quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Nina Simone paz e amor

A Nina Simone dos anos 1970
A bem da verdade, Nina Simone, no fim dos anos 1960 e início dos 70, mantinha aquela imagem de intérprete engajada, anti-establishment. Mas suas interpretações estavam mais relaxadas, com menos dor e revolta e mais “paz e amor”. Ninguém ficou incólume ao tsunami que se inicia com Chuck Berry, Elvis Presley, Little Richard e explode com a “invasão britânica”.

Até o universo do jazz, sem poupar maiorais como Miles Davis, Tony Bennett, Ella Fitzgerald, Frank Sinatra e tantos outros, foram “contaminados” pela nova onda. Quem quisesse sobreviver no mercado teria de adaptar-se. Sem desconsiderar que estivessem gostando da “nova música”, a verdade é que foi incorporada em seus repertórios um tanto à força. Vista à luz de hoje, não soam muito naturais Frank Sinatra cantando Something, de George Harrison, nem Sarah Vaughan abordando o songbook de Lennon & McCartney; nem o Here Comes the Sun cantada por Nina. São interpretações que ficaram datadas. A Nina idolatrada é a de Black Is the Colour of My True Love’s Hair, Wild Is the Wind, Ne me quite pas, Work Song e Strange Fruit, esta um original de Billie Holiday. São clássicos que não envelheceram.

Vendo pelos filtros do tempo, é, de qualquer forma, interessante examinar o tanto que o rock’n’roll acabou por transformar a música. A Nina dos anos 1960 e 70 incorporou originais de “engajados” como Bob Dylan (I Shall Be Released, The Times They Are-A Changin’), repertório easy listening (The Look of Love e My Way), “bicho grilo” (Turn! Turn! Turn!, de Pete Seeger) e country (Mr. Bojangles).

O que mais surpreende mesmo é Nina Simone ter um dia cantado The Pusher. Para quem não se lembra – ou não sabe mesmo – era uma das músicas que fazia parte da trilha sonora de Sem Destino (Easy Rider, 1969), roadmovie clássico protagonizado por dois malucos viajantes, nos dois sentidos. Nas cenas iniciais, Wyatt (Peter Fonda) e Billy (Dennis Hopper) estão no México para pegar um lote de cocaína que será entregue a um traficante em Los Angeles.

The Pusher é a canção relativa às cenas iniciais. E é essa a interpretação mais conhecida, com John Kay, cantor e líder do Steppenwolf. Imagino que poucos sabem que Joachim Fritz Krauledat – esse é o nome de Kay, alemão de nascimento – não é o autor. Trata-se de uma composição de Hoyt Axton. Curiosamente, é mais conhecido por ser autor de músicas que fizeram mais sucesso nas vozes dos outros que a dele. A outra conhecida dele é Joy to the World, o maior sucesso do Three Dog Nights.

Ouça The Pusher com Steppenwolf. É um clássico.



Nina “paz e amor”. Conta-se que Nina não era das pessoas mais bem humoradas da humanidade. Quando passa de meia dúzia o mesmo comentário, a tendência é a de todos formarem juízo a partir de opiniões alheias. Na única vez em que a vi em um show, entrou com cara de poucos amigos, trôpega de bêbada, sentou-se ao piano cantou, atravessou e o público adorou. Eu, nem tanto. Fiquei decepcionado.

To Love Somebody (RCA 1969) é o primeiro álbum em que incorpora sucessos do rock. Gravou Susanne, de Leonard Cohen, Turn! Turn! Turn!, sucesso com a banda “flower power” The Byrds, três de Bob Dylan (I Shall Be Released, Just Like Tom Thumb's Blues e The Times They Are A’Changin’) e duas, pasmem, dos Bee Gees, aqueles que foram “ressuscitados” na era disco com o filme Embalos de Sábado à Meia Noite. As músicas são a que dá título ao disco, e I Can’t See Nobody. Turn! Turn! Turn! é uma composição de Bob Seeger, da década de 1950, mas fez sucesso mesmo com The Byrds. A guitarra e o órgão imprimem uma cara mais rhythm’n’blues, mais rock. Não é um grande disco, mas conta com um The Times They Are A-Changing de primeira. Ouça.




Here Comes the Sun (RCA 1971) é também um disco que pode ser considerado pop. Além do clássico de George Harrison, canta Bob Dylan mais uma vez (Just Like a Woman) e uma versão breguíssima de My Way, impossível de imaginar que conste no currículo de Nina. A orquestração é de matar. Redime-se, e bem, com uma expressiva interpretação de Mr. Bojangles, de Jerry Jeff Walker.

Ouça Mr. Bojangles.




It Is Finished é o último álbum que Nina gravou pela RCA. Neste incorpora instrumentos africanos de Nadi Qamar e a cítara de Avram Schackman. É desigual, como os outros. Mas tem The Pusher e o destaque é Dambala, composição de Exuma, nascido nas Bahamas. Está à altura das melhores coisas que Nina Simone fez.

Ouça Dambala.




E não podia faltar The Pusher, a razão desse post.

Um comentário:

  1. Nina cantando Timer are changing é emocionante, gosto muito de I put a smell on you. E a versao de The Pusher ficou legal, não conhecia. Parabéns pelo blog amigo, conheci a pouco e achei interessante. Abs

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