sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Nota 10 para o Zero do Yeah Yeah Yeahs

Yeah Yeah Yeahs no palco
Karen O é uma moça que tem presença. Com o guitarrista Nick Zinner e o baterista Brian Chase fazem um belo barulho. Gravaram três CDs até agora: Fever to Tell (2003), Show Your Bones (2006), e It’s Blitz (2009). A imagem da capa do último é um still de um ovo sendo esmagado por mãos femininas. Belo, quase minimalista.

O rock e seus subgêneros adoram extravagâncias. Sem álcool, drogas e excessos não existiria. Até Zé Rico. Não sei se foi ele ou Milionário (não sei quem é quem) ou outro desses sertanejos, em entrevista no programa de Jô Soares, disse que se vestia diferente porque era artista. Ele acha que ser artista pede isso. Gente é uma coisa e artista, outra.

Karen O é diferente. Parece que veio de uma linhagem que passa por Siouxsie do Siouxsie & the Banshees. A voz, no entanto, lembra a de outro ícone dos anos 1980/90: Chrissie Hynde. Lembra Chrissie até pela franja com os cabelos escondendo as sombrancelhas. Karen no palco é o demônio; não para quieta, usa roupas muiiito esquisitas e cospe no palco (veja o DVD Tell Me What Rockers to Swallow), enche a boca de água e a “esguicha” nas pessoas. Quando se vê uma coisa dessas, a gente acaba pensando: será ela, realmente, uma menina má ou é só teatro?


Ouça Zero.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Alguém sabe quem é Federico Britos?

Aquele que é considerado o melhor violinista de jazz de todos os tempos foi um autodidata. De família pobre, pai professor de filosofia e amante da música, instilou no filho esse gosto e comprou um violino ao menino de dez anos. Com quinze, estava tocando em sessões de cinema mudo. Ouvindo um grupo chamado Mitchell’s Jazz King descobriu: “Esse é o tipo de música que quero tocar.”

Em 1933, tocava num desses salões de chá e, quando foi trocar uma corda rompida de seu violino, conheceu aquele que se tornaria seu parceiro mais perfeito: Django Reinhardt. Lideraram o lendário Quintette du Hot Club de France. Começaram apresentando-se em bailes e ambos se sentiam descontentes de tocar para uma plateia barulhenta e desinteressada.

Em 1937, durante a Exposição Francesa conheceram uma mulher chamada Bricktop, que os convidou para se apresentarem em um nightclub. Cole Porter e Louis Armstrong ouviram Stephane Grapelli e Django Reinhardt. O violinista acompanhou Mabel Mercer ao piano. A guerra os separou e, após seu término, chegaram a se reunir, mas a química não funcionava mais. Reinhardt, com sérios problemas de saúde, não durou muito; morreu em 1954. Grapelli foi muito tempo depois, em 1997, pouco antes de completar 89 anos.

Alguns violinistas costumam frequentar as listas dos melhores das revistas especializadas em jazz, como Regina Carter – a mais conhecida atualmente –, Billy Bang, Mark Feldman (toca com Dave Douglas), John Blake e Jean-Luc Ponty. Em nenhuma delas consta o nome do uruguaio Federico Britos.

Federico Britos transita facilmente entre o erudito e o popular



Não é regra, mas é difícil um virtuose no violino, instrumentista de uma orquestra sinfônica, ser versátil a ponto de saber improvisar. Gidon Kremer é talvez, dos virtuoses do primeiro time, o de carreira menos convencional. Seus excepcionais álbuns calcados na obra de Astor Piazzolla são exemplares no propósito de ampliar o espectro da música, mas daí vai uma grande diferença entre interpretar um autor “popular” e ter capacidade de improvisar sobre um tema, como os músicos de jazz estão acostumados a fazer.

Britos é um dos poucos que transita entre as duas esferas – o erudito e a música de improviso. Não que essa versatilidade signifique que o uruguaio seja melhor que os outros. Britos, no entanto, é exemplar.

Comparando-o ao francês, há essa diferença de formações. Grapelli é, praticamente, um autodidata. Não era um músico que tocasse com partitura. Mesmo assim, é considerado o melhor violinista de todos os tempos.

É possível que existam exemplos parecidos aos de Britos espalhados por aí. Apenas não os conhecemos. No Brasil mesmo, existiu Fafá Lemos. Houvesse seguido carreira internacional, com certeza, o mundo o colocaria no olimpo dos grandes violinistas. Lemos teve formação clássica, “caiu na vida”, e foi tocar com Carmen Miranda. Esse ecletismo é raro entre os violinistas.

Aos poucos, com 50 anos de estrada, Federico Britos está merecendo atenção crescente da crítica e do público mundial. Tinha participado de Nocturne (Verve, 2001), CD “latino” do baixista Charlie Haden, mas apenas em três faixas (En la orilla del mundo, Yo sin ti, e El ciego). Com outro talento redescoberto – o pianista Bebo Valdéz –, gravou um disco espetacular: We Could Make Such Beautiful Music Together. Agora, pela Sunnyside, lançou Voyage (2010).

