quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Carlos Barbosa-Lima antes do desbunde

Barbosa-Lima, antes e depois
Devo ter dito antes, pois deve ser a terceira ou quarta vez que faço um post sobre Carlos Barbosa-Lima. A minha lembrança mais vívida que tenho desse violonista brasileiro é da única vez em que o vi tocando. Era o mais conhecido no Brasil, menino prodígio que apresentou-se pela primeira vez quando tinha 12 anos. Foi no auditório do MASP, muito mal acomodado naquelas cadeiras de madeira, belas, mas torturantes, projetadas por Lina Bo Bardi. O jornalista Telmo Martino, que tinha uma coluna no extinto Jornal da Tarde, adorava chamá-las de “cadeira garrote vil”. Para contextualizar, é bom que se diga que à época, dois longos governos ditatoriais estavam em um “balança mas não cai”, os de Portugal e Espanha. Eram os dois países mais atrasados da Europa, sem considerar os sob a influência soviética.

Na Espanha vigia uma modalidade de tortura (e de morte), o tal do garrote vil, inventado no século 19. Era uma cadeira em que o sujeito era preso com uma cinta e a cabeça com uma argola de ferro e um buraco por onde passava um parafuso na altura da nuca que prensava o pescoço da vítima até a morte. O garrote vil era a representação da barbaridade e do atraso da Espanha sob o Generalíssimo Franco. Era um dos ditadores mais odiados e temidos à época.

Bom, voltando à apresentação, aquele teatro era realmente inóspito; em uma noite fria, sem sistema de aquecimento, a coisa era séria, ainda mais para mim, que estava gripado, e naquele silêncio de um recital de violão, minha grande tortura, além de ficar sentado naquela cadeira, foi a de passar o tempo inteiro segurando a tosse, para não incomodar o resto da plateia.

Depois disso, nunca mais ouvi falar de Barbosa-Lima. No início dos anos 1980, vi um CD do violonista tocando Antônio Carlos Jobim e George Gershwin. Estava aí a razão de seu “desaparecimento”. Ainda pela mesma gravadora, a Concord, tempos depois, acabei comprando The Music of Americas. Além desses dois, havia encontrado o CD Impressions, de 1985, este sim, centrado nos clássicos Gabriel Fauré, Erik Satie, Claude Debussy, Ravel e Villa-Lobos e dois – Enrique Ubieta e Robert W. Scott – que, por desconhecimento, imagino não serem.

Em Plays the Music of Antônio Carlos Jobim e George Gershwin (1981), as nove primeiras do primeiro e oito do outro. A escolha é significativa, não apenas por serem os nomes mais conhecidos cá e lá, mas pelo fato de os dois estarem no limiar do que é popular e erudito. Barbosa-Lima e o repertório do violão estão nesse limiar.

Dos três citados, The Music of Americas é o melhor. As interpretações são mais vibrantes devido a escolha dos temas. Os destaques são Aquarela do Brasil, as duas de Garoto (Carioquinha e Mazurka nº 2) e as três de Alfredo Vianna, o fabuloso Pixinguinha (Um a Zero, Cochichando e Lamento).

Veja Barbosa-Lima tocando Cochichando.



Aquarela do Brasil.


Um a Zero, de Pixinguinha.


De pouco em pouco, a música de Barbosa-Lima abriu-se a outros gêneros musicais latino-americanos e, como se sabe, ritmos mais quentes como os da América Central, e passionais, como o bolero. Dançando de acordo com a música, o violonista passa a se vestir de modo menos sisudo e vai morar em Porto Rico. Presumo que se sente mais feliz hoje.

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