos, este Autour de Nina é uma produção bem cuidada, com intérpretes de primeira linha, apesar de não serem tão conhecidos. É uma turma em que um deles, pelo menos, já é estrela. Gregory Porter foi considerado o cantor do ano pela revista Downbeat, além de ter seu Liquid Spirit como quarto melhor do ano (http://bit.ly/15aNe8O). Ele é um dos escolhidos e é o grande destaque, cantando Black Is the Color (of My True Love’s Hair).

Ouça.




Se o resto não é melhor do que esta, há vários pontos altos. Para se ter uma ideia, quem abre o álbum é a estrela em ascensão Lianne La Havas, cantando Baltimore.

Veja o promocional com La Havas.


Outra bem conhecida é Melody Gardot (mais sobre Melody em http://bit.ly/11MtN3Y, http://bit.ly/1xS1dwe e http://bit.ly/11pCbGB), em outro clássico de Simone: Four Women.

A seleção é bem cosmopolita. Tem, desde a sul coreana, razoavelmente conhecida por quem conhece o catálogo da alemã ACT, Youn Sun Nah, os franceses Ben l’Oncle Soul, Olivia Ruiz e Camille, Hindi Zahra, franco-marroquina, Keziah Jones, nigeriano, Sophie Hunger e La Havas, ingleses, e Porter e Gardot, americanos.

Por último, ouça Feeling Good, com Ben l’Oncle Soul. O rapaz tem uma voz parecidíssima com a de Nina. 

Veja o teaser.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

A filhinha de mamãe Lisa Simone

A capa do álbum All Is Well, de Lisa Simone
Ser filho não é fácil. Ser mãe também, presumo. Agora, ser filho de alguém famoso pode ser um problema maior. Ser filho de um gênio, então, deve ser pior. O artista plástico Baravelli gostava de dar como exemplo Pablo Picasso. Isso, há muito tempo. Seu comentário aconteceu em decorrência do que aconteceu após a sua morte com seus familiares. Complicado é um filho perseguir a carreira de um pai ou uma mãe genial. Aquele drama ancestral do filho que quer ser melhor que o pai fica mais complicado se ele é um gênio. Conclusão: se o seu pai é Picasso, não tente ser pintor. Melhor trabalhar na Bolsa ou virar engenheiro civil.

Na vida, entretanto, vemos muitos seguindo a carreira de seus pais. Decerto, nem todos são gênios como Picasso, então, fica mais fácil. Filhos de atores tornam-se atores, filhos de arquitetos, apesar do desestímulo paterno, resolvem estudar arquitetura, filhos de cantores viram cantores. A escrita de que filhos não conseguem ser melhores pais nem sempre se confirma. Um gênio como Dorival Caymmi deixou rebentos talentosos como Nana, Dori e Danilo. Podem não ser melhores, mas não fazem feio. É insofismável a maestria de Dori como compositor e arranjador e de Nana como cantora. Mas são exceções. Se existem Dori e Nana, existe um Frank Sinatra Jr. que tenta emular o pai, um Mercer Ellington que não conseguiu ser tão genial quanto o pai Duke; se bem que, talvez, nunca tenha sido o seu propósito.

Seria uma surpresa caso surgisse uma filha de Nina Simone cantora. Em uma conta rápida, em 2014, se Nina nasceu em 1933, que idade teria a sua filha? Pelo jeito, tudo aconteceu um pouco mais tarde para Lisa, ou melhor, Lisa Celeste Stroud. Nina tinha 29 anos quando ela nasceu. Ninguém se torna cantor de uma hora para outra, digo, bom cantor. Essa é a surpresa ao se ouvir All Is Well, lançado há pouco.
Lisa e a mãe Nina Simone

Sob o peso simbólico de ser filha de alguém tão genial como Nina, Lisa deve ter pensado bem no que queria ser. Estudou engenharia civil e foi trabalhar na Força Aérea Americana. Eventualmente, enquanto estava baseada na Alemanha, passou a cantar. De volta à América, passou a atuar em musicais. Trabalhou nas montagens de Jesus Christ Superstar e Rei Leão. Fez algumas participações com a mãe e em tributos a ela.

Agora, com 46 anos, lança All Is Well. Já na primeira audição, percebe-se que não é uma estreante inexperiente. Os anos cantando e atuando quase diariamente em musicais ajudaram-na a moldar um estilo, bem diferente do de sua mãe, para a sua e nossa sorte. A convivência com a mãe também deve ter ajudado. Desde que os pais se separaram, Lisa viajava com Nina em suas apresentações pelo mundo.

Uma das razões da boa qualidade desse álbum são os arranjos e a guitarra e o violão de Hervé Samb. Contribuem também as batidas seguras da bateria de Sonny Troupé e do baixo acústico de Reggie Washington. O violão de Hervé lembra um pouco a tocada relaxada de Dave Matthews e encaixa-se perfeitamente com o tom das canções.


