terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Solveig Slettahjell, uma voz que vem da Noruega

Até hoje, não sei como se pronuncia o seu nome. Fico a pensar se o “S” inicial tem o som do “Z” em português, e fico a imaginar que o “veig” final é “vaig” ou “faig” ou “vig”. Se tento decifrar a pronúncia do primeiro nome – Solveig –, do sobrenome, nem ouso: Slettahjell. Mas, quando canta, torna-se universal, seja cantando em norueguês, sua língua natal, o que faz muito pouco, ou em inglês, que é o “esperanto musical”.

A Escandinávia possui forte tradição no jazz. Um dos clubes mais importantes na história do jazz foi (não sei se existe ainda) o Cafe Montmartre, em Copenhagen, Dinamarca – e não na França, como escreveu certo crítico em certa feita. Bebo Valdés, Stan Getz, Don Cherry e Ben Webster residiram na Escandinávia. Resultou em uma cultura local influenciada pelo jazz, até na Finlândia, país que foi politicamente mais próximo à União Soviética e, por isso, menos permeável às “artes degeneradas”.

Um bom número de músicos, além dos citados acima, fizeram da Europa sua morada, para fugirem da perseguição da polícia, por conta do consumo de drogas, e pelo racismo. Músicos perdiam suas licenças para tocarem em clubes e assim não tinham como sobreviver.

Invasão viking
Em 1969, foi fundada a gravadora ECM, com o álbum Free at Last, do “expatriado” Mal Waldron. Ao juntar jazzistas americanos e americanos no estúdio, de certo modo, Manfred Eicher ajudou na criação de novas sonoridades. Não agradou os puristas, mas uma nova geração passou a gostar de música instrumental com o que, pejorativamente, ficou conhecido como “som ECM”. Foi assim que muitos conheceram Jan Garbarek, Bobo Stenson e Terje Rypdal, músicos que “vieram do frio”.

Rolou uma boa água e uma das boas gravadoras atuais que ajudam a conhecer nomes novos é a também alemã ACT Music. A invasão escandinava continua com muitos músicos de talento. Foi por meio de seu catálogo que cheguei em Solveig Slettahjell.

Seus primeiro álbum solo se chama Slow Motion Orchestra, que é de 2001. É um disco de standards, basicamente. Manteve uma banda com o nome de Solveig Slettahjell Slow Motion Quintet. Alguns foram distribuídos pela ACT. Lançando por outras posteriormente, no ano passado, participou de um álbum da série Jazz at the Berlin Philharmonic, com com Bugge Wesseltoft, Knut Reiersrud, e o trio In the Country.

Agora, em 2015, com os mesmos Knut Reiersrud e o In the Country, saiu Trail of Souls. As músicas escolhidas são todas em tons menores. É a sua especialidade. Significativamente, sua antiga banda se chamava Slow Motion. Solveig é “slow motion”, e é para se ouvir nessa velocidade. Sua voz lembra um pouco a de Annie Lennox, mais ou menos com a mesma voltagem dramática. As primeiras quatro faixas são excepcionais (Borrowed Time, Grandma’s Hand, Mercy Street e Sometimes I Feel Like a Motherless Child). Se são tão boas, isso não significa que o resto seja pior. O CD é todo bom. Se puder, compre. A guitarra de Knut Reiersrud, sempre discreta, dá um colorido muito original às interpretações da norueguesa.

Assista ao promocional, com Borrowed Time, a faixa de abertura.



A melhor mesmo é Grandma’s Hands, do grande Bill Withers. Ouça.



De seu primeiro solo, ouça Wild Is the Wind.



O grande destaque, no entanto, é sua bela interpretação de Beautiful Love, com Morten Qvenild, o mesmo pianista de trio In the Country.



Boa parte do repertório de Solveig é constituída de canções do pop. Uma das mais conhecidas é Wild Horses, de Mick Jagger e Keith Richards.



Take It With Me, de Tom Waits, é um número que faz parte de Jazz at the Berlin Philharmonic. Essa apresentação é mais antiga. É de 2007.



Dos clássicos moderno que todo mundo gosta, ouça Famous Blue Raincoat, de Leonard Cohen. 

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