Nesse CD, em que toca alguns standards americanos como After You’ve Gone, Avalon e Moonglow, mescla-os com algumas composições de própria lavra como Vivian, Las Vegas Station, Lluvia de Colores, A Las Cuatro de la Mañana, Okey Paganini, Micro Suite Cubana, Tomatito & Federico e Vivian Flavia de las Mercedes (a repetição do nome Vivian não é casual: é sua mulher). Em várias faixas é acompanhado por alguns convidados especiais: Kenny Barron, Eddie Gomez, Michel Camilo, Ignacio Berroa, Carlos Franzetti, o brasileiro Antonio Adolfo, Giovanni Hidalgo, “Cachao” Lopez, o guitarrista Bucky Pizzarelli e o violonista espanhol Tomatito.

Devem ser destacadas After You’ve Gone (belíssimo solo de Barron), Moonglow (guitarra “relaxada” de Bucky Pizzarelli), e Tomatito & Federico (balada meditativa em maravilhoso duo). A composição de Britos para sua mulher, Vivian Flavia de las Mercedes, é uma declaração de amor, com início lembrando o tema da música Mona Lisa, e belos solos de violino e do piano de Michel Camilo.

Ouça Beautiful Music (Calle 54, 2003), duo de Bebo Valdés e Federico Bastos.

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Ouça também Voyage (Sunnyside, 2010), que conta com participações especiais de Kenny Barron, Eddie Gomez, Michel Camilo, Ignacio Berroa, Carlos Franzetti, o brasileiro Antonio Adolfo, Giovanni Hidalgo, “Cachao” Lopez, Bucky Pizzarelli e Tomatito. Vivian Flavia de las Mercedes é um dos destaques.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

A guia de António Zambujo

Pelo jeito, o alentejano chamado António vende bem no Brasil. Depois de lançado Outro Sentido (leia sobre esse CD em http://bit.ly/gyzkif), em 2009, no fim de 2010, pelo selo M,PB, da Universal, saiu Guia.

A capa do CD lançado no Brasil
As surpresas positivas continuam. Tem algo de minimalista em Zambujo. Tem algo de dramático, dolorido no fado. Não conheço tanto o fado a ponto de saber se ele segue uma – como diria Augusto de Campos – trilha evolutiva desse gênero. Guia é tão bom ou melhor que o anterior. São surpresas e mais surpresas.

Seu canto “lamenta e chora” distâncias a serem vencidas (“Atravessei o oceano/ Sem o teu amor de guia/ Só o tempo no meu bolso/ E o vento que me seguia// Venci colinas de lágrimas/ Desertos de água fria/ Tempestades de lembranças/ Mas tu já não me querias mais/ Tu já não me querias mais.” Guia, Pierre Ademe e Márcio Faraco), súplicas de arrepenimento (Meu amor não vás embora/ Vê a vida como chora/ Como é triste esta canção/ Não, eu peço/ não te ausentes/ Pois a dor que agora sentes / Só se esquece no perdão”  – Apelo, Vinícius de Moraes e Baden Powell); amores idealizados (“Queria ser teu namorado,/ Morar dentro dos teus olhos;/ Perder-me nos teus folhos/ Do teu vestido encarnado” – A Tua Frieza Gela, Maria do Rosário Pedreira e António Zambujo –, ou “A deusa da minha rua/ Tem os olhos onde a lua/ Costuma-se embriagar/ Nos seus olhos eu suponho/ Que o sol, num dourado sonho,/ Vai claridade buscar.” – A Deusa da Minha Rua, Jorge Faraj e Newton Teixeira); desencanto (O amor é inútil: luz das estrelas/ A ninguém aquece ou ilumina/ E se nos chama, a chama delas/ Logo no céu lasso declina.// O amor é sem préstimo: clarão/ Na tempestade, depressa se apaga/ E é maior depois a escuridão,/ Noite sem fim, vaga após vaga.” – Barroco Tropical, José Eduardo Agualusa e Ricardo Cruz).

Guia é um CD que, quanto mais se ouve, mais se quer ouvir. Ouça a belíssima Quase um Fado (Rodrigo Maranhão). A letra também é belíssima: “Trago no peito segredos, amores confessos, ocultos desejos,/ O tempo apressado, o beijo partido,/ Inteiro aos pedaços da vida, eu duvido./ Trago no peito um segredo dos mares que desafio.// Trago no peito meu mundo, fagulha, centelha, amor vagabundo/ Que bate calado o seu bate-fundo,/ E sempre navega pro mesmo lugar./ Trago no peito o segredo dos mares por navegar.”




Veja e ouça Guia.