Veja Hervé e Lisa em Al Is Well.




Um dos pontos altos é Revolution.




Lisa manda bem nos standards. Veja Lisa e banda em Autumn Leaves.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

A verdadeira origem de “Black Is the Color of My True Love’s Hair”

A deusa Nina
Ficamos tão acostumados com certas versões a ponto de não conseguirmos mais dissociá-las de seus intérpretes. É o caso de Black Is MyTrue Love’s Hair. A performance de Nina Simone é tão marcante que nos faz imaginar que é dela. No álbum Wild Is the Wind (1967) em que gravou a música, é erroneamente creditada a ela. Em Nina at Town Hall consta como “traditional”, que é a forma como se registra canções populares ou folclóricas que caem em domínio público e desconhece-se sua autoria. Mas tudo tem um autor e pesquisadores que vão atrás de suas origens.

Black Is the Colour (of My True Love’s Hair) ficou conhecida em 1915 e tem origem do folclore escocês. É o que o pesquisador Alan Lomax. O primeiro registro é de Lizzie Roberts, em 1916.

A Nina mais conhecida, é de Ne me quite pas, Lilac Wine, Little Girl Blue, Don’t Let Me Be Misunderstood, porém, nenhuma das citadas é de sua autoria, nem de Strange Fruit, que é creditada a Lewis Allan, pseudônimo de Abel Meropool. Mas Nina tem aquele poder de transformar suas versões em interpretações definitivas.

Nos anos em que esteve ligada à Colpix, ela tendia mais à linguagem do jazz e em anos posteriores, gravando pela Philips e RCA, ficou, digamos, mais pop. E são esses os registros que a maioria do público conhece. Foi também o período de seu amadurecimento como a intérprete intensa e dramática que encanta a todos.

O primeiro registro de Black Is the Colour – pelo menos, é a que tenho notícia – é a da apresentação no Town Hall em Nova York, em 1959. A consagrada está no LP Wild Is the Wind (1964).

Ouça a versão de 1959.



Ouça a de 1964.



Veja Nina em performance, em 1969.





quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Nina Simone paz e amor

A Nina Simone dos anos 1970
A bem da verdade, Nina Simone, no fim dos anos 1960 e início dos 70, mantinha aquela imagem de intérprete engajada, anti-establishment. Mas suas interpretações estavam mais relaxadas, com menos dor e revolta e mais “paz e amor”. Ninguém ficou incólume ao tsunami que se inicia com Chuck Berry, Elvis Presley, Little Richard e explode com a “invasão britânica”.

Até o universo do jazz, sem poupar maiorais como Miles Davis, Tony Bennett, Ella Fitzgerald, Frank Sinatra e tantos outros, foram “contaminados” pela nova onda. Quem quisesse sobreviver no mercado teria de adaptar-se. Sem desconsiderar que estivessem gostando da “nova música”, a verdade é que foi incorporada em seus repertórios um tanto à força. Vista à luz de hoje, não soam muito naturais Frank Sinatra cantando Something, de George Harrison, nem Sarah Vaughan abordando o songbook de Lennon & McCartney; nem o Here Comes the Sun cantada por Nina. São interpretações que ficaram datadas. A Nina idolatrada é a de Black Is the Colour of My True Love’s Hair, Wild Is the Wind, Ne me quite pas, Work Song e Strange Fruit, esta um original de Billie Holiday. São clássicos que não envelheceram.

Vendo pelos filtros do tempo, é, de qualquer forma, interessante examinar o tanto que o rock’n’roll acabou por transformar a música. A Nina dos anos 1960 e 70 incorporou originais de “engajados” como Bob Dylan (I Shall Be Released, The Times They Are-A Changin’), repertório easy listening (The Look of Love e My Way), “bicho grilo” (Turn! Turn! Turn!, de Pete Seeger) e country (Mr. Bojangles).

O que mais surpreende mesmo é Nina Simone ter um dia cantado The Pusher. Para quem não se lembra – ou não sabe mesmo – era uma das músicas que fazia parte da trilha sonora de Sem Destino (Easy Rider, 1969), roadmovie clássico protagonizado por dois malucos viajantes, nos dois sentidos. Nas cenas iniciais, Wyatt (Peter Fonda) e Billy (Dennis Hopper) estão no México para pegar um lote de cocaína que será entregue a um traficante em Los Angeles.

The Pusher é a canção relativa às cenas iniciais. E é essa a interpretação mais conhecida, com John Kay, cantor e líder do Steppenwolf. Imagino que poucos sabem que Joachim Fritz Krauledat – esse é o nome de Kay, alemão de nascimento – não é o autor. Trata-se de uma composição de Hoyt Axton. Curiosamente, é mais conhecido por ser autor de músicas que fizeram mais sucesso nas vozes dos outros que a dele. A outra conhecida dele é Joy to the World, o maior sucesso do Three Dog Nights.

