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quinta-feira, 18 de julho de 2019

Carlos Brasileiro Barbosa-Lima

Carlos Barbosa-Lima e Larry Del Casale

O Brasil não sai de Carlos Barbosa-Lima. O violonista, virtuose, começou tocando criança ainda. Em um país com tantos gênios nesse instrumento, mas pela seara da música popular, como Baden Powell, Dilermando Reis, Raphael Rabello, Laurindo de Almeida e tantos outros, Barbosa-Lima, pela formação, foi talhado para seguir carreira na música erudita. Ele, no entanto, passou a incluir não apenas peças de Villa-Lobos e Ernesto Nazareth entre as de Fauré, Ravel, Bach, Scarlatti ou Debussy, mas de compositores da música popular, como Ary Barroso, Dilermando Reis e Antônio Carlos Jobim. Em outras palavras, tirou o smoking e passou a vestir camisas coloridas e e proteger a calva com chapéus panamá.

Antes de seguir, devo citar os irmãos Natalício e Antenor Lima que ficaram conhecidos internacionalmente como Los Indios Tabajaras, a partir da década de 1950. Os dois, cujos nomes originais eram Mucaparê e Erundi, legítimos índios da tribo tabajara, saíram do Nordeste e foram parar no Rio de Janeiro. Gravaram seus primeiros discos na antiga Continental, excursionaram por alguns países da América do Sul e foram parar nos Estados Unidos. Deram tão certo que chegaram a vender um milhão de cópias com o foxtrot “Maria Helena”, na América do Norte. Fizeram tanto sucesso, que excursionaram por vários países da Europa e Ásia também. Geniais no violão, além de ritmos latinos e brasileiros, em suas apresentações, entremeavam peças do repertório erudito.

Barbosa-Lima ainda vestia smoking quando gravou “Plays the Music of Antônio Carlos Jobim and George Gershwin”, pelo selo Concord, em 1982, mesmo incluindo canções do repertório popular, como nesse álbum. Jobim, que o conheceu nos EUA, disse: “Nas mãos de Barbosa-Lima, o violão se transforma em uma orquestra”. No centenário da proclamação da República, apresentou no Wigmore Hall, o programa “Music for Americas”, incluindo Pixinguinha, Ary Barroso e João Pernambuco, dentre outros. Virou outro disco, lançado pela mesma Concord.

Posteriormente, pela Zoho Records, lançou álbuns privilegiando também números do repertório latino, como “Perfume de Gardenia”, “Frenesi”, “Siboney”, “Solamente Una Vez”, “Drume Negrita” e “Perfidia”. Botou o smoking no armário para nunca mais tirá-lo de lá.

Em sua incursão mais recente pelas veredas tropicais, Barbosa-Lima acaba de lançar “Delicado”, dedicando-se apenas ao repertório do cancioneiro brasileiro, com seus compatriotas Helio Alves, Nilson Matta e Duduka da Fonseca, e mais o violão de Larry Del Casale. Nele, só ou acompanhado toca Jobim, Bonfá, Baden Powell, Ary Barroso, Waldir Azevedo, Ernesto Nazaré, João Pernambuco, Noel Rosa, Haroldo Lobo e Nilton Tristeza.

Ouça o álbum “Delicado”.




Caso, prefira, vá direto no Spotify.

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quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Carlos Barbosa-Lima antes do desbunde

Barbosa-Lima, antes e depois
Devo ter dito antes, pois deve ser a terceira ou quarta vez que faço um post sobre Carlos Barbosa-Lima. A minha lembrança mais vívida que tenho desse violonista brasileiro é da única vez em que o vi tocando. Era o mais conhecido no Brasil, menino prodígio que apresentou-se pela primeira vez quando tinha 12 anos. Foi no auditório do MASP, muito mal acomodado naquelas cadeiras de madeira, belas, mas torturantes, projetadas por Lina Bo Bardi. O jornalista Telmo Martino, que tinha uma coluna no extinto Jornal da Tarde, adorava chamá-las de “cadeira garrote vil”. Para contextualizar, é bom que se diga que à época, dois longos governos ditatoriais estavam em um “balança mas não cai”, os de Portugal e Espanha. Eram os dois países mais atrasados da Europa, sem considerar os sob a influência soviética.

Na Espanha vigia uma modalidade de tortura (e de morte), o tal do garrote vil, inventado no século 19. Era uma cadeira em que o sujeito era preso com uma cinta e a cabeça com uma argola de ferro e um buraco por onde passava um parafuso na altura da nuca que prensava o pescoço da vítima até a morte. O garrote vil era a representação da barbaridade e do atraso da Espanha sob o Generalíssimo Franco. Era um dos ditadores mais odiados e temidos à época.

Bom, voltando à apresentação, aquele teatro era realmente inóspito; em uma noite fria, sem sistema de aquecimento, a coisa era séria, ainda mais para mim, que estava gripado, e naquele silêncio de um recital de violão, minha grande tortura, além de ficar sentado naquela cadeira, foi a de passar o tempo inteiro segurando a tosse, para não incomodar o resto da plateia.

Depois disso, nunca mais ouvi falar de Barbosa-Lima. No início dos anos 1980, vi um CD do violonista tocando Antônio Carlos Jobim e George Gershwin. Estava aí a razão de seu “desaparecimento”. Ainda pela mesma gravadora, a Concord, tempos depois, acabei comprando The Music of Americas. Além desses dois, havia encontrado o CD Impressions, de 1985, este sim, centrado nos clássicos Gabriel Fauré, Erik Satie, Claude Debussy, Ravel e Villa-Lobos e dois – Enrique Ubieta e Robert W. Scott – que, por desconhecimento, imagino não serem.

Em Plays the Music of Antônio Carlos Jobim e George Gershwin (1981), as nove primeiras do primeiro e oito do outro. A escolha é significativa, não apenas por serem os nomes mais conhecidos cá e lá, mas pelo fato de os dois estarem no limiar do que é popular e erudito. Barbosa-Lima e o repertório do violão estão nesse limiar.

Dos três citados, The Music of Americas é o melhor. As interpretações são mais vibrantes devido a escolha dos temas. Os destaques são Aquarela do Brasil, as duas de Garoto (Carioquinha e Mazurka nº 2) e as três de Alfredo Vianna, o fabuloso Pixinguinha (Um a Zero, Cochichando e Lamento).

Veja Barbosa-Lima tocando Cochichando.



Aquarela do Brasil.


Um a Zero, de Pixinguinha.


De pouco em pouco, a música de Barbosa-Lima abriu-se a outros gêneros musicais latino-americanos e, como se sabe, ritmos mais quentes como os da América Central, e passionais, como o bolero. Dançando de acordo com a música, o violonista passa a se vestir de modo menos sisudo e vai morar em Porto Rico. Presumo que se sente mais feliz hoje.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

A desbundada de Carlos Barbosa-Lima

Barbosa-Lima na capa de Siboney
Antes de iniciar efetivamente o texto é bom esclarecer o significado da palavra que se origina do verbo “desbundar” e algumas outras. Segundo o Aurélio, a gíria significa 1. perder o autodomínio, por efeito de droga (3). 2. P. ext. Perder o autodomínio; perder as estribeiras. § desbundado, adj. É uma expressão bem típica que se popularizou na década de 1970. O início do ano de 1972, no Rio de Janeiro, foi cunhado de “verão do desbunde”. Caetano Veloso e Gilberto Gil haviam voltado para o Brasil e lançaram, respectivamente, Transa e Expresso 2222. Gal Costa realizou o show Fa-Tal, dirigido por Waly Salomão. Este lançou o livro Me segura qu'eu vou dar um troço e foi um dos protagonistas do desbunde.

Antigamente, aquele que não consumia drogas era um careta. Para se caracterizar que não estava sob efeito de alguma droga, se falava “estou careta”. Era o preconceito ao contrário. Mas “careta”, no sentido mais genérico, serve para se referir a uma pessoa mais conservadora, mais para o certinho.

O violonista brasileiro Carlos Barbosa-Lima era um careta, pelo menos quando o vi pela primeira vez em uma sala inóspita e acusticamente horrível. Lina Bo Bardi, autora do belíssimo projeto do Masp e de seu mobiliário, não privilegiava muito o conforto ergonômico. O jornalista Telmo Martino, do extinto Jornal da Tarde, do grupo do Estadão, adorava exercitar seus dotes viperinos para falar mal dos bancos (isso mesmo) de madeira maciça do teatro do Masp dizendo que tinham sido feitos pela Marcenaria Garrote Vil, ou qualquer coisa do tipo. Explicação: falava-se muito do garrote vil, instrumento de tortura da época da inquisição, por conta do longa ditadura do período Franco, na Espanha. Lina tinha cabelos longos e uma franja enorme para o lado esquerdo. Telmo dizia que a arquiteta era “a última fã de Veronica Lake”.