Ouça The Pusher com Steppenwolf. É um clássico.



Nina “paz e amor”. Conta-se que Nina não era das pessoas mais bem humoradas da humanidade. Quando passa de meia dúzia o mesmo comentário, a tendência é a de todos formarem juízo a partir de opiniões alheias. Na única vez em que a vi em um show, entrou com cara de poucos amigos, trôpega de bêbada, sentou-se ao piano cantou, atravessou e o público adorou. Eu, nem tanto. Fiquei decepcionado.

To Love Somebody (RCA 1969) é o primeiro álbum em que incorpora sucessos do rock. Gravou Susanne, de Leonard Cohen, Turn! Turn! Turn!, sucesso com a banda “flower power” The Byrds, três de Bob Dylan (I Shall Be Released, Just Like Tom Thumb's Blues e The Times They Are A’Changin’) e duas, pasmem, dos Bee Gees, aqueles que foram “ressuscitados” na era disco com o filme Embalos de Sábado à Meia Noite. As músicas são a que dá título ao disco, e I Can’t See Nobody. Turn! Turn! Turn! é uma composição de Bob Seeger, da década de 1950, mas fez sucesso mesmo com The Byrds. A guitarra e o órgão imprimem uma cara mais rhythm’n’blues, mais rock. Não é um grande disco, mas conta com um The Times They Are A-Changing de primeira. Ouça.




Here Comes the Sun (RCA 1971) é também um disco que pode ser considerado pop. Além do clássico de George Harrison, canta Bob Dylan mais uma vez (Just Like a Woman) e uma versão breguíssima de My Way, impossível de imaginar que conste no currículo de Nina. A orquestração é de matar. Redime-se, e bem, com uma expressiva interpretação de Mr. Bojangles, de Jerry Jeff Walker.

Ouça Mr. Bojangles.




It Is Finished é o último álbum que Nina gravou pela RCA. Neste incorpora instrumentos africanos de Nadi Qamar e a cítara de Avram Schackman. É desigual, como os outros. Mas tem The Pusher e o destaque é Dambala, composição de Exuma, nascido nas Bahamas. Está à altura das melhores coisas que Nina Simone fez.

Ouça Dambala.




E não podia faltar The Pusher, a razão desse post.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

“Don’t explain”: não precisa explicar (mais uma vez)

Nina Simone, uma das intérpretes de Don’t Explain
Contei a história (http://bit.ly/11os1zc), outro dia, de onde Billie Holiday tirou a ideia para a música. Billie nunca foi boa com casamentos. Os homens a exploravam, batiam e a drogavam. Um deles – Jimmy Monroe –, numa manhã chegou com a camisa manchada de batom e tentou se explicar. Billie disse: “don’t explain”. Boa, não? Conheço um caso real de uma conhecida que foi acordada pelo barulho da máquina de lavar. Levantou-se e encontrou o marido sentado ao lado da máquina. Sem camisa.

A dor é ótima inspiradora para a criação de obras geniais, e não é só na música. E é por isso que adoro músicas tristes; porque muitas delas são obras primas. Trágico? Nem tanto. Sádico? Nem tanto. Sou obrigado, no entanto, a admitir que estou tendo prazer por conta da dor alheia.

Don’t Explain é uma das minhas “torch songs” preferidas. É uma música cantada por mulheres. No jazz foi interpretada por Nina Simone, Helen Merrill, Natalie Cole, Etta James, June Christy, Anita O’Day, Dee Dee Bridgewater, Nnenna Freelon, Rosemary Clooney, enfim, por todo o primeiro time feminino. As exceções são Robert Palmer, Lou Rawls e Damien Rice, são os que lembro agora. No caso do último, é um duo com Lisa Hannigan (acho que é mulher ou namorada dele). Sua participação é pequena e canta num registro agudo, a ponto de se confundir com a voz de Lisa. Combina.

Tocada apenas, há uma infinidade de interpretações: John Coltrane, Dexter Gordon, Chet Baker, Jim Hall, Steve Kuhn, Wynton Kelly, para citar algumas. Apesar de ser, basicamente, um standard jazzístico, caiu no gosto de intérpretes “pops”. A melhor, sem dúvida, é a de Cat Power. Ouça e você vai ver que não estou mentindo.



Nota: todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.

Há uma versão disponível com Lisa Stansfield no YouTube, mas é de uma apresentação em um clube de jazz londrino, o Ronnie Scott. O som do sax tenor logo no início diz tudo.



Outra interpretação clássica é a de Nina Simone. Como Cat Power, a americana é especialista em “torch songs”. Dá até vontade de cortar os pulsos.




Dentre as instrumentais, ouça a de Wynton Kelly. A guitarra é de Kenny Burrell.




Ouça também uma interessante interpretação de Malia, cantora nascida na República de Malawi, antiga colônia inglesa.