A apresentação a que assisti aconteceu no início dos anos 1970. Era um adolescente ainda e um curioso por quaisquer manifestações musicais, roqueiras, eruditas ou populares. Lembro que era uma noite fria e, recuperando-me de um resfriado, tossia como um condenado. Acho que fiquei mais preocupado em não quebrar aquele silêncio respeitoso de uma sala de concertos a fruir o violão daquele rapaz considerado, naquele tempo, o melhor violonista clássico do Brasil. Depois disso, por muito tempo não ouvi mais falar dele.

Carlos Barbosa-Lima nasceu em dezembro de 1944 e revelou-se prodígio no violão. Com 12 anos de idade, apresentou-se pela primeira vez em uma sala de concertos, em São Paulo. Menino ainda, foi apresentado ao violonista Luiz Bonfá e este aconselhou a família a estudar violão clássico.

Com 13 anos gravou Dez Dedos Mágicos Num Violão de Ouro pela extinta gravadora Chantecler. Passou a se apresentar em várias salas do Brasil e da América Latina e fez seu debut em Washington quando tinha 23 anos. Teve a oportunidade de tocar para Andrés Segovia, apresentou-se na Europa também e teve a honra de ter obras compostas especialmente para ele por Alberto Ginastera.

Nos primeiros anos dos 1980, mudou-se para Nova York e passou a dar aulas na Manhattan School of Music. Além de ótimo virtuose, Barbosa-Lima era considerado ótimo arranjjador, adaptando temas para o seu instrumento. Tocando com o violonista/guitarrista Charlie Byrd, grande divulgador, com Stan Getz, da bossa nova, conheceu Carl Jefferson, dono da gravadora Concord. Foi dessa época que voltei a ouvir falar dele ao me deparar com um disco chamado Impressions em que faziam parte do programa Fauré, Satie, Ravel, Enrique Ubieta, Robert Scott, Villa-Lobos e Laurindo de Almeida. Na foto da capa, era o mesmo “careta” que havia visto no Masp mais de dez anos antes, com menos fios de cabelo na parte superior do crânio, vestindo costume de cor escura e gravata, empunhando seu violão Thomas Humphrey.

O fato de ser contratado de uma gravadora mais voltada ao jazz, a Concord, e, talvez por gosto, resolveu explorar seus dotes de ótimo arranjador em obras externas ao mundo erudito. Lançou, em 1982, CBL Plays the Music of A.C. Jobim e George Gershwin. Ainda pela Concord, em 1991, soltou Music for Americas incluindo composições de Irving Berlin, Dave Brubeck Bobby Scott e Ary Barroso. Detalhe: gravou mais do que isso, e as referências são apenas sobre os álbuns que estão na minha discoteca.

Novo corte. Não ouço mais falar dele. Então encontro um CD de Barbosa-Lima com o título Frenesi. É de 2004. Algo tinha mudado. O nome desse clássico de Alberto Dominguez é bem claro nesse sentido. Os arranjos ainda são sóbrios. O repertório é latino americano, incluindo um belo Chega de Saudade, e uma exceção: Don’t Cry for Me Argentina. Apesar da citação a esse país, é composição do inglês Andrew Lloyd Webber.

Desbunde em mais de um sentido é Siboney, lançado em 2004 pelo selo Zoho. A capa revela um outro Barbosa-Lima. Trajando uma camisa estampada, com um chapeu panamá, é o “retrato” desse belo álbum. é pra cima, caliente. O repertório é de primeira. Até os que não morrem de amores pela música latina mais próxima do Caribe vão reconhecer a qualidade dos arranjos. Estão incluídas, além de Siboney (leia http://bit.ly/1187Wg5), do cubano Ernesto Lecuona, Drume Negrita, La Comparsa, Ojos Brujos, Guantanamera, Lamento Borincano, do portorriquenho Rafael Hernández Marín, e Perfidia. Os temas brasileiros são os clássicos Tico Tico, Bahia e Aquarela do Brasil. Um esclarecimento final: quando alguma era muito boa, dizia-se “tal coisa é um desbunde”, ou “é desbundante”. E assim é o álbum Siboney, de Carlos Barbosa-Lima.

Deste álbum, ouça Siboney.





Tocando Odeon.




Barbosa-Lima interpreta Villa-Lobos.




Seis Milongas, de Ernesto Cordero.